Mostrando postagens com marcador Artistas espanhois. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artistas espanhois. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de junho de 2009

Benavente e a Espanha emigrante



Sábados ao meio-dia tem cerimônia de almoço na casa da minha mãe. Eu aproveito para ver ela e encontrar meus irmãos e sobrinhos. Mas a visita sempre tem um bonus. Difícil é voltar de lá de mãos vazias. Já é de praxis que ela diga:

- Vê se tem alguma coisa pra você lá.

“Lá” é uma pilha de papeis, recortes de jornal e afins e pode abranger desde uma entrevista da Marisa Monte no jornal Clarín até um caderno meu da escola.
A maioria das vezes eu digo

- Joga fora, mãe.

Mas quase sempre encontro pelo menos uma pérola. Ontem foram uns livros franceses da época em que ela estudava a língua, na adolescência dela, vários livros de teatro do meu pai, incluído uma espécie de “Manual do ator” de épocas pretéritas e um livro de crônicas e peças curtas do grande escritor espanhol Jacinto Benavente, prémio Nobel de Literatura em 1922.
Meu pai conheceu Benavente quando ele veio para Buenos Aires por causa da estreia da peça “Los intereses creados”. Um dos tesouros mais prezados da minha família é a dedicatória de punho e letra do autor, parabenizando meu pai pela interpretação de um dos malandros que protagonizam a peça.
Lembro da admiração com que meu pai falava de Benavente, das suas frases brilhantes e do humor irônico que o esanhol praticava. De maneira que não foi uma surpresa achar um outro livro dele entre tantos que meu pai deixou.
Mas foi uma surpresa e tanto encontrar naquele livro um texto de Benavente sobre os emigrantes espanhóis nos começos do século vinte. Isso no mesmo dia em que eu lera no jornal que Espanha adotava normas mais rígidas com os imigrantes.
Pensei que merecia uma tradução. Vejam como mudaram os tempos e o signo. Vejam o troco que a Espanha -outrora pais de emigrantes- da hoje para os imigrantes.

A Espanha dessangra-se, a Espanha despovoa-se; é uma fugida louca como de exército em dispersão, que na fugida consuma a sua derrota e a sua ruina. E em nome de quem vamos detê-los? Que lei pode obrigar a morrer de fome? Toda terra é terra de promessas para quem nada tem na sua. Quem foge não escolhe o caminho. Ai, a derrota dos otimistas que ainda julgam à natureza, mãe amorosa, que tem no colo calor para todos os filhos dela!
Como o rei Lear, na sua loucura de pai, assim pode clamar a Espanha: “Venham, filhos! Eu vos darei emigrantes para levar para terras longinquas. Não a grandeza da epopeia de outros tempos mas desolação, miséria e morte”.
Nada mais triste que um desses barcos atestados de emigrantes, mercadoria barata pela que ninguém vai exigir indenização por perdas e danos, aconteça o que acontecer. E se o barco não for daqueles destinados para ese transporte só, se os passageiros de luxo, com todas as mordomias são oferecidos como contraste, onde achar mais cruel desigualdade?



Emigrantes (fragmento), texto de Jacinto Benavente, do livro Crónicas y diálogos (Ediciones literarias J. Pallarés, Valencia, 1911)
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de imigrantes detentos nas Ilhas Canárias, da Agência AP

quarta-feira, 3 de junho de 2009

As migranhas, Almodóvar e o Tai Chi Chuan



Na entrevista em que apresentou seu último filme, Los abrazos rotos, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar contou que o roteiro do filme foi escrito no meio de migranhas ferozes. Eu fiquei maravilhado, de novo, com o milagre da criação. Lembrei de Frida Kahlo, prostrada na cama depois que o acidente quebrou a coluna dela, pintando essas obras maravilhosas. Isso é tirar leite das pedras mesmo.
Poucas semanas depois, comecei a acordar no meio da noite por causa de uma dor no olho, como se alguém estivesse puxando dele para atrás com uma pinça. Eu padezi essas migranhas por ciclos, de cinco em cinco anos mais ou menos, sempre por questões relacionadas com a visão. A primeira vez foi quando descobri que precisava usar óculos; a segunda, quando os óculos ficaram velhos.
Lembro da última porque foi em 2001, na época em que morava no Rio.
Enfim, o caminho natural foi consultar meu oftalmologista que eu não via por mais de uma década.
Mas oftalmologista, igual que clínico e dentista eu acho que não é médico pra escolher de uma lista. São, na minha concepção integrista, que nem o amor, se for possível, eles têm que ser pra vida inteira.
Cheguei lá e encontrei a figura. Filho e neto de oculistas, membro conspícuo do Conselho de Oftalmologia. Magro, com essa barba de filósofo dos anos setenta, Rafael é do estilo menos é mais. Quando fui pedir mais aumento nos óculos, ele quis tirar; mandou eu ficar longe de todo tipo de telas e comer pouco nas épocas de muito trabalho.
Outra vez que uma conjuntivite estava me apurrinhando (e eu que não ia com ele porque não estava no meu serviço médico) e me mandou parar com todos os colírios e fazer uma solução com água e xampu Johnson pra crianças e passar nos cílios. Sarei depois de um mês de enfiar laboratórios inteiros nos olhos.
Dessa vez ele checou os meus óculos, olho fundo no fundo dos meus olhos, tomou a pressão deles e disse:

- Sua visão está melhor do que a última vez que eu te vi. Sim, você desenvolveu um pouco de astigmatismo, mas reduziu a miopia. Acontece com os anos. Não é por aqui. Você está bem do fígado?
- Acho que estou.
- Essas migranhas são típicas de pessoas que estão muito tempo sentadas. Quando você levanta da cama, passa, certo?
- Depois de um tempo, passa.
- Então... você não é que fazia Tai Chi Chuan?
- Iiiih, Rafael, há muito tempo que parei.
- Talvez seria bom voltar. Senão faça ioga. Vou te mostrar umas asanas, que são fáceis.

Ato seguido, Rafael deitou no chão do consultório e com os braços esticados e as palmas pro chão levantou as pernas e levou as por cima da cabeça.
- Andar também é muito bom. No sábado passado, minha mulher e eu andamos cinco horas.

Eu saí de lá aliviado por não ter nenhum tubarão mordendo meu olho, mas já cansado de pensar o que seria de mim saindo pra andar cinco horas.
Resolvi voltar pro Tai Chi, que já estava dando voltas na minha cabeça. E estou fazendo o esforço intelectual para começar essa semana, enquanto reservo uma sessão com minha fisioterapeuta, que é uma garota filha de japoneses que mistura as técnicas ocidentais com as orientais.
Mesmo assim, no percurso dessas novas decisões, está custando dormir a noite toda sem uma dose de ergotamina.
E como uma das minhas reclamações na frente do espelho estava sendo a falta de tempo pra escrever, decidi dar uma de Almodóvar. Claro, longe de pretender chegar na altura da unha do pé dele. Mas quando a dor me acorda, encaro o caderninho e maltrato versos. Série que já dei em chamar “Poemas da migranha”.

Ando perambulo ambulo devaneio
nas sombras da casa
feito uma criatura
dos pesadelos de Almodóvar
bêbado dos licores do aquecedor
ando feito pagador
carregando o andor
arrancado do reino
dos sonhos sem dor
feito zumbi de George Romero
zumbi de Cannes sem palmarês
do sonho mor de ser
no útero
ao chão de papelão
amanhecer sem cobertor
no escuro menos cúmprice
puxado pelo olho
que me expõe
jogado no mistério
dessa dor.

Migranha (I), de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Pedro Almodóvar de Ruven Afanador

domingo, 12 de abril de 2009

Corín Tellado



As vezes penso que eu acabei trabalhando no jornalismo não tanto pelo meu ofício de escrever quanto pelo fascínio que as bancas de jornais me provocavam na infância. Aquela sensação que Caetano revelara em Alegria, alegria: “O sol se reparte em crimes espaçonaves, guerrilhas, em Cardinales bonitas...
Mas minha admiração, diferentemente daquela de Caetano, já era noturna. Do outro lado da avenida, em frente da minha casa, ficava a banca do Francês, que nem lembro se era francês mesmo porque parecia portenhíssimo com sua disfonia crônica de gritar manchetes de jornal.
Naquela banca meus pais compravam as revistas deles: a Claudia e a Gente para minha mãe e a TV Guía para o meu pai, onde freqüentemente ele mesmo aparecia.
O meu irmão mais velho ganhava a Pelo, a única revista de rock na época e Jorge e eu comprávamos as de esportes: El Gráfico (que era a melhor mas ficava com Jorge por direito de irmão mais velho) e a Goles para mim, que era ruim de impressão, as fotos nem eram preto e branco mas de uma cor marrom.
As vezes tinhamos que esperar que o caminhão chegasse trazendo as revistas que eram como pão que acabara de sair do forno.
Nesse festival de cores que as bancas são, havia várias revistas que chamavam minha atenção, mas que me eram desconhecidas ou proibidas. Uma delas era Corín Tellado. Na capa sempre tinha um homem e uma mulher abraçados ou de mãos dadas ou com suas bocas prestes pra beijar.
Corín Tellado, na minha ignorância infantil, não era nome de gente, mais parecia um substantivo seguido de um adjetivo, algo assim como “amor impossível” ou “coração quebrado”.
Mas Corín Tellado era o nome da autora desses pequenos romances, uma espanhola nascida em Asturias. E aquelas revistinhas se vendiam aos montes.
Minha mãe não lia aquelas coisas, mas todas as empregadas liam e milhões de outras mulheres (e homens) também, porque as leitoras se contavam por milhões.
Com o passar do tempo, eu soube que Corín Tellado -que morreu ontem aos 82 anos- era a rainha do chamado romance cor de rosa; que escreveu mais de 4.000 romances cortos e vendeu 400 milhões de exemplares, desde que publicou o primeiro, em 1946.
Desprezada pelos intelectuais, esses intelectuais nossos que torcem o nariz por tudo que seja popular, ela não era uma escritora de requintes estilísticos. Contava histórias sentimentais do ponto de vista feminino, paixões de um erotismo velado, até onde o regime de Franco permitia. Beijos, corpos que se roçavam e caricias limitadas.
A escritora acordava às cinco da manhã, bebia café só e fumava ao tempo que começava a rotina de escrever na máquina Olivetti. Assim foi até que o corpo aguentou. Depois dictava as linhas que a nora digitava no computador.
Porque, como ela dizia: “alguém tinha que escrever as histórias de amor”.



Foto de Corín Tellado do arquivo do jornal El Mundo

segunda-feira, 30 de março de 2009

Liberar (d)os outros



Eu vim aqui para me liberar dos outros
e para liberar os outros de mim

o vento parou nas pedras
no dia da criação
predação caça e conquista
outra pele sobre a pele
em cada sangue houve um outro
as pazes inventaram ilusão
as pazes sempre fugazes
a impronta do suor ficou nos portos
a rede a peixaria que sustenta
e a mão onde a esperança se revela.

Nas terras sossegadas tirou os sapatos
o homem urbano
e assim se fez a dor e a maresia
banhou os ares destas praias
a cada dia andar armar a vida
e a cada nova terra ser um outro

eu vim aqui para me liberar dos outros
e para liberar os outros de mim.

Liberar (d)os outros, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de
Yanyel (Yanire Fernández)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os abraços quebrados de Almodóvar




O novo Almodóvar vem aí. Los abrazos rotos é estrelada pela recente ganhadora do Oscar, Penélope Cruz, que vive um triángulo de louca paixão (isso que os franceses chamam de amour fou) com seu marido magnata (José Luis Gómez) e um cineasta cego (Lluís Homar).
O filme nasceu de uma fotografia que o diretor tirou há anos de um casal abraçado na areia da ilha de Lanzarote e foi ganhando forma nas noites em que Almodóvar padecia migranhas terríveis, tanto que era preciso que ele ficasse quieto no escuro. Assim foi imaginando esses personagens e essa história que faz homenagem ao cinema negro.
O diretor, que ao meu entender é um grande mestre na filmação de um bom pranto, define sua mais nova criação como "um drama seco", onde os personagens já choraram tudo o que tinham pra chorar, mas isso antes do filme começar.
Enquanto esperamos a chegada da novidade a essas praias, fica essa imagem linda do diretor e sua musa.

Foto de Penélope Cruz e Pedro Almodóvar de Sofía Sánchez e Mauro Mongiello

terça-feira, 3 de março de 2009

Espanhóis são os outros



Segundo um estudo publicado hoje na Espanha, a maioria dos adolescentes da chamada Segunda Geração (filhos de imigrantes nascidos na Espanha ou morando lá desde pequenos) não querem ficar naquele país. Para o trabalho, que foi realizado pela Universidad Pontificia de Comillas, junto com a Universidade de Princeton e a Universidade de Clemson, foram consultados 3.375 estudantes do ensino público e particular.
O relatório diz ainda que nas escolas são freqüentes as brigas entre jovens de diferentes nacionalidades e que 53% dos entrevistados manifestaram a intenção de assistir à universidade, mas menos da metade desses acredita que vai conseguir.

Uma boa parte deles -mesmo nascidos no território europeu- não se consideram espanhóis. 60 nacionalidades foram representadas na mostra. Os países de origem predominante são Equador, Colômbia, Romênia e Marrocos.
Ao mesmo tempo, hoje o governo espanhol anunciou um programa de retorno para mais de cem mil imigrantes, dos chamados sem papéis.

Foto, Reunión, de Risabhadeva Maldonado, ganhadora do concurso Infancia Inmigrante: La Generación del Futuro

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Dez frases inesquecíveis do Oscar


Bob Hope, o maior apresentador que o Oscar já teve


Michael Moore alfinetou Bush... e foi vaiado


O rei do mundo e dos megalômanos: James Cameron


Vanessa Redgrave contra os fascistas


1. “Muitos dos meus amigos o receberam, mas é a primeira vez que eu tenho um nas mãos”
(Steven Spielberg, em 1993 depois de anos de frustrações)

2. “Parece com meu tio Oscar”
(Margaret Herrick, funcionária da biblioteca da Academia, olhando para a estatueta . Foi em 1931. Ela sem querer batizou o prêmio para sempre)

3. “Assim termina esse simulacro de justiça. Lembramos aos perdedores que Laurence Olivier e eu tambén não ganhamos um Oscar”
(Bob Hope, 1961)

4. “Oh my god! It’s George C. Scott!”
(Goldie Hawn, em 1971, depois de abrir o envelope e descobrir que o vencedor era Scott, que tinha recusado a indicação uns dias antes)

5. "Que vergonha, senhor Bush!"
(Michael Moore em 2003, depois de receber o prêmio de melhor documentário e três dias depois das tropas dos Estados Unidos invadirem Iraque)

6. “Eu sou o rei do mundo!”
(James Cameron, 1998, depois da avalanche de prêmios para Titanic)

7. "Eu os homenageio por não se deixarem intimidar diante das ameaças de um grupo de valentões sionistas, cujo comportamento é um insulto à verdadeira altura dos judeus de todo o mundo. Prometo-lhes, que seguirei lutando contra o antisemitismo, a opressão e o fascismo"
(Vanessa Redgrave, 1978, depois de receber o Oscar pelo filme Julia e em resposta aos ataques sofridos por um setor dos judeus, por ter apoiado a causa palestina)

8. "Muito obrigado, Billy Wilder. Para mim o senhor é Deus"
(O diretor espanhol Fernando Trueba em 1993, agradecendo ao diretor estadunidense, o deus particular dele)

9. "Eu queria ser Júpiter e raptar todo mundo. E fazer amor com todo mundo no chão porque... não sei dizer, isto é algo que tem a ver com amor"
(Roberto Benigni, em 1998, depois de pular por em cima da plateia para receber o Oscar para A vida é bela)

10. “A melhor atuação desta noite vai correr por conta dos perdedores”
(Bob Hope, 1959)


Foto de Bob Hope da Agência AP
Fotos de Michael Moore e James Cameron, reprodução da imagem televisiva
Foto de Vanessa Redgrave da Agência Bettman/Corbis

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A noite em que vimos os Reis Magos


A noite do 5 de janeiro era sempre única. A véspera da chegada dos Reis Magos despertava em mim uma ilusão incomparável, porque o mistério de Melchior, Gaspar e Baltazar era mais atraente que o do próprio Papai Noel.
Segundo a tradição, deviamos escrever as cartas com os nossos pedidos depois do Natal, e na noite esperada, colocar os sapatinhos na sala e deixar as janelas abertas.
Também era aconselhável colocar água fresca em uma vasilha ou balde e um pouco de capim que os garotos como eu, que morávamos em apartamento, precisávamos colher em alguma praça. Pois os camelos certamente estariam com sede e fome apôs a longa viagem.
Depois seguia a parte mais difícil, a de tentar conciliar o sono. Crianças que são usinas de energia, naturalmente cansadas, ficam nesse dia excitadas como se tivessem bebido dois litros de café. Porque o desejo oculto de todos nós era ver os Reis.
Uma noite, com meu irmão Jorge, resolvemos ficar acordados até eles aparecerem. Quando mamãe mandou todo mundo dormir, fizemos aquela comédia, disfarçamos a situação e quando ela foi embora, ficamos os dois de joelhos sobre a cama dele, debruçados na janela.
Se bem que não havia tanto céu para enxergar -cidade grande é assim- ficamos por horas olhando e jogando conversa fora, tecendo palpites.
“Será que eles entram por essa janela?”
“Qual é o mais alto deles?”
“Para onde é que eles vão primeiro?”
Nem sei o tempo que ficamos formulando essas perguntas retóricas, inventando histórias.
Deve ter sido uma estrela fugaz ou a força do desejo, mas até hoje meu irmão e eu juramos que essa noite vimos os Reis Magos atravessar o céu.
Não lembramos do que aconteceu depois, mas com certeza o sono nos venceu e na manhã seguinte achamos os presentes que meu pai tinha colocado junto aos nossos sapatos.
Depois a gente cresce e a verdade vem implacável: os Reis Magos não existem, são os pais que dão os presentes.
A gente cresce mais e vem o revisionismo histórico: os tais Reis nem eram três, ninguém sabe a certo quantos eles eram. Parece mesmo que eram astrólogos que vinham do Oriente para conhecer o rei dos judeus nascido; que uma estrela guia os conduziu até Belem e que traziam presentes à altura de um deus: ouro, incenso e mirra. São diferentes versões narradas sobre o nascimento de Jesus, na verdade o único que contou a tal visita no evangélio foi Mateus.
O outro mistério pra gente também foi develado: um dos reis era negro porque eles vinham de muito longe, de países diferentes.
E os camelos? Só criança para acreditar que esses camelos podiam voar. Mas também se eles eram Magos mesmo bem podiam fazer os camelos voarem.
Mas como a gente continuou crescendo, depois descobrimos que aqui era bem dificil achar um negro para ficar fantasiado de Baltazar na porta de alguma loja de brinquedos. Depois da febre amarela e a Guerra do Paraguai, os negros viraram uma raridade.
Nos meus anos no Brasil, senti falta desse ritual do 5 de janeiro, de ver as crianças com os rostos acessos pela emoção. Em troca, conheci no interior do Rio as folias dos Reis.
Mas a tradição cultural não é brincadeira. Nos países hispano-falantes os Reis Magos têm mais ibope que Papai Noel, que é de raiz anglo-saxona.
E na medida do que fomos crescendo, fomos perdendo a inocência. Quando uma pessoa é ingênua por aqui costuma se dizer que “acredita nos Reis Magos”.
Meu irmão e eu já sabemos que os Reis Magos não existem, mas que naquela noite nós os vimos, disso temos certeza.

Reprodução do óleo La adoración de Los Reyes Magos, de El Greco (1568)

6/1: Deixo aqui meu agradecimento a Letícia Castro, do Babel.com, que reproduziu esse texto no seu popularíssimo blog.

E as surpresas dos Reis continuam. A querida Maria Guimarães Sampaio, como só ela sabe, escreveu no seu Continhos para cão dormir um texto lindo sobre o Ciclo Natalino no interior da Bahia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dez filmes, dez escândalos


Brando e Schneider em Ultimo tango em Paris


Sexo estilo anos trinta, sob o olhar crítico de Buñuel


Ellen Burstyn fantástica em Requiem for a dream


Robert DeNiro e as mazelas de Vietnã

1. Laranja Mecânica (A clockwork orange), de Stanley Kubrick (1971)
Com um trabalho magistral de Malcolm McDowell, o filme baseado no romance de Anthony Burgess recebeu um X pelas cenas de sexo e violência extrema. Só em 2000 foi liberada a versão completa do diretor.

2. A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ), de Martin Scorsese (1988)
Um grupo de ativistas católicos chegou a oferecer mais de seis milhões de dólares para comprar e destruir o filme. Isso explica o nível de irritação que causou o filme baseado no romance de Nikos Kazantzakis nos grupos mais conservadores do catolicismo. A possibilidade de um Cristo humano, não sacrificado, que chega a sonhar com o amor físico ia em contra de todos os dogmas. Resultado: o filme foi censurado e os protestos e ameaças de bombas nos cinemas se repetiram em muitos países.

3. Ultimo tango em Paris (Le dernier tango à Paris), de Bernardo Bertolucci (1972)
Recebeu a qualificação X-Rated, reservada aos filmes pornôs pelas cenas de sexo entre Marlon Brando e Maria Schenider, especialmente aquela da manteiga. Foi proibida em muitos países. Bertolucci adorava comprar uma polêmica, de fato depois fez A lua, onde uma mãe tinha insinuantes cenas com seu filho. Mas além da lição de interpretação de Brando, Ultimo tango é um impiedoso retrato da insatisfação humana.

4. O Franco Atirador (The Deer Hunter), de Michael Cimino (1978)
Um dos filmes que retratou de maneira mais crua a realidade nos campos de Vietnã, na época em que ainda as feridas daquela guerra estavam sangrantes. Uma dívida social exibida sem pudor. Cimino vivia envolvido em polêmicas. Esse filme foi taxado de reacionário e depois ele fez o maldito O portal do paraíso, que ficou na história como o filme que mandou a United Artists à falência.

5. A paixão de Cristo (The Passion of Christ), de Mel Gibson (2004)
Pelo oposto, o mesmo resultado do filme de Scorsese. A paixão de Cristo foi taxada de anti-semita e de fazer uma dúbia leitura da Biblia. Gibson enfrentou mais problemas depois e caiu na desgraça para muitos produtores de Hollywood da origem judia.

6. Réquiem para um sonho (Requiem for a dream), de Darren Aronofsky(2000)
Um casal jovem viziado em drogas e o consumismo que o capitalismo dos anos noventa impulsou no mesmo nível de adicção. A cena em que a moça branca entrega seu corpo para um dealer negro era muito mais forte do que o público tipo dos Estados Unidos podia tolerar.

7. Instinto selvagem (Basic Instinct), de Paul Verhoeven (1992)
Um roteiro do Joe Eszterhaz nas mãos do diretor holandês deu nisso. Ativistas homossexuais fizeram protestos nas portas dos cinemas pela homofobia do protagonista. Além disso, as cenas de sexo motivaram outros protestos de setores conservadores, incluída a famosa cruzada de pernas da Sharon Stone e o filme recebeu nos Estados Unidos a classificação inicial NC-17 que reduzia potencialmente a quantidade de cinemas para o seu lançamento.

8. Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato (1985)
Quatro documentaristas viajam à Amazônia para filmar tribos de canibais. Típico filme de exploitation que de tão ruim virou objeto de culto. O filme foi proibido na Itália e Deodato foi indiciado, na presunção que os protagonistas tinham sido assassinados mesmo nas filmagens. Até eles aparecerem vivinhos. Aí o processo acabou sendo uma ótima publicidade.

9. Aladdin, de Ron Clements e John Musker (1992)
Os filmes bonzinhos para todos os públicos dos estúdios Disney nem sempre são o que parecem. Uma das letras de uma música dizia que “Arabia é um país onde cortam sua orelha se não gostam do seu rosto”. O Comité Arabe-americano antidiscriminação fez um protesto veemente e a Disney teve que mudar a letra para os seguintes lançamentos.

10. A idade de ouro (L’Age d’Or), de Luis Buñuel (1930)
Foram tantas as polêmicas que tiveram o diretor espanhol Luis Buñuel como protagonista, que ele só merece vários textos como esse. Imaginem (ou melhor vejam) um filme que em 1930 tem cenas que citam genitália, masturbação e uma grande orgia coroada por um duque que guia o rebanho de infieis a caminho de Paris e que parece bastante com Jesus Cristo. O filme permaneceu proibido na França por 50 anos. A feroz crítica social que atravessa a obra inteira de Buñuel, estava adiantada à sua época.

Religião, sexo, violência e política são assuntos sensíveis para tradicionalistas e censores. A história do cinema conta também a história dos países e das conjunturas.
Essa lista foi inspirada por uma outra que vi no site da Entertainment Weekly. Acrescentei os meus comentários, coincidi em alguns filmes e coloquei outros. Claro que tratando-se de polêmicas e cinema, haverá mais listas.
Como sempre a ordem não indica valor.

sábado, 25 de outubro de 2008

Dez músicas sobre exílio


Cat Stevens


Jaime Roos


Horacio Guarany


Manu Chao


1. Iracema (Chico Buarque)
Uma moça do Ceará que, como tantas, vai atrás do american dream. Exílios modernos que freqüentemente já não são por motivos políticos mas por ilusões, as vezes vãs, de prosperidade financeira. Iracema “lava chão numa casa de chá” enquanto ambiciona estudar canto lírico. Destaque: “Uns dias, afoita,me liga a cobrar: ‘É Iracema da América’ ”.

2.Clandestino (Manu Chao)
Essa música virou hino dos “sem papeis”, a enorme masa de exilados que tem que sobreviver em terra estrangeira fugindo das autoridades. Para quem já esteve em algum lugar pelo menos um dia com o visto vencido faz um significado especial. Destaque: “Soy una raya en el mar, fantasma en la ciudad. Mi vida va prohibida, dice la autoridad”

3.Corrandes d'exili (Quadras do exílio) (Pere Quart-Lluís Llach)
Um catalão da resistência deve atravessar a fronteira com a França nos tempos da ditadura franquista. De uma beleza comovente, como só o Lluís Llach consegue cantar nessa língua. Deixo a versão de Ovidi Montllor (que não é o compositor como diz na tela), num clipe pavoroso Destaque: “Para que nos-perdõe a guerra que a quebra eu me deito e beijo a terra, antes de cruzar a fronteira”

4. Maria Bethânia (Caetano Veloso)
História que o próprio Caetano contou inúmeras vezes. Da época do exílio londrino, quando pediu em forma de canção para a irmã Bethânia que lhe-escrevesse uma carta. Destaque: “Maria Bethânia, please send me a letter I wish to know things are getting better”

5. Foreigner Suite (Cat Stevens)
Uma música de amor e liberdade composta por alguém que sabe bem do que está falando. Lembrei dessa música por causa do belíssimo retrato que Regina escreveu sobre Cat Stevens há poucos dias. O atual Yusuf foi na época pra Jamaica para fazer esse disco que não foi bem recebido pela crítica, com essa suite que durava o lado A inteiro, na época em que o que se esperava dele era belas melodias de três minutos. Destaque: “Why wait until it's your time to die before you learn what you were born to do?”

6. Un español habla de su tierra (Luis Cernuda – Paco Ibáñez)
Maravilhoso poema do grande Luis Cernuda, musicado pelo também grande Paco Ibáñez. A ditadura de Franco, que desterrou a tantos e que pareceu eterna em seus quarenta anos. Destaque: “Amargos son los días de la vida, viviendo sólo una larga espera a fuerza de recuerdos”.

7. Caballo que no galopa (Horacio Guarany)
E assim como muitos espanhóis vieram pra Argentina nos anos de Franco, ná década de setenta foi a vez de muitos argentinos procurarem abrigo na Espanha. O cantor de folclore Horacio Guarany, perseguido e ameaçado de morte, fez várias músicas dolorosamente belas na Espanha, algumas com letra do poeta também perseguido Armando Tejada Gómez. Uma declaração explícita de política de quem opta por estar longe antes do que “vender” seu violão. Destaque: “Soy jinete de la noche, voy galopando hacia el alba, ando lejos de mi tierra por no vender mi guitarra”.

8. Exile (Geoffrey Oryema)
A obra toda do cantor e compositor ugandês Geoffrey Oryema está atravessada pela dor do exílio. A Uganda do Idi Amin cobrou, entre muitas, a vida do próprio pai de Geoffrey. Foi o início de um longo desarraigamento. Destaque: Bom, se tiver algum ugandês na área que ajude a traduzir a letra, eu agradeço.

9. Los olímpicos (Jaime Roos)
Como todo pais pequeno, o Uruguai tem destino de criar seus filhos e vê-los irem embora. Essa belíssima música de murga carnavalesca, que identifica a tantos uruguaios que moram no estrangeiro, está focada perto das festas do final do ano, datas especialmente difícis para exilados. Já com a perspectiva dos ensaios do carnaval o autor se interroga sobre onde foram parar tantos uruguaios. A música destaca também essa zona cinza onde já nem voltar nem ficar fazem sentido. Destaque: “Volver no tiene sentido, Tampoco vivir allí, El que se fue no es tan vivo, El que se fue no es tan gil”

10. Cuando me acuerdo de mi país (Patricio Manns)
Depois da queda de Salvador Allende, o Chile suportou a mais cruenta ditadura da sua história. Patricio Manns foi um dos artistas populares que melhor expressou essa mistura de dor e raiva que está no dia-a-dia dos exilados por motivos políticos. Versão belíssima de Mercedes Sosa, que mudou na gravação do disco o verso “desperto fuzil” por “desperto cravo”. Destaque: “Cuando me acuerdo de mi país me muero de pan, me nublo y me doy”.

Bonus track: Volver (Carlos Gardel-Alfredo Lepera)
No final do filme El día que me quieras, Gardel canta Volver. O filme foi lançado em 1935, pouco depois da trágica morte do cantor. Os lindos versos de Lepera -responsável pelas letras de muitos sucessos de Gardel- refletem a dor de quem volta para constatar que nada será como antes. O verso “veinte años no es nada” ficou no imaginário popular argentino a até hoje é dito como metáfora da rapidez do passar do tempo.

Vocês sabem que o que eu chamo de vida estrangeira é um dos assuntos centrais desse blog. Então aqui uma lista com algumas músicas que expressam os sentimentos de tantas pessoas que cada dia abandonam a terrinha. Se alguém precisar de tradução para as frases em espanhol, é só gritar. Como eu sempre digo, a ordem das músicas listadas não indica valor.

Foto de Cat Stevens do arquivo da revista Rolling Stone
Foto de Jaime Roos do jornal El País
Foto de Horacio Guarany do jornal Clarín (maldito costume que têm esses jornais de não colocar o autor da foto)
Foto de Manu Chao de Alexa Brunet

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Savater e as fortalezas


Os países mais afortunados acham que podem fazer fortalezas e ficar lá dentro com o que precisam, com pobres suficientes para que trabalhem para eles, mas não incomodem. Mas este é um conceito errado, porque o mundo tem atingido tal nível de interconexão que, ou nos salvamos todos ou perdemos todos. Hoje ser cosmopolita e ser solidário é ser realista. Acreditar que é possível que alguns pequenos grupos salvem-se enquanto os outros perecem devorados por um mar de necessidades é um erro enorme. Ninguém salva-se nem afunda sozinho.

Fragmento da entrevista da jornalista Socorro Estrada a Fernando Savater, publicada ontem no jornal Clarín
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Santi Burgos

O espanhol Fernando Savater é o filósofo mais popular da terra dele. Polêmico e polemista, agora mesmo está envolvido em uma briga de intelectuais por ter redatado e defender o Manifesto pela Língua Comum (Manifiesto por la Lengua Común), que reclama pelos direitos lingüísticos dos hispano-falantes nas comunidades bilíngües da Espanha. Nascido no País Vasco, também é um ativo militante contra os nacionalistas etarras.
Mas, coincidindo ou não com as suas idéias políticas, é um prazer ler seus livros de filosofia, freqüentemente embutidos nas listas dos mais vendidos, entre os romances e as biografias que estão na moda. A nova obra de Savater, que motivou essa entrevista, chama-se A aventura do pensamento e traduz com simplicidade a obra de filósofos fundamentais para entender o desenvolvimento da civilização ocidental.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Miguel Hernández, a Espanha que não foi


Menos tu vientre,
todo es confuso.

Menos tu vientre
todo es futuro
fugaz, pasado,
baldío, turbio.

Menos tu vientre
todo es oculto.

Menos tu vientre
todo inseguro,
todo postrero,
polvo sin mundo.

Menos tu vientre
todo es oscuro.
Menos tu vientre
claro y profundo.

Versão em português

Menos seu ventre
tudo é confuso.

Menos seu ventre
tudo é futuro
fugaz, passado,
baldio, turvo.

Menos seu ventre
tudo é oculto.

Menos seu ventre
tudo inseguro,
tudo postreiro,
poeira sem mundo.

Menos seu ventre
tudo é escuro.
Menos seu ventre
claro e profundo.

Miguel Hernández foi um dos maiores poetas da língua espanhola. Lutou junto aos republicanos na Guerra Civil espanhola e morreu no cárcere. Em apenas 31 anos deixou uma obra belíssima. A morte do poeta pelo regime franquista privou ao mundo de um artista que estava na melhor fase da sua criação e foi definida como o símbolo da Espanha que poderia ter sido e que não foi.
Desde o ponto de vista literário, o poeta se vale aqui da figura de repetição (anáfora) no início de cada verso. Mais um poema dedicado à sua esposa
Josefina Manresa, Menos seu ventre destaca o valor da mulher como o único espaço seguro num mundo caótico e também como emblema da fertilidade. Nesse sentido, a obra do poeta está atravessada pela idéia de uma mulher forte e ao mesmo tempo profundamente feminina.

Menos tu vientre, de Miguel Hernández
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto do arquivo de Miguel Hernández na prisão

domingo, 27 de julho de 2008

O samba de Clementina que virou música dos Parchis



Eram altas horas da madrugada quando, naquele zapping narcótico antes de dormir, me deparei com o filme argentino La gran aventura de los Parchis (1982), dirigido por Adrián Quiroga, pseudônimo do cineasta Mario Sábato, filho do reconhecido escritor Ernesto Sábato.
Parchis foi um grupo de crianças espanholas inventado como negócio de um verão só pela gravadora Belter, mas cujo sucesso estourou de tal maneira que foram três anos de Parchis até na sopa. Eu fui salvo de cair naquela febre porque na época já estava saindo do serviço militar e pronto pra ir pra guerra das Malvinas, o que felizmente depois não aconteceu.
Espremendo o sucesso, os garotos protagonizaram vários filmes. Esse um que peguei ontem foi filmado em Buenos Aires, Rio de Janeiro e as Cataratas do Iguaçu.
Quando a minha chupeta eletrônica foi dar com ele, os Parchis estavam prestes pra voar pro Rio. Aí larguei o controle remoto, com o perigo que a minha namorada acordasse, me flagrasse assistindo isso e fosse embora pra sempre.
É uma antiga afição minha descubrir esses links impensados entre Argentina e Brasil, mas o que aconteceu a seguir foi o mais bizarro dos achados. Como é típico desses filmes, as canções estão embutidas e de uma hora pra outra, no meio da trama sai todo mundo cantando e dançando. Assim foi como pareceu me reconhecer uma música no meio do sotaque espanhol das crianças que brincavam nas areias de Copacabana numa coreografia insofrível. Pois não era outra que o samba de morro Pergunte ao João, de Helena Silva e Milton Costa, popularizado pela nossa saudosa rainha Quelé, a Clementina de Jesus. O assassino da versão em espanhol -vejam a incoerência da letra- é um tal de M. Salina. E o resultado só vendo para acreditar.
Então, aqui está um fragmento da
música original interpretada por Clementina. Debaixo seguem as duas letras e a pérola é o clipe do filme onde os Parchis cantam Pregúntale a Juan.
Agora só me resta achar esse dvd que merece fazer parte da minha coleção.

Pergunte ao João

Quem quiser ver é só subir o morro
O samba mora no meu barracão
Pergunte ao João, ele sabe a picada
Ele sabe a morada
lá do meu barracão

Pregúntale a Juan

Si un día vas a Río de Janeiro
Subir al morro es todo tu afán.
Tú pedirás ambiente verdadero,
Y con Juancita te contestarán
Pregúntale a Juan, que está en el ambiente,
Conoce a la gente
y sabe hacer plan.
Pregúntale a Juan,
por bossa y por samba
Porque él, de la banda
es el capitán.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Corre touro até o mar




Às oito horas da manhã em ponto explode a fagulha, abrem-se as portas do curral e os touros -em média 600 kilos- ganham as ruas de paralelepípedos. Não demoram mais do que três minutos, em geral, em percorrer os 850 metros que os separam das areias onde uma multidão saúda com salvas de palmas fervorosas o final do encierro. Resulta difícil de acreditar que um espetáculo tão curto possa chamar tanto à atenção. Quem não consegue assistir ao vivo aos encierros das festas de San Fermín pode conferir através da excelente transmissão da televisão espanhola.
A tradição remonta à Idade Média, quando os pastores aproveitavam os primeiros clarões de luz para levar às reses até a Plaza Mayor. Eles faziam nessa hora para não atrapalhar o normal desenvolvimento das atividades. Assim nasceram os encierros que hoje são a principal atração sanferminera e atraem uma multidão de espanhóis e estrangeiros entre o 7 e o 14 de julho. TVE televisa o acontecimento desde 1981 com um nível de excelência que permite envolver o espectador que está longe, aquele para quem pode ser difícil comprender a raiz desse ritual. Se enxergar sem preconceito, sem cair no facilismo da brutalidade, os sanfermines são um espetáculo único, fascinante.
O narrador Javier Solano, que sabe tudo sobre a cultura dos touros faz silêncio pra gente ouvir os moços pedindo a proteção do santo, com os jornais enrolados nas mãos. Cada um desses três cânticos culmina com as vivas ao San Fermín, em espanho e em euskera.
E quando o encierro começa o narrador fica calado, ficando só o som direto e as imagens captadas por quinze câmeras distribuídas ao longo do percurso. Depois é só adrenalina pura, com os chifrudos avançando sobre uma massa humana que inclui grandes corredores, temerários corpos desastrados pelo álcool e desajeitados turistas lançados à rua, os principais candidatos a levar uma chifrada. O que eles chamam de “fator touro” é o que provoca essa tensão. O risco constante de ser atingido pelo touro. A cena temida e esperada.
É um verdadeiro milagre de San Fermín que a soma de mortos na história seja só de quinze pessoas, muitos deles estrangeiros que pagaram cara a falta de experiência. Depois vem a reprise com a descrição minuciosa de Javier Solano. Ele diz onde está a atenção, quais as caraterísticas de criação desses touros e o que as pessoas devem e não devem fazer para completar uma bela corrida. Mesmo que pareça a representação do caos, o encierro tem normas. Uma delas é parar de correr quando os touros passam pelo corredor.
Talvez seja difícil entender o que o touro significa na cultura espanhola há séculos, o desafio de forças, a procura do limite, mas esse seria assunto para outra história.

Corre touro, ao mar, investe, nada
e a um toureiro de espuma, sal e areia,
já que tentas ferir, fere à morte.

(Fragmento do poema De verte e no verte, de Rafael Alberti)
Texto de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Fotos da Agência EFE

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Roger Wolfe, capitão dos desencantados


Me asomo a la terraza.
Una mujer se arregla el pelo
delante de un espejo
en el edificio de enfrente
de mi casa.
Estaba leyendo
a Dostoyevski. Cierro el libro,
lo dejo encima de la mesa,
me siento y abro
otra cerveza. Qué aburrido,
Dostoyevski, la cerveza,
las mujeres, los libros,
los espejos. Qué aburrido
sentarse y esperar la muerte
mientras la gente fornica,
come, trabaja o se solaza
bajo el sol sucio de septiembre,
y uno sabe, positivamente,
que nada va a ocurrir.

Versão em português

Assomo no terraço.
Uma mulher ajeita seu cabelo
na frente do espelho
no prédio da frente
da minha casa.
Estava lendo
Dostoievski. Fecho o livro,
o deixo em cima da mesa,
sento e abro
outra cerveja. Que tédio
sentar e esperar a morte
enquanto as pessoas trepam,
comem, trabalham ou se divertem
debaixo do sol sujo de setembro,
e a gente sabe, positivamente,
que nada vai acontecer.

El extranjero, de Roger Wolfe
O estrangeiro, de Roger Wolfe, versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Roger Wolfe de Thomas Canet


Británico de Kent, criado na Espanha, Roger Wolfe é a maior expressão entre os escritores da geração de oitenta na Espanha, aqueles desencantados do pós-franquismo, no sentido de terem desencantado mesmo depois do deslumbramento inicial da liberdade.
Feito um Bukovski solto na península ibérica, a poesia de Wolfe -escrita originalmente em espanhol, a sua segunda língua- as vezes está mais perto do pensamento filosófico do que do texto poético convencional. Convicto de que a poesia consiste em enxergar naquilo que já foi muito enxergado, Wolfe pode ser, em poucas palavras, belo e dilacerante.

sábado, 31 de maio de 2008

Alberti no Paraná




Foram vinte e quatro anos de exílio na Argentina os vividos pelo poeta espanhol Rafael Alberti, depois da revolução franquista. Dessa fase ficam muitas lembranças e uma abundante obra. O poema "Canción 8" pertence ao "Poemas y canciones del Paraná". Essa é a reprodução da versão caligrafada pelo autor.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Dar até doer



Dar até doer
eu queria
abrir rios de sangue
nas linhas da mão
beijar nas pálpebras
dos olhos cristalizados
pela fome
dar até doer
e continuar
a dar
mas eu não sou tão bom
e o grito da besta nunca para
e a besta nunca dorme

sob meus pés
as brasas de Vulcano
e vejo Atalantas
invictas na corrida
com seus véus ao vento
enlaçando meus joelhos
e caio

de novo
caio.

Dar até doer, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Reprodução da pintura de 1630, A forja de Vulcano (La fragua de Vulcano), de Diego Velázquez, que reproduz a cena em que o deus Apolo comunica ao deus Vulcano -representado por Velázquez como um homem comum- que sua esposa Venus o enganou com Marte.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Solidariedade com Dajla



Manu Chao encerrou o Festival de Cinema do Sahara, cantando em solidariedade com os refugiados saharauis dos acampamentos de Dajla. Na foto, ele aparece com a cantora Luzmira Zerpa e um convidado inesperado na percussão: o grande ator espanhol Javier Bardem.

sexta-feira, 21 de março de 2008

O Cristo dos ciganos


Dijo una voz popular:
¿Quién me presta una escalera
para subir al madero
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?

Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos
siempre con sangre en las manos
siempre por desenclavar.
Cantar del pueblo andaluz
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz.

Cantar de la tierra mía
que echa flores
al Jesús de la agonía
y es la fe de mis mayores
!Oh, no eres tú mi cantar,
no puedo cantar, ni quiero
a este Jesús del madero
sino al que anduvo en la mar!

La saeta, de Antonio Machado
Foto de ciganos peregrinos em Orcival

sábado, 8 de março de 2008

Carta de Vicenta Lorca a Federico


Granada, 28 de octubre de 1920

Queridísimo hijo:He pasado estos días malos ratos porque, según decías en la tuya, habías pasado mal viaje y al mismo tiempo D. Antonio nos escribió y nos decía que habías estado de purga. Todo esto me ha hecho creer que habías tenido unos días de trastornos de estómago y quizá hasta fiebre. Por eso [quiero] que me digas si estás bien del todo aunque supongo que sí cuando tienes ganas de comuniquerías.
Me parece muy bien que no hayas tomado más que dos asignaturas para que seriamente cumplas con ellas y no descuides tu Literatura que para mí tiene más importancia que todas las carreras, o, mejor dicho, ésa es la carrera por excelencia para ti y para mí. Papá se marchó a Lújar el 27 y estará diez o doce días, así que debes escribirle para que sepa de ti directamente.
Te mandaré el dinero para los libros y que te sirvan bastante. Paquito te escribirá mañana y también la niña, que ahora está bien y con bastante apetito. Yo también estoy buena y tu carta me ha causado una gran alegría. Que sigas escribiendo con la misma frecuencia y contándonos todo lo que hagas. Las fotos que las mandes y que te diviertas alternando con el trabajo. Eso me gusta a mí porque estás en la edad y de todo quiere Dios un poco y mucho más cuando es de buena manera.
Dale cariñosos recuerdos a los amigos de esa y que nos alegramos mucho de que estén bien. Recíbelos tú de toda la familia, besos de tus hermanos y sabes que te quiere muchísimo y te abraza tu madre.

Vicenta

Carta de Vicenta Lorca ao seu filho, o poeta Federico García Lorca. Vicenta foi a primeira leitora dele e também quem mais força deu para ele se dedicar à literatura. Está explícito no fragmento que diz "...não descuides a tua literatura que para mim tem mais importáncia que todas as carreiras".
A foto, onde a imagem do poeta aparece no espelho, é do mesmo ano.