Mostrando postagens com marcador Artistas irlandeses. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artistas irlandeses. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Quando Sinéad canta



Quando Sinéad canta, fecha os olhos com a cabeça voltada para o chão. As vezes ela os abre e troca breves olhares cúmplices com os músicos e ensaia leves sorrisos, um movimento apenas das comissuras dos lábios que desenha dois buraquinhos nas bochechas dela.
Depois, volta a fechar os olhos e abaixar a cabeça.
Outras vezes, ela encara o auditório e o seu olhar aparece no conjunto de sobrancelhas, cílios, brilho e significantes. Se for uma música como Fire on Babylon ou The last day of our acquaintance, melhor não ser o objeto olhado. Não devem existir muitos seres capazes de sustentarem indenes um olhar desses.
As vezes, ela faz uns passos de dança, pequenos. Tudo é económico nela, menos a voz.
Outras vezes ela usa a palma da mão esquerda em alto para sustentar uma nota, como se quisesse acompanhar o ar ou como se quisesse deter o peso da canção. Porque quando Sinéad canta o que nasce ou renasce é o peso da canção. Ela traz no corpo e no corpo que a voz é, fantasmas ancestrais; chagas próprias e de outros seres; sedes; sedimentos e sentimentos sem tempo, em estado puro.
Quando Sinéad canta a vida é como ela é, no maior esplendor da sua beleza, no maior desalento da sua dor.

Foto de Sinéad O'Connor de Thomas Canet

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A insustentável leveza do meme


Capa do único disco do Melimelum (1976)


The Guess Who, na onda da moda Sgt. Pepper

A querida Requeri, do ótimo e musical re...bloggando, veio me dizer que eu ganhei um meme. Peraí, e que diabo é isso? foi o primeiro que eu pensei. As vezes vocês esquecem que eu sou gringo mesmo. Eu fiquei imaginando que um meme fosse um tipo de leprechaun.
Aí a Requeri veio explicar com a maior paciência do mundo que eu só tenho que escolher as minhas sete músicas preferidas, postar e repassar.
Nossa senhora! Eu vivo fazendo listas de dez músicas de qualquer coisa e sempre é pouco e agora eu só devo escolher sete?
Enfim, eu continuo sem saber a certo o que é o tal do meme, mas com certeza o meme deve ser uma coisa assim... leve. Até tem uma certa musicalidade: meme/leve.
Então, primeiro vejam as sete (aliás foram oito) que Requeri escolheu:
1 . r.e.o. = roll with the changes
2 . eagles = hotel california
3 . george harrison = give me love
4 . dr. john = such night
5 . elton john = madman across the water
6 . david bowie - rock'n roll suicide
7 . b-52s = juliete of spirits
8 . deep purple - anya

E agora, como o meu meme é todo etéreo as minhas têm a ver com alegria, daquela sensorial, que te invade quando você ouve, como uma volta à inocência perdida:

1. Satelite of love - Lou Reed
2. Acabou chorare - Novos Baianos
3. One divided - The Guess Who (aquela ótima banda canadense que tudo mundo conhece por American Woman)
4. Rosado atardecer - Melimelum (uma banda folk argentina da década de 70 que ninguém conhece e só lançou um disco que tem essa música que pra mim tem um dos mais belos arranjos vocais que eu já ouvi. Ouça você também)
5. Good morning starshine (Da peça e o filme Hair, quem canta no filme é a Beverly D'Angelo)
6. El reparador de sueños - Silvio Rodríguez (música que o cantor cubano fez para o seu filho)
7. Pé do meu samba - Mart'nália (por ela, por Caetano que fez a música, pelo meu amor pelo Rio de Janeiro e porque virou leit motiv do meu documentário Samba no pé)

Meu bonus track
8. Scorn not his simplicity - Sinéad O'Connor (da minha deusa pessoal para todas as crianças do mundo)

E finalmente, repasso o dito cujo para:
1. Re D'Elia, do >Magic on Sundays
2. Mara, do >Pintando música
3. Moura, do >BM Blog do Moura
4. Felipe, do >Um pouco de tudo
5. Ana, do >Cabrocha, a flor do samba

domingo, 24 de agosto de 2008

A lágrima de Sinéad que rodou o mundo


Para complementar a postagem anterior, umas linhas sobre Nothing compares 2U, a música de Prince e o vídeo do británico John Maybury que levaram Sinéad O’Connor para o número um das paradas em 17 países.
A cantora irlandesa, sem dúvidas a melhor de todas as surgidas na década de noventa, não queria ser uma pop star e enxergando para onde ia o marketing, decidiu raspar a cabeça. Considerada até esse momento uma artista alternativa, ela já tinha lançado o excelente The Lion & the Cobra, onde mostrava sua singularidade.
O diretor do vídeo filmou numerosas cenas em Paris, mas acabou escolhendo longos primeiros planos de Sinéad cantando e olhando fixamente para o objetivo, enquanto a música in crescendo e a expressão da cantora tomam o espectador. Essa estética da intérprete que, longe de deixar ela menos atrativa lhe deu mais força à sua personalidade, lembra a Joan d’Arc de Maria Falconetti.
Possuída pela emoção, Sinéad deixa rolar uma lágrima em seu rosto, uma emoção que não estava ensaiada e que reflete substantivamente a dor do abandono amoroso.
Essas longas tomadas, inesperadamente, impuseram-se no reino da vertigem que a MTV anunciava.
Como em Losing my religion, há uma certa atmosfera religiosa, não expressada aqui no simbólico mas no transcendente.
Em junho de 1990, na onda de Nothing compares 2U, Sinéad foi parar na capa da Rolling Stone. Ela detestou o sucesso e se recusou a receber o Grammy que ganhou por I do not want what I haven’t got.
John Maybury, que já tinha trabalhado no cinema como diretor de arte de Derek Jarman, continuou fazendo clipes ótimos para artistas como Neneh Cherry, Morrissey, Cindy Lauper e quase todos os outros que a irlandesa fez depois. E mais tarde partiu para o cinema, mas já como diretor, e fez, entre outras, a ótima The Jacket.
Encerrando o conceito desses últimos dois textos, havia na alvorada da década de noventa, nesses artistas associados com diretores como os citados e outros como Spike Jonze, Russel Mulcahy e Nigel Dick, um certo desejo de transcendência, desde a arte concebida como busca da beleza. Mas hoje esse desejo se perdeu ou foi por outros rumos, mais difusos, como se a produção de imagens num videoclipe fosse também um significante dos tempos.


Captura do vídeo de 1990, Nothing compares 2U, dirigido por John Maybury, na última foto.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

George Bernard Shaw e a distribuição de renda


- Como vê o senhor a situação económica da Inglaterra? As coisas vão piorar ou o velho pais conseguirá se dar bem?
- Ficou tarde demais para falar se a Inglaterra ou qualquer outra nação vai se dar bem. A pergunta hoje é: a civilização vai se dar bem? (...) Todo estudioso sério do assunto sabe que a estabilidade de uma civilização depende, no final das contas, da sabiduria com que ela distribui sua renda e tutela a carga de trabalho, assim como da veracidade da educação que fornece às suas crianças. Nós não distribuímos nossa renda em absoluto: a jogamos na rua para que briguem por ela os mais fortes e os cobiçosos, entre aqueles que estejam dispostos a se humilhar nessa briga, depois de entregar a parte do leão aos ladrões profissionais, gentilmente chamados de proprietários.
Enchemos de mentiras às nossas crianças e punimos todo aquele que tenta jogar luz nelas. Os remédios que administramos para reparar as conseqüências da nossa demência são mais impostos, inflação, guerras, vivisecções e inoculações, vinganças, violência, magia negra.Quanto à reforma, nem sequer temos suficiente bom senso para reformar a nossa ortografia. Não quero nem falar! Pergunte outra coisa!

Poderia ser o jornal de hoje, mas não é. Essa entrevista com o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw é de 1931. Foi feita por Hayden Church e publicada no Liberty. Mais de setenta anos depois, as velhas questões não foram resolvidas, as velhas mazelas continuam sendo as mesmas.
Foto de John Hammond
Versão para o português de Juan Trasmonte

terça-feira, 1 de julho de 2008

Deixemos o vento falar


Quando considero cuidadosamente os curiosos hábitos
dos cachorros
estou obrigado a concluir
que o homem é um animal superior.

Quando considero os curiosos hábitos do homem,
eu confesso, meu amigo, que me surpreendo.

Meditatio, de Ezra Pound
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Ezra Pound no túmulo de James Joyce, de Horst Trappe


Escolhido em 1999 pelos seus colegas como o maior poeta do século vinte, Ezra Pound foi o farol da vida literária na Europa por muitos anos.
Seu provinciano Idaho de nascença ficou pequeno e lá foi ele com seu amigo TS Eliot para NovaYork primeiro e para o Velho Mundo depois.
Pioneiro do verso livre, ultrapassou os limites estabelecidos sustentado nos seus imensos conhecimentos literários. Teimoso até o messianismo e generoso como ninguém nessa fogueira de vaidades, influenciou e ajudou a Joyce, Hemingway, Stein e Yeats, entre muitos.
Seu desprezo pelo poder financeiro foi tão radical como exóticas suas teorias económicas. Assim acabou envolvido no fascismo em longas arengas na Radio Roma.
Tarde demais para ser chamado de traidor por suas -como eles gostam de dizer- "atividades anti norteamericanas", o poeta foi declarado maluco e enviado pro louqueiro mesmo, onde passou muitos anos. Mas nem tantos como os quarenta que levou para escrever seus Cantos, esse doce fracasso.
E no final ficou quieto, em silêncio. Foi quando disse a célebre frase "Deixemos o vento falar".
Mas não há nem haverá nenhuma correção política que possa apagar a chama criativa do velho Ezra.

sábado, 7 de junho de 2008

Filho de uma mãe






O filme de 1997, Some mother's son (segundo as várias traduções ruins Mães em luta e Em nome do filho) reproduz a luta das mães irlandesas que começou em 1979, quando um grupo de jovens liderados por Bobby Sands -interpretado no filme por John Lynch- decidiram fazer greve de fome para serem considerados presos políticos enquanto o governo Thatcher recusava essa condição, que seria legitimar a condição política da luta pela independência da Irlanda da Inglaterra. O roteiro foi escrito a quatro mãos por Jim Sheridan e Terry George -na última foto-, que também dirigiu o fime. A dupla também assinou o mais conhecido In the name of the father, no caso dirigido por Sheridan.
Além das questões políticas -que estão plantadas e muito bem, longe da propaganda- a questão brilhante do filme é a colocação do olhar feminino de este e todos os conflictos, representado por Helen Mirren e Fionnula Flanagan que, aliás, dão uma aula de interpretação. Uma versão irlandesa das Madres de Plaza de Mayo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Wilde entrevista Wilde


- A que coisa atribui o senhor o fato de que tão poucos homens de letras estejam escrevendo peças para serem apresentadas ao público?

- Em primeiro lugar à existência da censura irresponsável. Que a minha Salomé não possa ser representada é prova suficiente da insensatez de semelhante instituição. (...)
Em segundo lugar ao boato persistentemente difundido fora do pais pelos jornalistas nos últimos trinta anos, no sentido de que o dever do autor teatral é agradar o público. A arte tem como objetivo tanto procurar prazer quanto dor. O objeto da arte é ser arte. Como tenho dito em alguma ocasião, a obra de arte deve dominar o espectador e não o espectador à arte.
- O senhor não admite exceção nenhuma?
- Admito sim. Os circos, onde aparentemente os desejos do público ficam razoavelmente satisfeitos.

Grande criador de frases -poderia colocar aqui uma a cada dia- Oscar Wilde é lembrado por muita gente mais por essa condição do que pelo conhecimento da sua obra.
Em 1895 ele escreveu junto com seu assistente Robert Ross uma entrevista a si mesmo, que foi publicada no Saint Jame's Gazette. No texto inteiro ele sacaneia os jornalistas ingleses com essa facilidade infinita que tinha para provocar. Inclusive Wilde elogia aos jornalistas franceses só pra chatear. Deixo aqui um fragmento dessa entrevista, onde o irlandês ensaia mais uma definição da arte.
Esse foi o ano em que Wilde caiu em desgraça: sua peça Salomé foi traduzida por ele ao francês quando a estreia foi proibida no território britânico por "indecente". Depois a história conehcida, foi processado pelo Marquês de Queensberry, pai do jovem amante dele, enviado à prisão por dois anos. O escritor viveu seus últimos tempos no exílio parisino.

Foto de Napoleon Sarony

terça-feira, 8 de abril de 2008

Beckett no Hotel Liberia


Desse modo apesar
pelo bom tempo e pelo mau
trancado na casa dele e na de outros
como se fosse ontem lembrarmos do mamute
o dinoterio os primeiros beijos
os períodos glaciares não trazem nada novo
o grande calor do ano treze da sua era
fumaça sobre Lisboa Kant friamente pendurado
sonhar em gerações de carvalhos e esquecer o pai
seus olhos se tinha bigode
se era bom de que morreu
não por isto nós-come sem menos apetite
o mau tempo e o pior
trancado na sua casa e na de outros

Espanhol

De ese modo a pesar
por el buen tiempo y por el malo
encerrado en su casa y en la de otros
como si fuera ayer acordarnos del mamut
el dinoterio los primeros besos
los períodos glaciares no traen nada nuevo
el gran calor del año trece de su era
humo sobre Lisboa Kant fríamente colgado
soñar en generaciones de robles y olvidar al padre
sus ojos si tenía bigote
si era bueno de qué murió
no por esto nos come sin menos apetito
el mal tiempo y el peor
encerrado en su casa y en la de otros

Escrito por Samuel Beckett no ano de 1937, no Hotel Liberia, em Paris
Foto de Henri Cartier-Bresson

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Sinéad



In this heart

lies for you

A lark born

only for you

Who sings

only to you

My love

My love

My love

I am waiting for you

For only to adore you

My heart is for you

My love

My love

My love

This is my grief for you

For only the loss of you

The hurting of you

My love

My love

My love

There are rays on the weather

Soon these tears will have cried

All loneliness have died

My love

My love

My love

I will have you with me

In my arms only

For you are only

My love

My love

My love.
In this Heart, de Sinéad O'Connor