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domingo, 12 de abril de 2009

Corín Tellado



As vezes penso que eu acabei trabalhando no jornalismo não tanto pelo meu ofício de escrever quanto pelo fascínio que as bancas de jornais me provocavam na infância. Aquela sensação que Caetano revelara em Alegria, alegria: “O sol se reparte em crimes espaçonaves, guerrilhas, em Cardinales bonitas...
Mas minha admiração, diferentemente daquela de Caetano, já era noturna. Do outro lado da avenida, em frente da minha casa, ficava a banca do Francês, que nem lembro se era francês mesmo porque parecia portenhíssimo com sua disfonia crônica de gritar manchetes de jornal.
Naquela banca meus pais compravam as revistas deles: a Claudia e a Gente para minha mãe e a TV Guía para o meu pai, onde freqüentemente ele mesmo aparecia.
O meu irmão mais velho ganhava a Pelo, a única revista de rock na época e Jorge e eu comprávamos as de esportes: El Gráfico (que era a melhor mas ficava com Jorge por direito de irmão mais velho) e a Goles para mim, que era ruim de impressão, as fotos nem eram preto e branco mas de uma cor marrom.
As vezes tinhamos que esperar que o caminhão chegasse trazendo as revistas que eram como pão que acabara de sair do forno.
Nesse festival de cores que as bancas são, havia várias revistas que chamavam minha atenção, mas que me eram desconhecidas ou proibidas. Uma delas era Corín Tellado. Na capa sempre tinha um homem e uma mulher abraçados ou de mãos dadas ou com suas bocas prestes pra beijar.
Corín Tellado, na minha ignorância infantil, não era nome de gente, mais parecia um substantivo seguido de um adjetivo, algo assim como “amor impossível” ou “coração quebrado”.
Mas Corín Tellado era o nome da autora desses pequenos romances, uma espanhola nascida em Asturias. E aquelas revistinhas se vendiam aos montes.
Minha mãe não lia aquelas coisas, mas todas as empregadas liam e milhões de outras mulheres (e homens) também, porque as leitoras se contavam por milhões.
Com o passar do tempo, eu soube que Corín Tellado -que morreu ontem aos 82 anos- era a rainha do chamado romance cor de rosa; que escreveu mais de 4.000 romances cortos e vendeu 400 milhões de exemplares, desde que publicou o primeiro, em 1946.
Desprezada pelos intelectuais, esses intelectuais nossos que torcem o nariz por tudo que seja popular, ela não era uma escritora de requintes estilísticos. Contava histórias sentimentais do ponto de vista feminino, paixões de um erotismo velado, até onde o regime de Franco permitia. Beijos, corpos que se roçavam e caricias limitadas.
A escritora acordava às cinco da manhã, bebia café só e fumava ao tempo que começava a rotina de escrever na máquina Olivetti. Assim foi até que o corpo aguentou. Depois dictava as linhas que a nora digitava no computador.
Porque, como ela dizia: “alguém tinha que escrever as histórias de amor”.



Foto de Corín Tellado do arquivo do jornal El Mundo