Mostrando postagens com marcador Artistas italianos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artistas italianos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dez versões estrangeiras de músicas brasileiras


Esperanza Spalding


Pink Martini


Pizzicato Five


Arcade Fire


1. Pink Martini – Tempo perdido
Pode ser criticado o ecletismo do Pink Martini, mas o som deles é irretocável. No Hey Eugene, seu mais recente disco -que já tem dois anos- eles gravaram uma versão muito digna de Tempo perdido, do grande Ataulfo Alves, que originalmente gravara Carmen Miranda em 1933, abrindo as portas do sucesso para Ataulfo.

2. Sinéad O’Connor – How insensitive (Insensatez)
Em seu disco de 1992, Am I not your girl?, Sinnéad gravou as músicas que ouvia sendo uma criança, canções que segundo ela, fizeram que se tornasse cantora. O clássico de Jobim e Vinicius, em inglês, tem toda uma carga inédita que só a cantora irlandesa consegue reformular. Bom, a essa altura não preciso dizer que tenho uma queda por Sinnéad, certo?

3. Pepino Di Capri – Ancora con te (Outra vez)
Da grande compositora paulistana Isolda, responsável por várias gemas do Rei, esta versão italiana gravada em 1985, na mesma linha da original, por Pepino Di Capri.

4. Jim Capaldi com George Harrison – Anna Julia
O baterista da histórica banda Traffic era casado com uma carioca chamada Ana. Quando ouviu o megasucesso do Los Hermanos, fez questão de gravar. Levou a música pra Inglaterra e contou com a breve participação do seu vizinho ilustre, George Harrison, que iria morrer pouco depois. A música teve ainda o Ian Paice, lendário baterista do Deep Purple. Jim também já subiu e se ainda faltava mais fama a essa música de Marcelo Camelo, ficou lá imortalizada em inglês como a última gravação em colaboração do saudoso George.

5. Queen Latifah – Quiet nights of quiet stars (Corcovado)
Jobim é o xodó dos compositores de jazz e das cantoras dos Estados Unidos. Queen Latifah faz bonito nessa versão de Corcovado, com ginga de bossa nova.

6. Arcade Fire – Brazil (Aquarela do Brasil)
Uma das músicas mais gravadas pelo mundo fora, também caiu nas graças da banda canadense multi-instrumental Arcade Fire. Lançado em 2005 como lado B do single Cold Wind. Uma versão simpática dominada pelas cordas, que lembra a dimensão da criação de Ary Barroso.

7. Art Garfunkel – Waters of march (Águas de março)
Aqui faltou tempero. A metade do lendário Simon & Garfunkel canta com seu habitual jeito doce mas não acerta no ritmo do clássico do Jobim.

8. Pizzicato Five – The Girl from Ipanema (Garota de Ipanema)
Adoro esses japoneses malucos do Pizzicato Five. Pena que eles acabaram. No seu jeito retrô-kitsch eles seguem a tradição japonesa que pouco cria e tudo recria. E eles fizeram uma criação mesmo com Garota de Ipanema, apesar das trossentas versões que já existiam em 1997, quando foi lançada a dos Pizzicato na coletánea Lounge-A-Palooza.

9. Attaque 77 – Amigo
Assim como várias bandas do rock brasileiro fizeram versões de músicas dos hermanos -algumas com bastante sucesso e sem conhecimento da origem- também existem as versões em espanhol de músicas brasileiras, feitas por bandas do rock argentino. O Attaque 77 é um grupo de hard rock surgido na década de noventa. Eles eram bem fraquinhos no começo, mas com os anos de estrada ficaram melhores. A inocente Amigo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos virou um rock de guitarras sujas que já fez pular bastante à galera.

10. Esperanza Spalding – Ponta de areia
Uma das mais novas queridinhas do jazz estadunidense, Esperanza é boa de palco, canta bonito e encara o contrabaixo acústico. No cd que leva seu nome, Esperanza gravou a belíssima Ponta de areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Diferentemente da Jane Monheit, que assassinou o português na sua ininteligível Só tinha de ser com você, Esperanza se esforçou na fonética. Deu certo.

Pra começar, é lista, não é ranking, então como sempre escrevo, a ordem não indica valor. E como a lista de versões gringas de músicas brasileiras é imensa, escolhi essas dez que, de uma ou outra maneira acrescentam valor ou representam curiosidade.
Com autoridade de gringo posso dizer que neste quesito se bem prefiro a grande maioria das versões originais, gosto de ouvir outras aproximações à música brasileira, desde que sejam feitas com respeito intelectual. Isto é pode virar a música de ponta-cabeça, mas não pode canibalizar sem nenhuma proposta artística. Enfim, poderá haver segundas partes para esse item.


Foto de Esperanza Spalding de Johan Sauty
Foto de Pink Martini de Sherri Diteman
Foto de Pizzicato Five de Soren Hitting
Foto do Arcade Fire de Wendy Lynch

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Dez frases inesquecíveis do Oscar


Bob Hope, o maior apresentador que o Oscar já teve


Michael Moore alfinetou Bush... e foi vaiado


O rei do mundo e dos megalômanos: James Cameron


Vanessa Redgrave contra os fascistas


1. “Muitos dos meus amigos o receberam, mas é a primeira vez que eu tenho um nas mãos”
(Steven Spielberg, em 1993 depois de anos de frustrações)

2. “Parece com meu tio Oscar”
(Margaret Herrick, funcionária da biblioteca da Academia, olhando para a estatueta . Foi em 1931. Ela sem querer batizou o prêmio para sempre)

3. “Assim termina esse simulacro de justiça. Lembramos aos perdedores que Laurence Olivier e eu tambén não ganhamos um Oscar”
(Bob Hope, 1961)

4. “Oh my god! It’s George C. Scott!”
(Goldie Hawn, em 1971, depois de abrir o envelope e descobrir que o vencedor era Scott, que tinha recusado a indicação uns dias antes)

5. "Que vergonha, senhor Bush!"
(Michael Moore em 2003, depois de receber o prêmio de melhor documentário e três dias depois das tropas dos Estados Unidos invadirem Iraque)

6. “Eu sou o rei do mundo!”
(James Cameron, 1998, depois da avalanche de prêmios para Titanic)

7. "Eu os homenageio por não se deixarem intimidar diante das ameaças de um grupo de valentões sionistas, cujo comportamento é um insulto à verdadeira altura dos judeus de todo o mundo. Prometo-lhes, que seguirei lutando contra o antisemitismo, a opressão e o fascismo"
(Vanessa Redgrave, 1978, depois de receber o Oscar pelo filme Julia e em resposta aos ataques sofridos por um setor dos judeus, por ter apoiado a causa palestina)

8. "Muito obrigado, Billy Wilder. Para mim o senhor é Deus"
(O diretor espanhol Fernando Trueba em 1993, agradecendo ao diretor estadunidense, o deus particular dele)

9. "Eu queria ser Júpiter e raptar todo mundo. E fazer amor com todo mundo no chão porque... não sei dizer, isto é algo que tem a ver com amor"
(Roberto Benigni, em 1998, depois de pular por em cima da plateia para receber o Oscar para A vida é bela)

10. “A melhor atuação desta noite vai correr por conta dos perdedores”
(Bob Hope, 1959)


Foto de Bob Hope da Agência AP
Fotos de Michael Moore e James Cameron, reprodução da imagem televisiva
Foto de Vanessa Redgrave da Agência Bettman/Corbis

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Acqua alta




Veneza hoje está debaixo d'água. O fenômeno da acqua alta não é novo na cidade mas hoje a entrada da maré atingiu o maior nível em 22 anos. A cidade está com 1,56 metro e o código vermelho diz que é melhor ficar quieto, pois o ponto mais alto é esperado amanhã.
A pior inundação foi em 4 de novembro de 1966. Nesse link estão as imagens de um jornal da época.
Há sempre em mim uma contradição e depois um vestígio de culpa herdado da nossa civilização judeu-cristã. Ao mesmo tempo que sinto dor pelas pessoas que estão vivendo momentos ruins por causa da invasão d'água, encontro beleza nas imagens.
Essas duas fotos representam a minha contradição. Por um lado, a mulher atravessando sozinha a Praça São Marcos alagada, e do outro, os gondolieri bebendo e fazendo vida contemplativa.

Foto dos gondolieri de Manuel Silvestri (Reuters)
Foto da Piazza San Marco de Luigi Costantini (AP)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dez filmes, dez escândalos


Brando e Schneider em Ultimo tango em Paris


Sexo estilo anos trinta, sob o olhar crítico de Buñuel


Ellen Burstyn fantástica em Requiem for a dream


Robert DeNiro e as mazelas de Vietnã

1. Laranja Mecânica (A clockwork orange), de Stanley Kubrick (1971)
Com um trabalho magistral de Malcolm McDowell, o filme baseado no romance de Anthony Burgess recebeu um X pelas cenas de sexo e violência extrema. Só em 2000 foi liberada a versão completa do diretor.

2. A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ), de Martin Scorsese (1988)
Um grupo de ativistas católicos chegou a oferecer mais de seis milhões de dólares para comprar e destruir o filme. Isso explica o nível de irritação que causou o filme baseado no romance de Nikos Kazantzakis nos grupos mais conservadores do catolicismo. A possibilidade de um Cristo humano, não sacrificado, que chega a sonhar com o amor físico ia em contra de todos os dogmas. Resultado: o filme foi censurado e os protestos e ameaças de bombas nos cinemas se repetiram em muitos países.

3. Ultimo tango em Paris (Le dernier tango à Paris), de Bernardo Bertolucci (1972)
Recebeu a qualificação X-Rated, reservada aos filmes pornôs pelas cenas de sexo entre Marlon Brando e Maria Schenider, especialmente aquela da manteiga. Foi proibida em muitos países. Bertolucci adorava comprar uma polêmica, de fato depois fez A lua, onde uma mãe tinha insinuantes cenas com seu filho. Mas além da lição de interpretação de Brando, Ultimo tango é um impiedoso retrato da insatisfação humana.

4. O Franco Atirador (The Deer Hunter), de Michael Cimino (1978)
Um dos filmes que retratou de maneira mais crua a realidade nos campos de Vietnã, na época em que ainda as feridas daquela guerra estavam sangrantes. Uma dívida social exibida sem pudor. Cimino vivia envolvido em polêmicas. Esse filme foi taxado de reacionário e depois ele fez o maldito O portal do paraíso, que ficou na história como o filme que mandou a United Artists à falência.

5. A paixão de Cristo (The Passion of Christ), de Mel Gibson (2004)
Pelo oposto, o mesmo resultado do filme de Scorsese. A paixão de Cristo foi taxada de anti-semita e de fazer uma dúbia leitura da Biblia. Gibson enfrentou mais problemas depois e caiu na desgraça para muitos produtores de Hollywood da origem judia.

6. Réquiem para um sonho (Requiem for a dream), de Darren Aronofsky(2000)
Um casal jovem viziado em drogas e o consumismo que o capitalismo dos anos noventa impulsou no mesmo nível de adicção. A cena em que a moça branca entrega seu corpo para um dealer negro era muito mais forte do que o público tipo dos Estados Unidos podia tolerar.

7. Instinto selvagem (Basic Instinct), de Paul Verhoeven (1992)
Um roteiro do Joe Eszterhaz nas mãos do diretor holandês deu nisso. Ativistas homossexuais fizeram protestos nas portas dos cinemas pela homofobia do protagonista. Além disso, as cenas de sexo motivaram outros protestos de setores conservadores, incluída a famosa cruzada de pernas da Sharon Stone e o filme recebeu nos Estados Unidos a classificação inicial NC-17 que reduzia potencialmente a quantidade de cinemas para o seu lançamento.

8. Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato (1985)
Quatro documentaristas viajam à Amazônia para filmar tribos de canibais. Típico filme de exploitation que de tão ruim virou objeto de culto. O filme foi proibido na Itália e Deodato foi indiciado, na presunção que os protagonistas tinham sido assassinados mesmo nas filmagens. Até eles aparecerem vivinhos. Aí o processo acabou sendo uma ótima publicidade.

9. Aladdin, de Ron Clements e John Musker (1992)
Os filmes bonzinhos para todos os públicos dos estúdios Disney nem sempre são o que parecem. Uma das letras de uma música dizia que “Arabia é um país onde cortam sua orelha se não gostam do seu rosto”. O Comité Arabe-americano antidiscriminação fez um protesto veemente e a Disney teve que mudar a letra para os seguintes lançamentos.

10. A idade de ouro (L’Age d’Or), de Luis Buñuel (1930)
Foram tantas as polêmicas que tiveram o diretor espanhol Luis Buñuel como protagonista, que ele só merece vários textos como esse. Imaginem (ou melhor vejam) um filme que em 1930 tem cenas que citam genitália, masturbação e uma grande orgia coroada por um duque que guia o rebanho de infieis a caminho de Paris e que parece bastante com Jesus Cristo. O filme permaneceu proibido na França por 50 anos. A feroz crítica social que atravessa a obra inteira de Buñuel, estava adiantada à sua época.

Religião, sexo, violência e política são assuntos sensíveis para tradicionalistas e censores. A história do cinema conta também a história dos países e das conjunturas.
Essa lista foi inspirada por uma outra que vi no site da Entertainment Weekly. Acrescentei os meus comentários, coincidi em alguns filmes e coloquei outros. Claro que tratando-se de polêmicas e cinema, haverá mais listas.
Como sempre a ordem não indica valor.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Os dez mais da Geração Paissandu


Jeanne Moreau, belle em Jules e Jim


Inesquecível Gian Maria Volonté


Plus belle Jean Seberg em Acossado


Jean-Luc Godard, o cara


Cinzas e diamantes, obra capital de Wajda

1. Cinzas e diamantes (Popiól i diament), de Andrzej Wajda (1958)
2. Acossado (À bout de souffle), de Jean-Luc Godard (1959)
3. O ano passado em Marienbad (L'Année derniere à Marienbad), de Alain Resnais (1961)
4. Jules e Jim, uma mulher para dois (Jules et Jim), de François Truffaut (1961)
5. Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha (1964)
6. Alphaville, de Jean-Luc Godard (1965)
7. O demônio das onze horas (Pierrot le fou), de Jean-Luc Godard (1965)
8. A chinesa (Le chinoise), de Jean-Luc Godard (1967)
9. Weekend à francesa (Weekend), de Jean-Luc Godard (1968)
10. A classe operária vai ao paraíso (La classe operaia va in paradiso), de Elio Petri (1971)

Segundo consta no livro Geração Paissandu (Editora Relume Dumará, 1996), do jornalista Rogério Durst, esses são os dez títulos preferidos pelo público do agora desaparecido cinema do bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O autor define aquele local como um "ninho de moços ávidos por informação e socialização", cujo apogeu se deu no espaço entre ditaduras, que foi de 1964 a 1968, nas épocas em que bastava com uma idéia e a câmera na mão. A única exceção da lista é o filme italiano de Petri.
Vocês encontram aqui meu texto sobre o fechamento do Cine Paissandu.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

As três Graças


Dedico este espaço aos agradecimentos que estavam na minha dívida. Escolhi a linda imagem clássica de Raffaello que representa às Graças, sinônimo de gentileza e simpatia. Na verdade, serão cinco os agradecimentos.

Primeira Graça (Aglaya): Para a amiga Renata D'Elia, editora da revista Paradoxo, que me convidou a participar no staff com meus textos. É uma honra para esse gringo em virtude do nível de escrita dos jornalistas e escritores que colaboram lá. Para começar, a Re escolheu meus pareceres sobre a importância da linguagem visual do videoclipe no advento da MTV.

Segunda Graça (Thalia): Para a amiga Letícia Castro, alma mater do Babel.com que, além de me levar com convicção invejável para o seleto grupo de convidados do Blogueiro Reporter do DiHITT, me deu esse final de semana um selinho com belíssimas palavras para o Nemvem Quenaotem; palavras que meu pudor não me permete reproduzir.

Terceira Graça (Eufrósine): Para Maria Sampaio, artista da fotografia e das letras, a última grande alegria do encontro que me deu a tal da blogosfera. Maria colocou o Nemvem Quenaotem num lugar de destaque entre as recomendações do seu Continhos para cão dormir. Me deixa muito feliz a indicação que vem de uma artista pela que eu tenho uma grande admiração.

Graça Bonus track 1: Para o companheiro José Felipe, do Sempre um pouco de tudo, que também me presenteou com um selo e que é um constante apoio na rede DiHITT, mesmo que eu tenha lá as minhas idas e voltas com os critérios do site.

Graça Bonus track 2: Para Jussara Câmara, do site Idade Maior que, prévio pedido de autorização, reproduziu lá meu texto sobre o fechamento do Cinema Paissandu, no Rio de Janeiro.

Encontram-se todos os dias por aqui gestos generosos como para contestar o egoísmo que campeia no mundo. A todos meu agradecimento.

Reprodução da obra As três Graças, de Rafaelle Sanzio, pintada presumivelmente em 1504

sábado, 23 de agosto de 2008

Quando R.E.M. encontrou García Márquez e Caravaggio











Quando lembro da explosão da MTV e de como modificou o consumo e a pauta de divulgação dos artistas na industria musical, sempre vêm à minha cabeça dois videoclipes: Nothing’s compare’s 2U, de Sinéad O’Connor, dirigido por John Maybury, e Losing my religion, do R.E.M., dirigido pelo indiano Tarsem Singh.
Hoje vamos fazer uma paradinha no videoclipe que impulsionou a música de 1991 que trouxe o sucesso massivo pra banda formada na Georgia, mas especialmente nas influências que permeiam sua estética.
A primeira e clara é a do pintor lombardo Caravaggio e suas cenas religiosas que são uma chave da fase barroca. Como pode-se ver aqui, há passagens do clipe que reproduzem em detalhe várias pinturas do artista.
A segunda influência foi a do relato Un señor muy viejo con unas alas enormes, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Provavelmente o que motivou a adaptação (o próprio Michael Stipe aparece com grandes asas brancas em algumas passagens do clipe) foi a versão fílmica do conto, do diretor Fernando Birri, com roteiro feito a quatro mãos por ele e o próprio Gabo.
Grande criador de comerciais para as mais poderosas marcas, Tarsem Singh, que depois incursionou no cinema com A cela e The Fall, virou e até hoje leva a etiqueta do “diretor do Losing my religion”. Tarsem carregou a expressão dos atores, no estilo dos melodramas que fazem uma parte substantiva da enorme produção indiana de cinema. Na fase brainstorming do projeto, Tarsem viu Michael dançando daquela forma desajeitada e decidiu incorporá-lo ao clipe.
“Losing my religion” é uma expressão usada no norte dos Estados Unidos como sinônimo de perder a esperança, especialmente em pessoas.
Stipe declarou em entrevista à Rolling Stone que a música não é sobre religião mas sobre obsessão. Porém, a iconografia religiosa atravessa o clipe e de fato ele teve difusão proibida na Irlanda, país de forte tradição católica. Há também um forte apelo gay nas imagens (eu diferencio gay de homossexual) também presente na obra do pintor. Inclusive há quem interpreta a música como uma alegoria do “sair do armário”, ou seja, que o narrador seria um homossexual se assumindo como tal.
Eu nunca interpretei dessa maneira embora reconheci a estética gay, que é óbvia numa primeira leitura. Sempre ouvi e vi Losing my religion como uma canção-rezo, uma Romaria da era MTV.
O certo é que Losing my religion, que segundo Stipe foi feita em oito minutos e sustenta parte do seu atrativo no bandolim que o guitarrista Peter Buck estudava na época, continua imbatível, assim na música quanto na imagem. Amém.

Captura de Michael Stipe em cena do videoclip Losing my religion; outras cenas que reproduzem quadros de Caravaggio e foto do diretor Tarsem Singh

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O que deixou Dino Risi




Foi um cinema que confirmou que os italianos foram os grandes mestres do costumismo. Essa geração que em parte vinha do neorrealismo e que foi se juntar com os que surgiram depois, como Monicelli e Scola, teve em Dino Risi um fiel representante.
Cultor da commedia all'italiana, Risi tinha o dom de expor as sombras da sociedade num contexto de absurdo. Eram aqueles filmes em que a gente ficava rindo até ficar sem graça da própria risada porque o contexto, de repente, tinha virado patético. Poveri ma belli, Caro papá, Il sorpasso e Una vita difícile são exemplos desse cinema cheio de entrelinhas e ao mesmo tempo popular que permitiu o luzimento de atores como Vittorio Gassman e Alberto Sordi.
O velho Dino morreu com 91 anos. Dirigiu 80 filmes, o último aos 88 anos.

Foto do diretor Dino Risi no set. Na segunda foto, cena de Il Sorpasso (1962), com Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant

sábado, 24 de maio de 2008

O diretor e seu fetiche



"Sempre tenho a impressão que um filme existe antes de ser feito. Só devemos juntar as peças, os rostos, as palavras, os sons".

Foto de David Lynch e Isabella Rossellini sob a lente maravilhosa de Helmut Newton.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Fellini e la pazzia


A loucura exerce um grande fascínio. Ser médico num manicômio é como ser diretor de cinema. A gente atinge o poder e é acreditado pelas pessoas. Mas a atmosfera é muito ambígua. Igual acontece num set cinemtográfico, dentro do manicômio a gente se sente protegido, num certo sentido tolo, contra a lei. É feito o ventre materno. A loucura acrescenta um álibi: permete e protege. Você pode viver lá os sonhos mais fantásticos, lançar fantasmas legalmente aceitos, sem precisar de satisfações nem obrigações, protegido pela lei da loucura. Há uma grande liberdade. Você pode criar e viver um mundo totalmente seu, que é muito mais que tentador: é sedutor. Ver tantas pessoas nessa liberdade leva à gente ao delírio. A loucura vira contagiosa. Duas semanas depois eu mesmo fiquei louco. Me senti doente.
Desde Magliano trouxe um relato. Não era um roteiro. Era algo mais do que o livro de Tobino.
Achei que seria um filme muito meu porque eu poderia resumir todos os assuntos que me são caros e, num sensível retrato dessa realidade, incluir uma "transfiguração" que procurei com ânsia. Também poderia incluir um reflexo da ansiedade que segrega o castelo-asilo. O conjunto asumia um caráter extraordinário.
O filme nunca se fez, pelos motivos de sempre.
Não achei um produtor.
De Laurentiis me disse: "Você já fez um filme sobre homossexuais, I vitelloni. Fez um filme sobre vigaristas, Il bidone. Porque você não faz só para mudar um filme sobre gente normal?"
Em lugar de Le donne libre de Magliano fiz Le notti di Cabiria.

Esse depoimento maravilhoso do diretor Federico Fellini exibe um dos seus freqüentes desencontros com os produtores. Em 1955, Fellini estava fascinado com um livro chamado Le libre donne di Magliano, onde o psiquiatra e escritor Mario Tobino narrava suas experiências no hospital psiquiátrico de Magliano. O diretor estava impressionado pelo amor com que o médico retratou seus pacientes. Tanto que passou duas semanas de convívio com os malucos.
Seguindo certa lógica esse poderia ter sido um La dolce vita, posto que para esse grande clássico no começo Fellini também não tinha apoio nenhum. Mas não foi, embora a loucura continuo presente no resto da sua obra.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Ungaretti


Tutto ho perduto dell'infanzia
E non potrò mai più
Smemorarmi in un grido.

L'infanzia ho sotterrato
Nel fondo delle notti
E ora, spada invisibile,
Mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
Ed eccomi perduto
In infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
La vita non mi è più,
Arrestata in fondo alla gola,
Che una roccia di gridi.

Versão em português

Tudo perdi da infância
e já não posso mais
desmemoriar-me num grito.

A infância soterrei
no fundo das noites
e agora, espada invisível
me separa de tudo.

De mim recordo que exultava amando-te,
e eis-me perdido
no infinito das noites.

Um desespero que incessante aumenta
a vida não me é mais,
presa no fundo da garganta,
que uma rocha de gritos.

Tudo perdi, de Giuseppe Ungaretti, tradução de Jorge de Sena

Nasceu no Egito, estudou na França e só conheceu a Itália aos vinte e quatro anos. Atravessou a guerra e espantou as trevas do fascismo no Brasil, onde permaneceu seis anos. Ministrou aulas de literatura italiana na USP. Foi em versos módicos um dos maiores poetas italianos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Ontem, Luca


Luces calientes atraviesan mi mente
luces calientes atraviesan mi mente
Te veo a vos
te veo a vos.

Luces calientes atraviesan mi mente
luces calientes atraviesan mi mente
Te veo a vos
te veo a vos.

Mentira mentira mentira mentira
adónde fuiste adónde fuiste
mentira mentira mentira mentira
adónde fuiste adónde fuiste.

Aprieto los dientes y un calor de mentes
aprieto los dientes y miro a Occidente
y dónde estás vos y dónde estás vos.

Hay días y días y días y días
y dónde estás vos.
Hay minas y minas y minas y minas
y dónde estás vos.

El ojo blindado que me has regalado
El ojo blindado que me has regalado
me mira mal
me mira mal.

El ojo blindado, de Diego Arnedo, Germán Daffunchio y Luca Prodan
Ontem foram vinte anos da partida de Luca Prodan, um italiano de educação inglesa que virou apesar dele estrela do rock da banda Sumo e ícone de uma geração na Argentina.
Ah, sim, e no final dessa música ele acrescentava e repetia varias vezes os versos "yo quiero más" para afirmar esse pequeno grande retrato da insatisfação.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Fra Filippo Lippi


Mais um que foi salvo pela arte. Fra Filippo Lippi foi um maravilhoso colorista e uma grande influência para Botticelli. Orfão criado num convento, um bom dia ele fugiu com uma freira. Depois de tamanho escárnio, só não foi condenado a uma vida desgraçada pelo seu enorme talento para a pintura.
Reprodução do Funeral de São Jerônimo, de Fra Filippo Lippi

terça-feira, 10 de julho de 2007

Exorcismo



Escreva uma lista
com todos os seus medos
não é nenhuma farsa de new age
não é nenhuma onda de catarse
escreva tenho medo de você
mas tenho mais medo é de mim
de não dar certo de dar certo
de atiro atiro e não acerto
será ficar sem grana na velhice
ou na próxima semana
escreva tenho medo de me arrepender
porque arrependimento é sentimento
inútil fútil e banal porque o passado
já passou
escreva tenho medo de não estar fazendo
a coisa certa
de não estar à altura
de voar muito baixo
de não ser criativa nem bonita
nem gostosa ou competente
do meu peito cair e cairem as idéias
escreva tenho medo de pivete
arrogância indiferença egoísmo
fim de tarde mão vazia umbiguismo
doideira avião tabagismo taoísmo
dona rosinha mr bush onanismo
bicho desigualdade monarquia
escreva tenho medo de porcaria
mas escreva escreva escreva
o que é de medo tudo ou nada
escreva uma lista
com todos os seus medos
e vá no super vá no hiper
vá no fundo vá na igreja
vá no templo vá no tempo
vá no alto da floresta
escreva um final pra esse poema.

Exorcismo, de Juan Trasmonte (Todos os direitos reservados)
Foto de Danilo Pasquali


sexta-feira, 11 de maio de 2007

Carnívoro



Uma gota de sangue
pula do prato pipoca
e vai parar no poema
una gota de sangue num splash
deixa um ponto vermelho no poema
eu sou um ser carnívoro
espeto corto esquartejo
trucido carne animal
para poder mastigar
para melhor engolir
jamais tentei ser um vegetariano
salada eu posso até comer de vez em quando
mas eu gosto mesmo é de um churrasco
qualquer pedaço de carne mal passado
gosto de sangue alagando meu prato
até pegar com a mão eu poderia
mas quando sangue mistura com poesia
eu já não sei direto o que é comida
e o que é poesia palavra prato carne.

Carnívoro, de Juan Trasmonte (Todos os direitos reservados)
Oleo, O Açougue, de Annibale Carracci