
A semana próxima será editado o livro Correspondência. Julio Cortázar, Carol Dunlop, Sylvia Monrós-Stojakovic, que reune nove cartas e cartões do autor de O jogo da amarelinha, cinco da sua esposa, a canadense Carol Dunlop e outras tantas da fotógrafa sérbia, amiga deles.
As cartas, todas dos primeiros anos da década de oitenta, contam o processo criativo de Os autonautas da cosmopista, o livro que Cortázar e Carol escreveram juntos, na estrada que une Marselha com Paris.
Como não tenho notícias sobre a publicação do livro em português, resolvi traduzir um fragmento de uma extensa carta de Carol para Sylvia, onde ela mostra a sua felicidade pela experiência, a sua aflição pela saúde do escritor que tinha diagnóstico de leucemia, embora ele não sabia. Porém, Carol morreu antes que Cortazar, pouco mais de um ano depois de escrever essa carta.
Os editores resolveram manter os erros do original, tratando-se de uma anglo falante que escreveu em espanhol. E eu tentei "traduzir" esses erros. Vocês vão ver, por exemplo, a palavra civilizado, escrita com o esse e outros detalhes mais que mantém o espírito original. Acho que vale a pena.
Aix-En-Provence 10-VIII-81
(...) Outro momento do dia -faz nove ou dez dias que estamos vivendo no caminhãozinho, à beira da Autopista do Sul, mas eu voltarei a explicar tudo, é uma linda loucura- e o grandalhão diz que já está na hora da bebida da tarde. Já bebemos, que foi bom, era vinho porque quando saimos de Paris calculamos mal a ração de uísque, mas depois de amanhã vêm amigos à la rescousse com provisões.
E tenho que te explicar porque estamos vivendo na estrada desde 23 de maio e porque não vamos sair dela antes de 26 de junho. Faz quatro anos, no ano em que eu acabei as minhas férias na sala de reanimação de um hospital de Marseille, depois da minha convalescência na mesma casa onde Julio passou a dele no ano passado, subimos para Paris muito devagar de carro, pela estrada, mas levando uns seis dias, porque ainda eu não estava muito forte e viajar nessa condição cansa.
E daquela viagem, que finalmente foi linda, nos nasceu a idéia de fazer um dia a viagem de Paris pra Marselha, parando um dia em cada parking, e escrever juntos um livro ao redor da experiência, debochando dos antigos exploradores e gozando da ironia de pegar o caminho mais rápido e mais “civilisado”, para fazer uma viagem realmente de tartarugas.
Várias vezes já tinhamos planejado a coisa -a última quando Julio ficou doente- e sempre alguma coisa nos impedia na última hora. Então, esse ano apagamos as datas entre 23 de maio e o final de junho nas agendas e resolvemos fazê-lo custe o que custar. E aqui estamos. Tivemos que mudar um pouco as regras do jogo quando depois de ter estudado o mapa da estrada percebemos que tinha uns 66 parkings e não poderiamos passar mais de dois meses. Então são dois por dia e é muito mais maravilhoso do que a gente imaginou.
O mais impressionante é que talvez desde o segundo dia, achamos tão normal viver assim, que as vezes nos perguntamos porque não viver sempre assim?
Em dez dias fizemos uns 140 kilômetros e vamos descobrindo a cada vez mais a outra estrada, essa misteriosa e secreta via paralela onde no final, é um pouco “todos os parkings o parking”.
A linha do asfalto feita para ir de um lugar para outro virou uma coisa quase abstracta e até estamos a nos perguntar, as vezes, se não teremos chegado a imovilidade total; se não será a autopista e os parkings que se mexem, e não a gente.
Estamos felizes, loucos. Finalmente entramos em um espaço que nos da tempo.
Carta de Carol Dunlop a Sylvia Monrós-Stojakovic (fragmento)
Versão para o português de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Julio Cortázar e Carol Dunlop à beira da estrada Paris-Marselha, do arquivo pessoal do escritor
As cartas, todas dos primeiros anos da década de oitenta, contam o processo criativo de Os autonautas da cosmopista, o livro que Cortázar e Carol escreveram juntos, na estrada que une Marselha com Paris.
Como não tenho notícias sobre a publicação do livro em português, resolvi traduzir um fragmento de uma extensa carta de Carol para Sylvia, onde ela mostra a sua felicidade pela experiência, a sua aflição pela saúde do escritor que tinha diagnóstico de leucemia, embora ele não sabia. Porém, Carol morreu antes que Cortazar, pouco mais de um ano depois de escrever essa carta.
Os editores resolveram manter os erros do original, tratando-se de uma anglo falante que escreveu em espanhol. E eu tentei "traduzir" esses erros. Vocês vão ver, por exemplo, a palavra civilizado, escrita com o esse e outros detalhes mais que mantém o espírito original. Acho que vale a pena.
Aix-En-Provence 10-VIII-81
(...) Outro momento do dia -faz nove ou dez dias que estamos vivendo no caminhãozinho, à beira da Autopista do Sul, mas eu voltarei a explicar tudo, é uma linda loucura- e o grandalhão diz que já está na hora da bebida da tarde. Já bebemos, que foi bom, era vinho porque quando saimos de Paris calculamos mal a ração de uísque, mas depois de amanhã vêm amigos à la rescousse com provisões.
E tenho que te explicar porque estamos vivendo na estrada desde 23 de maio e porque não vamos sair dela antes de 26 de junho. Faz quatro anos, no ano em que eu acabei as minhas férias na sala de reanimação de um hospital de Marseille, depois da minha convalescência na mesma casa onde Julio passou a dele no ano passado, subimos para Paris muito devagar de carro, pela estrada, mas levando uns seis dias, porque ainda eu não estava muito forte e viajar nessa condição cansa.
E daquela viagem, que finalmente foi linda, nos nasceu a idéia de fazer um dia a viagem de Paris pra Marselha, parando um dia em cada parking, e escrever juntos um livro ao redor da experiência, debochando dos antigos exploradores e gozando da ironia de pegar o caminho mais rápido e mais “civilisado”, para fazer uma viagem realmente de tartarugas.
Várias vezes já tinhamos planejado a coisa -a última quando Julio ficou doente- e sempre alguma coisa nos impedia na última hora. Então, esse ano apagamos as datas entre 23 de maio e o final de junho nas agendas e resolvemos fazê-lo custe o que custar. E aqui estamos. Tivemos que mudar um pouco as regras do jogo quando depois de ter estudado o mapa da estrada percebemos que tinha uns 66 parkings e não poderiamos passar mais de dois meses. Então são dois por dia e é muito mais maravilhoso do que a gente imaginou.
O mais impressionante é que talvez desde o segundo dia, achamos tão normal viver assim, que as vezes nos perguntamos porque não viver sempre assim?
Em dez dias fizemos uns 140 kilômetros e vamos descobrindo a cada vez mais a outra estrada, essa misteriosa e secreta via paralela onde no final, é um pouco “todos os parkings o parking”.
A linha do asfalto feita para ir de um lugar para outro virou uma coisa quase abstracta e até estamos a nos perguntar, as vezes, se não teremos chegado a imovilidade total; se não será a autopista e os parkings que se mexem, e não a gente.
Estamos felizes, loucos. Finalmente entramos em um espaço que nos da tempo.
Carta de Carol Dunlop a Sylvia Monrós-Stojakovic (fragmento)
Versão para o português de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Julio Cortázar e Carol Dunlop à beira da estrada Paris-Marselha, do arquivo pessoal do escritor











