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domingo, 4 de janeiro de 2009

Helen Suzman, in memoriam



E no mesmo dia em que J.D. Salinger fez noventa anos, na Africa do Sul emprendeu a viagem Helen Suzman, que fora por mais de uma década a única lutadora contra o apartheid no parlamento daquele país.
Helen era filha de imigrantes judeus lituanos. Deputada desde 1953 pelo Partido Unido e depois pelo Partido Progressista (hoje Aliança Democrática), em 1961 começou a chamar a atenção, levantando a voz contra o regime racista. Passou a visitar com freqüência Nelson Mandela e outros prisioneiros na prisão de Robben Island.
A carreira política de esta professora universitária de História da Economia, foi encerrada em 1989, pouco antes de Mandela ser liberado e com as negociações sobre o fim do apartheid avançadas. Mas seu trabalho teve outros objetivos também: Mrs. Suzman foi ativista pela independência de Zimbábue e na luta pelos efeitos da AIDS na Africa do Sul.
Lá foi-se uma mulher corajosa, que arriscou a própria vida combatendo um dos regimes mais sanguinários do século vinte, quando seus pares nem chegavam perto dos negros.
Na casa dos noventa, Helen continuava na ativa na sua Fundação e nas horas de lazer, juntava-se com as amigas para jogar bridge.



Foto de Helen Suzman com Nelson Mandela, poucos dias depois da libertação do lider do CNA, em 1989 (Associated Press)
Foto recente de Helen Suzman de Wendy M. Greenfield

sábado, 19 de julho de 2008

Nkosi sikelel’ iafrika!



Esta manhã entrou um raio de luz pela janela. É uma luz morna e fragmentada que projeta às grades na parede. É uma parede branca como são brancos os homens que me têm confinado aqui.
Eles teimam em nós taxar de comunistas, violentos, terroristas e quem sabe quantas outras coisas, e a gente só quer andar pelas nossas ruas, sentar nos nossos bares no fim da tarde. Porque esta é a nossa terra.
Mas como será a prisão dos que me têm prisioneiro? Como serão as mãos do carrasco de Benjamin?
Os silêncios ficaram acumulados nas minhas costas como ficaram acumuladas as chicotadas nas costas de todos os meus companheiros, daqueles que nunca vi, daqueles que nunca verei.
Lembro da minha primeira noite no cárcere de Robben Island. “Nativo! Banto!”, gritavam eles.
Tenho meus ossos contraídos pela umidade, mas eles nunca souberam disso. A ignorância foi a lei deles, e as armas, a valentia.
Aqui conversei com as minhas dúvidas, toquei com insistência as marcas da minha pele nas palmas das mãos, procurando respostas. Aqui as lágrimas me levaram até a fronteira onde só restava claudicar.
Rufa o tambor. Fogo em Soweto. Agora lembro dos que já não verei: Tambo, Moloise, Bikko. Mas essa luz teima em entibiar as grades. Embora eu não possa viver, um dia essas portas vão se abrir. Nkosi sikelel’ iafrika!! Deus abençoe África.

Texto de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Primeira foto de Nelson Mandela queimando seu passe em 1960, pouco antes do CNA tomar as armas e ser declarado ilegal
Segunda foto de Nelson Mandela na cela em Robben Island onde passou 18 dos 27 anos que ficou preso


Escrevi essa crônica para o programa de rádio Doble Equis em 2000. É um texto em primeira pessoa que fiz tentando me colocar no corpo de Nelson Mandela na cadeia.
O resto da história todos conhecemos. Ontem Nelson Mandela fez 90 anos.