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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Nadinho da Ilha



Do alto dos seus quase dois metros e esse vozeirão dele, longe de assustar, Nadinho da Ilha soltava um sorriso inconfundível.
Sobrinho de Nilo Chagas, do Trio de Ouro e levado pro samba de criança, sob a asa de Geraldo Pereira, Nadinho gravou 39 discos, foi por anos integrante da ala de compositores da Unidos da Tijuca. E também ator, participou em 78 da primeira montagem da Opera do Malandro, de Chico Buarque, onde também estavam a Marieta Severo, Elba Ramalho e Ary Fontoura, entre outros.
Deixa saudades.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Paulo César Pinheiro - 60 anos



Sou carioca tenho muitos anos de janela
Sou do bairro imperial
Bati canela entre a rua dela e o Largo da Cancela
Andei no morro de São Roque, no Tuiuti também
Brinquei no bloco do ninguém é de ninguém (foi lá que eu andei)
Por causa dela
A moça da cor de canela
Que era a mais bela, eu sou compositor
Fiz meu nome na favela
Fui boêmio do Capela
Sou querido no meio do meu pessoal

E meu grande amor na passarela
É a Portela quando chega o carnaval.

Carioca da gema, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro
Foto de Paulo César Pinheiro de Fernando Souza

Hoje completa 60 anos o poeta e compositor Paulo César Pinheiro, referência incontornável da música popular brasileira, de quem se afirma que tem mais de mil músicas gravadas.
Saúde ao PCP!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O incapaz



Conheço a nova ordem
que esse calor revela
pitanga bagaço favela
Guimarães Rosa
e as pessoas continuam
regando as plantas
no final do dia

posso ser assaltado na esquina
sentir a febre nas bordas
da pele
conheço a padaria Santo Amaro
o veneno que os humanos
inoculam
posso ter esquecido o caminho
sentir que já vou tarde pra viver
delírio
posso um conjunto de
banalidade
e duas ou três coisas vitais

mas não posso te amar todos os dias
como se fosse o primeiro dia
como se fosse o primeiro homem
e a tempestade fosse mentira
mas não posso te lembrar
entre os instantes
e muito menos te alegrar
todas as horas
eu sou o incapaz que à noite abraça
e vira caçador na alvorada.

O incapaz, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto detalhe do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sem crédito do autor. Por essas ruas, nasceram os primeiros versos desse poema

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Dona Zica



"Cartola e eu nos conhecíamos desde crianças, vivíamos ali no morro. Ele saía num bloco e eu em outro. Depois ele fundou a Mangueira e eu comecei a sair nela. Cartola casou-se com uma moça e eu também casei com outro rapaz. Saí do morro e ficamos muito tempo longe um do outro. Mais tarde eu fiquei viúva, ele também. Um dia nos reencontramos na casa da minha irmã. Ele jogou aquele papinho dele, eu também estava à toa, e daí estamos juntos até hoje".

Dona Zica, figura ilustríssima da Estação Primeira de Mangueira, resumiu assim em 1973, sua longa história de amor com o compositor Cartola.
Zica nascera em 6 de fevereiro de 1913. Hoje é seu aniversário. Ficou fora da postagem sobre aquarianas. Ela merecia esta só pra ela.

Foto do arquivo da Folha de São Paulo

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Casemiro da Cuíca



Não não deixe que a tentação
Venha modificar o nosso viver
Alimento uma ilusão
E só você sabe o porquê
Na tristeza que me invade
Só é Deus é que sabe
O que eu sinto por você
Procuro encontrar uma solução
Mas não posso governar o coração
Que sofre por te amar em vão.

Tentação, de Casemiro da Cuíca e Ramon Russo

Semana desgraçada essa, hein? Mais um que vai para trupe do céu. Casemiro da Cuíca, o mais velho integrante da Velha Guarda da Portela, que iria fazer 90 anos em abril, partiu ontem.
Aqui tem um fragmento precioso de Paulinho da Viola encontrando a Velha Guarda na casa da minha querida Surica. Lá está o Casemiro que, no estilo antigo, continuava usando querosene para molhar o pano da cuíca.
Ainda bem que essa aristocracia da escola de Oswaldo Cruz vai passando testemunha para as outras gerações. Estão aí Cristina Buarque, Teresa Cristina e outros para provar.

Foto de Casemiro da Cuíca de Serra Azul, em show de apresentação do documentário O mistério do samba, em São Paulo, em agosto de 2008

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Xangô da Mangueira nos deixa mais sozinhos


Há exatos dois anos, escrevi aqui pela primeira vez sobre Mestre Xangô da Mangueira. Quando em 2005 fizemos o documentário Samba no pé, na hora de escolher os entrevistados que pudessem representar o pensamento e o sentir das Velhas Guardas, não tive dúvidas, seriam Surica, pastora da Portela, e Olivério Ferreira, nosso Xangô da Mangueira.
O encontro com o baluarte foi marcado no Terreirão do Samba. Até ali chegamos com a equipe. O céu estava cinza, ótimo para o diretor de fotografia. E o Terreirão vazio ao lado da silenciosa Marquês de Sapucaí inspirava pelo oposto a majestosidade do carnaval.
Xangô desceu do taxi com a mesma elegância com que andava pela avenida, impecável, de calça e sapatos brancos e com a camisa cor de rosa, uma das cores da nossa escola de coração.Quem fora compositor de mais 150 sambas, intérprete e diretor de harmonia da Estação Primeira, falou de tudo, das velhas épocas da Mangueira quando “Cartola era génio, mas quem cantava era eu” até a sensação quase inexplicável na hora de entrar na passarela.
Quando a entrevista acabou, pedimos para Xangô andar um pouco pelo Terreirão, o que é de praxe, ter umas cenas que sempre ajudam na hora de editar e para dar um ar nas longas tomadas dos depoimentos.
Jamais vou esquecer esse momento dele andando, com as mãos atrás do corpo, que mesmo ocupando um espaço breve no filme, foi um dos momentos mais emocionantes de toda a filmagem.
Há umas horas recebi a notícia da partida do mestre Xangô, um dos maiores partideiros que o samba nos deu. Vai ser muito dificil esse ano ver a velha Manga sem Jamelão e sem Xangô. É uma tristeza que só a voz dele que vem da caixa de som, disfarça.
Só disfarça.

Outros textos do Nemvem Quenaotem que citam mestre Xangô
Fragmento do documentário
Samba no pé com Tia Surica e Xangô da Mangueira

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Salve Thereza Miranda


Ficou inaugurada hoje na Embajada del Brasil em Buenos Aires a mostra Impresiones, de Thereza Miranda.
A retrospectiva comemora os oitenta anos da artista plástica carioca, pioneira na utilização da fotografia em gravuras.
Um privilégio e uma oportunidade única para o público porteño de assistir ao vivo os trabalhos desta artista fantástica que traduz nas pinturas e gravuras meio século do seu olhar artístico.


Reprodução de Casa no Catete, gravura em metal de Thereza Miranda (1981)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Luiz Carlos da Vila



Luiz Carlos da Vila (1949-2008)


Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça
Poesias, brindando essa manhã feliz
Do mal cortado na raiz
Do jeito que o mestre sonhava

O não chorar
E o não sofrer se alastrando
No céu da vida, o amor brilhando
A paz reinando em santa paz

Em cada palma de mão, cada palmo de chão
Semente de felicidade
O fim de toda a opressão, o cantar com emoção
Raiou a liberdade

Chegou o áureo tempo de justiça
Ao esplendor, do preservar a natureza
Respeito a todos os artistas
A porta aberta ao irmão
De qualquer chão, de qualquer raça
O povo todo em louvação
Por esse dia de graça.

Por um dia de graça, de Luiz Carlos da Vila
Foto de Oskar Sjostedt

Hoje é um dia tristíssimo

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ela é minha cara


Causa reboliço aonde passa,
Desce mais redondo que a cachaça...
Ela é a fulana de tal,
O seu palácio vai do Leme ao Pontal,
É a minha mais entre as dez mais.
Ela é gente bem,
Por isso mesmo não dá mole a ninguém,
Mas um dia eu faço ela sambar.

Ela é o colírio da moçada
Quando chega pára a batucada.
Ela é o jazzy,
E há quem diga que parece um rapaz,
Mas quem fala é louco pra encarar.

Ela é minha cara
E nem me olha quando a gente se esbarra,
Mas um dia eu faço ela sambar.
Tira onda de granfina ,
Mas pra mim é só a mina
Que enfeitiçou meu coração.
Vai que um dia pinta um clima
E ela vem parar na minha
E eu vou comer na sua mão...

E eu vou comer na sua mão...
E eu vou comer na sua mão...

Ela é minha cara, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, interpretada por Mart'nália

Conheci Mart'nália no dia da entrevista marcada para o documentário Samba no pé. O ponto de encontro era o Circo Voador, na passagem de som da Rita Ribeiro. Nessa noite ia ter canja da filha de Martinho e Anália.
Quando ela chegou, perto das seis e depois do almoço no Nova Capela, os membros da equipe começaram a olhar pra mim com desconfiança. Parecia que Mart'nália tivesse vontade de qualquer coisa, menos de falar. Até esse momento tudo tinha dado certo e os entrevistados haviam esbanjado gentileza e sorrisos.
Mas quando a câmera acendeu, Mart'nália também iluminou-se, deu um show de bola e deixou momentos inesquecíveis para o documentário.
Depois compreendi que Mart'nália estava apenas amanhecendo. A história vale para referenciar o novo disco da artista, intitulado Madrugada, produzido por Arthur Maia e Celsinho Fonseca, que já havia produzido o ótimo Pé do meu samba e que ainda deu essa Ela é minha cara, em parceria com Ronaldo Bastos.
Se enganou quem pensava que depois do sucesso do Menino do Rio, a cantora ia tentar repetir a fórmula. Ela vai quase no sentido oposto, mas continua fiel à sua essência, traçando pontes entre Vila Isabel e a Motown, entre a raiz e a MPB. E graças a deus e aos orixás, tudo acaba em samba. Nas madrugadas onde ela se inspira, passeia sua ginga e também responde os e-mails.
Se eu tenho um lado carioca é esse mesmo. Mart'nália é minha cara.

Foto de Mart'nália de Eny Miranda

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Os dez mais da Geração Paissandu


Jeanne Moreau, belle em Jules e Jim


Inesquecível Gian Maria Volonté


Plus belle Jean Seberg em Acossado


Jean-Luc Godard, o cara


Cinzas e diamantes, obra capital de Wajda

1. Cinzas e diamantes (Popiól i diament), de Andrzej Wajda (1958)
2. Acossado (À bout de souffle), de Jean-Luc Godard (1959)
3. O ano passado em Marienbad (L'Année derniere à Marienbad), de Alain Resnais (1961)
4. Jules e Jim, uma mulher para dois (Jules et Jim), de François Truffaut (1961)
5. Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha (1964)
6. Alphaville, de Jean-Luc Godard (1965)
7. O demônio das onze horas (Pierrot le fou), de Jean-Luc Godard (1965)
8. A chinesa (Le chinoise), de Jean-Luc Godard (1967)
9. Weekend à francesa (Weekend), de Jean-Luc Godard (1968)
10. A classe operária vai ao paraíso (La classe operaia va in paradiso), de Elio Petri (1971)

Segundo consta no livro Geração Paissandu (Editora Relume Dumará, 1996), do jornalista Rogério Durst, esses são os dez títulos preferidos pelo público do agora desaparecido cinema do bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O autor define aquele local como um "ninho de moços ávidos por informação e socialização", cujo apogeu se deu no espaço entre ditaduras, que foi de 1964 a 1968, nas épocas em que bastava com uma idéia e a câmera na mão. A única exceção da lista é o filme italiano de Petri.
Vocês encontram aqui meu texto sobre o fechamento do Cine Paissandu.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Corri pra ver


Ouvi cantando assim
ô ô, ô ô
A majestade do samba
Chegou, chegou
Corri pra ver
Pra ver quem era
Chegando lá
Era a Portela

Era a Portela do seu Natal
ganhando mais um carnaval
Era a Portela do Claudionor
Portela é meu grande amor

Ouvi cantando assim...

Era a rainha de Oswaldo Cruz
Portela muito nos seduz
foi mestre Paulo seu fundador
nosso poeta e professor

Ouvi cantando assim...

Corri pra ver, de Chico Santana, Monarco e Casquinha
Foto de divulgação de Casquinha, Zeca Pagodinho e Monarco

Hoje estreia nos cinemas do Brasil O mistério do samba, documentário de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor sobre a Velha Guarda da Portela.
Li nos foruns da vida que esse filme e todos os documentários musicais que estão aí, desde o de Cartola até o dos Rolling Stones, são cópia do Buena Vista Social Club. Bobagens.
Pra começar, sem tirar seus méritos, o BVSC não foi o primeiro documentário sobre música e ou músicos, o próprio Scorsese fez The Last Waltz, documentário sobre The Band, em 1978.
E também, ninguém ia esperar dez anos pra copiar um filme, até porque se essa fosse a intenção outros poderiam copiar primeiro.
Eu que tive a honra de produzir e escrever o roteiro de um documentário sobre samba em que aparecem algumas dessas figuras maravilhosas das velhas guardas, sinto a maior felicidade quando um outro filme do estilo é feito.
As velhas guardas merecem o nosso maior respeito, porque eles são os que mantiveram a tradição quando o samba não estava na mídia nem na moda e eles são os que seguram o samba pra passar para as outras gerações.
Então, hoje estreia O mistério do samba. Corram pra ver.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Cinema Paissandu: Preservar ou deixar morrer?




O cinema Paissandu do bairro carioca do Flamengo abrigou na década de sessenta uma geração de jovens que entendiam o cinema e as artes em geral como uma ferramenta de transformação. Uns eram os autores desse cinema e outros eram os polemistas, em calorosas discussões que podiam começar em Godard e acabar na luta de classes.
Agora o grupo Estação, que gerencia a sala, colocou data de validade para o histórico espaço, chamado na atualidade Estação Paissandu. E é pra já, no próximo domingo.
A notícia gerou um movimento de cinéfilos e uma reação acorde com os dias de hoje, um abaixo-assinado veiculado através da internet. Meu primeiro impulso foi clicar lá e assinar também. O Paissandu para mim, morador do bairro, sempre foi um polo cultural, uma referência, o lugar onde corriamos aqueles que não corriamos atrás da novidade. Eu morava na Senador Vergueiro e sabia, mesmo indo pouco nos últimos tempos, que ele estava lá. E eu me orgulhava por pertencer a um bairro que tinha um cinema diferente de quase todos.
Agora, desde a distância do inverno de Buenos Aires penso se o fato de querer manter esses espaços e realmente uma maneira de salvaguardar nossa cultura ou é uma jogada a traição da nossa própria nostalgia.
A realidade é que o Paissandu, com seu cheiro de mofo, não é mais o que era, mas nós também não somos, eles não são. Glauber e Sganzerla morreram, assim como Bergman e Antonioni; Jabor virou colunista do Globo e aqueles anos deixaram uma colheita heterogénea que inclui feridos, recalcados; uns que optaram pelo cinismo e outros que ainda acreditam que a esperança de um mundo senão melhor um pouco menos injusto, essa sim não tem data de validade.
Cinemas de rua viraram templos para que pastores eletrônicos materializem os milagres. Ou seja, quem comparecia ao cinema como quem assiste ao templo foi substituído pelos que comparecem com a ilusão de achar um deus que possa encher o buraco que provoca nos homens a angústia de existir. E o buraco enfim está mais embaixo.
Cinemas são nesses dias espaços descaracterizados que não cheiram mofo nem tem gato andando entre as fileiras. Eles cheiram pipoca e óleo de batata frita. A familiaridade procurada é a uniformidade do sujeito consumista: qualquer cineplex de Botafogo tem que ser igual ao que você encontra em qualquer cineplex do Brighton, na Inglaterra. O sucesso é a identificação, vide McDonalds. Tudo igualzinho, tudo com o mesmo sabor.
O burburinho eletrônico deu como conseqüência que o dono do prédio saiu dizendo que o Paissandu não vai ser trocado por um estacionamiento. Que o prédio será preservado enquanto um investidor -os benditos mecenas posmodernos- é achado. O diretor José Joffily ensaiou uma definição legal: “Eu me aproximava do Paissandu meio atemorizado, porque naquela geração eram todos oniscientes. Eu participava timidamente das discussões que se seguiam às sessões porque, se você falasse mal de certos filmes, acabava a sua vida social, acabavam as suas chances de namorar. Com o fechamento do Paissandu, encerra-se uma época em que o cinema era discutido, não era um mero brinquedo, mas um veículo para a revolução”.
E eu chego ao final dessas linhas com menos certezas que dúvidas. Devemos lutar como Quixotes para manter vivos esse bastiões da cultura? Devemos nos agarrar das paredes porque, parafraseando Serrat, “foi alí onde a Lauren Bacall jurou eterno amor Humphrey Bogart”?
Ou devemos assumir que aquilo não é mais, virou ilusão? Ou devemos deixar os operários derrubarem nosso passado a golpes de picareta e criar novos cinemas Paissandu? Talvez novos desejos e porque não novas utopias.

Texto de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto do cinema Paissandu na década de sessenta, sem crédito do autor
Foto do cinema Paissandu na atualidade de Leonardo Aversa


Confira neste post os dez filmes mais badalados da Geração Paissandu

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Rio pra não chorar


Rio, rio, rio
Rio pra não chorar
Pra quem não sabe eu sou rio
A cantar

Som do Flamengo
Soa ali em Botafogo
Sou da casquinha do ovo
E essas flores
Na Rocinha vou plantar
Quem olhar minha barraca
No morro de Dona Marta
Quer morar

Rio, rio, rio
Rio pra não chorar
Pra quem não sabe sou Rio
A cantar

Se tenho fome
Como logo o Pão de Açúcar
Urro no morro da Urca
Se quero abraço
Tenho o Cristo pra abraçar
Tamborim pra ti tarol
Escolados pelo sol
Rio e morro de amar

Vide Gal, de Carlinhos Brown
Foto de Martinho da Vila e Mart'nália, devidamente ataviados para sair na Vila

Fazia tempo que não dedicava uma postagem para celebrar o Rio de Janeiro. Esse retrato singelo que o baiano Carlinhos Brown fez, acabou de ganhar sua versão definitiva. A querida Mart'nália, que aos poucos está virando o rosto feminino da música com selo carioca, gravou em dueto com o pai Martinho para a trilha sonora do filme Era uma vez, que estreia essa semana.
A letra foi colocada do jeito que eles cantaram. Infelizmente, por enquanto o cd não tem previsão de lançamento

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Segura a marimba!


A minha alegria atravessou o mar
E ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante
No maior show da Terra
Será
Que eu serei o dono dessa festa?
Um rei
no meio de uma gente tão modesta
Eu vim descendo a serra
Cheio de euforia para desfilar
O mundo inteiro espera
Hoje é dia do riso chorar
Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar
Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá (eu levei)
Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar
Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá
Acredito
Acredito ser o mais valente
Nessa luta do rochedo com o mar
E com o mar...
É hoje o dia
Da alegria
E a tristeza
Nem pode pensar em chegar
(Diga espelho meu!)
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu

É hoje, samba enredo de Didi e Mestrinho de 1981

Hoje foi embora Aroldo Melodia, eterno intérprete da Escola de Samba União da Ilha do Governador, que estreou esse samba na avenida. É um ano terrível em que já perdemos dois baluartes enormes entre os intérpretes do carnaval carioca de todos os tempos.

sábado, 14 de junho de 2008

Adeus de Jamelão encerra uma época




A longa despedida do Jamelão encerra também uma época de sambistas arquetípicos. Como tantos outros, a Voz da Mangueira era de origem humilde, daqueles que já desde crianças fazem bicos ou vendem jornais; aqueles que aprenderam sua arte nas ruas olhando os mais velhos; aqueles que eram muitas vezes explorados por empresários e produtores espertinhos; e que no fim dos dias quase sempre recebem homenagens, mas raramente são reconhecidos nas suas necessidades financeiras. Todo mundo adora tirar fotos com eles e passar a mão nas costas, mas poucos se preocupam pelo bem-estar deles.
Eu já tinha escrito meu texto de adeus ao intérprete (jamais puxador!) da Mangueira, em fevereiro do ano passado, no primeiro carnaval depois de muitos em que o Jamelão não pôde entrar na avenida com a Verde e Rosa.

Foto de Jamelão de MarcusRG

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Darcy da Mangueira


Vem...Ouvir de novo o meu cantar
Vem ouvir as pastorinhas
A luz de um pássaro cantor
Yes nós temos Braguinha
Bela época
Quando o poeta floresceu
Oh! meu Rio
Então cantando amanheceu
Num fim de semana em Paquetá
Ouvi Carinhoso amei ao luar

Laura... que não sai da minha mente
Morena a saudade mata a gente

Hoje tem fogueira
Viva São João
Mané fogueteiro
Vai soltar balão

Carnaval!
O povo vibra de alegria
Ao cantar a tua poesia
Será que hoje tudo já mudou
Onde andará o arlequim tão sonhador
Chora pierrô, chora
Se a tua colombina foi embora
Canta!
A mulata é a tal
Salve a lourinha
Dos olhos claros de cristal

É no balancê-balancê,
Eu quero ver balançar
É no balanço que a Mangueira vai passar

Yes, nós temos Braguinha, samba enredo de 1984, de Darcy da Mangueira, Hélio Turco, Arroz, Jajá e Comprido


"Um bom samba tem de ser detalhado e não descartável".
Darcy da Mangueira (1932-2008)

Partiu o grande compositor mangueirense Darcy da Mangueira e com ele vão embora cinco décadas de samba. Fica o legado maravilhoso de muitos sambas enredo campeões como esse que homenageia Braguinha, O mundo encantado de Monteiro Lobato e Samba, festa de um povo. A nação verde e rosa está em silêncio.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Vidigal


Corpos despencam
batem nas pedras
dormem no mar
final no Vidigal
corpos que deixam
traços de vida
em cada ferida
silêncio sal
espumareia
no Vidigal
corpos em série
fora de foco
tomada corte
peridural
no Vidigal
costas encostas
bocas abertas
portas fechadas
é nós na fita
na eterna fita
fundido a negro
ponto final
no Vidigal.

Vidigal, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto do costão da avenida Niemeyer de Oscar Cabral
Escrevi esse poema quando morava no Rio de Janeiro, no meio dos episódios de violência na disputa pelo controle dos pontos-de-venda de drogas no Vidigal e na Rocinha. Foi em avril de 2004. Faz exatamente quatro anos.

domingo, 30 de março de 2008

Jagger e o medo cênico em Copacabana



Com motivo da estreia do documentário Shine a light, de Martin Scorsese, Mick Jagger acabou de dar uma das suas raras entrevistas e nela falou sobre o show de 2006 na praia de Copacabana.
"Foi incrível, mas as horas prévias foram muito estranhas. O hotel tinha vista à praia, e eu me lembro que no dia do show a mídia dizia que na praia já tinha mis de fãs. Mas quando eu olhava pela janela não se-via ninguém. Às seis horas da tarde, duas horas antes do show, continuava sem haver ninguém. Eu estava começando a ficar preocupado. Geralmente, acontece que antes de um concerto os fãs estão presentes com muita antecedência. Bom, não tinha razão para eu ficar preocupado. Porque os brasileiros são muito relaxados e chegaram à praia bem na última hora. Essa noite tocamos para mais de um milhão de fãs. Foi mágico."
As fotos de baixo mostram a praia de Copacabana na tarde do show, assim como o Jagger a enxergou desde o Copacabana Palace, e durante o show, com a multidão tomando conta das areias da Princesinha do mar.

domingo, 2 de março de 2008

Traficas de sonhos


Vai parar na Central
bonde voador
vai nascer uma mão
pedra do Arpoador
traficamos sonhos
na travessa do som
vai dar arco-íris
vai dar amaryllis
no morro da Urca
vai surgir da Penha
estrela fugaz
vai pintar sereia
lá no piscinão
inventamos sonhos
no impuro porão.

Traficas de sonhos, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto da Central do Brasil de Jonathan Duriaux

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Pra que discutir com madame?


Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba,
Madame diz o que samba tem pecado
Que o samba é coitado e devia acabar,
Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça mistura de cor,
Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor,
Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra que discutir com madame.

No carnaval que vem também concorro
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na Avenida entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno meu Deus que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.

Pra que discutir com madame, de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida

Foi discotequista, roteirista dos quadros de humor que ele mesmo representava na rádio, autor de televisão e, na década de quarenta, Haroldo Barbosa começou a fazer versões para Francisco Alves. Entre elas, várias de tangos clásicos como Adiós pampa mía e El día que me quieras.
Ilustre morador da Vila Isabel, a ele pertencem as letras de grandes sambas como esse que está aqui, cheio de humor irónico, uma das suas bem sucedidas parcerias com Janet de Almeida.