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domingo, 3 de maio de 2009

Augusto Boal e uma velha passagem de ônibus



Acordei com a notícia triste da morte de Augusto Boal, o fundador do Teatro do Oprimido que, com certeza, será amanhã divulgada também na Argentina, toda vez que Boal foi uma figura fundamental do teatro americano.
Fui até minha biblioteca para pegar o livro Técnicas Latino-Americanas de Teatro Popular, que foi essencial para mim quando lá pelos meus vinte anos, o teatro era minha religião.
Achei o livro com os signos do tempo marcados nele: a capa da cor amarela desbotada, as folhas brancas amareladas e o cheiro de papel velho.
Encontrei de quebra uma passagem de ônibus da época, colocada em algum momento enquanto andava pela cidade, para assinalar as páginas. Ler nos ônibus era um exercício de concentração e abstração, interrompido sempre pela presa para saltar. Então, as passagens ajudavam para marcar onde tinha parado a leitura.
Passei as folhas do livro procurando entre as partes ressalvadas. Queria uma frase que definisse o artista. Não custou achar.

"O popular no teatro é questão de foco e não de assuntos"



Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo pessoal
Adeus

Meu caro amigo (fragmento), dedicada por Chico Buarque a Augusto Boal em 1976
Foto do livro de Juan Trasmonte
Foto de Augusto Boal de Leo Aversa

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O velho e bom café


Iggy Pop e Tom Waits tomando cafezão


Mestre Tom Jobim tomando cafezinho


Che Guevara tomando cafezinho


Chico Buarque tomando cafezinho em Paris


Meu amor meu amor
Me faz um cafezinho
Com aroma e com carinho
Meu amor meu amor
Me dá um cafezinho
Com açúcar e com beijinhos
Café!
O preto que virou ouro
Nas terras do Salgueiro
Em 1727 um nobre
Chamado Palheta
Trouxe a cultura do café
Para o Brasil
Depois vieram os barões
do café
Um cartel que mandava
Queimava, jogava fora
Mas não dava

Meu amor meu amor
Me faz um cafezinho
Com aroma e com carinho
Meu amor meu amor
Me dá um cafezinho
Com açúcar e com beijinhos
Café!
O preto que virou ouro
Nas terras do Salgueiro
Uma infusão feita com a semente
Torrada e moída
Contém cafeína e proteína
Planta maravilhosa e
Originária da Etiópia
E abissínia Abissínia
Etiópia Etiópia
Quem vai querer
Quem vai querer
Quem vai querer
Café

Café, de Jorge Ben Jor

Não sei se foi de novo a ilusão de ver os Reis Magos ou minha tendência natural notívaga, mas dormi mais tarde que sempre, que já é tarde, e hoje de manhã foi um suplício.
Sai disparado e só comecei a entender o mundo, ou o pouco que dá pra entender dele, depois de tomar um café na gravadora.
As vezes vilão, as vezes legal, dependendo do "segundo cientistas" ou o "estudos mostram" da hora. E as pessoas que têm preguiça de ler entrelinhas costumam não se interrogar: quais cientistas? quais estudos? Aí depois saem afirmando com ar doutoral que o café é bom pra isso e ruim pra aquilo.
O caso é que eu não consigo separar o verbo acordar da palavra café.
O bom amigo Boris voltou ontem do Rio, onde foi passar o reveillon com a família que mora lá. Ele trouxe uma contribuição para meu contrabando de café brasileiro. Ele sabe, tem que ser Pilão mesmo, nada de café chique, não, é aquele mesmo que eu tomava todos os dias quando morava no Brasil.
Olha por onde eu venho descobrir que café também pode ser uma tradução da palavra saudade.

Foto de Iggy Pop e Tom Waits do filme Coffee and Cigarettes, de Jim Jarmusch
Foto de Chico Buarque, reprodução do DVD À flor da pele, de Roberto Oliveira
Não achei os autores das outras duas fotos. Se alguém souber, agradeço.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Pálidos economistas pedem calma


Qual esquina dobrei às cegas
E caí no Cairo, ou Lima, ou Calcutá
Que língua é essa em que despejo pragas
E a muralha ecoa

Em Lisboa
Faz algazarra a malta em meu castelo
Pálidos economistas pedem calma
Conduzo tua lisa mão
Por uma escada espiral
E no alto da torre exibo-te o varal
Onde balança ao léu minh’alma

Sonhos sonhos são (fragmento), de Chico Buarque
Foto da Agência AP. Hoje, a Bolsa de São Paulo

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dez grandes parcerias da música brasileira


1. João Bosco-Aldir Blanc
Se bem foram projetados por Elis Regina (o que mais dizer da Elis?) adquiriram vôo próprio, nos versos brilhantes de Aldir, no canto suingado e no violão percussivo de João. Criadores de jóias como Kid Cavaquinho, O mestre-sala dos mares, Gênesis, Comissão de frente, O bêbado e a equilibrista, Tiro de misericórdia e tantas outras, muitas delas compostas ao telefone.

2. Tom Jobim-Vinicius de Moraes
Nem precisam apresentação. Reunidos em 1956 em ocasião da montagem da peça Orfeu da Conceição que protagonizou Haroldo Costa, trabalharam para compor de todas as maneiras possíveis na época: nas mesas dos bares, fazendo primeiro a música e depois a letra e vice-versa, compondo sobre versos, escrevendo sobre trechinhos de melodias, pelo correio. Assim deixaram para o mundo clássicos como Chega de saudade, O amor em paz, A felicidade, Eu sei que vou te amar e tantas outras.

3. Nelson Cavaquinho-Guilherme de Brito
Parceria formada em 1955. Só os versos “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor” fizeram de Guilherme um dos maiores poetas do samba e popularizaram Nelson, o autor da melodia. Juntos também assinaram Pranto de poeta, Folhas secas e muitas outras.

4. Chico Buarque-Francis Hime
Como o uísque, Chico Buarque é bom sozinho ou com gelo. Das várias parcerias que Chico cultivou ao longo da sua trajetória, escolho a que fez com o compositor, pianista e arranjador Francis Hime. Eles são responsáveis de peças belíssimas como Meu caro amigo, Atrás da porta, Trocando em miúdos e o clássico samba-enredo Vai passar, que virou um hino da resistência na época da ditadura.

5. Moraes Moreira-Galvão
Criadores da maioria dos sucessos de Os Novos Baianos, que eles formavam com Pepeu, Baby Consuelo (depois Baby do Brasil) e Paulinho Boca de Cantor. A banda que passou o rock pela peneira do samba, vivia em comunidade e tinha todo o estilo dos roqueiros mas foi o conterráneo João Gilberto seu inesperado mentor. Entre outras, Moraes e Galvão comporam Acabou chorare, Preta pretinha, Tinindo trincando e Besta é tu.

6. Humberto Teixeira-Luiz Gonzaga
O Gonzagão é uma instituição no Brasil, mas músicas como Asa Branca, Juazeiro (objeto de sucessivos plágios no exterior), Assum preto e Que nem Jiló, entre muitas, vem acompanhadas do grande parceiro Humberto Teixeira, que ainda fez grandes obras sozinho e em outras parcerias. Teixeira e Gonzaga foram a ponta de lança do sucesso do baião e a música nordestina como resposta brasileira ao bolero que vinha de fora.

7. Frejat-Cazuza
Introduzido ao Barão Vermelho por Léo Jaime, além de vocalista, Cazuza virou autor da maioria das letras da banda, muitas em parceria com o guitarrista Frejat. Todo o amor que houver nessa vida, Só as mães são felizes, Ideologia e Pro dia nascer feliz são da safra deles.

8. Roberto Carlos-Erasmo Carlos
Pouco a dizer que não esteja dito. Uma parceria que começou em meados da década de sessenta e deixou mais de um centenar de músicas no imaginário popular. Qual a sua preferida?

9. Noel Rosa-Vadico
Foram ao todo onze músicas em quatro anos, começando por Feitio de oração, estreada em 1933, quando Vadico tinha 22 anos. Conversa de botequim, Pra que mentir e Feitiço da Vila são outros produtos dessa sociedade da Epoca de Ouro. A criação de Noel, como é sabido, foi prolífica mas breve no tempo.

10.Sueli Costa-Tite de Lemos
A grande compositora carioca Sueli Costa encontrou grandes parceiros em Abel Silva, Cacaso, Paulo César Pinheiro e o poeta , dramaturgo e jornalista Tite de Lemos. Com ele fez Todos os lugares, Medo de amar Nº 2 e Conversações com João e Maria, entre outras.

Como sempre, a ordem não indica valor. Aqui estão só dez das tantas e generosas sociedades artísticas da história da música popular brasileira. Não reparem nos links das páginas das letras e os acordes para os compositores. A verdade é que nesses sites de cifras e letras pouca bola dão para colocar a autoria certa.
Fiquem ligados. Continuará.

Foto de Tom Jobim e Vinicius de Moraes de Chico Nélson





domingo, 13 de julho de 2008

Gisele politicamente incorreta


...E a gente vai fumando, que também sem um cigarro
ninguém segura esse rojão

Da sessão de 1999 do grande fotógrafo suiço Michel Comte. Na época em que Gisele Bündchen começava a brilhar. Una das fotos dessa série foi leiloada na Christie's inglesa. Para melhorar a paisagem do domingo.

Foto de Michel Comte
Fragmento de Meu caro amigo, de Chico Buarque

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Dez músicas brasileiras que fazem minha vida mais feliz




01. Porque você não vem morar comigo (Chico César)
Arranjo de cordas maravilhoso de Mário Manga para o Quinteto da Paraíba e os versos certeiros de Chico César "dizem que o amor a amizade estraga e esta a este tira-lhe o vigor"

02. Fogueira (Angela Rô Rô)
Notável retrato da espera amorosa, dilacerante na voz da autora

03. Boi de haxixe (Zeca Baleiro)
O nordeste festivo, celebratório em música e letra de Zeca. "Um céu cheio de estrelas feitas com caneta Bic num papel de pão". Uma zecada.

04. Quem vem pra beira do mar (Dorival Caymmi)
Toada de 1954, com essa simplicidade implacável de Caymmi na versão original e que tem uma releitura ótima e auto-referente de Adriana Calcanhotto, gaúcha no exílio carioca que “nunca mais quer voltar”

05. Trocando em miúdos (Chico Buarque – Francis Hime)
Uma das parcerias geniais de Chico com Francis. Essa música faz trinta anos e continua perfeita na encenação do fim do amor: “uma saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde”

06. Felicidade (Lupicínio Rodrigues)
Uma toada singela de onze versos que mostra a qualidade de compositor de Lupicínio. Thedy Corrêa fez uma versão bacana no seu Loopcinio, co-produzido por ele e Sacha Amback

07. Corcovado (Tom Jobim)
Composta no famoso apartamento da rua Nascimento Silva, 107, só depois de muito tempo fui saber que a imagem do Corcovado que Tom via desde a janela tinha inspirado esses versos “da janela vê-se o Corcovado o Redentor, que lindo". Isso porque quando eu fui ao Rio pela primeira vez fiquei num hotel em Ipanema e tive essa mesma sensação toda vez que chegava na janela, à noite.

08. Marcha da quarta-feira de cinzas (Vinicius de Moraes – Carlos Lyra)
Também relacionada com minha história pessoal com o Rio e aquela primeira viagem, que foi poucos dias apôs a partida do Poetinha. Mas os versos “é preciso cantar e alegrar a cidade” tem a ver com a volta para uma Buenos Aires cinza, na época da ditadura, quando o que imperava nas ruas era o silêncio mesmo.

09. Apelo (Vinicius de Moraes – Baden Powell)
Difícil escolher uma versão dessa música que acompanhou várias das minhas dores de cotovelo adolescentes. Fico com a de Elizeth Cardoso, a de Bethânia, e a de Vinicius-Toquinho com o Soneto da separação no meio, recitado pelo autor. Mais uma da sociedade rica e breve de Vinicius e Baden.

10. Océano (Djavan) Essa já me fez chorar também tanto na versão do Djavan quanto na de Caetano. “Longe de ti tudo parou” e “amar é um deserto e seus temores” são fatais com as roupas dessas harmonias que só Djavan faz.

Começa aqui minha versão das dez mais da música popular brasileira, que como toda seleção pessoal é “caprichosa” e “antojadiza”, ou seja totalmente subjetiva. Esta coletánea será entregue em capítulos porque, lógicamente, são muitas mais de dez.Do resto, o que poderia aparecer como um paradoxo, não é. Uma canção considerada “triste” pode emocionar até o osso. E a qualidade da emoção na música e na palavra cantada é para mim motivo de felicidade. Eis aqui a primeira parte da minha lista impura, pois como disse Torquato Neto "a pureza é um mito".

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Sérgio Natureza


Restinga da Marambaia
urubus na Sapucaia
um morcego de Atalaia
Jandaia desarvorou...
é permitida a gandaia
cada um com a sua laia
a manhã fugiu da raia
porque a tarde não tardou
O michê de mini-saia
despachado em plena praia
quando o sol Césardesmaia
no pontal do Arpoador
Vem a noite de tocaia
o céu cor de bala toffee
o bofe comendo um misto dentro
da sauna a vapor
E lá do alto, benquisto
brilha o Cristo Redentor
perdoando os prejuízos causados
pelo calor.
Ah! Rio, quem te inventou?

Caricas III, de Sérgio Natureza. Antonio Saraiva musicou e Marcos Sacramento cantou bonito.

Com seus trocadilhos e suas rimas fluentes esse é um belíssimo retrato do Rio e os seus contrastes, aliás, um dos mais belos desses últimos anos junto com o São Sebastião de Totonho Villeroy, que já foi postado aqui.
Esses poetas garantem a herança do Aldir e do Chico na tradução em poesia do Rio.
Foto do Cristo Redentor de Custódio Coimbra
Foto de Sérgio Natureza de Nilton de Souza Moraes

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O mundo que foi (IV)


O Arpoador e no fundo o Morro Dois Irmãos, em 1952, na lente maravilhosa de José Medeiros.
Depois passou o tempo e todos aprendemos com Chico a respeitar o silêncio do Dois Irmãos, "assim como se a rocha dilatada fosse uma concentração de tempos". E essa foto mostra que é.

Referências à música Morro Dois Irmãos, de Chico Buarque
Foto de José Medeiros

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Vem aí



Rio de ladeiras
civilização encruzilhada
cada ribanceira é uma nação
à sua maneira
com ladrão
lavadeiras, honra, tradição
fronteiras, munição pesada

São Sebastião crivado
nublai minha visão
na noite da grande
fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
quero ouvir sua batucada, ai, ai

Rio do lado sem beira
cidadãos inteiramente loucos
com carradas de razão
à sua maneira
de calção
com bandeiras sem explicação
carreiras de paixão danada

São Sebastião crivado
nublai minha visão
na noite da grande
fogueira desvairada
Quero ver a Mangueira
Derradeira estação
Quero ouvir sua batucada, ai, ai.

Estação Derradeira, do senhor Francisco Buarque de Hollanda. Salve a velha Manga.
Foto de Petita