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domingo, 8 de março de 2009

Borges txt (Quarta parte)



1. Na década de setenta, uma revista reune para uma entrevista Jorge Luis Borges -que detestava futebol- com o então diretor técnico da seleção argentina, César Luis Menotti. Depois de uma hora de conversa o escritor diz:

- Que estranho, hein? Ele é um homem tão inteligente, mas teima em falar de futebol o tempo todo.

2. A ceguera de Borges não era completa. Ele conseguia enxergar sombras e de vez em quando recuperava parcialmente a visão. Uma tarde ele descia no elevador junto com seu amigo, o poeta Roberto Alifano, quando soltou:

- Que bonita gravata.

Alifano ficou perplexo

- Mas você está vendo?
- No momento estou. Ela é amarela e tem pequenos pontos brancos. Até a textura eu posso ver. É muito bonita.

Os dois ficaram calados por uns instantes, e depois Borges disse:

- Agora não a enxergo mais.

3. Borges desconfiava dos objetos e muito mais dos aparelhos mecánicos. Um dia ele esperava o elevador junto de um desconhecido. O elevador demorava em chegar e ele ficava impaciente enquanto ouvia o barulho do motor. De repente, disse pro desconhecido:

- Vamos pela escada, que ela já foi completamente inventada.

4. Um jornalista ansioso por uma manchete espetacular para sua entrevista pergunta a Borges:

- O senhor já experimentou drogas?
- Eu tentei fumar maconha várias vezes -
respondeu Borges surpreendendo o jornalista-, mas não consegui. Finalmente optei por ficar com os drops de hortelã.

5. Depois de um jantar com amigos na casa da escritora Silvina Ocampo, Borges divide o taxi com outras pessoas, entre elas, a também autora Sylvia Molloy, a quem Borges acabara de conhecer

- Molloy... Molloy... -diz Borges e cita as vezes em que esse nome aparece na literatura irlandesa-. Eu tenho sangue inglês, escocês e acho que galês, mas não tenho um pingo de sangue irlandês -comenta, irritado o mestre-.

A viagem continua e, ao se despedir de Molloy, Borges diz:

- Para a próxima eu tentarei ser um pouquinho irlandês.

6. Borges foi um eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, porém nunca o ganhou, dizem que pelas suas idéias políticas, contrárias ao “progressismo da Academia”. Em 1984, dois anos antes de Borges morrer, quando já era famoso, otorgaram o Nobel ao escritor checo Jaroslav Seifert, desconhecido para o grande público. Os jornalistas, como todos os anos faziam, foram atrás de Borges para saber o que ele opinava.

- Não os culpo. Eu também gostaria de ser descoberto.

Foto de Jorge Luis Borges de Eduardo Grossman

As anteriores entregas dessa série:
Borges txt
Borges txt (Segunda parte)
Borges txt (Terceira parte)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Borges txt (Terceira parte)



1. Uma jornalista chilena consulta Jorge Luis Borges sobre o conflito limítrofe que a Argentina e o Chile mantinham no final da década de setenta pelas ilhas Picton, Lennox e Nueva, no Canal de Beagle. Era um momento de grande tensão onde os dois países estavam à beira de uma guerra ridícula. Borges responde:

- A Argentina e o Chile bem que poderiam ser generosos e oferecer essas três ilhas perdidas à Bolívia, que ainda não tem saída para o mar.

2. O escritor recebe a notícia de que a mulher que ele ama vai casar com outro homem. Na hora, resolve ir ao dentista para um conserto de três dentes que ele estava adiando. Borges pede ao dentista para tirar os três dentes. Juntos. Depois segue para o seu escritório na Biblioteca Nacional. O subdiretor da biblioteca, José Edmundo Clemente vê Borges entrando na sala com um lenço manchado de sangue na boca.

- Que foi, Borges? -pergunta-
- Pedi para o dentista tirar o dente sem anestesia. Estou triste porque uma mulher me abandonou. Queria esquecer a dor, Clemente, mas não consigo... Não consigo.

3. Outubro de 67. Borges está ministrando aula na sua cátedra de literatura inglesa quando entra um aluno para anunciar a morte de Che Guevara e dizer que a aula deve ser cancelada em homenagem ao revolucionário. O professor diz que a homenagem com certeza pode esperar até a finalização da aula. O estudante responde: “Tem que ser agora e o senhor vai embora”. Borges levanta a voz. “Eu não vou, e se o senhor é tão homem venha me tirar daqui!” O estudante diz então que vai cortar a luz da sala de aula. Vem a resposta de Borges:

- Eu tomei a precaução de ser cego esperando este momento.

4. De viagem pela Espanha, o autor vai para Palma de Mallorca, um lugar querido para ele na sua juventude. O dono de uma livraria lhe mostra uma relíquia, um livro com 16 poemas escritos pelo jovem Borges. Nervoso, ele vira para sua assistente e companheira, María Kodama:

- Rasgue esse livro imediatamente!

Maria lhe explica que a edição é boa e que tem uma bonita foto dele na capa. Sem duvidar, Borges diz:

- Então guarde a foto e rasgue o resto.

5. Em 1984, para comemorar a edição das Obras Completas, Borges vai jantar com um grupo de amigos em um restaurante do bairro portenho de Congreso. O escritor pede seu puré de batata, um dos seus pratos preferidos. Enquanto esperam, os amigos bebem vinho, comem pão com manteiga e jogam conversa fora. A comida demora. De repente, se faz um silêncio e Borges diz:

- Mas que bom jejum tem nesse restaurante!


Terceira parte da série sobre histórias, frases e anedotas geniais do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Tem mais nos links:
Borges txt
Borges txt (Segunda parte)

Foto da placa da rua Jorge Luis Borges, no bairro de Palermo, em Buenos Aires (ele teria achado abominável só a ideia de ver seu nome assim)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Borges txt (Segunda parte)



1. Um jornalista liga no desespero para María Kodama, a esposa e assistente do escritor. Por um problema no gravador dele a entrevista que acabara de fazer, sumiu. O jornalista solicita uma nova entrevista, mas Jorge Luis Borges se recusa:
- Não, Maria, deixa pra lá. Não entendo como podem confiar em um aparelho que guarda as vozes da gente.

2. Um jovem poeta vai ao encontro de Borges na rua. Põe nas mãos do escritor o seu primeiro livro. Borges agradece e pergunta:
- Qual é o título do livro?
- "Com a pátria dentro" -responde o jovem-
- Dentro? Mas que desconforto, meu amigo, que desconforto.

3. Sexta-feira à tarde. Borges está na casa dele mantendo uma conversa animada com um executivo da Editora Alianza quando toca a campainha do telefone. Fani, a mulher que trabalhou por mais de quarenta anos na casa do autor, atende o telefone e volta com um nome escrito em um papel. Borges pede pra dizer que liguem pra ele na terça-feira.
- Mas o senhor vai para Europa na segunda.
- É por isso que estou dizendo...

4. Na França, Borges é entrevistado ao vivo na televisão. O jornalista pergunta:
- O senhor é conciente de que é um dos maiores escritores do século?
- É que este tem sido um século medíocre.

Novas anedotas e frases hilárias de Jorge Luis Borges, que adorava brincar com a solenidade dos jornalistas e a genialidade que o tempo todo lhe atribuiam. O marcador do escritor é o link para a primeira parte da série e outras postagens e fotos do autor de O Aleph.

Foto de Jorge Luis Borges com María Kodama do acervo pessoal de María Kodama

domingo, 9 de novembro de 2008

Borges txt


1. Em 1923, o jovem Borges publicou seu primeiro livro, uma coleção de poemas chamada Fervor de Buenos Aires. Trescentos exemplares foram impressos. Ele acreditava que a melhor divulgação era dar de presente para escritores e jornalistas.
Borges chegou na redação da revista Nosotros, onde foi recebido pelo diretor da publicação, Alfredo Bianchi.

- Você pretende que eu venda esses livros?
- Não pretendo, embora eu escrevi este livro, não sou maluco. Mas eu queria que o senhor colocasse nos bolsos desses paletós que estão lá pendurados.


Em tempo, os donos desses paletós foram vários dos primeiros que começaram a escrever sobre Borges e a construir a reputação de poeta dele.

2. Borges era professor da Faculdade de Letras da Universidade de Buenos Aires. Uma mulher, louca por conhecê-lo, vai esperar o escritor na saída da sala de aula. Quando a aula finaliza, os estudantes vão embora e finalmente sai Borges. A mulher chega pra ele e diz:

- O senhor é Jorge Luis Borges?
- Momentaneamente.

3. Borges está no estúdio de tevê Sonotex para fazer um comercial da Biblioteca Personal Jorge Luis Borges, uma coleção de livros escolhidos pelo mestre que serão vendidos nas bancas. É verão em Buenos Aires e faz um calor horroroso. De repente, Borges está debaixo de um holofote com um dos seus habituais ternos escuros quando começa a chamar sua secretária (que depois será sua esposa) María Kodama.

- María! María!
A mulher chega perto dele.
- Que foi, Borges?
- Eu já estou no inferno?

4. O escritor recebe na casa dele um cheque por adiantado pela palestra que vai oferecer no Hotel Bauen, no centro de Buenos Aires. É a maior cifra que jamais obteve por uma palestra, no tempo em que ele já era uma celebridade.
No dia pactado, Borges chega mais cedo ao hotel, onde é recebido pelo dono. Depois de cumprimentá-lo, Borges devolve o cheque. Surpreso, o homem lhe-diz:

- Porquê me devolve o cheque? É o pagamento do senhor
- Caso ninguém vier.

Inicio hoje uma série de postagens com histórias, anedotas e frases geniais do escritor Jorge Luis Borges. Além da grande obra, o autor deixou uma coleção dessas histórias hilárias vindas da sua rapidez de respostas e o seu humor irónico. Porque além do escritor que ele foi, Borges foi um mestre da oralidade.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Borges detestava Gardel e amava Pink Floyd


O motivo da entrevista era mais uma das tantas exposições, mostras e palestras que têm como objeto a obra e a vida do escritor Jorge Luis Borges. A viúva dele, María Kodama, para uns foi literalmente os olhos do mestre nos últimos tempos e para outros foi o capeta, especialmente aqueles que gostam de sublinhar as lendas com juízos fatais, do tipo Yoko Ono acabou com os Beatles.
O certo é que María cuida da obra e do legado dele e é a voz da sua memória. Tanto que ainda a gente descobre coisas insólitas, brincadeiras e provocações daquelas que o escritor adorava.
Em entrevista à BBC de Londres, Kodama confirma que ele detestava Carlos Gardel, que achava que o cantor tinha estragado o belo tango da velha guarda. Mas como tango e malandragem eram assuntos comuns nas conversas dele a declaração foi só uma constatação. Mas a notícia é que Borges adorava Pink Floyd e que freqüentemente pedia que ela colocasse The Wall.
O universo onírico do grupo inglês cativou também ao criador do Aleph.
Na mesma entrevista, María Kodama diz que Borges, além de Brahms, Bach e a música da Idade Média, também gostava de um som dos Beatles e dos Rolling Stones.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quando Borges não era cego (e assistiu Citizen Kane)


Todos sabemos que uma festa, um palácio, uma festa, uma grande empresa, um almoço de escritores ou jornalistas, um ambiente cordial de franca e espontânea camaradagem, são essencialmente horrorosos; Citizen Kane é o primeiro filme que os mostra com alguma consciencia dessa verdade.

Fragmento da crítica do filme Cidadão Kane, de Orson Welles, escrita por Jorge Luis Borges e publicada em agosto de 1941 na revista Sur. A seguir, o texto completo da matéria, em espanhol.

"El ciudadano"
"Citizen Kane (cuyo nombre en la República Argentina es "El ciudadano") tiene por lo menos dos argumentos. El primero, de una imbecilidad casi banal, quiere sobornar el aplauso de los muy distraídos. Es formulable así: un vano millonario acumula estatuas, huertos, palacios, piletas de natación, diamantes, vehículos, bibliotecas, hombres y mujeres; a semejanza de un coleccionista anterior (cuyas observaciones es tradicional atribuir al Espíritu Santo) descubre que esas misceláneas y plétoras son vanidad de vanidades y todo vanidad; en el instante de la muerte, anhela un solo objeto del universo ¡un trineo debidamente pobre con el que su niñez ha jugado! El segundo es muy superior. Une al recuerdo de Koheleth el de otro nihilista: Franz Kafka. El tema (a la vez metafísico y policial, a la vez psicológico y alegórico) es la investigación del alma secreta de un hombre, a través de las obras que ha construido, de las palabras que ha pronunciado, de los muchos destinos que ha roto. El procedimiento es el de Joseph Conrad en "Chance" (1914) y el del hermoso film "The Power and the Glory": la rapsodia de escenas heterogéneas, sin orden cronológico.
Abrumadoramente, infinitamente, Orson Welles exhibe fragmentos de la vida del hombre Charles Foster Kane y nos invita a combinarlos y a reconstruirlos. Las formas de la multiplicidad, de la inconexión, abundan en el film: las primeras escenas registran los tesoros acumulados por Foster Kane; en una de las últimas, una pobre mujer lujosa y doliente juega en el suelo de un palacio que es también un museo, con un rompecabezas enorme. Al final comprendemos que los fragmentos no están regidos por una secreta unidad: el aborrecido Charles Foster Kane es un simulacro, un caos de apariencias. (Corolario posible, ya previsto por David Hume, por Ernst Mach y por nuestro Macedonio Fernández: ningún hombre sabe quién es, ningún hombre es alguien.) En uno de los cuentos de Chesterton -"The Head of Caesar", creo- el héroe observa que nada es tan aterrador como un laberinto sin centro. Este film es exactamente ese laberinto.
Todos sabemos que una fiesta, un palacio, una gran empresa, un almuerzo de escritores o periodistas, un ambiente cordial de franca y espontánea camaradería, son esencialmente horrorosos; Citizen Kane es el primer film que los muestra con alguna conciencia de esa verdad.
La ejecución es digna, en general, del vasto argumento. Hay fotografías de admirable profundidad, fotografías cuyos últimos planos (como en las telas de los prerrafaelistas) no son menos precisos y puntuales que los primeros. Me atrevo a sospechar, sin embargo, que "Citizen Kane" perdurará como "perduran" ciertos films de Griffith o de Pudovkin, cuyo valor histórico nadie niega, pero que nadie se resigna a rever. Adolece de gigantismo, de pedantería, de tedio. No es inteligente, es genial: en el sentido más nocturno y más alemán de esta mala palabra.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio