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domingo, 11 de janeiro de 2009

Quem vem lá sou eu



Quem vem lá sou eu
quem vem lá sou eu
a cancela bateu
cavaleiro, sou eu...


E para completar uma semana de despedidas, Edith Oliveira, Dona Edith do Prato, subiu no mesmo dia em que foi Casemiro da Cuíca.
Guardiã do samba de roda baiano, mãe de leite de Caetano Veloso, que a levou pro estúdio em 1973, quando gravou o belo Araçá azul, que a crítica chamou de "experimental" porque não conseguia classificar. A voz de Edith abre o disco, acompanhando-se com prato de louça e faca: "Vamo embora pro sertão, oh viola meu bem, viola..."
Dona Edith só foi gravar seu primeiro disco com 86 anos. Já era uma jóia, agora é um documento invalorável, nascido também por gestão da família Velloso.
A foto maravilhosa foi feita pela querida Maria Guimarães Sampaio em 1975, e mostra Dona Edith, com a matriarca dos Veloso, Dona Canô e Mabel Velloso, em uma cena do cotidiano, improvisando um samba na cozinha.
Outras fotos lindas criadas por Maria da grande artista de Santo Amaro da Purificação -que não se dizia artista- estão no Continhos para cão dormir.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O sal é um dom




Minha mãe me deu ao mundo
de maneira singular
me dizendo uma sentença
pra eu sempre pedir licença
mas nunca deixar de entrar

Amanhã, entre as 18 e as 22, acontece a apresentação do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, com textos e receitas colhidas pela filha-poeta Mabel Velloso e fotografias de Maria Sampaio, que aqui já é amiga da casa, para minha honra.
Será em Salvador, no Restaurante Amado, que fica na Avenida de Contorno.
Se pensarmos nas receitas, é de dar água na boca. Se pensarmos nos textos, nas fotos e na carga histórica e emotiva, é de dar água (e sal, que é um dom) nos olhos.

Foto reprodução da capa do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, de Mabel Velloso, com fotografias de Maria Sampaio, editado em parceria pela Corrupio e a Nova Fronteira.

Tudo de novo (fragmento), de Caetano Veloso

domingo, 21 de setembro de 2008

Quero ver Irene rir


Família Veloso. Irene ri.


Caetano Veloso no exílio em Londres


Já tenho escrito que a música Maria Bethânia foi uma das primeiras que despertou minha atração por música brasileira, fora as músicas de Roberto Carlos que eu ouvia em espanhol sendo criança.
Com curiosidade adolescente fui atrás do autor daquela música e assim descobri Caetano Veloso. Na minha primeira viagem ao Brasil, com dezessete anos, trouxe vários vinis, entre eles, aquele que foi o segundo da carreira solo dele, que chamou minha atenção pela capa branca com a assinatura no meio. Pouco sabia então da biografia do artista. Nas primeiras matérias que eu li, alguma falava sobre a viagem dele com Gil para São Paulo com o objetivo de desenvolver a carreira e dos momentos dificis que todo natural de uma cidade pequena tem que atravessar quando vira um migrante.
Quando ouvi Irene pela primeira vez achei natural que fosse, entre guitarras distorcidas que já nos oitenta soavam pitorescas, uma música de saudade do jovem baiano que sentia falta dos seus afetos. Eu não fazia a menor idéia de quem era a Irene da música. No progressivo aumento do meu interesse pela obra de Caetano, soube que Irene era uma das irmãs dele. Pouco tempo depois, num especial da televisão brasileira -daqueles que os meus amigos gravavam com generosidade pra mim quando o acesso à informação era menos democrático e simples- eu soube que a música tinha sido criada pelo artista na cadeia, porque o sorriso de Irene, aberto e sonoro, era o completo oposto daquela realidade.
Fiquei comovido com a história e a beleza da metáfora. Lembrei imediatamente do grande poeta espanhol Miguel Hernández, que escreveu vários dos seus mais estarrecedoramente belos poemas nas prisões da Guerra Civil Espanhola. Mas mesmo ignorando os motivos que levaram Caetano a compor a música, eu já gostava muito dela, da musicalidade rítmica do verso “quero ver Irene rir” e do contraste das guitarras elétricas e o andamento com o que as palavras significavam. Para um adolescente de Buenos Aires, criado na ditadura e na cultura do tango, resultava muito curioso como na música brasileira, letras tristes eram freqüentemente expressadas com músicas que sugeriam o contrário. Com o tempo cheguei a fazer programas de rádio inteiros acentuando essa particularidade, em comparação com a música argentina.
No seu livro Verdade Tropical, Caetano refere assim o acontecimento:
Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita que eu por vezes mencionava Ava Gardner para comentar sua beleza. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra: Eu quero ir minha gente/ Eu não sou daqui/ Eu não tenho nada/ Quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada/ Irene ri, Irene ri, Irene... Foi a única canção que compus na cadeia. (...)
Quando comecei a arranhar as cordas do violão, já com vinte e cinco anos, um dia me surpreendi cantando Irene num ritmo bem mais lento e o círculo fechou, pois senti na própria carne a profundidade da tristeza daquela música.
Eu já tinha conversado com Caetano, em entrevista em Buenos Aires no começo da década de noventa, sobre a tristeza desses anos. Agora, através do encontro humanamente virtual com a arte e a pessoa de Maria Sampaio, achei entre os seus links o Blog de Irene Velloso, precisamente chamado Irene ri, com o palíndromo que descobriu o grande Augusto de Campos. E lá está ela, com seu sorriso, que jamais testemunhei ao vivo, mas que imagino do jeito que o artista o descreveu, no antagonismo da opressão, como uma vitória da liberdade.

Foto da família Veloso de Maria Sampaio
Fragmento do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 1997)
Reprodução da capa do disco Caetano Veloso, de 1969
Foto de 1969 de Caetano Veloso no exílio em Londres, de autor não indicado

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O olhar de Maria Sampaio


O blog traz essas alegrias. Quando Dona Canô, a mãe de todos os Veloso, fez cem anos eu dediquei uma postagem simples, onde tudo o que eu tinha a dizer estava expressado em uma fotografia que achei de Maria Guimarães Sampaio. Nela aparece Dona Canô, sentada sozinha na sala da casa de Santo Amaro, num belíssimo preto e branco. É uma imagem comovente, atravessada pelo silêncio e as recordações. Então só resolvi acrescentar uns versos de Caetano que definem poeticamente à mãe dele, da música Genipapo absoluto.
Ontem, quase um ano depois da postagem, a autora da foto, deixou uma mensagem agradecendo o fato de eu ter colocado o crédito e com um convite para visitar o blog dela.
No Continhos para cão dormir há outras fotografias lindas feitas por Maria, como essa incluída aqui e também seus textos permeados de brasilidade.
Quem anda por aqui sabe que sustento e defendo autoria nos blogs. Esse detalhe de incluir um crédito que pode parecer menor, também pode desaguar no mar do encontro entre pessoas que estão aqui, nesse mundo as vezes chato, jogando luz com a sua arte.

Foto de Maria Sampaio de 1994, da fazenda Mutumpiranga, Nilo Peçanha, Bahia

sábado, 15 de setembro de 2007

Dona Canô - 100 anos


Tudo são trechos que escuto, vêm dela
pois minha mãe é minha voz.

Genipapo absoluto (fragmento), de Caetano Veloso
Dona Canô, a mãe dos Veloso, faz cem anos
Foto de Maria Sampaio

quinta-feira, 8 de março de 2007

Dona Edith do Prato



Vou me embora pro sertão
ô viola meu bem, ô viola
eu aqui não me dou bem
ô viola meu bem, ô viola
sou empregado da Leste
sou maquinista do trem
vou me embora pro sertão
que eu aqui não me dou bem
ô viola meu bem, viola
ô viola meu bem, viola

Viola meu bem, tradicional, adaptação de Caetano Veloso.
Cadeira de vime. Prato de louça e faca. Chiado. Mãe de leite do quinto filho de Dona Canô. Filha de Oxum-Maré e as Vozes da Purificação que vem da igreja.
Jota Velloso, filho da moça que morria de amor chamada Clara, e Bethânia nem sabem o bem que fizeram à humanidade ao produzir o disco de Dona Edith.
A arte de Dona Edith do Prato talvez diga mais sobre o sentido da vida que dezenas de tratados filosóficos.