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domingo, 9 de novembro de 2008

Borges txt


1. Em 1923, o jovem Borges publicou seu primeiro livro, uma coleção de poemas chamada Fervor de Buenos Aires. Trescentos exemplares foram impressos. Ele acreditava que a melhor divulgação era dar de presente para escritores e jornalistas.
Borges chegou na redação da revista Nosotros, onde foi recebido pelo diretor da publicação, Alfredo Bianchi.

- Você pretende que eu venda esses livros?
- Não pretendo, embora eu escrevi este livro, não sou maluco. Mas eu queria que o senhor colocasse nos bolsos desses paletós que estão lá pendurados.


Em tempo, os donos desses paletós foram vários dos primeiros que começaram a escrever sobre Borges e a construir a reputação de poeta dele.

2. Borges era professor da Faculdade de Letras da Universidade de Buenos Aires. Uma mulher, louca por conhecê-lo, vai esperar o escritor na saída da sala de aula. Quando a aula finaliza, os estudantes vão embora e finalmente sai Borges. A mulher chega pra ele e diz:

- O senhor é Jorge Luis Borges?
- Momentaneamente.

3. Borges está no estúdio de tevê Sonotex para fazer um comercial da Biblioteca Personal Jorge Luis Borges, uma coleção de livros escolhidos pelo mestre que serão vendidos nas bancas. É verão em Buenos Aires e faz um calor horroroso. De repente, Borges está debaixo de um holofote com um dos seus habituais ternos escuros quando começa a chamar sua secretária (que depois será sua esposa) María Kodama.

- María! María!
A mulher chega perto dele.
- Que foi, Borges?
- Eu já estou no inferno?

4. O escritor recebe na casa dele um cheque por adiantado pela palestra que vai oferecer no Hotel Bauen, no centro de Buenos Aires. É a maior cifra que jamais obteve por uma palestra, no tempo em que ele já era uma celebridade.
No dia pactado, Borges chega mais cedo ao hotel, onde é recebido pelo dono. Depois de cumprimentá-lo, Borges devolve o cheque. Surpreso, o homem lhe-diz:

- Porquê me devolve o cheque? É o pagamento do senhor
- Caso ninguém vier.

Inicio hoje uma série de postagens com histórias, anedotas e frases geniais do escritor Jorge Luis Borges. Além da grande obra, o autor deixou uma coleção dessas histórias hilárias vindas da sua rapidez de respostas e o seu humor irónico. Porque além do escritor que ele foi, Borges foi um mestre da oralidade.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Borges detestava Gardel e amava Pink Floyd


O motivo da entrevista era mais uma das tantas exposições, mostras e palestras que têm como objeto a obra e a vida do escritor Jorge Luis Borges. A viúva dele, María Kodama, para uns foi literalmente os olhos do mestre nos últimos tempos e para outros foi o capeta, especialmente aqueles que gostam de sublinhar as lendas com juízos fatais, do tipo Yoko Ono acabou com os Beatles.
O certo é que María cuida da obra e do legado dele e é a voz da sua memória. Tanto que ainda a gente descobre coisas insólitas, brincadeiras e provocações daquelas que o escritor adorava.
Em entrevista à BBC de Londres, Kodama confirma que ele detestava Carlos Gardel, que achava que o cantor tinha estragado o belo tango da velha guarda. Mas como tango e malandragem eram assuntos comuns nas conversas dele a declaração foi só uma constatação. Mas a notícia é que Borges adorava Pink Floyd e que freqüentemente pedia que ela colocasse The Wall.
O universo onírico do grupo inglês cativou também ao criador do Aleph.
Na mesma entrevista, María Kodama diz que Borges, além de Brahms, Bach e a música da Idade Média, também gostava de um som dos Beatles e dos Rolling Stones.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quando Borges não era cego (e assistiu Citizen Kane)


Todos sabemos que uma festa, um palácio, uma festa, uma grande empresa, um almoço de escritores ou jornalistas, um ambiente cordial de franca e espontânea camaradagem, são essencialmente horrorosos; Citizen Kane é o primeiro filme que os mostra com alguma consciencia dessa verdade.

Fragmento da crítica do filme Cidadão Kane, de Orson Welles, escrita por Jorge Luis Borges e publicada em agosto de 1941 na revista Sur. A seguir, o texto completo da matéria, em espanhol.

"El ciudadano"
"Citizen Kane (cuyo nombre en la República Argentina es "El ciudadano") tiene por lo menos dos argumentos. El primero, de una imbecilidad casi banal, quiere sobornar el aplauso de los muy distraídos. Es formulable así: un vano millonario acumula estatuas, huertos, palacios, piletas de natación, diamantes, vehículos, bibliotecas, hombres y mujeres; a semejanza de un coleccionista anterior (cuyas observaciones es tradicional atribuir al Espíritu Santo) descubre que esas misceláneas y plétoras son vanidad de vanidades y todo vanidad; en el instante de la muerte, anhela un solo objeto del universo ¡un trineo debidamente pobre con el que su niñez ha jugado! El segundo es muy superior. Une al recuerdo de Koheleth el de otro nihilista: Franz Kafka. El tema (a la vez metafísico y policial, a la vez psicológico y alegórico) es la investigación del alma secreta de un hombre, a través de las obras que ha construido, de las palabras que ha pronunciado, de los muchos destinos que ha roto. El procedimiento es el de Joseph Conrad en "Chance" (1914) y el del hermoso film "The Power and the Glory": la rapsodia de escenas heterogéneas, sin orden cronológico.
Abrumadoramente, infinitamente, Orson Welles exhibe fragmentos de la vida del hombre Charles Foster Kane y nos invita a combinarlos y a reconstruirlos. Las formas de la multiplicidad, de la inconexión, abundan en el film: las primeras escenas registran los tesoros acumulados por Foster Kane; en una de las últimas, una pobre mujer lujosa y doliente juega en el suelo de un palacio que es también un museo, con un rompecabezas enorme. Al final comprendemos que los fragmentos no están regidos por una secreta unidad: el aborrecido Charles Foster Kane es un simulacro, un caos de apariencias. (Corolario posible, ya previsto por David Hume, por Ernst Mach y por nuestro Macedonio Fernández: ningún hombre sabe quién es, ningún hombre es alguien.) En uno de los cuentos de Chesterton -"The Head of Caesar", creo- el héroe observa que nada es tan aterrador como un laberinto sin centro. Este film es exactamente ese laberinto.
Todos sabemos que una fiesta, un palacio, una gran empresa, un almuerzo de escritores o periodistas, un ambiente cordial de franca y espontánea camaradería, son esencialmente horrorosos; Citizen Kane es el primer film que los muestra con alguna conciencia de esa verdad.
La ejecución es digna, en general, del vasto argumento. Hay fotografías de admirable profundidad, fotografías cuyos últimos planos (como en las telas de los prerrafaelistas) no son menos precisos y puntuales que los primeros. Me atrevo a sospechar, sin embargo, que "Citizen Kane" perdurará como "perduran" ciertos films de Griffith o de Pudovkin, cuyo valor histórico nadie niega, pero que nadie se resigna a rever. Adolece de gigantismo, de pedantería, de tedio. No es inteligente, es genial: en el sentido más nocturno y más alemán de esta mala palabra.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio