quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Cinema Paissandu: Preservar ou deixar morrer?




O cinema Paissandu do bairro carioca do Flamengo abrigou na década de sessenta uma geração de jovens que entendiam o cinema e as artes em geral como uma ferramenta de transformação. Uns eram os autores desse cinema e outros eram os polemistas, em calorosas discussões que podiam começar em Godard e acabar na luta de classes.
Agora o grupo Estação, que gerencia a sala, colocou data de validade para o histórico espaço, chamado na atualidade Estação Paissandu. E é pra já, no próximo domingo.
A notícia gerou um movimento de cinéfilos e uma reação acorde com os dias de hoje, um abaixo-assinado veiculado através da internet. Meu primeiro impulso foi clicar lá e assinar também. O Paissandu para mim, morador do bairro, sempre foi um polo cultural, uma referência, o lugar onde corriamos aqueles que não corriamos atrás da novidade. Eu morava na Senador Vergueiro e sabia, mesmo indo pouco nos últimos tempos, que ele estava lá. E eu me orgulhava por pertencer a um bairro que tinha um cinema diferente de quase todos.
Agora, desde a distância do inverno de Buenos Aires penso se o fato de querer manter esses espaços e realmente uma maneira de salvaguardar nossa cultura ou é uma jogada a traição da nossa própria nostalgia.
A realidade é que o Paissandu, com seu cheiro de mofo, não é mais o que era, mas nós também não somos, eles não são. Glauber e Sganzerla morreram, assim como Bergman e Antonioni; Jabor virou colunista do Globo e aqueles anos deixaram uma colheita heterogénea que inclui feridos, recalcados; uns que optaram pelo cinismo e outros que ainda acreditam que a esperança de um mundo senão melhor um pouco menos injusto, essa sim não tem data de validade.
Cinemas de rua viraram templos para que pastores eletrônicos materializem os milagres. Ou seja, quem comparecia ao cinema como quem assiste ao templo foi substituído pelos que comparecem com a ilusão de achar um deus que possa encher o buraco que provoca nos homens a angústia de existir. E o buraco enfim está mais embaixo.
Cinemas são nesses dias espaços descaracterizados que não cheiram mofo nem tem gato andando entre as fileiras. Eles cheiram pipoca e óleo de batata frita. A familiaridade procurada é a uniformidade do sujeito consumista: qualquer cineplex de Botafogo tem que ser igual ao que você encontra em qualquer cineplex do Brighton, na Inglaterra. O sucesso é a identificação, vide McDonalds. Tudo igualzinho, tudo com o mesmo sabor.
O burburinho eletrônico deu como conseqüência que o dono do prédio saiu dizendo que o Paissandu não vai ser trocado por um estacionamiento. Que o prédio será preservado enquanto um investidor -os benditos mecenas posmodernos- é achado. O diretor José Joffily ensaiou uma definição legal: “Eu me aproximava do Paissandu meio atemorizado, porque naquela geração eram todos oniscientes. Eu participava timidamente das discussões que se seguiam às sessões porque, se você falasse mal de certos filmes, acabava a sua vida social, acabavam as suas chances de namorar. Com o fechamento do Paissandu, encerra-se uma época em que o cinema era discutido, não era um mero brinquedo, mas um veículo para a revolução”.
E eu chego ao final dessas linhas com menos certezas que dúvidas. Devemos lutar como Quixotes para manter vivos esse bastiões da cultura? Devemos nos agarrar das paredes porque, parafraseando Serrat, “foi alí onde a Lauren Bacall jurou eterno amor Humphrey Bogart”?
Ou devemos assumir que aquilo não é mais, virou ilusão? Ou devemos deixar os operários derrubarem nosso passado a golpes de picareta e criar novos cinemas Paissandu? Talvez novos desejos e porque não novas utopias.

Texto de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto do cinema Paissandu na década de sessenta, sem crédito do autor
Foto do cinema Paissandu na atualidade de Leonardo Aversa


Confira neste post os dez filmes mais badalados da Geração Paissandu

2 comentários:

Drika disse...

Oi Juan,
Aqui em São Paulo as coisas são parecidas, com as salas que apresentam cinema, a forma de arte, estão minguando, abrindo um espaço cada vez maior para aquilo que se faz em Hollywood, diversão para as massas, cada vez menos importante, cada vez menos interessante.

Não sei como estão as coisas em Buenos Aires, ou no Rio, mas aqui, estamos reduzidos aos blockbusters e pior do que isso, aos blockbusters dublados; já que talvez as pesquisas de marketing das redes de cinema e distribuidoras indicaram que as pessoas além de não querer pensar, não querem ler, nem legendas.
Aqui em São Paulo, ainda resta um pequeno número de salas com liberdade para exibir o que bem entenderem, mas elas têm um público cada vez menor, o que é triste.

E essa é a pior parte de tomar consciência desta realidade dos nossos dias, os filmes não chegam, porque não tem salas para serem exibidos, não tem salas, porque fecharam por falta de público e não tem público porque aquele cenário das salas mega-maxi-hiper-plex é muito mais confortável e oferece apenas diversão....

Ufa! Pensar é tão cansativo! Sentir também!!! Lá vai a multidão dos anestesiados, que aprendeu a levantar a voz apenas quando se trata de contestar leis absurdas, como aquela que diz que não se pode beber álcool antes de dirigir!!!!

Beijos tristes,
Drika

R. D´Elia disse...

Apenas alguns comentários breves, Juan: acabo de ouvir no rádio que a rede de cinemas Cinemark vai reservar algumas de suas salas em shopping centers paulistanos para o chamado "circuito de arte". Estão de olho, é claro, nessa classe média-alta letrada e com grana pra gastar, que deixou de frequentar os cinemas de shopping por causa da má qualidade da programação. No entanto, assim como já acontece no "dia do cinema nacional", a rede cobrará ingressos reduzidos em algumas datas anuais para a exibição de filmes "de arte". Na Folha de S. Paulo de ontem, saiu o resultado de uma pesquisa que revela que a maior parte dos brasileiros prefere ver filmes dublados nas salas de cinema e mais alguns detalhes que vou te passar por e-mail. Bueníssimo post! beijos