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sábado, 12 de setembro de 2009

Angelus Novus



Ontem uns poucos amigos nos encontramos para beber umas à viagem do Ramiro. Bebemos, comemos, rimos e choramos. O filósofo Guillermo David, a quem Ramiro chamava de "assessor espiritual" (eu era o "assessor de assuntos aleatórios"), acabou de me mandar essa foto, que é uma bela síntese para começar a soltar as amarras e deixar o Ramiro navegar. Disse Guillermo:
Walter Benjamin imaginou o anjo da história fugindo de costas pra gente, olhando pra nós e olhando com espanto as catástrofes que ao seu passo deixa.
Nessa última imagem, Ramiro, de costas pra nós, de face ao mar, ao céu, ao vento, não precisa nos olhar, está em paz com todos nós. Como ele gostava de dizer: sem culpas. Não há risco, não há catástrofes, mas alegria, músicas, uma amizade tão funda que cria laços religiosos entre nós que fomos tocados pelo seu dom.


Segue a íntegra da matéria que escrevi ontem nem sei como para o jornal Crítica. A manchete foi coisa deles.

Rondaban los fantasmas de Malvinas en Bahía Blanca. Ramiro Musotto estaba echado en la plaza con sus amigos, mirando las estrellas. Dijo que quería ir a Brasil a estudiar el berimbau de su admirado Naná Vasconcelos. Pero fue mucho más allá. Como dijo Zeca Baleiro, de la Bahía Blanca a la Bahía Negra.
Empezó a investigar la batería electrónica cuando nadie lo había hecho todavía en Brasil y fue uno de los diseñadores de esa percusión baiana que explotó en las voces y los sudores de Daniela Mercury y Margareth Menezes. Laburando en estudios, en Salvador primero y en Rio después, grabó con y para todo el mundo, unos 200 discos, de Caetano Veloso a Marisa Monte, de Sérgio Mendes a Titãs.
Cuando Diego Frenkel, por ejemplo, fue a Rio a grabar percusiones para La Portuaria esperaba llegar al estudio y encontrarse con una docena de negros recién bajados del morro. Se encontró a Ramiro. Él solo era la batucada.
Cuando Celso Fonseca le propuso a Mart’nália llamarlo para tocar en Pé do meu samba, la hija de Martinho da Vila, acostumbrada a salir en el ala de percusión de la escola de samba Vila Isabel, torció la nariz. “Ó, Celsinho! Um argentino na percussão?”
Después que lo escuchó no lo podía creer.
Nos conocimos en el bar Picote -que yo llamaba “mi oficina”-, en Río de Janeiro. Me miró desconfiado. Le hacía ruido que otro argento que vivía en Rio le ofreciera la posibilidad de que Sudaka, su primer cd solista que ya daba vueltas por Brasil y Estados Unidos, fuese editado en la Argentina que se le venía negando. Y al estilo argentino me dijo “¿cuánto me vas a cobrar?”. Nos convertimos en hermanos instantáneos.
Fue el empujón para regresar a Salvador y dedicarse de lleno a su propia música. Ramiro encontró completamente enchufado entre bits y cueros el cable invisible e inasible que une los sonidos ancestrales de Africa y América Latina. Tornó modernos a los indios xavantes y tradicional al octapad. Aunque el berimbau, con la piedra en la mano y la calabaza en el vientre, siguió siendo su instrumento madre. En 2005 formó en Francia la primera orquesta de berimbaus, arrancando sonidos alucinantes con los instrumentos en diferentes afinaciones. Así andaba, llevando sus cañas y su Mac de Grenoble al carnaval de Salvador y de la ceremonia de los Juegos Panamericanos a la Buenos Aires que había dejado de ser misteriosa y ya tenía una corte de fanas que bailaban atrás de su trío eléctrico.
Lo que no se ve en los discos: vivió con la filosofía Vinicius del arte del encuentro, siempre juntando gente de origen variopinto. Y él, que como buen percusionista siempre andaba con exceso de equipaje, esta vez viajó muy leve. Y muy temprano.

Texto publicado hoje no jornal Crítica

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Adeus ao irmão Ramiro



El Narigón se retiró hoy. Se fue de gira, como decían los viejos actores.
Desde ayer no puedo dejar de pensar en una noche que estábamos en el departamento de Laranjeiras, en Rio. Una sobremesa de horas. Estaban Rose y el Mintcho y Vinicius no se quería ir a dormir. Hablábamos de los Novos Baianos. Ramiro dijo "vamos a escuchar el vinilo". Se hizo un silencio de misa mientras escuchamos el disco entero. Después pusimos uno de Larralde. Una indómita síntesis de que nuestras sangres estaban mezcladas entre dos patrias.
Acabou chorare era una de sus canciones preferidas. Se la había hecho grabar a Adriana Maciel en el disco que le produjo.
Recordemos a Ramiro como él quiso que lo recordemos. Con alegría y música.
Muito axé para todos

Juan Trasmonte

Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo
Talvez pelo buraquinho, invadiu-me a casa, me acordou na cama
Tomou o meu coração e sentou na minha mão
Abelha, abelhinha...
Acabou chorare, faz zunzum pra eu ver, faz zunzum pra mim
Abelho, abelhinho escondido faz bonito, faz zunzum e mel
Faz zum zum e mel
Faz zum zum e mel
Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente
Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente
Abelha, carneirinho...
Acabou chorare no meio do mundo
Respirei eu fundo, foi-se tudo pra escanteio
Vi o sapo na lagoa, entre nessa que é boa
Fiz zunzum e pronto
Fiz zum zum e pronto
Fiz zum zum

Perdi um irmão. Esse é o e-mail que escrevi hoje de manhã cedo para os amigos. Desculpas, gente. Não tenho nem vontade de traduzir.

Pedro Luís entrevista Ramiro no programa Destino Brasil

domingo, 19 de julho de 2009

Onde estava você quando o homem pisou a lua?



Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez, as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria


Os versos de Caetano Veloso, do clássico Terra, fazem referéncia as fotografias da Terra feitas desde a lua, na missão Apollo 11, que acontecia enquanto ele era preso pela ditadura brasileira, há exatos quarenta anos.
Eu tenho umas lembranças muito difusas de ter assistido ao momento em que os astronautas desceram na lua. Não lembro tanto das imagens quanto da sensação de que alguma coisa importante estava acontecendo. Lembro que o mundo parou. Lembro da minha família reunida na frente da tevê. Eu estava sendo testemunha da história, mas minha cabeça infantil não percebia nem de perto o que aquilo significava.
Para mim sempre foi mais surpreendente -e talvez continue sendo- nem tanto o fato do homem pisar a lua quanto o fato do planeta inteiro assistir à cena na televisão. Eu sei agora mais ou menos o valor que aquela viagem representou em termos científicos. Mas aquilo para mim não foi a chegada do homem na lua mas a invenção da televisão.
Na medida em que meu encantamento infantil pela imensidão espacial crescia, também aumentava em mim a sensação de profanação. A lua era negócio de poetas, era para se contemplar e não para enfiar uma bandeira nela. Essa sensação até hoje me acompanha.
O escritor francês Júlio Verne já em 1865 publicou Da terra à lua (De la Terre à la Lune), onde uma corporação estadunidense lançava um projétil (com três astronautas e desde Tampa!) para atingir a lua.
Por aqui e em outros paises o 20 de julho ficou no calendário comercial como o Dia do Amigo. Essa noite, apesar da crise, o frio e a Influenza, os restaurantes vão ficar lotados.
Meu sentimento inconsciente de profanação daqueles dias se traduz na ausência dessa celebração. Se é para encontrar amigos, qualquer dia menos esse.
O homem quis conquistar a lua desde tempos imemoriais. Continuo preferindo o olhar contemplativo dos poetas.



Fotos do The Project Apollo Image Gallery

domingo, 28 de junho de 2009

Benavente e a Espanha emigrante



Sábados ao meio-dia tem cerimônia de almoço na casa da minha mãe. Eu aproveito para ver ela e encontrar meus irmãos e sobrinhos. Mas a visita sempre tem um bonus. Difícil é voltar de lá de mãos vazias. Já é de praxis que ela diga:

- Vê se tem alguma coisa pra você lá.

“Lá” é uma pilha de papeis, recortes de jornal e afins e pode abranger desde uma entrevista da Marisa Monte no jornal Clarín até um caderno meu da escola.
A maioria das vezes eu digo

- Joga fora, mãe.

Mas quase sempre encontro pelo menos uma pérola. Ontem foram uns livros franceses da época em que ela estudava a língua, na adolescência dela, vários livros de teatro do meu pai, incluído uma espécie de “Manual do ator” de épocas pretéritas e um livro de crônicas e peças curtas do grande escritor espanhol Jacinto Benavente, prémio Nobel de Literatura em 1922.
Meu pai conheceu Benavente quando ele veio para Buenos Aires por causa da estreia da peça “Los intereses creados”. Um dos tesouros mais prezados da minha família é a dedicatória de punho e letra do autor, parabenizando meu pai pela interpretação de um dos malandros que protagonizam a peça.
Lembro da admiração com que meu pai falava de Benavente, das suas frases brilhantes e do humor irônico que o esanhol praticava. De maneira que não foi uma surpresa achar um outro livro dele entre tantos que meu pai deixou.
Mas foi uma surpresa e tanto encontrar naquele livro um texto de Benavente sobre os emigrantes espanhóis nos começos do século vinte. Isso no mesmo dia em que eu lera no jornal que Espanha adotava normas mais rígidas com os imigrantes.
Pensei que merecia uma tradução. Vejam como mudaram os tempos e o signo. Vejam o troco que a Espanha -outrora pais de emigrantes- da hoje para os imigrantes.

A Espanha dessangra-se, a Espanha despovoa-se; é uma fugida louca como de exército em dispersão, que na fugida consuma a sua derrota e a sua ruina. E em nome de quem vamos detê-los? Que lei pode obrigar a morrer de fome? Toda terra é terra de promessas para quem nada tem na sua. Quem foge não escolhe o caminho. Ai, a derrota dos otimistas que ainda julgam à natureza, mãe amorosa, que tem no colo calor para todos os filhos dela!
Como o rei Lear, na sua loucura de pai, assim pode clamar a Espanha: “Venham, filhos! Eu vos darei emigrantes para levar para terras longinquas. Não a grandeza da epopeia de outros tempos mas desolação, miséria e morte”.
Nada mais triste que um desses barcos atestados de emigrantes, mercadoria barata pela que ninguém vai exigir indenização por perdas e danos, aconteça o que acontecer. E se o barco não for daqueles destinados para ese transporte só, se os passageiros de luxo, com todas as mordomias são oferecidos como contraste, onde achar mais cruel desigualdade?



Emigrantes (fragmento), texto de Jacinto Benavente, do livro Crónicas y diálogos (Ediciones literarias J. Pallarés, Valencia, 1911)
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de imigrantes detentos nas Ilhas Canárias, da Agência AP

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O samba e o tango



Sempre gostei de olhar pelas janelas. Desde criança tive essa inclinação para a vida contemplativa.
Quando morava no Rio de Janeiro, estava num fim de tarde de domingo olhando pela minha janela de fundos do apartamento no Flamengo. Andava perdido nas luzes que vinham do Morro Azul quando vi por um recorte de uma janela de um prédio lateral, as pernas de um homem e uma mulher dançando tango.
A perspectiva, eu num andar superior, eles num andar inferior, só me deixava ver desde a metade das coxas deles para abaixo.
Pelas roupas e o que parecia, não eram pessoas jovens. Eles passavam na frente da minha visão e sumiam do marco da janela. Depois passavam para o outro lado, na cadência inconfundível do tango.
Alguma coisa mexeu no meu interior. Nesse momento compreendi a profundeza da minha parte argentina, ao sentir uma identificação indescritível, viscerosa, que aconteceu só pelo fato de ver essa imagem fragmentada, sem som, sem rostos, mas que tinha uma direção só: era tango. E o tango é Argentina, e mais que Argentina, é Buenos Aires.
Isso vivia em mim por relação assim como vivia o samba por adopção. Isso me levou à cidade onde eu tinha nascido, que estava longe, e da qual, na minha “brasileirice”, achava não sentir falta, além da saudade das pessoas queridas.
Por estes dias lembrei daquela imagem. O programa de rádio que estou fazendo, Club Brasil, já tem em duas emissões, vários ouvintes brasileiros radicados na Argentina. Parece que correu a voz e que a divulgação feita na unha chegou também à crescente comunidade de brasileiros que aqui vieram atrás de um amor, por compromissos de trabalho ou para se procurar a vida.
Quando eu programo a música penso nos muitos argentinos que gostam de música brasileira e que não tinham um espaço semelhante na rádio daqui. Mas também penso nesses brasileiros e coloco, quase como uma guinada, algumas músicas que sei que fazem parte do imaginário coletivo deles.
Tenho recebido e-mails comoventes para mim. Queria que eles sentissem pelo menos uma vez o que eu senti naquela tarde olhando pela janela. Talvez essa identificação, por longínqua que seja, os possa deixar mais leves para ir embora, para ficar, para andar pelo mundo soltos. Humanos.

Chegou a hora, chegou chegou
Meu corpo treme e ginga qual pandeiro
A hora é boa e o samba começou
E fêz convite ao tango pra parceiro.

Chegou a hora, chegou chegou
Meu corpo treme e ginga qual pandeiro
A hora é boa e o samba começou
E fêz convite ao tango pra parceiro.

"Hombre yo no sé porque te quiero
Yo te tengo amor sincero
diz a muchacha do Prata
Pero no Brasil é diferente
yo te quiero simplesmente
Teu amor me desacata.

Habla castellano num fandango
Argentino canta tango
ora lento, ora ligeiro
Pois eu canto e danço sempre que possa
Um sambinha cheio de bossa
Sou do Rio de Janeiro.

O samba e o tango, de Amado Régis (1937)
Foto de aparelhos de rádio em uma vitrine de Buenos Aires, do Archivo General de la Nación

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Obrigado pelo fogo



Versão em português

Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque vieste recolher a tua imagem
e és melhor do que qualquer imagem tua
porque és linda do corpo até à alma
porque és boa da alma até mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça

porque és minha
porque não és minha
porque te vejo e morro
e pior que morro
se não te vejo amor
se não te vejo

porque tu existes sempre onde quer
mas existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que amar-te amor
tenho que amar-te
ainda que esta ferida doa por duas
ainda que te busque e não te encontre
e ainda que
a noite passe e eu te tenha
e não.

Versão original em espanhol

Porque te tengo y no
porque te pienso
porque la noche está de ojos abiertos
porque la noche pasa y digo amor
porque has venido a recoger tu imagen
y eres mejor que todas tus imágenes
porque eres linda desde el pie hasta el alma
porque eres buena desde el alma a mí
porque te escondes dulce en el orgullo
pequeña y dulce
corazón coraza

porque eres mía
porque no eres mía
porque te miro y muero
y peor que muero
si no te miro amor
si no te miro

porque tú siempre existes dondequiera
pero existes mejor donde te quiero
porque tu boca es sangre
y tienes frío
tengo que amarte amor
tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos
aunque te busque y no te encuentre
y aunque
la noche pase y yo te tenga
y no.



Corazón coraza, de Mario Benedetti (1962/63), incluído no livro "Noção de pátria"
Coração couraça, versão em português de
Albino M.
Assista Mario Benedetti recitando
Corazón coraza em espanhol com cenas dele mesmo recitando o poema em alemão no filme O lado escuro do coração, de Eliseo Subiela (1992)
Fotos de Mario Benedetti de
Eduardo Longoni, do livro Poemas revelados


"Tenho trabalhado oito e até dez horas diárias em coisas que não tinham nada a ver com a literatura. Comecei a ganhar a vida com ela no exílio".

terça-feira, 12 de maio de 2009

O dono do carrossel


Os imigrantes e as suas histórias. Sempre digo que os nossos países foram construídos por imigrantes e sempre estou atrás das notícias sobre imigração. O tránsito entre fronteiras aumentou na medida em que as regras do jogo da economia mudaram. E o maltrato aos imigrantes -esses novos excluídos da prosperidade- só aumenta na mesma proporção.
A trajetória de Antonio Vila e apenas uma entre milhares daqueles homens e mulheres que como nossos avós chegaram à América sem um tostão e que aqui acharam o ouro da esperança.
Don Antonio nasceu em Orense, na Espanha. Sendo criança trabalhou na colheita de trigo. Com o advento da Segunda Guerra Mundial foi recrutado no batalhão dos galegos. Ainda leva as cicatrizes nas costas como estigma do horror da guerra.
Em 1949, veio pra Argentina. No bairro de Pompeya, em Buenos Aires, conheceu quem seria sua mulher para a vida toda e também uma família que tinha um carrossel.
Antonio fazia bicos durante a semana (“sobrava trabalho”, lembra) e começou a trabalhar nos finais de semana no carrossel.
Um dia ele percebeu que esse poderia ser seu ofício. Conseguiu que umas pessoas no interior, fabricassem o carrossel que veio desmontado, de caminhão, até Buenos Aires.
Foi instalado no bairro de Constitución e inaugurado no dia primeiro de janeiro de 1963. Depois foi levado para a praça Almagro, onde até hoje funciona.
Um carrossel, com seus carrinhos e cavalinhos de madeira a girar, parece um milagre na época do PlayStation. Mas milagres acontecem de vez em quando.
Na semana passada, don Antonio Vila fez 90 anos e continua lá, à frente da sua calesita (em espanhol, carrossel). “Não é um trabalho pesado -diz- porque a alegria das crianças contagia”.

Texto escrito partindo de informação colhida no jornal Clarín
Foto de Antonio Vila de Martín Bonetto

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dez versões estrangeiras de músicas brasileiras


Esperanza Spalding


Pink Martini


Pizzicato Five


Arcade Fire


1. Pink Martini – Tempo perdido
Pode ser criticado o ecletismo do Pink Martini, mas o som deles é irretocável. No Hey Eugene, seu mais recente disco -que já tem dois anos- eles gravaram uma versão muito digna de Tempo perdido, do grande Ataulfo Alves, que originalmente gravara Carmen Miranda em 1933, abrindo as portas do sucesso para Ataulfo.

2. Sinéad O’Connor – How insensitive (Insensatez)
Em seu disco de 1992, Am I not your girl?, Sinnéad gravou as músicas que ouvia sendo uma criança, canções que segundo ela, fizeram que se tornasse cantora. O clássico de Jobim e Vinicius, em inglês, tem toda uma carga inédita que só a cantora irlandesa consegue reformular. Bom, a essa altura não preciso dizer que tenho uma queda por Sinnéad, certo?

3. Pepino Di Capri – Ancora con te (Outra vez)
Da grande compositora paulistana Isolda, responsável por várias gemas do Rei, esta versão italiana gravada em 1985, na mesma linha da original, por Pepino Di Capri.

4. Jim Capaldi com George Harrison – Anna Julia
O baterista da histórica banda Traffic era casado com uma carioca chamada Ana. Quando ouviu o megasucesso do Los Hermanos, fez questão de gravar. Levou a música pra Inglaterra e contou com a breve participação do seu vizinho ilustre, George Harrison, que iria morrer pouco depois. A música teve ainda o Ian Paice, lendário baterista do Deep Purple. Jim também já subiu e se ainda faltava mais fama a essa música de Marcelo Camelo, ficou lá imortalizada em inglês como a última gravação em colaboração do saudoso George.

5. Queen Latifah – Quiet nights of quiet stars (Corcovado)
Jobim é o xodó dos compositores de jazz e das cantoras dos Estados Unidos. Queen Latifah faz bonito nessa versão de Corcovado, com ginga de bossa nova.

6. Arcade Fire – Brazil (Aquarela do Brasil)
Uma das músicas mais gravadas pelo mundo fora, também caiu nas graças da banda canadense multi-instrumental Arcade Fire. Lançado em 2005 como lado B do single Cold Wind. Uma versão simpática dominada pelas cordas, que lembra a dimensão da criação de Ary Barroso.

7. Art Garfunkel – Waters of march (Águas de março)
Aqui faltou tempero. A metade do lendário Simon & Garfunkel canta com seu habitual jeito doce mas não acerta no ritmo do clássico do Jobim.

8. Pizzicato Five – The Girl from Ipanema (Garota de Ipanema)
Adoro esses japoneses malucos do Pizzicato Five. Pena que eles acabaram. No seu jeito retrô-kitsch eles seguem a tradição japonesa que pouco cria e tudo recria. E eles fizeram uma criação mesmo com Garota de Ipanema, apesar das trossentas versões que já existiam em 1997, quando foi lançada a dos Pizzicato na coletánea Lounge-A-Palooza.

9. Attaque 77 – Amigo
Assim como várias bandas do rock brasileiro fizeram versões de músicas dos hermanos -algumas com bastante sucesso e sem conhecimento da origem- também existem as versões em espanhol de músicas brasileiras, feitas por bandas do rock argentino. O Attaque 77 é um grupo de hard rock surgido na década de noventa. Eles eram bem fraquinhos no começo, mas com os anos de estrada ficaram melhores. A inocente Amigo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos virou um rock de guitarras sujas que já fez pular bastante à galera.

10. Esperanza Spalding – Ponta de areia
Uma das mais novas queridinhas do jazz estadunidense, Esperanza é boa de palco, canta bonito e encara o contrabaixo acústico. No cd que leva seu nome, Esperanza gravou a belíssima Ponta de areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Diferentemente da Jane Monheit, que assassinou o português na sua ininteligível Só tinha de ser com você, Esperanza se esforçou na fonética. Deu certo.

Pra começar, é lista, não é ranking, então como sempre escrevo, a ordem não indica valor. E como a lista de versões gringas de músicas brasileiras é imensa, escolhi essas dez que, de uma ou outra maneira acrescentam valor ou representam curiosidade.
Com autoridade de gringo posso dizer que neste quesito se bem prefiro a grande maioria das versões originais, gosto de ouvir outras aproximações à música brasileira, desde que sejam feitas com respeito intelectual. Isto é pode virar a música de ponta-cabeça, mas não pode canibalizar sem nenhuma proposta artística. Enfim, poderá haver segundas partes para esse item.


Foto de Esperanza Spalding de Johan Sauty
Foto de Pink Martini de Sherri Diteman
Foto de Pizzicato Five de Soren Hitting
Foto do Arcade Fire de Wendy Lynch

terça-feira, 7 de abril de 2009

Cartas inéditas dos autonautas



A semana próxima será editado o livro Correspondência. Julio Cortázar, Carol Dunlop, Sylvia Monrós-Stojakovic, que reune nove cartas e cartões do autor de O jogo da amarelinha, cinco da sua esposa, a canadense Carol Dunlop e outras tantas da fotógrafa sérbia, amiga deles.
As cartas, todas dos primeiros anos da década de oitenta, contam o processo criativo de Os autonautas da cosmopista, o livro que Cortázar e Carol escreveram juntos, na estrada que une Marselha com Paris.
Como não tenho notícias sobre a publicação do livro em português, resolvi traduzir um fragmento de uma extensa carta de Carol para Sylvia, onde ela mostra a sua felicidade pela experiência, a sua aflição pela saúde do escritor que tinha diagnóstico de leucemia, embora ele não sabia. Porém, Carol morreu antes que Cortazar, pouco mais de um ano depois de escrever essa carta.
Os editores resolveram manter os erros do original, tratando-se de uma anglo falante que escreveu em espanhol. E eu tentei "traduzir" esses erros. Vocês vão ver, por exemplo, a palavra civilizado, escrita com o esse e outros detalhes mais que mantém o espírito original. Acho que vale a pena.

Aix-En-Provence 10-VIII-81

(...) Outro momento do dia -faz nove ou dez dias que estamos vivendo no caminhãozinho, à beira da Autopista do Sul, mas eu voltarei a explicar tudo, é uma linda loucura- e o grandalhão diz que já está na hora da bebida da tarde. Já bebemos, que foi bom, era vinho porque quando saimos de Paris calculamos mal a ração de uísque, mas depois de amanhã vêm amigos à la rescousse com provisões.
E tenho que te explicar porque estamos vivendo na estrada desde 23 de maio e porque não vamos sair dela antes de 26 de junho. Faz quatro anos, no ano em que eu acabei as minhas férias na sala de reanimação de um hospital de Marseille, depois da minha convalescência na mesma casa onde Julio passou a dele no ano passado, subimos para Paris muito devagar de carro, pela estrada, mas levando uns seis dias, porque ainda eu não estava muito forte e viajar nessa condição cansa.
E daquela viagem, que finalmente foi linda, nos nasceu a idéia de fazer um dia a viagem de Paris pra Marselha, parando um dia em cada parking, e escrever juntos um livro ao redor da experiência, debochando dos antigos exploradores e gozando da ironia de pegar o caminho mais rápido e mais “civilisado”, para fazer uma viagem realmente de tartarugas.
Várias vezes já tinhamos planejado a coisa -a última quando Julio ficou doente- e sempre alguma coisa nos impedia na última hora. Então, esse ano apagamos as datas entre 23 de maio e o final de junho nas agendas e resolvemos fazê-lo custe o que custar. E aqui estamos. Tivemos que mudar um pouco as regras do jogo quando depois de ter estudado o mapa da estrada percebemos que tinha uns 66 parkings e não poderiamos passar mais de dois meses. Então são dois por dia e é muito mais maravilhoso do que a gente imaginou.
O mais impressionante é que talvez desde o segundo dia, achamos tão normal viver assim, que as vezes nos perguntamos porque não viver sempre assim?
Em dez dias fizemos uns 140 kilômetros e vamos descobrindo a cada vez mais a outra estrada, essa misteriosa e secreta via paralela onde no final, é um pouco “todos os parkings o parking”.
A linha do asfalto feita para ir de um lugar para outro virou uma coisa quase abstracta e até estamos a nos perguntar, as vezes, se não teremos chegado a imovilidade total; se não será a autopista e os parkings que se mexem, e não a gente.
Estamos felizes, loucos. Finalmente entramos em um espaço que nos da tempo.

Carta de Carol Dunlop a Sylvia Monrós-Stojakovic (fragmento)
Versão para o português de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Julio Cortázar e Carol Dunlop à beira da estrada Paris-Marselha, do arquivo pessoal do escritor

domingo, 5 de abril de 2009

Afasta de mim esse cálice (10 músicas que já foram censuradas)


Gil e Caetano no exílio em London London



Fragmento de documento que vetou a música Geleia Geral


1.Oculoescuro (Como vovó já dizia), de Raul Seixas e Paulo Coelho

A letra original do hoje consagrado escritor Paulo Coelho foi rejeitada uma e outra vez por ser considerada “veiculo de mensagem subversiva”. Curioso foi que o veto não alcançou ao refrão, que é uma clara referência ao uso de colírio ou óculos escuros para esconder a irritação de olhos provocada pela maconha. Raul teve umas 35 músicas censuradas e chegou a inventar palavras só para infernizar a vida dos fiscalizadores.

2. Herói do medo, de Carlos Lyra

Alguns trechos da letra resultaram insuportáveis para a censura, como “odeio a mãe por ter parido”. Por causa de versos como este, o relatório diz “o autor apresenta ego psicótico”, entre outras barbaridades. A música foi liberada em 1975, quando Carlos Lyra morava no estrangeiro.

3. Buscando amor, de Cláudio Nucci e Mauro Assumpção

O problema foi com os versos “baseado no que eu digo eu já ando hoje em dia”. Os autores tentaram explicar que, no caso, “baseado” é uma forma verbal e não um substantivo, mas não houve chance, assim mesmo a música foi barrada.

4. Pátria amada, idolatrada, salve, salve, de Geraldo Vandré

Além dos casos mais conhecidos como Caminhando (Para não dizer que não falei das flores) e Canção da despedida, Geraldo Vandré teve muitas outras músicas censuradas. A escolhida aqui, só pelo fato de fazer menção aos símbolos pátrios, o que era expressamente proibido pela ditadura. Também não era permitida qualquer menção duvidosa à cor vermelha, associada ao comunismo. Geraldo Vandré, tachado de “compositor subversivo” teve a carreira e a saúde prejudicadas pelas proibições.

5. Deus e o diabo, de Caetano Veloso

Como é sabido, Caetano não só teve músicas censuradas. Ele foi preso, proibido de trabalhar e exilado. Na volta, o regime estava forte ainda e os problemas continuaram. Com esta música foram quatro anos de idas e voltas a Brasilia. A marchinha de carnaval com sua associação de deus ao diabo irritou a religiosidade arcaica dos milicos. Nos últimos versos da versão original: “cidades maravilhosas dos bofes do meu Brasil”, o vocábulo bofes precisou ser substituído pelo vocábulo “pulmões”.

6. O mestre-sala dos mares, de Aldir Blanc e João Bosco

A música originalmente foi chamada “O almirante negro”, mas um funcionário disse ao autor que tal título representava uma “apologia do negro”, o que mostra mais uma vez que, além de retrógrado, o regime que imperou desde 1964, também foi racista.
Cansado das modificações e para flagrar a idiotez dos seus algozes, o grande poeta Aldir Blanc incluiu uns versos surreais que permaneceram na canção, como “glória à farofa, à chachaça, às baleias”.

7. Pare de tomar a pílula, de Odair José

Só um exemplo emblemático entre muitas músicas que o então popularíssimo Odair José teve questionadas. O problema com ele não era o engajamento político mas as letras que atentavam “contra a moral e os bons costumes”, essa frase imbecil que os reacionários adoravam. Um funcionário com pretensões românticas disse um dia ao artista: “O amor não é do jeito que o senhor canta”.

8. Geleia geral, de Torquato Neto e Gilberto Gil

Perseguido e exilado junto com Caetano Veloso, Gilberto Gil sofreu censura prévia de muitas músicas. Esta, com belíssima letra do poeta Torquato Neto, foi rejeitada pelo “claro sentido político e contestatório”. Pois é, a geleia geral brasileira dos tempos da ditadura.

9. Nada será como antes, de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento

O título já dizia tudo, mas o problema foi com o verso “Que notícias me dão os amigos?” em alusão aos exilados por motivos políticos.

10. Bolsa de amores, de Chico Buarque

Chico foi, junto com Taiguara, um dos campeões das letras proibidas. Dele recusaram Cálice, citada no título deste texto, Acorda amor, Apesar de você, Tanto mar, todas da peça Calabar e muitíssimas outras. Essa Bolsa de amores está entre as menos conhecidas e nem é das mais brilhantes ou comprometidas. Ela apenas faz um paralelo entre o linguajar da bolsa de valores e uma conquista amorosa. Porém, foi devolvida. No veto, os censores dizem que “o autor está muito preocupado em denegrir as mulheres”. Como Chico foi genial até para driblar à censura, criou um compositor e até uma história sobre ele, o Julinho da Adelaide, que passou a assinar as músicas que poderiam ser objeto de proibição. Mas o truque foi descoberto quando os funcionários da DCDP perceberam que o dinheiro dos direitos autorais do Julinho ia pra conta de um tal Chico Buarque de Hollanda.



A censura oficial existiu no Brasil desde 1934, quando foi decretada por Getúlio Vargas, mas seu periodo mais atuante começou com a ditadura de 1964 e a criação da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), que teve mais força ainda depois da entrada em vigor do AI-5. O órgão que chegou a examinar sessenta mil músicas tinha sede em Brasília. As grandes gravadoras tinham advogados contratados só para lidar com os censores, policiais federais deslocados de outras funções sem o menor preparo para a compreensão de obras artísticas. A censura foi abolida no Brasil em 1988.



Fontes e bibliografia: Arquivos próprios; documentos do Arquivo Nacional; Site censuramusical.com; A canção no tempo Vol 2, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello; Verdade Tropical, de Caetano Veloso; Nada será como antes, de Ana Maria Bahiana; História Social da Música Popular Brasileira, de José Ramos Tinhorão.

Foto de Caetano e Gil na Inglaterra sem crédito do autor
Foto de jornaleiro exibindo o Jornal da Tarde, em 1968, com o endurecimento da censura e o anúncio do AI-5

terça-feira, 31 de março de 2009

Sonho imigrante




A terra do sonho é distante
E seu nome é Brasil
Plantarei a minha vida
Debaixo do céu anil

Minha Itália, Alemanha
Minha Espanha, Portugal
Talvez nunca mais eu veja
Minha terrinha natal

Aqui sou povo sofrido
Lá eu serei fazendeiro
Terei gado, terei sol

O mar de lá é tão lindo
Natureza generosa
Que faz nascer sem espinhos
O milagre da rosa

O frio não é muito frio
Nem o calor muito quente
E falam que quem vive lá
É maravilha de gente.

Sonho imigrante, de Fernando Brant e Milton Nascimento
Foto de imigrantes italianos no Brasil, circa 1935

terça-feira, 3 de março de 2009

Espanhóis são os outros



Segundo um estudo publicado hoje na Espanha, a maioria dos adolescentes da chamada Segunda Geração (filhos de imigrantes nascidos na Espanha ou morando lá desde pequenos) não querem ficar naquele país. Para o trabalho, que foi realizado pela Universidad Pontificia de Comillas, junto com a Universidade de Princeton e a Universidade de Clemson, foram consultados 3.375 estudantes do ensino público e particular.
O relatório diz ainda que nas escolas são freqüentes as brigas entre jovens de diferentes nacionalidades e que 53% dos entrevistados manifestaram a intenção de assistir à universidade, mas menos da metade desses acredita que vai conseguir.

Uma boa parte deles -mesmo nascidos no território europeu- não se consideram espanhóis. 60 nacionalidades foram representadas na mostra. Os países de origem predominante são Equador, Colômbia, Romênia e Marrocos.
Ao mesmo tempo, hoje o governo espanhol anunciou um programa de retorno para mais de cem mil imigrantes, dos chamados sem papéis.

Foto, Reunión, de Risabhadeva Maldonado, ganhadora do concurso Infancia Inmigrante: La Generación del Futuro

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dekasseguis



Os sonhos são o direito humano fundamental, maior que a própria liberdade. As loterias dos especuladores atingem os sonhos individuais e coletivos. E nesses tempos, os migrantes econômicos são os primeiros danificados.
Ninguém pode ser julgado por escolher outra terra para materializar seus sonhos. Porque por tras desse desejo de prosperidade, há sonhos.
No Japão existe uma comunidade de 322.000 brasileiros, os chamados dekasseguis (trabalhadores temporários). Apesar de serem pessoas maiormente qualificadas, a impossibilidade de validar os títulos e a pouca fluência na língua empurra os dekasseguis a fazerem trabalhos duros, geralmente em fábricas de componentes eletrônicos e montadoras de autopeças. E com a tal crise, eles são os primeiros demitidos, os excluídos.
Os que voltam para o Brasil, carregam as conseqüências emocionais de não ter escolhido voltar. Os que ficam, agüentam, do jeito que podem. As vezes sem trabalho e moradia viram fantasmas na rua.
A crise é isso. A destruição por uns poucos dos sonhos de muitos.

Foto de Ricardo Yamamoto , um fotógrafo dekassegui

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Buenos Aires carnaval



Houve uma vez um carnaval. Eu quase nem lembro, mas lembro. Eu tive que representar uma vez na televisão -teria lá uns seis anos- um componente de uma murga (a tradução mais parecida, vulgar e rápida seria a de um bloco). Os integrantes das murgas iam fantasiados e repetiam uma música parente da marchinha e sempre satírica, com descrição de alguma situação da política ou apelo erótico, apelo alias que hoje seria de uma inocência supina.
Na Avenida de Mayo, uma das principais do centro da cidade (sim, como se fosse a Rio Branco de outrora) passava o corso. E uma multidão assistia ao vivo. Mas sobre isso não guardo nenhuma lembrança, apenas umas poucas imagens em sépia, sem conexão, como um filme inconcluso.
Também eram muito populares os bailes de carnaval que se faziam nos clubes. Desses eu lembro especialmente os cartazes de rua coloridos e a quantidade de artistas concentrados numa noite só. E só. Magina se eu tinha idade de pensar em assistir a um baile.
A prova de que houve uma vez um carnaval é o tango Por cuatro días locos:

Por cuatro días locos
que vamos a vivir
por cuatro días locos
te tenés que divertir

Tango que ficou famoso na voz de Alberto Castillo, um ginecologista que virou cantor do povo no final da década de quarenta e na seguinte. Castillo não tinha aquela voz, mas resalvava o caráter dançante do tango. Os mauricinhos da época, que bailavam o boogie-boogie, detestavam Castillo, que estava claramente identificado com o bairro e ia pro centro pra cantar “Así se baila el tango!” na cara dos moços distinguidos. Dizem que muitas vezes, esses bailes acabavam em brigas monumentais.
Mas o fato é que a tradição do carnaval foi se perdendo. E em 1976, os militares deram o golpe de Estado e o golpe de graça à folia. Com esse senso ridículo da disciplina que eles têm, derrubaram do calendário os feriados de carnaval. O povo precisava mais era de trabalhar. E os murguistas, como tantos, passaram à clandestinidade.
Sempre digo que o melhor que fizeram os militares -e o pior para todos nós- foi a destrução dos laços de solidariedade. E o carnaval perdido em Buenos Aires é outra prova disso. Porque o carnaval por definição nasceu como uma reação à ordem estabelecida e é uma celebração em que o sujeito se iguala ao outro.
Lá se foi como se foram outras festas populares.
Minha relação com carnaval, ou então, aquelas breves lembranças da infância, foram reparadas na medida em que cresceu minha história no Brasil.
É muito estranho agora passar o carnaval em Buenos Aires como este ano aconteceu, mesmo que dessa vez tinha sido uma escolha minha tirar férias em janeiro. Não tem jeito, agora nem a Globo tem aqui para acompanhar o desfile. Ou eu boto um sambão e fico abrindo os braços numa imaginária Marquês de Sapucaí no meio da sala, ou eu “disfarço e choro”, ou faço parte desse ambiente em que nada para.
Nesse vai-e-vem, escrevi umas linhas na segunda-feira. Ficam aqui na quarta, enquanto andamos sobre as cinzas.

Do silêncio aos barulhos ordinários
a cidade amanhece sem lixeiros
mas é greve é cansaço é sindicato
a cidade amanhece
e nem sombra de feriado
rola a escada rolante do metrô
e não há fantasia que atrapalhe
a engrenagem do rolo cotidiano
vejo o bloco dos normais todo apressado
e não há samba-enredo nessa loja
nem ressaca nem te roubei um beijo
Buenos Aires é um eterno zero a zero
e eu a andar de novo estrangeiro
não preciso ligar pra seu ninguém
e lá em casa não preciso apanhar gelo
o meu velho chapéu azul e branco
anoitece atrás da porta pendurado.



Buenos Aires carnaval, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de pessoas se preparando para o carnaval em Buenos Aires em 1930, do arquivo do jornal La Nación
Foto do Corso da Avenida de Mayo em 1969, do arquivo do jornal Clarín

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Centenário de Oscar Alemán



De tanto falar em Oscar, quase esqueci do Oscar esencial.
Ontem foi o centenário do nascimento de Oscar Alemán, o violonista argentino criado no Brasil, quem eu considero o maior violonista não brasileiro de música brasileira. Outra história que me toca porque mistura as duas terras que amo.
Em março do ano passado fiz um retrato dele, o homem que encantou Josephine Baker, Django Reinhardt e Duke Ellington. Para quem não leu ou ainda não acompanhava o blog, está aqui: Oscar Alemán
E para quem quiser ver Oscar, eis aqui uma pérola do Youtube.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

São Valentim



Por razões obvias, histórias cruzadas de Brasil e Argentina exercem forte atração sobre mim. Por isso hoje, que o mundo anglo-saxão comemora São Valentim -e vários países latinos também por conseqüência da colonização cultural- vou fazer uma parada na figura de Paulo Valentim, craque brasileiro que brilhou na década de sessenta no Botafogo e no Boca Juniors da Argentina. E que foi protagonista de uma bela e ao mesmo tempo amarga história de amor com ninguém menos que Hilda Furacão.
Contam os historiadores do futebol que Valentim já era figura no Atlético Mineiro mas não tinha um tostão, chegando a dormir debaixo da arquibancada. Nessa época, na área conhecida como Polo Norte, Paulo, amigo da noite, encontrou Hilda pela primeira vez.
Chamada de Furacão, Hilda era uma mulher baixinha, pernambucana migrante, que fazia programas nos bares e boates da zona.
A diretoria do Atlético, logicamente, não via com bons olhos o relacionamento, pensando que não passava de uma paixão breve, mas que enquanto ardia tirava o fólego do craque no gramado.
Pela mediação de João Saldanha, o carioca Paulo voltou pra sua terra para estrear no Botafogo vitorioso que tinha Garrincha e Didi.
Em 1957, entrou para a história do alvinegro depois de marcar cinco vezes na decisão do estadual no 6 a 2 em cima do Fluminense.
Em 1959, o Sul-Americano foi jogado em Buenos Aires. Valentim virou estrela nacional ao lavar a honra brasileira, quando fez três gols no jogo contra Uruguai. O público argentino ficou maravilhado pela destreza e pela raça do jogador. E a diretoria do Boca Juniors não perdeu o tempo e contratou Paulinho.
Antes de mudar para Buenos Aires, Valentim resolveu casar com Hilda, o que jogou por terra a história da paixão passageira. Contou Saldanha que na ceremônia o padre fez referências explícitas ao passado de Hilda e que Paulo só não foi pra cima do religioso porque os amigos o acalmaram.
Na Argentina, Paulo Valentim viveu quatro anos de esplendor. Formou o ataque xeneize com Ernesto Grillo e José Sanfilippo. O Boca foi campeão em 1962 e 1964 e ele foi artilheiro dos torneios de 61, 62 e 64. Paulinho entrou rápido no coração dos torcedores, o Jugador Número 12. Logo no primeiro clássico com o eterno rival River Plate, faturou duas vezes para a vitória 3 a 1, iniciando também um histórico duelo com o grande goleiro riverplatense Amadeo Carrizo. E a torcida criou um canto que dizia “Tim, tim, tim, gol de Valentim”. Vocês vêem como naquela época eram inocentes os gritos de guerra das torcidas.
Em Buenos Aires, além da glória esportiva, ninguém conhecia o passado de Hilda, aqui ela era “la señora de Valentín” (o sobrenome de Paulinho foi freqüentemente espanholizado na Argentina). Ninguém sabe o pelo menos ninguém disse porque eles voltaram para o Brasil no final de 64. Pode ter sido por saudades, por ofertas que não vingaram ou pelo final de um ciclo, mas o certo foi que ali começou o declínio do astro.
À beira dos quarenta foram pro México. Naqueles anos os jogadores de futebol não ganhavam essas fortunas que hoje os poucos eleitos já têm aos vinte. Valentim acabou trabalhando no cais do porto e Hilda pensou na solução de voltar à velha profissão, mas ele rejeitou tal possibilidade. Assim mesmo Hilda não ficou quieta. Ligou para os contatos que ainda tinha no Boca e conseguiu um contrato para que Valentim possa trabalhar nas divisões de base do clube argentino.
O casal abandonou a modesta pensão do bairro do Flamengo e voltou pra Buenos Aires, talvez atrás do sonho de reviver os tempos felizes.
Paulo Valentim morreu na cidade portenha em 1984. Diversas lendas foram tecidas ao redor de Hilda. Ela virou até minissérie da Globo. Mas não há uma história oficial sobre o destino dela.
Até hoje, Valentim, ídolo de duas torcidas, precoce destrutor de preconceitos entre Argentina e Brasil, é o máximo anotador nas decisões dos estaduais brasileiros e o maior artilheiro do Boca em frente do River.
Não é uma bela história de São Valentim?






Texto escrito com dados do arquivo próprio, de jornais argentinos e brasileiros e do blog de Roberto Porto

Foto de Paulo Valentim no Boca Juniors, gentileza especial para o Nemvem Quenaotem do arquivo do
Diario Olé
Foto de Paulo Valentim no Botafogo e de Paulo Valentim e Hilda Furacão no apartamento de Buenos Aires, sem crédito conhecido.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O trágico destino de Sylvia Plath e Anne Sexton



“Os meus admiradores acreditam que estou curada, mas não é verdade. Apenas virei poeta”. A frase foi pronunciada por Anne Sexton, perto de interromper a própria vida.
Anne tinha descoberto a poesia em um programa de televisão, em 1956. “Até então eu desconhecia se sabia fazer alguma coisa, além de molhos e trocar fraldas. Era uma vítima do sonho americano”.
Foi a psiquiatra dela a primeira que a animou para escrever. Anne era uma filha não desejada, maltratada pelos pais primeiro e pelo marido depois, e que por sua vez maltratava às filhas dela. Anne sofria de transtorno bipolar, que na época era chamado de psicose maníaco-depressiva, e já carregava uma tentativa de suicídio.
Três anos depois daquela revelação televisiva, Anne foi fazer curso com o poeta Robert Lowell, quem -disse- lhe ensinou o mais importante da poesia, que não é o que pôr num poema mas o que tirar nele. Lá conheceu uma jovem de 27 anos que estava por publicar seu primeiro livro e que seria sua estrela-guia no mundo literário e na vida. Anne ficou fascinada pela pessoa e pela poeta Sylvia Plath.
Juntas protagonizaram depois das aulas longas conversas sobre paixões, poesia e suicídio, regadas a Martinis.
No verão de 1962, Sylvia descobriu que era traída pelo seu amado esposo e também poeta Ted Hughes. A mulher carregou os filhos e foi morar no campo na Inglaterra. O inverno foi muito cruel. Sylvia ficou isolada, sem telefone, escrevendo poemas e longas cartas para sua mãe. Por causa do rigor do clima, as vezes faltava luz e transporte.
Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia acordou, deixou um copo de leite para cada um dos seus filhos na mesinha de cabeceira, foi para a cozinha, trancou a porta, abriu o forno e colocou um pano onde encostou a cabeça para esperar a morte.
Para essa época, Sylvia tinha 30 anos e já contava com uma ampla produção literária, que incluía a sua autobiografia (A redoma de vidro); os Diários e a série Ariel.
Anne Sexton chegou a dizer “essa morte era minha”. Mas ela mesma também decidiu pôr fim a sua vida onze anos depois e depois de outras tentativas, quase sempre teatrais (ela chegou a anunciar por telegrama sua intenção de suicidar).
Foi em 1974, quando Anne já tinha também uma grande reputação como poeta, com assuntos pouco comuns para as mulheres que escreviam poesia, como masturbação, adultério e menstruação.
A identificação de Anne com Sylvia foi até o final, coroada pelo suicídio. Segundo Lowell, que foi mestre das duas “Anne era mais auténtica, mas sabia menos que Sylvia
As duas estão no paraíso da poesia dos Estados Unidos e no círculo dos poetas suicidas que exercem tanto atração como mistério.

Decisão

Dia nublado: dia cinzento

fico
de mãos bobas
esperando o leiteiro

o gato de uma orelha
lambe a pata cinza

e ardem brasas em chamas

lá fora, vão ficando amarelinhas
as folhas da trepadeira
uma fina fita de leite
embaça garrafas vazias na janela

nenhuma glória provém

duas gotas se equilibram
numa verde envergada
haste da roseira na casa ao lado

ó se arca de espinhos

o gato afia as garras


o mundo gira

hoje

hoje não irei
desiludir meus doze engalanados examinadores
nem cerrarei meu punho
na ironia do vento.



Para Sylvia Plath

Oh Sylvia, Sylvia!
com uma caixa morta de colheres e pedras
com dois filhos, duas estrelas fugazes
errantes na pequena sala de jogos
com tua boca no lençol
na trave do teto, na nécia oração (...)


Texto escrito com informações colhidas em textos de Robert Lowell e Helen McCormack
Decisão (Resolve), de Sylvia Plath, versão para o português de Elson Frões
Para Sylvia Plath, fragmento de A morte de Sylvia (Sylvia’s death), de Anne Sexton, versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Sylvia Plath de Mortimer Rare Book Room (1956)
Foto de Anne Sexton da Agência AP (1967)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

La piccola Sole



Em meados de 1997, María Soledad Rosas, uma jovem argentina, da classe média-alta, foi pra Europa. Uma viagem iniciática como a que tantos de nós fazemos quando o mundo aparece na nossa frente como uma caixa de Pandora.
Antes havia ficado um tempo no Brasil. Soledad adorava animais e tinha idéias ecologistas. Nesse momento, ela vislumbrava seu futuro em uma praia do norte do Brasil.
Mas a possibilidade da Europa a levou para Turim, na Itália. Poucos dias depois de chegar, achou uma casa ocupada pelos squatters, um movimento na sua maioria formado por jovens que se opõem as regras e convenções do capitalismo, vivem em pequenas comunidades e fazem de prédios e fábricas desocupadas seu lugar de moradia e centro de atividades.
Soledad uniu-se ao grupo, identificada com as idéias deles, em boa parte baseadas no velho anarquismo.
Naquela casa conheceu e se apaixonou por Edoardo Massari, o Baleno (raio), que era dez anos mais velho que ela. O amor e a militância iam juntos. Soledad aprofundou sua participação em atos e distribuição de propaganda dos squatters. Não pareciam um grupo relevante em termos de política.
Mas ao mesmo tempo, outro grupo de squatters, conhecido como Lupi Grigi (Lobos cinzas), estava praticando atentados contra a construção do trem de alta velocidade (TAV), por considerá-lo causa de um futuro desastre ecológico.
Na madrugada de 5 de março de 98, o Digos, uma divisão da polícia secreta italiana criada na época das Brigadas Vermelhas, arrombou a casa e levou Soledad, Edoardo e Silvano Pelissero, amigo do Edoardo que também morava lá.
Com a cumplicidade da mídia que estranhamente nada questionou, os três foram indiciados como os “eco-terroristas” dos atentados. Porém, no momento em que ocorreram os fatos, Soledad estava na Argentina e Edoardo na prisão, pois ele tinha antecedentes por possessão de bombas molotov e pequenos furtos.
Detentos, os dois viraram emblemas do movimento squatter. Soledad foi desde então Sole ou La piccola Sole (a pequena Sole). Passeatas foram organizadas e as notícias ganharam mais espaço na imprensa, que continuou taxando os jovens como terroristas.
Em 27 de março, como um gesto final de protesto contra a injustiça, Edo se enforcou na cela.
Sole conseguiu permissão para assistir ao funeral do companheiro amado. Esse dia -quando foi tomada a foto que ilustra o texto- apareceu com a cabeça raspada e vestindo as roupas dele. E disse: “ce rivedremo presto” (nos reencontraremos logo).
A mãe e a irmã dela foram pra Itália. Depois da morte de Edo concederam a Sole a possibilidade de esperar o juízo em uma granja. O advogado italiano poderia fazer que os processos fossem separados, inclusive que ela voltasse para Argentina. Mas Sole recusou cada um dos benefícios oferecidos.
Na madrugada de 11 de julho, Soledad apareceu enforcada com un lençol no banheiro da casa onde permanecia detenta.
Foi um suicídio. Não houveram motivos para pensar o contrário.

Mais de uma década se passou e a história breve de Sole continua me comovendo. A parábola dessa menina educada em colégios particulares que entregou sua vida por uma luta aparentemente menor ou, como disse o pensador Gianni Váttimo, que “não aguentou o peso da vida”.
A lembrança dela está em várias paredes de Turim e nos seus companheiros.
Ninguém sabe se la Sole fez seu último ato por amor ou pelas suas idéias ou por ambas questões. Em qualquer caso, não deixa de ser simbólico que essa história tenha acontecido na década do maior cinismo do século vinte, quando o estandarte era dizer que as ideologias tinham morrido.




Foto de Sole da Agência Ansa (1998)
Reprodução da capa do jornal italiano La Stampa, condenando os detentos antes do processo
Foto de Sole do arquivo da polícia italiana

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Boban & Marko Markovic Orkestar



Na Sérvia existe uma tradição que já tem quase cinqüenta anos e que nem as guerras e secessões conseguiram derrubar: é o festival Dragacevski Sabor, na cidade sulina de Guca. Lá concorrem anualmente os que pretendem ser consagrados como “os maiores sopros do mundo”.
A Boban Markovic Orkestar, se apresentou lá na frente de um auditório de 300.000 pessoas, ganhou todos os prêmios possíveis e nunca mais voltou.
Também originária do sul da Sérvia, da pequena Vladicin Han, a banda começou a mostrar a sua arte nas festas e enterros no final da década de oitenta. Seu fundador, Boban Markovic, sabe tudo sobre trompete e foi o responsável pela introdução do violino nas bandas dos Balcás.
Seu filho Marko entrou no grupo de doze componentes com 15 anos e agora que tem 21, já recebeu oficialmente a chave da herança, tanto que o mais recente disco chama-se Go Marko Go!. Ele compõe, faz os arranjos de sopros e mostra um virtuosismo que evidentemente traz no sangue. Marko também foi coprodutor do Disco Partizani, de Shantel -que já citamos aqui- e protagonizou o filme Gucha! The Distant trumpet, um hilário Romeu e Julieta dos Balcás em que o jovem trompetista cigano, que encarna Marko, se apaixona por uma moça sérvia branca, para complicar, filha de um trompetista rival. O link é para o trailer, vejam o garoto em ação, ele é um gênio.
Para completar o time da pesada, em 2000 entrou para a agrupação o sax de Jovica Ajdarevic, que já era famoso liderando a sua própria banda. Os shows da agora chamada Boban & Marko Markovic Orkestar são festas intermináveis onde é impossível se abstrair. Eles já fizeram atrasar meia hora um show do Oasis. O público achou bem mais divertida a banda de raiz rom que o mal humor britt-pop dos irmãos Gallagher.



Foto da Boban & Marko Markovic Orkestar de Miguel Dietrich
Foto de Marko e Boban Markovic de Marcus Kirchgessner

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A traidora gringuice foragida


Aos poucos dias de chegar ao Rio de Janeiro pela octogéssima vez, quando já foi pra ficar mesmo, fui convidado para uma festa, aquelas do estilo “amiga da amiga da amiga” que estava voltando pro Rio depois de morar em Londres por uma década.
Em certa hora, coincidimos na varanda o expatriado e a repatriada. Estava eu com uisquinho na mão quando ela soltou assim, como de passagem, a seguinte pérola:

- É horrível ser estrangeiro, porque você vai ser estrangeiro sempre.

Ela disse isso com toda naturalidade, mas eu odiei aquela mulher nessa hora, achei tão pouco gentil. A esperança de todo estrangeiro novo, exceto uns poucos que só querem ficar no gueto, é integrar-se à nova sociedade, ser um entre os outros.
Ainda minha arrogância achava que meus conhecimentos da língua portuguesa e da cultura brasileira iam fazer toda a diferênça. E o carinho dos amigos ajudava nessa construção. Eles me diziam frases do tipo: “você sabe mais de música brasileira que a maioria dos brasileiros”.
Passou um tempo até eu entender que, na verdade, o que era mais valorizado em mim, pelo menos no mundo do trabalho, era o que havia de diferente em mim e não o que havia em comum.

Tempos depois estava eu num churrasco com amigos, esses outros, das minhas primeiras viagens, amizades que já beiravam as duas décadas. De repente, a conversa nos levou para a infância e aí o pessoal começou a lembrar dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, aquela obra fundamental de Monteiro Lobato que a meninada curtiu através do programa de televisão. Era Emília pra lá e Pedrinho pra cá.
Nesse instante de luz compreendi a frase sem maldade daquela mulher que tanto tinha me agoniado. Não houve na minha infância Sítio do Picapau, eu cresci assistindo o programa de Gaby, Fofó y Miliki, três palhaços espanhois que tinham um show de muito sucesso na televisão argentina.
A condição de estrangeiro é isso, a ausência de história comum. O que eu sei de 1968 é o que eu li, o que me contaram, as músicas que ouvi, as fotos que vi, mas o meu 68 foi outro, sem passeata dos Cem Mil, sem festivais, sem AI-5. Tudo bem, eu era um moleque na época, mas o exemplo serve para significar a diferênça.

Assumir minha condição de gringo só me trouxe alívio. Tanto que resolvi ser um estrangeiro permanente, um estrangeiro de profissão. A obsessão do sotaque, como outras, ficou pra trás, certamente substituída por outras novas. De volta para a Argentina, passou a fase esquizofrénica de ficar dividido entre duas terras, de sentir a eterna saudade por uma quando estou na outra, e cheguei ao presente jubiloso de saber que há pelo menos dois cantos no mundo onde eu serei bem recebido, onde eu posso me fazer entender para pedir um copo d’água e um prato de arroz. Isso é um privilégio.

Depois dessa introdução que mais parece um oceano, vou explicar a razão desta postagem. Uma pessoa que eu não conheço, divulgou no Orkut um texto meu do blog sobre declarações de Maria Kodama, a viúva do escritor Jorge Luis Borges, que revelou que o mestre não gostava nem um pouco de Carlos Gardel, mas em troca ouvia o rock progressivo de Pink Floyd.
Por causa disso as visitas vindas do Orkut cresceram notávelmente, então resolvi pesquisar qual era a fonte desse aumento.
Achei o link em uma comunidade do Pink Floyd e várias respostas, e entre elas uma que dizia -achando que quem postou era o dono do blog-

- Meu amigo, “Nem vem que não tem” pq teu blog já caiu no meu conceito só em vc escrever no teu título foraGida com J...

Que vergonha eu senti! Foi um erro grosso que estava lá no comecinho do blog. Isso foi da época em que o Google, sem mais, me mandou pra berlinda e, entre vários conselhos para tentar solucionar o mistério, um deles dizia para eu acrescentar no cabeçalho algumas palavras sobre o assunto do blog. Então eu coloquei essa definição que já existia desde que eu tive que cadastrar o blog e algum lugar e mandei isso.
A explicação lingüística define esse tipo de erro como interferência, quando alguém falando ou escrevendo uma segunda língua enfia uma palavra da língua em que foi alfabetizado, pois em espanhol foragida é forajida, e eu que não vivo sem o meu Aurelião, jamais cheguei perto de duvidar sobre a grafia dessa palavra.
E vocês, amigos que vem aqui com freqüencia, imagino que por gentileza ou piedade, nunca me disseram nada.
Mas a gringuice é assim, por muito que eu possa disfarçar, ela aparece. E ela aparece para me lembrar a minha condição. E isso é muito legal porque também me faz manter esse olhar carinhoso e ao mesmo tempo distante.
Então, caros amigos, se vocês acharem um outro desses erros grosseiros, sejam crueis comigo. Aceito frases do tipo “seu gringo burro etc”.
Mas juro que daqui pra frente jamais vou esquecer como se escreve foragida em português.

Foto da minha pessoa tentando (e no conseguindo) disfarçar a sua gringuice no cafofo da Surica, com Paulão Sete Cordas e Teresa Cristina