
O protagónico do seriado Kung Fu era para Bruce Lee, mas parece que alguém na ABC não quis que o personagem fosse confiado a alguém que não era auténticamente estadunidense. Algo assim como quando chamaram Brando para fazer Emiliano Zapata. Aquilo só foi salvo porque Brando é Brando, mas o physique du rol não dava mesmo. Já no mesmo filme, estava o verdadeiro mexicano Anthony Quinn, que acabou faturando um Oscar.
Um dia eu escrevo sobre o racismo em Hollywood, mas o caso é que quando rejeitaram Bruce Lee, os executivos do estúdio colocaram no lugar dele "o filho do John Carradine", que tinha os olhos puxados mas era bem dos USA.
Um dia eu escrevo sobre o racismo em Hollywood, mas o caso é que quando rejeitaram Bruce Lee, os executivos do estúdio colocaram no lugar dele "o filho do John Carradine", que tinha os olhos puxados mas era bem dos USA.
Deu certo porque o seriado teve um sucesso além do esperado. Durou cinco temporadas. O rosto pouco expressivo de David caia como uma luva no monge Shaolin, que havia sido ensinado para não exibir emoções.
Em casa, Kung Fu era ponto obrigatório. Uma vez por semana, depois da janta, a gente distribuia as cadeiras na frente da televisão em preto e branco. A luz era desligada, só ficava uma pequena lámpada da escrivaninha "porque não faz bem assistir tevê no escuro".
Em casa, Kung Fu era ponto obrigatório. Uma vez por semana, depois da janta, a gente distribuia as cadeiras na frente da televisão em preto e branco. A luz era desligada, só ficava uma pequena lámpada da escrivaninha "porque não faz bem assistir tevê no escuro".
A mistura de filosofia oriental com cenas de porrada produzia um fascínio na criança que eu era.
Depois David foi sumindo, como tantos atores devorados pelos personagens de sucesso.
Com o tempo, ele apareceu como protagonista do filme A flauta silenciosa, que também herdara do Bruce, que mais uma vez tinha sido rejeitado por Hollywood. Era mais ou menos o mesmo personagem com nome diferente.
Quando comecei a viver de assistir filmes e escrever sobre eles, li que David foi uma figura tingida pela cultura hippie e comecei a achar mais simpatia na pessoa que nos personagens, tirando o Kwai Chang Caine, que como todas as coisas associadas à infância podem ser ruins, mas são intocáveis.
Foi Tarantino, o antropófago mor do entertainment dos setentas, quem resgatou para Kill Bill um David Carradine, caricato de si mesmo, que brincou com sua lenda.
Já estava além do bem e do mal, tanto como para aparecer morto sentado no teto de um armário e meu lado criança sentir tristeza, mas meu lado adulto não achar surpresa.
Quando perdemos uma figura dessas, também sentimos tristeza pela nossa inocência perdida.

Foto de David Carradine no seriado Kung Fu da Agência Reuters
Foto atual de David Carradine da Agência AP
Depois David foi sumindo, como tantos atores devorados pelos personagens de sucesso.
Com o tempo, ele apareceu como protagonista do filme A flauta silenciosa, que também herdara do Bruce, que mais uma vez tinha sido rejeitado por Hollywood. Era mais ou menos o mesmo personagem com nome diferente.
Quando comecei a viver de assistir filmes e escrever sobre eles, li que David foi uma figura tingida pela cultura hippie e comecei a achar mais simpatia na pessoa que nos personagens, tirando o Kwai Chang Caine, que como todas as coisas associadas à infância podem ser ruins, mas são intocáveis.
Foi Tarantino, o antropófago mor do entertainment dos setentas, quem resgatou para Kill Bill um David Carradine, caricato de si mesmo, que brincou com sua lenda.
Já estava além do bem e do mal, tanto como para aparecer morto sentado no teto de um armário e meu lado criança sentir tristeza, mas meu lado adulto não achar surpresa.
Quando perdemos uma figura dessas, também sentimos tristeza pela nossa inocência perdida.

Foto de David Carradine no seriado Kung Fu da Agência Reuters
Foto atual de David Carradine da Agência AP











