Mostrando postagens com marcador Artistas brasileiros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artistas brasileiros. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Domenico + Pedro




Gente, muito obrigado por todas as suas mensagens, e-mails e pedidos pro blog voltar à ativa. Nesses dias eu explico o silêncio. Hoje só quero dividir a alegria pelo fato de produzir esses shows em Buenos Aires de Domenico Lancellotti e Pedro Sá, duas figuras fundamentais para explicar e entender o que tem de novedoso em música brasileira dos anos noventa pra cá.
Agradeço a todos de novo e espero no Notorious aos que estiverem em terras portenhas. Vale muito a pena.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Deus me faça brasileiro



Sempre digo que música chega na hora certa. É igual ao encontro amoroso. Estou longe de cronologia pra isso.
O querido músico gaúcho Arthur de Faria é também um agitador, um criador de links no deserto. Quando ele recebeu a notícia do meu programa Club Brasil, logo saiu mandando e-mail para os colegas-amigos dele, para eles por sua vez venderem seu peixe, pra eles me mandarem seus cd’s, avisando para meu pudor que “olha que é só pra mandar coisa boa”.
E entre muita coisa bacana que comecei a receber, veio um e-mail de Jussara Silveira, a quem admirava mas não conhecia.
Outra pessoa muito querida por mim, Maria Sampaio, já tinha dito fartamente pra eu prestar atenção na Jussara.
Pensei que não fosse custar o maior esforço gostar do Três meninas do Brasil, pois eu já gostava das três separadamente. A Rita Ribeiro foi me apresentada musicalmente pelo Zeca Baleiro, e um tempo depois acabei encontrando com ela no Tortoni, antes dela assinar o Tecnomacumba com a Biscoito. A gravadora onde eu trabalho distribui a Biscoito, então já não dava pra fazer acordo com ela por fora, mas continuamos em contato e o Tecnomacumba foi finalmente lançado aqui.
Teresa Cristina foi uma que coloquei no quesito infaltáveis quando escalei os depoimentos do documentário Samba no pé.
E agora chegou Jussara. As três meninas estavam conformadas. Mas ainda esse trabalho estava nas redondezas do meu imaginário.
Vários e-mails depois em diferentes direções e com a gestão da Elza Ribeiro, irmã e empresária da Rita, chegou o envelope da Biscoito com o cd e o dvd.
Logo pensei em programar pra esse sábado mesmo a faixa-título na seção Um x Dois, que é pra uma mesma música em duas versões.
Por três dias não consegui passar dessa primeira música do cd. A versão do criador -com versos do poeta cearense Fausto Nilo- Moraes Moreira, especialmente a do Acústico MTV, já era linda. Mas as tais três me levaram às lágrimas. E continuo emocionado enquanto escrevo isso. Essa celebração da diversidade brasileira e feminina, de cores e texturas, se fez nova e comovente nas vozes delas.
E assim vai entrando. É devagar, devagarinho. Ainda nem botei a mão no dvd.
E esse “Deus me faça brasileiro” que já me resultava uma imagem linda, de repente virou desejo.

Foto de Jussara Silveira, Teresa Cristina e Rita Ribeiro, de Seth Bourget

domingo, 9 de agosto de 2009

Despedida mas nem tanto



O +2 (Moreno Veloso, Kassin e Domenico) encerrou sua fase trio nesse final de semana em Buenos Aires. Assisti na sexta-feira e foi muito emotivo. No dia em que o paizão Caetano fazia anos, quem recebeu o presente foi Moreno, com a presença no show de quem foi a babá dele e um imenso coral de argentinos e brasileiros entoando a versão samba-canção de Deusa do amor, do Olodum.
Continuo achando que Kassin é um dos músicos mais brilhantes que o Brasil pariu nesses últimos anos e Domenico também não tem como negar o DNA do pai Ivor Lancellotti. Esse ritmo à terra, mesmo no rock, é pra quem já mamou muito samba.
Eles vieram com time de amigos-colegas com quem dividem vários projetos: Pedrinho Sá (o cara por tras da nova banda de Caetano), Jorge Continentino e o franco-brazuca Stephane San Juan.
No sábado não deu pra eu assistir por causa do trabalho, mas em troca tivemos o prazer de receber Domenico ao vivo no programa Club Brasil, duas horas antes do show. Foi um gesto de grande generosidade dele.
Agora os caras vão continuar tocando seus vários outros projetos, embora vários desses outros projetos integram os três e essa misteriosa Buenos Aires, a mesma que reuniu pela primeira vez num show completo João Gilberto e Caetano Veloso, tem mais uma página histórica na sua paixão por música brasileira.


Fotos do show do +2 no Niceto Club e Domenico na Blue FM, de Marcela Romanelli

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Nadinho da Ilha



Do alto dos seus quase dois metros e esse vozeirão dele, longe de assustar, Nadinho da Ilha soltava um sorriso inconfundível.
Sobrinho de Nilo Chagas, do Trio de Ouro e levado pro samba de criança, sob a asa de Geraldo Pereira, Nadinho gravou 39 discos, foi por anos integrante da ala de compositores da Unidos da Tijuca. E também ator, participou em 78 da primeira montagem da Opera do Malandro, de Chico Buarque, onde também estavam a Marieta Severo, Elba Ramalho e Ary Fontoura, entre outros.
Deixa saudades.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Leoninos - bonus track



A querida amiga Maria Sampaio me mandou essa e não da pra deixar fora. Caetano e Jorjão Amado, dois leões pra valer, na festa do Rio Vermelho, em dois de fevereiro de noventa e seis. Sob o olhar de Maria.
E eu que não queria colocar foto de Caetano na postagem dos leoninos pra ninguém achar que no blog há excesso de caetanismo. Mas dava pra guardar essa beleza?

Foto de Maria Sampaio

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O menu de amanhã


Bethânia encara Capitão do mato, do espléndido Brasileirinho


Apresentamos o cantor e compositor maranhense Zé de Riba


João Bosco e a belíssima versão ao vivo de Papel machê


E o Iggy Pop canta Insensatez!!


MUSICALIZACION

PROGRAMA # 11 25/07/09

PEDRA DE RESPONSA (ZECA BALEIRO) (36/04:25/F)
RECUSA (ALCIONE) (11/03:41/F)

ÁGUA (KASSIN +2) (59/04:54/C)
BRAZIL, CAPITAL BUENOS AIRES (TOM ZÉ CON FERNANDA TAKAI) (15/03:39/F)

ARTISTA DE LA SEMANA: TOQUINHO

AQUARELA (TOQUINHO) (25/04:24/C)
TARDE EM ITAPOÃ (TOQUINHO CON MPB 4) (23/04:32/C)


PAPEL MACHÊ (JOÃO BOSCO) (11/04:24/C)
CAPITÃO DO MATO (MARIA BETHÂNIA) (16/02:28/C)

TIMONEIRO (PAULINHO DA VIOLA) (09/03:25/F)
NEM OURO NEM PRATA (TERESA CRISTINA E SEMENTE) (08/03:54/C)


OTRAS BOSSAS

HOW INSENSITIVE (INSENSATEZ) (IGGY POP) (12/03:02/C)

EU PRECISO DE VOCÊ (TOM JOBIM) (00/02:15/C)
O BARQUINHO (NARA LEÃO) (25/03:08/F)
TRENZINHO (TREM DE FERRO) (JOÃO GILBERTO) (00/01:50/F)


UNO X DOS

TRILHOS URBANOS (QUARTETO EM CY) (03/02:50/C)
TRILHOS URBANOS (CAETANO VELOSO) (00/02:48/C)


PESCADOR (MESTRE AMBRÓSIO) (11/05:28/C)


HOY PRESENTAMOS

VALENTE TUPI (ZÉ DE RIBA) (17/03:24/C)

GARGANTA (ANA CAROLINA) (11/03:35/C)

CAPIM (DJAVAN) (20/04:57/F)

Essa é a pauta, do jeito que eu entrego na rádio junto com a música. É assim, tenho que dar um jeito de misturar os clássicos com os menos divulgados.
Ao mesmo tempo vou escrevendo o roteiro e tenho uma reunião semanal de pauta com a apresentadora, Corina González Tejedor. E no mesmo dia que entrego a música, faço preprodução na rádio (vinhetas, etc. e tal). Ao vivo, eu me reservo a seção para apresentar os artistas novos ou menos conhecidos por aqui.
Para ouvir on line é www.bluefm.com.ar e seguir a opção "radio en vivo".
Quem quiser pode baixar aqui o programa inteiro de sábado passado

Foto de Maria Bethânia, de Leo Aversa
Foto de Zé de Riba, de Zeca Caldeira
Foto de Iggy Pop de Soren Andersen

domingo, 19 de julho de 2009

Onde estava você quando o homem pisou a lua?



Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez, as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria


Os versos de Caetano Veloso, do clássico Terra, fazem referéncia as fotografias da Terra feitas desde a lua, na missão Apollo 11, que acontecia enquanto ele era preso pela ditadura brasileira, há exatos quarenta anos.
Eu tenho umas lembranças muito difusas de ter assistido ao momento em que os astronautas desceram na lua. Não lembro tanto das imagens quanto da sensação de que alguma coisa importante estava acontecendo. Lembro que o mundo parou. Lembro da minha família reunida na frente da tevê. Eu estava sendo testemunha da história, mas minha cabeça infantil não percebia nem de perto o que aquilo significava.
Para mim sempre foi mais surpreendente -e talvez continue sendo- nem tanto o fato do homem pisar a lua quanto o fato do planeta inteiro assistir à cena na televisão. Eu sei agora mais ou menos o valor que aquela viagem representou em termos científicos. Mas aquilo para mim não foi a chegada do homem na lua mas a invenção da televisão.
Na medida em que meu encantamento infantil pela imensidão espacial crescia, também aumentava em mim a sensação de profanação. A lua era negócio de poetas, era para se contemplar e não para enfiar uma bandeira nela. Essa sensação até hoje me acompanha.
O escritor francês Júlio Verne já em 1865 publicou Da terra à lua (De la Terre à la Lune), onde uma corporação estadunidense lançava um projétil (com três astronautas e desde Tampa!) para atingir a lua.
Por aqui e em outros paises o 20 de julho ficou no calendário comercial como o Dia do Amigo. Essa noite, apesar da crise, o frio e a Influenza, os restaurantes vão ficar lotados.
Meu sentimento inconsciente de profanação daqueles dias se traduz na ausência dessa celebração. Se é para encontrar amigos, qualquer dia menos esse.
O homem quis conquistar a lua desde tempos imemoriais. Continuo preferindo o olhar contemplativo dos poetas.



Fotos do The Project Apollo Image Gallery

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Especial Dia dos Pais no Club Brasil



Para ouvir online, acessar o site da Blue FM e clicar na opção "Radio en vivo"

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O samba e o tango



Sempre gostei de olhar pelas janelas. Desde criança tive essa inclinação para a vida contemplativa.
Quando morava no Rio de Janeiro, estava num fim de tarde de domingo olhando pela minha janela de fundos do apartamento no Flamengo. Andava perdido nas luzes que vinham do Morro Azul quando vi por um recorte de uma janela de um prédio lateral, as pernas de um homem e uma mulher dançando tango.
A perspectiva, eu num andar superior, eles num andar inferior, só me deixava ver desde a metade das coxas deles para abaixo.
Pelas roupas e o que parecia, não eram pessoas jovens. Eles passavam na frente da minha visão e sumiam do marco da janela. Depois passavam para o outro lado, na cadência inconfundível do tango.
Alguma coisa mexeu no meu interior. Nesse momento compreendi a profundeza da minha parte argentina, ao sentir uma identificação indescritível, viscerosa, que aconteceu só pelo fato de ver essa imagem fragmentada, sem som, sem rostos, mas que tinha uma direção só: era tango. E o tango é Argentina, e mais que Argentina, é Buenos Aires.
Isso vivia em mim por relação assim como vivia o samba por adopção. Isso me levou à cidade onde eu tinha nascido, que estava longe, e da qual, na minha “brasileirice”, achava não sentir falta, além da saudade das pessoas queridas.
Por estes dias lembrei daquela imagem. O programa de rádio que estou fazendo, Club Brasil, já tem em duas emissões, vários ouvintes brasileiros radicados na Argentina. Parece que correu a voz e que a divulgação feita na unha chegou também à crescente comunidade de brasileiros que aqui vieram atrás de um amor, por compromissos de trabalho ou para se procurar a vida.
Quando eu programo a música penso nos muitos argentinos que gostam de música brasileira e que não tinham um espaço semelhante na rádio daqui. Mas também penso nesses brasileiros e coloco, quase como uma guinada, algumas músicas que sei que fazem parte do imaginário coletivo deles.
Tenho recebido e-mails comoventes para mim. Queria que eles sentissem pelo menos uma vez o que eu senti naquela tarde olhando pela janela. Talvez essa identificação, por longínqua que seja, os possa deixar mais leves para ir embora, para ficar, para andar pelo mundo soltos. Humanos.

Chegou a hora, chegou chegou
Meu corpo treme e ginga qual pandeiro
A hora é boa e o samba começou
E fêz convite ao tango pra parceiro.

Chegou a hora, chegou chegou
Meu corpo treme e ginga qual pandeiro
A hora é boa e o samba começou
E fêz convite ao tango pra parceiro.

"Hombre yo no sé porque te quiero
Yo te tengo amor sincero
diz a muchacha do Prata
Pero no Brasil é diferente
yo te quiero simplesmente
Teu amor me desacata.

Habla castellano num fandango
Argentino canta tango
ora lento, ora ligeiro
Pois eu canto e danço sempre que possa
Um sambinha cheio de bossa
Sou do Rio de Janeiro.

O samba e o tango, de Amado Régis (1937)
Foto de aparelhos de rádio em uma vitrine de Buenos Aires, do Archivo General de la Nación

sábado, 16 de maio de 2009

Programa Club Brasil


Como dinheiro e tempo estão sobrando, resolvi entrar em mais uma brincadeira. Hoje começa o programa de rádio Club Brasil, que será o primeiro em uma rádio grande da Argentina (A Blue FM) dedicado à música e à cultura do Brasil.

Eu tenho a honra de produzir e musicalizar esse espaço que -espero- possa ser mais uma ponte entre as nossas culturas.
No menu vai ter novidades, inéditas, artistas novos -inclusive no Brasil- e raridades. As músicas serão o eixo para falar dos artistas, das histórias que as canções disparam e dos lugares que são o marco delas.

Os amigos que estão pelo mundo fora poderão ouvir o programa on line, os sábados às oito horas da noite na Blue FM.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Tu pissavas os astros distraída



Hoje faz 116 anos do nascimento de Orestes Barbosa, um dos maiores poetas da música popular brasileira.
Criador de poemas belíssimos que foram levados à canção por Sílvio Caldas, Francisco Alves, Noel Rosa e Custódio Mesquita, entre outros parceiros, Orestes foi um poeta precoce e um reporter notável.
Mesmo sem formação escolar até os doze anos, aos catorze já era revisor de jornal e escrevia rimas que chamavam à atenção dos adultos.
Como jornalista, ele foi ousado, foi parar na cadeia várias vezes por causa de suas crônicas.
Como poeta e autor de músicas, foi um romântico certeiro em imagens e palavras. Deixou músicas geniais como Serenata, Há uma forte corrente contra você, Arranha-céu e a mais popular Chão de estrelas, cujo verso "Tu pissavas os astros distraída" foi definido por Manuel Bandeira como o mais bonito da língua portuguesa.

Chão de estrelas, em versão de Sílvio Caldas ao vivo na TV Cultura (1978)
Foto de Orestes Barbosa, sem crédito do autor

domingo, 3 de maio de 2009

Augusto Boal e uma velha passagem de ônibus



Acordei com a notícia triste da morte de Augusto Boal, o fundador do Teatro do Oprimido que, com certeza, será amanhã divulgada também na Argentina, toda vez que Boal foi uma figura fundamental do teatro americano.
Fui até minha biblioteca para pegar o livro Técnicas Latino-Americanas de Teatro Popular, que foi essencial para mim quando lá pelos meus vinte anos, o teatro era minha religião.
Achei o livro com os signos do tempo marcados nele: a capa da cor amarela desbotada, as folhas brancas amareladas e o cheiro de papel velho.
Encontrei de quebra uma passagem de ônibus da época, colocada em algum momento enquanto andava pela cidade, para assinalar as páginas. Ler nos ônibus era um exercício de concentração e abstração, interrompido sempre pela presa para saltar. Então, as passagens ajudavam para marcar onde tinha parado a leitura.
Passei as folhas do livro procurando entre as partes ressalvadas. Queria uma frase que definisse o artista. Não custou achar.

"O popular no teatro é questão de foco e não de assuntos"



Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo pessoal
Adeus

Meu caro amigo (fragmento), dedicada por Chico Buarque a Augusto Boal em 1976
Foto do livro de Juan Trasmonte
Foto de Augusto Boal de Leo Aversa

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dez versões estrangeiras de músicas brasileiras


Esperanza Spalding


Pink Martini


Pizzicato Five


Arcade Fire


1. Pink Martini – Tempo perdido
Pode ser criticado o ecletismo do Pink Martini, mas o som deles é irretocável. No Hey Eugene, seu mais recente disco -que já tem dois anos- eles gravaram uma versão muito digna de Tempo perdido, do grande Ataulfo Alves, que originalmente gravara Carmen Miranda em 1933, abrindo as portas do sucesso para Ataulfo.

2. Sinéad O’Connor – How insensitive (Insensatez)
Em seu disco de 1992, Am I not your girl?, Sinnéad gravou as músicas que ouvia sendo uma criança, canções que segundo ela, fizeram que se tornasse cantora. O clássico de Jobim e Vinicius, em inglês, tem toda uma carga inédita que só a cantora irlandesa consegue reformular. Bom, a essa altura não preciso dizer que tenho uma queda por Sinnéad, certo?

3. Pepino Di Capri – Ancora con te (Outra vez)
Da grande compositora paulistana Isolda, responsável por várias gemas do Rei, esta versão italiana gravada em 1985, na mesma linha da original, por Pepino Di Capri.

4. Jim Capaldi com George Harrison – Anna Julia
O baterista da histórica banda Traffic era casado com uma carioca chamada Ana. Quando ouviu o megasucesso do Los Hermanos, fez questão de gravar. Levou a música pra Inglaterra e contou com a breve participação do seu vizinho ilustre, George Harrison, que iria morrer pouco depois. A música teve ainda o Ian Paice, lendário baterista do Deep Purple. Jim também já subiu e se ainda faltava mais fama a essa música de Marcelo Camelo, ficou lá imortalizada em inglês como a última gravação em colaboração do saudoso George.

5. Queen Latifah – Quiet nights of quiet stars (Corcovado)
Jobim é o xodó dos compositores de jazz e das cantoras dos Estados Unidos. Queen Latifah faz bonito nessa versão de Corcovado, com ginga de bossa nova.

6. Arcade Fire – Brazil (Aquarela do Brasil)
Uma das músicas mais gravadas pelo mundo fora, também caiu nas graças da banda canadense multi-instrumental Arcade Fire. Lançado em 2005 como lado B do single Cold Wind. Uma versão simpática dominada pelas cordas, que lembra a dimensão da criação de Ary Barroso.

7. Art Garfunkel – Waters of march (Águas de março)
Aqui faltou tempero. A metade do lendário Simon & Garfunkel canta com seu habitual jeito doce mas não acerta no ritmo do clássico do Jobim.

8. Pizzicato Five – The Girl from Ipanema (Garota de Ipanema)
Adoro esses japoneses malucos do Pizzicato Five. Pena que eles acabaram. No seu jeito retrô-kitsch eles seguem a tradição japonesa que pouco cria e tudo recria. E eles fizeram uma criação mesmo com Garota de Ipanema, apesar das trossentas versões que já existiam em 1997, quando foi lançada a dos Pizzicato na coletánea Lounge-A-Palooza.

9. Attaque 77 – Amigo
Assim como várias bandas do rock brasileiro fizeram versões de músicas dos hermanos -algumas com bastante sucesso e sem conhecimento da origem- também existem as versões em espanhol de músicas brasileiras, feitas por bandas do rock argentino. O Attaque 77 é um grupo de hard rock surgido na década de noventa. Eles eram bem fraquinhos no começo, mas com os anos de estrada ficaram melhores. A inocente Amigo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos virou um rock de guitarras sujas que já fez pular bastante à galera.

10. Esperanza Spalding – Ponta de areia
Uma das mais novas queridinhas do jazz estadunidense, Esperanza é boa de palco, canta bonito e encara o contrabaixo acústico. No cd que leva seu nome, Esperanza gravou a belíssima Ponta de areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Diferentemente da Jane Monheit, que assassinou o português na sua ininteligível Só tinha de ser com você, Esperanza se esforçou na fonética. Deu certo.

Pra começar, é lista, não é ranking, então como sempre escrevo, a ordem não indica valor. E como a lista de versões gringas de músicas brasileiras é imensa, escolhi essas dez que, de uma ou outra maneira acrescentam valor ou representam curiosidade.
Com autoridade de gringo posso dizer que neste quesito se bem prefiro a grande maioria das versões originais, gosto de ouvir outras aproximações à música brasileira, desde que sejam feitas com respeito intelectual. Isto é pode virar a música de ponta-cabeça, mas não pode canibalizar sem nenhuma proposta artística. Enfim, poderá haver segundas partes para esse item.


Foto de Esperanza Spalding de Johan Sauty
Foto de Pink Martini de Sherri Diteman
Foto de Pizzicato Five de Soren Hitting
Foto do Arcade Fire de Wendy Lynch

terça-feira, 28 de abril de 2009

Paulo César Pinheiro - 60 anos



Sou carioca tenho muitos anos de janela
Sou do bairro imperial
Bati canela entre a rua dela e o Largo da Cancela
Andei no morro de São Roque, no Tuiuti também
Brinquei no bloco do ninguém é de ninguém (foi lá que eu andei)
Por causa dela
A moça da cor de canela
Que era a mais bela, eu sou compositor
Fiz meu nome na favela
Fui boêmio do Capela
Sou querido no meio do meu pessoal

E meu grande amor na passarela
É a Portela quando chega o carnaval.

Carioca da gema, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro
Foto de Paulo César Pinheiro de Fernando Souza

Hoje completa 60 anos o poeta e compositor Paulo César Pinheiro, referência incontornável da música popular brasileira, de quem se afirma que tem mais de mil músicas gravadas.
Saúde ao PCP!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O cavalo de São Jorge




O cavalo de São Jorge foi passear na areia
Vamos fazer samba que o santo guerreiro hoje está na aldeia
Tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia
Oi, tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar sereia

É que diz o povo
Que hoje a poliça não contrareia
Tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia

Quando o cavalo de São Jorge corcoveia
O que é que cai de seu alforje, lua cheia
Luz que alumeia quem samba na beira do mar, sereia
Luz que clareia no samba só me faz lembrar Candeia

Vem sambar, que tem samba no mar
Vem sambar que tem samba no mar
Não vadeia quelé Clementina, não vadeia

Eu queria poder pegar na cintura dela
Eu queria poder pegar na cintura dela
Mas seu namorado está de olho nela
Mas seu namorado está de olho nela

O cavalo de São Jorge foi passear na areia
Vamos fazer samba enquanto o cavalo de Ogum passeia
Tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia
Oi, tem samba no mar, sereia
Tem samba no mar, sereia...

O cavalo de São Jorge, de Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro
Reprodução da obra São Jorge e o dragão, de Peter Paul Rubens

E viva São Jorge guerreiro!
E viva Roque Ferreira!
E viva Pixinguinha que hoje também faz aniversário e que por isso também é comemorado o Dia Nacional do Chorinho

terça-feira, 14 de abril de 2009

Hélio Oiticica além da arte



“Adeus, ó esteticismo, loucura das passadas burguesias, dos fregueses sequiosos de espasmos estéticos, do detalhe e da cor de um mestre, do tema ou do lema”.

Foto de Hélio Oiticica em Londres, em 1969, na fase que ele se recusou a chamar de exílio, sem crédito do autor

domingo, 5 de abril de 2009

Afasta de mim esse cálice (10 músicas que já foram censuradas)


Gil e Caetano no exílio em London London



Fragmento de documento que vetou a música Geleia Geral


1.Oculoescuro (Como vovó já dizia), de Raul Seixas e Paulo Coelho

A letra original do hoje consagrado escritor Paulo Coelho foi rejeitada uma e outra vez por ser considerada “veiculo de mensagem subversiva”. Curioso foi que o veto não alcançou ao refrão, que é uma clara referência ao uso de colírio ou óculos escuros para esconder a irritação de olhos provocada pela maconha. Raul teve umas 35 músicas censuradas e chegou a inventar palavras só para infernizar a vida dos fiscalizadores.

2. Herói do medo, de Carlos Lyra

Alguns trechos da letra resultaram insuportáveis para a censura, como “odeio a mãe por ter parido”. Por causa de versos como este, o relatório diz “o autor apresenta ego psicótico”, entre outras barbaridades. A música foi liberada em 1975, quando Carlos Lyra morava no estrangeiro.

3. Buscando amor, de Cláudio Nucci e Mauro Assumpção

O problema foi com os versos “baseado no que eu digo eu já ando hoje em dia”. Os autores tentaram explicar que, no caso, “baseado” é uma forma verbal e não um substantivo, mas não houve chance, assim mesmo a música foi barrada.

4. Pátria amada, idolatrada, salve, salve, de Geraldo Vandré

Além dos casos mais conhecidos como Caminhando (Para não dizer que não falei das flores) e Canção da despedida, Geraldo Vandré teve muitas outras músicas censuradas. A escolhida aqui, só pelo fato de fazer menção aos símbolos pátrios, o que era expressamente proibido pela ditadura. Também não era permitida qualquer menção duvidosa à cor vermelha, associada ao comunismo. Geraldo Vandré, tachado de “compositor subversivo” teve a carreira e a saúde prejudicadas pelas proibições.

5. Deus e o diabo, de Caetano Veloso

Como é sabido, Caetano não só teve músicas censuradas. Ele foi preso, proibido de trabalhar e exilado. Na volta, o regime estava forte ainda e os problemas continuaram. Com esta música foram quatro anos de idas e voltas a Brasilia. A marchinha de carnaval com sua associação de deus ao diabo irritou a religiosidade arcaica dos milicos. Nos últimos versos da versão original: “cidades maravilhosas dos bofes do meu Brasil”, o vocábulo bofes precisou ser substituído pelo vocábulo “pulmões”.

6. O mestre-sala dos mares, de Aldir Blanc e João Bosco

A música originalmente foi chamada “O almirante negro”, mas um funcionário disse ao autor que tal título representava uma “apologia do negro”, o que mostra mais uma vez que, além de retrógrado, o regime que imperou desde 1964, também foi racista.
Cansado das modificações e para flagrar a idiotez dos seus algozes, o grande poeta Aldir Blanc incluiu uns versos surreais que permaneceram na canção, como “glória à farofa, à chachaça, às baleias”.

7. Pare de tomar a pílula, de Odair José

Só um exemplo emblemático entre muitas músicas que o então popularíssimo Odair José teve questionadas. O problema com ele não era o engajamento político mas as letras que atentavam “contra a moral e os bons costumes”, essa frase imbecil que os reacionários adoravam. Um funcionário com pretensões românticas disse um dia ao artista: “O amor não é do jeito que o senhor canta”.

8. Geleia geral, de Torquato Neto e Gilberto Gil

Perseguido e exilado junto com Caetano Veloso, Gilberto Gil sofreu censura prévia de muitas músicas. Esta, com belíssima letra do poeta Torquato Neto, foi rejeitada pelo “claro sentido político e contestatório”. Pois é, a geleia geral brasileira dos tempos da ditadura.

9. Nada será como antes, de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento

O título já dizia tudo, mas o problema foi com o verso “Que notícias me dão os amigos?” em alusão aos exilados por motivos políticos.

10. Bolsa de amores, de Chico Buarque

Chico foi, junto com Taiguara, um dos campeões das letras proibidas. Dele recusaram Cálice, citada no título deste texto, Acorda amor, Apesar de você, Tanto mar, todas da peça Calabar e muitíssimas outras. Essa Bolsa de amores está entre as menos conhecidas e nem é das mais brilhantes ou comprometidas. Ela apenas faz um paralelo entre o linguajar da bolsa de valores e uma conquista amorosa. Porém, foi devolvida. No veto, os censores dizem que “o autor está muito preocupado em denegrir as mulheres”. Como Chico foi genial até para driblar à censura, criou um compositor e até uma história sobre ele, o Julinho da Adelaide, que passou a assinar as músicas que poderiam ser objeto de proibição. Mas o truque foi descoberto quando os funcionários da DCDP perceberam que o dinheiro dos direitos autorais do Julinho ia pra conta de um tal Chico Buarque de Hollanda.



A censura oficial existiu no Brasil desde 1934, quando foi decretada por Getúlio Vargas, mas seu periodo mais atuante começou com a ditadura de 1964 e a criação da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), que teve mais força ainda depois da entrada em vigor do AI-5. O órgão que chegou a examinar sessenta mil músicas tinha sede em Brasília. As grandes gravadoras tinham advogados contratados só para lidar com os censores, policiais federais deslocados de outras funções sem o menor preparo para a compreensão de obras artísticas. A censura foi abolida no Brasil em 1988.



Fontes e bibliografia: Arquivos próprios; documentos do Arquivo Nacional; Site censuramusical.com; A canção no tempo Vol 2, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello; Verdade Tropical, de Caetano Veloso; Nada será como antes, de Ana Maria Bahiana; História Social da Música Popular Brasileira, de José Ramos Tinhorão.

Foto de Caetano e Gil na Inglaterra sem crédito do autor
Foto de jornaleiro exibindo o Jornal da Tarde, em 1968, com o endurecimento da censura e o anúncio do AI-5

sábado, 28 de março de 2009

Ainda sobre Tenório Jr e Vinicius



Recebi um e-mail de Luciana, uma das filhas de Vinicius de Moraes, a respeito da crônica sobre Tenório Jr que escrevi no blog.

Sou filha de Vinicius e acompanhei na volta sua aflição em relação ao Tenório
Considere-me uma fã dele e do que diz o seu blog
abraços
Luciana de Moraes

E respondi:

Todas as pessoas que de alguma maneira estiveram perto do caso Tenório, me disseram que teu pai, além de aflição pessoal, foi uma das pessoas que mais atuou na época para conseguir informações concretas. Pensei na hora de escrever aquela crônica, que também fosse bom lembrar da estatura moral do Poeta.
Abraços para você e as tuas irmãs

Realmente a obra e as histórias de Vinicius são tão enormes que as vezes esquecemos de prestar homenagem ao homem ético que o poeta foi.
É por essas e outras que este blog me da uma imensa satisfação.

Foto de Vinicius de Moraes de Chico Nelson

quinta-feira, 26 de março de 2009

Quando Ney encontrou Astor




Na metade dos anos setenta a música da América Latina vivia um momento de grande efervescência, com o auge dos trovadores e da canção política. O Brasil porém, na sua dimensão continental ficava de costas e abria seus próprios caminhos. Uns poucos músicos mais atentos estavam também de olho na América. Ney Matogrosso era um desses músicos, com motivos suficientes que estavam no sangue mesmo. Neto de um argentino e uma paraguaia, nascido no Mato Grosso do Sul que lhe deu sobrenome artístico, Ney já trazia desde pequeno uma informação musical nutrida de várias culturas.
Nesses tempos, o compositor e bandoneonista argentino Astor Piazzolla já era uma referência da vanguarda musical e muito admirado por certo público do Brasil.
Ney já conhecia muito bem Astor quando foi assistir aquele show no Rio de Janeiro onde eles se encontraram pela primeira vez. O que Ney não sabia é que Astor -que era o completo oposto do conservadurismo do tango- também já conhecia quem era esse jovem magro, introvertido, que foi no camarim para lhe-expressar sua admiração depois do show.
Ney acabara de abandonar o Secos & Molhados no auge da popularidade da banda e disse a Astor que adoraria gravar com ele algum dia. Na hora, o autor da Suite Troileana, que tinha bem presente o registro agudo e afinadíssimo de Ney, o convidou para gravar.
Por esses dias, Piazzolla tinha dado três músicas ao notável poeta mineiro Geraldo Carneiro. Na verdade não eram músicas originais mas temas instrumentais compostos por Astor para o filme franco-chileno Llueve sobre Santiago, do diretor Helvio Soto, referente à queda do governo Salvador Allende e proibido no Chile.
As três músicas, com os versos de Geraldinho, foram Muralla China, Olhos de ressaca e As Ilhas.
Como na época Astor morava na Itália, até lá foi Ney. Juntos gravaram várias sessões em novembro de 1974, e de lá ele voltou com as fitas.
Sem querer, Astor acabou dando um impulso forte para o começo da carreira solo de Ney que, com esse material precioso, ficou empolgado para montar uma banda e lançar seu primeiro LP pela Continental.
Nessa super banda estavam entre outros os brasileiros Márcio Montarroyos e Chacal, o estadunidense Bruce Henry e o argentino Claudio Gabis.
Ney apresentou seu material novo no show O homem de Neanderthal que até hoje continua na memória de quem assistiu como um espetáculo mítico no seu casamento entre música e conceição visual.
O LP lançado em 1975 se chamou Água do Céu Pássaro, produzido por outro argentino no exílio que se deu muito bem como produtor no Brasil: Billy Bond, que junto com Gabis formara La Pesada del Rock’n’Roll, banda ícone do rock argentino.
O disco trazia junto um compacto com duas das colaborações entre Piazzolla e Ney, as músicas As Ilhas e 1964 II. Esta última sofreu os efeitos da censura, pelo que significava o 1964 na história brasileira. Nada mais longe da realidade, trata-se de uma das célebres parcerias entre Piazzolla e o escritor Jorge Luis Borges que não faz a menor referência à situação política do Brasil da época.
Por estes dias, caiu em minhas mãos um vinil de edição argentina chamado Sangre Latina. É uma coletánea de 1984 com a mesma capa daquele primeiro disco de Ney, mas com músicas de diferentes fases do cantor e que tem essas duas com Piazzolla, as duas últimas do lado B.
Fiquei imaginando como terá sido esse encontro na Itália de um argentino tanguero e transgressor com um brasileiro roqueiro e trangressor. “El Gato” Piazzolla era famoso pela sua pouca paciência.
Alguma coisa ele já tinha registrado na essência do cantor. Alguma coisa que o Brasil e o mundo estavam prestes a descobrir.



As ilhas

Vi mosca urdindo fios
De sombra na madrugada
Vi sangue numa gravura
E morte em caras paradas

Via vis de meia noite
E frutas elementares
Vi a riqueza do mundo
Em bocas disseminadas

Vi pássaros transparentes
Em minha casa assombrada
Vi coisas de vida e morte
E coisas de sal e nada

Vi um cachorro sem dono
À porta de um cemitério
Vi a nudez nos espelhos
Cristas na noite velada

Vi uma estrela no meio
Da noite cristalizada
Vi coisas de puro medo
Na escuridão espelhada

Vi um cruel testamento
De anjos na madrugada
Vi fogo sobre a panela
No forno de uma cozinha

Vi bodas inexistentes
De noivas assassinadas
Vi peixes no firmamento
E tigres no azul das águas

Mas não via claramente
A circulação das ilhas
Nos rios e nas vertentes
E vi que não via nada

Nada, nada...

As ilhas, poema de Geraldo Carneiro para a música de Astor Piazzolla, gravada por Ney Matogrosso em 1974

Foto de Astor Piazzolla de Alicia D'Amico (1975)
Foto de Ney Matogrosso, sem crédito do autor, do site Ney Matogrosso
Reprodução da capa do disco Água do Céu Pássaro (1975, gravadora Continental)

domingo, 15 de março de 2009

Tenório Jr, o piano silenciado



Bem antes de ter o desejo que motorizou o Samba no pé, meu primeiro projeto de documentário relacionado com o Brasil e sua música, foi a trágica história de Francisco Tenório Cerqueira Junior, o Tenório Jr, o grande pianista seqüestrado e desaparecido na conturbada Buenos Aires de 1976.
Quando tive as primeiras notícias sobre o desaparecimento de Tenório e as suas circunstâncias, o primeiro que chamou minha atenção foi como eu, que na época já tinha interesse na cultura do Brasil, não havia conhecido esse fato através de alguma fonte brasileira. Afinal, Tenorinho não só era um cidadão brasileiro desaparecido na Argentina mas um músico que tinha viajado acompanhando ninguém menos que Vinicius de Moraes. Mas os brasileiros que eu consultei nem sabiam da tragédia ou meramente tinham “ouvido falar”. Tenório Jr. desapareceu duas vezes, a primeira nas mãos dos seus algozes e a segunda no silêncio do Brasil.
A estrutura do aparelho da repressão na Argentina já estava montada em 1976, na madrugada de 18 de março, seis dias antes da destituição de Isabel Perón pela Junta Militar.
Vinicius de Moraes já era uma figura muito popular e querida na Argentina. Ele tinha começado a excursionar por aqui no final da década de sessenta, junto com Toquinho, Maria Creuza e uma jovem e promissória cantora: Maria Bethânia. Aqui gravaram o hoje cultuado disco La Fusa, que ainda é na Argentina o disco de música brasileira mais vendido. Na época, Vinicius tinha um relacionamento com a argentina Marta Santamaría e muitos amigos, entre os músicos e atores daqui.
Nessa noite, depois do show no teatro Gran Rex, Tenorinho voltou pro hotel Normandie, na rua Rodríguez Peña. Ele marcara um encontro com dois amigos argentinos às duas horas da madrugada. As testemunhas dizem que pouco antes disso, ele deixou um bilhete colado na porta de um dos quartos, anunciando que ia dar uma saída para comprar um sanduíche ou cigarros (as testemunhas diferem) e um remédio. Anos depois, o dono de uma loja de conveniência da Rodríguez Peña com Corrientes, disse lembrar de uma pessoa estrangeira que comprou cigarros e entrou num Ford Falcon verde. Esses eram os carros que usavam os chamados Grupos de tareas, militares e paramilitares que realizavam os operativos e seqüestros.
Tenório foi levado para uma delegacia da área e depois para a ESMA, a temível Escuela de Mecánica de la Armada, que funcionou como um dos campos de concentração onde aconteceram os crimes mais horrorosos.
Vinicius e o resto dos brasileiros foram do desconcerto ao desespero. O passado de diplomata do Poetinha lhe deu uma certa possibilidade de acesso às informações. Mas ninguém sabia de nada. O poeta Ferreira Gullar, que atravessava os anos do seu exílio portenho, também se interessou pelo destino de Tenório Jr. Nada.
Vinicius chegou a dar uma entrevista para a televisão onde o seu rosto aflito denunciava o que estava acontecendo, e inclusive chegou a falar de Tenório na entrevista, que depois não foi emitida.
Os músicos voltaram para o Brasil e começaram a se mexer para conseguir informações. Vinicius entrou com pedido de habeas corpus e rapidamente distribuiu um abaixo-assinado que foi entregue às autoridades. Mas o governo continuou a repetir que nada sabia e o Itamaraty só manifestou que “envidava esforços” para achar o pianista.
Em 1979, em entrevista à Folha de São Paulo, Elis Regina declarou, pouco antes de uma viagem a Buenos Aires:

- Vou fazer um giro pela Argentina que tem não só, pra mim, a finalidade de ir até a Argentina pra fazer um negócio que estão me pedindo já há algum tempo, mas, principalmente, ver se eu agito o lance do Tenório Júnior com o pessoal de lá que sabe onde ele está.

Na verdade Elis, que foi uma das pessoas que mais agitou mesmo para obter informações, se baseou na declaração de um compositor argentino que disse a ela ter visto o Tenório numa prisão na cidade de La Plata.
Por esses tempos, um jornalista -cujo nome desconheço- também andou por Buenos Aires atrás de notícias. Mas as pesquisas batiam com o silêncio oficial.

- Olha, essa pessoa não está viva nem desaparecida, e me disseram que é melhor o senhor deixar de perguntar e voltar para o Brasil.

Só em 1986 saiu à luz outra versão. Um argentino de sobrenome Vallejos foi ao Rio de Janeiro com uma série de dossiers sobre brasileiros desaparecidos na Argentina (seriam sete segundo constam nos arquivos do Brasil) para vender à imprensa. O tal Vallejos teria feito parte do grupo que seqüestrou Tenório Jr. Ele mostrou documentos em que constaria que o Capitão Acosta, célebre torturador da ESMA atualmente preso, entrou em contato com o SNI para requerir informações sobre o cidadadão brasileiro Francisco Tenório Jr.
Outro ofício, datado em 25 de março, uma semana depois do desaparecimento diz, com um cinismo estarrecedor

1) Lamentamos informar a essa representação diplomática o falecimento do cidadão brasileiro Francisco Tenório Júnior, Passaporte n° 197803, de 35 anos, músico de profissão, residente na cidade do Rio de Janeiro.

Mesmo havendo recebido esse ofício, o governo brasileiro não tomou nenhuma iniciativa para recuperar o corpo de Tenório e nem sequer comunicar à família os acontecimentos.
Na época ainda não estava “oficializado” o Plano Cóndor, mas já existia a colaboração e a troca de informações entre as ditaduras da América Latina.
Em 2006, o Estado brasileiro reconhece ter “feito pouco” para dar com o paradeiro de Tenório Jr e o juíz Alfredo França Neto dita sentença de idenização à mulher -que nem status de viúva tinha- e os filhos, por danos morais e materiais. Na sentença, França Neto diz:

“No caso concreto, a violação à dignidade da pessoa humana ocorre no momento em que o Estado não protege, como deve, os seus nacionais, e não atua eficientemente, quando menos, na busca das informações sobre o paradeiro e o destino de Tenório Júnior, e deixa sem qualquer notícia a sua família, ao longo de mais de vinte anos...”

O que parece chegar mais perto da realidade é que Tenorinho foi levado pelo fato de ser um cabeludo de barba que andava na madrugada pela rua, o que já era motivo suficiente para ser detido nos anos de chumbo. Ou que ele foi confundido com mais alguém -o que também acontecia freqüentemente- e depois de ser torturado e sem nenhuma referéncia, virou mais um caso de “queima de arquivo”.
Por acaso estava eu nas filmagens do Samba no pé quando li uma entrevista com o diretor espanhol Fernando Trueba em que ele anunciava o projeto de um documentário sobre Tenório Jr. Deixou então de ser para mim uma possibilidade de filme, mas continuou sendo uma história que sempre me comoveu.
Tenório Jr. era um grande pianista de jazz, dos que experimentaram com samba-jazz e desaguaram na bossa nova. Seu disco de 64, Embalo, é uma referéncia.
Sua tragédia, um absurdo que retrata o lado mais cruel da nossa história.



Foto de Tenório Jr. sem crédito do autor
Reprodução da capa do disco Embalo