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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O sal é um dom




Minha mãe me deu ao mundo
de maneira singular
me dizendo uma sentença
pra eu sempre pedir licença
mas nunca deixar de entrar

Amanhã, entre as 18 e as 22, acontece a apresentação do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, com textos e receitas colhidas pela filha-poeta Mabel Velloso e fotografias de Maria Sampaio, que aqui já é amiga da casa, para minha honra.
Será em Salvador, no Restaurante Amado, que fica na Avenida de Contorno.
Se pensarmos nas receitas, é de dar água na boca. Se pensarmos nos textos, nas fotos e na carga histórica e emotiva, é de dar água (e sal, que é um dom) nos olhos.

Foto reprodução da capa do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, de Mabel Velloso, com fotografias de Maria Sampaio, editado em parceria pela Corrupio e a Nova Fronteira.

Tudo de novo (fragmento), de Caetano Veloso

domingo, 21 de setembro de 2008

Quero ver Irene rir


Família Veloso. Irene ri.


Caetano Veloso no exílio em Londres


Já tenho escrito que a música Maria Bethânia foi uma das primeiras que despertou minha atração por música brasileira, fora as músicas de Roberto Carlos que eu ouvia em espanhol sendo criança.
Com curiosidade adolescente fui atrás do autor daquela música e assim descobri Caetano Veloso. Na minha primeira viagem ao Brasil, com dezessete anos, trouxe vários vinis, entre eles, aquele que foi o segundo da carreira solo dele, que chamou minha atenção pela capa branca com a assinatura no meio. Pouco sabia então da biografia do artista. Nas primeiras matérias que eu li, alguma falava sobre a viagem dele com Gil para São Paulo com o objetivo de desenvolver a carreira e dos momentos dificis que todo natural de uma cidade pequena tem que atravessar quando vira um migrante.
Quando ouvi Irene pela primeira vez achei natural que fosse, entre guitarras distorcidas que já nos oitenta soavam pitorescas, uma música de saudade do jovem baiano que sentia falta dos seus afetos. Eu não fazia a menor idéia de quem era a Irene da música. No progressivo aumento do meu interesse pela obra de Caetano, soube que Irene era uma das irmãs dele. Pouco tempo depois, num especial da televisão brasileira -daqueles que os meus amigos gravavam com generosidade pra mim quando o acesso à informação era menos democrático e simples- eu soube que a música tinha sido criada pelo artista na cadeia, porque o sorriso de Irene, aberto e sonoro, era o completo oposto daquela realidade.
Fiquei comovido com a história e a beleza da metáfora. Lembrei imediatamente do grande poeta espanhol Miguel Hernández, que escreveu vários dos seus mais estarrecedoramente belos poemas nas prisões da Guerra Civil Espanhola. Mas mesmo ignorando os motivos que levaram Caetano a compor a música, eu já gostava muito dela, da musicalidade rítmica do verso “quero ver Irene rir” e do contraste das guitarras elétricas e o andamento com o que as palavras significavam. Para um adolescente de Buenos Aires, criado na ditadura e na cultura do tango, resultava muito curioso como na música brasileira, letras tristes eram freqüentemente expressadas com músicas que sugeriam o contrário. Com o tempo cheguei a fazer programas de rádio inteiros acentuando essa particularidade, em comparação com a música argentina.
No seu livro Verdade Tropical, Caetano refere assim o acontecimento:
Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita que eu por vezes mencionava Ava Gardner para comentar sua beleza. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra: Eu quero ir minha gente/ Eu não sou daqui/ Eu não tenho nada/ Quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada/ Irene ri, Irene ri, Irene... Foi a única canção que compus na cadeia. (...)
Quando comecei a arranhar as cordas do violão, já com vinte e cinco anos, um dia me surpreendi cantando Irene num ritmo bem mais lento e o círculo fechou, pois senti na própria carne a profundidade da tristeza daquela música.
Eu já tinha conversado com Caetano, em entrevista em Buenos Aires no começo da década de noventa, sobre a tristeza desses anos. Agora, através do encontro humanamente virtual com a arte e a pessoa de Maria Sampaio, achei entre os seus links o Blog de Irene Velloso, precisamente chamado Irene ri, com o palíndromo que descobriu o grande Augusto de Campos. E lá está ela, com seu sorriso, que jamais testemunhei ao vivo, mas que imagino do jeito que o artista o descreveu, no antagonismo da opressão, como uma vitória da liberdade.

Foto da família Veloso de Maria Sampaio
Fragmento do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 1997)
Reprodução da capa do disco Caetano Veloso, de 1969
Foto de 1969 de Caetano Veloso no exílio em Londres, de autor não indicado

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O olhar de Maria Sampaio


O blog traz essas alegrias. Quando Dona Canô, a mãe de todos os Veloso, fez cem anos eu dediquei uma postagem simples, onde tudo o que eu tinha a dizer estava expressado em uma fotografia que achei de Maria Guimarães Sampaio. Nela aparece Dona Canô, sentada sozinha na sala da casa de Santo Amaro, num belíssimo preto e branco. É uma imagem comovente, atravessada pelo silêncio e as recordações. Então só resolvi acrescentar uns versos de Caetano que definem poeticamente à mãe dele, da música Genipapo absoluto.
Ontem, quase um ano depois da postagem, a autora da foto, deixou uma mensagem agradecendo o fato de eu ter colocado o crédito e com um convite para visitar o blog dela.
No Continhos para cão dormir há outras fotografias lindas feitas por Maria, como essa incluída aqui e também seus textos permeados de brasilidade.
Quem anda por aqui sabe que sustento e defendo autoria nos blogs. Esse detalhe de incluir um crédito que pode parecer menor, também pode desaguar no mar do encontro entre pessoas que estão aqui, nesse mundo as vezes chato, jogando luz com a sua arte.

Foto de Maria Sampaio de 1994, da fazenda Mutumpiranga, Nilo Peçanha, Bahia

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Revalorizar Gonzaguinha


Viver essa longa avenida de gás neon
Portas de ouro e prata
Falsos sonhos nessas noites de verão
Faces coloridas, farsas de alegria
Beijo sem sabor
Gestos clandestinos tontos e sedentos de amor
Espinhos, rosas, risos, pranto e tanto desamor
Corte, cicatrizes, gritos engasgados
Lágrimas de dor
Máscaras no rosto, continua a festa
No sorriso o sal
a orquestra geme as dores do palhaço
Triste marginal
Ai de quem mergulhar nesse mar de veneno
Nessa lama enfeitada, nesse sangue das taças
Temendo sofrer
Ai de quem quer negar esse mar de veneno
Mil vezes maldito na inconsciência
Das vidas à margem há de ser.

Gás Neon, de Luiz Gonzaga Junior

Freqüentemente a obra de Luiz Gonzaga Jr, o Gonzaguinha, foi etiquetada injustamente de depressiva, quando na verdade ela é densa. E essa é uma grande diferênça. Maria Bethânia compreendeu isso melhor e antes que ninguém. É o perigo de confundir lamento de corno com desamor. Gonzaguinha expressou o fim do amor como poucos na sua geração da música popular brasileira e, as vezes, essas dores estavam encravadas no contexto político hostil, como é o caso de Gás Neon, gravada no álbum Plano de Vôo, de 1975.

domingo, 8 de junho de 2008

Bethânia-me Omara-me


Ontem à noite Maria Bethânia e Omara Portuondo deram um único show em Buenos Aires como parte das apresentações ao vivo do disco que fizeram juntas, partindo do encontro humano que aconteceu num almoço no Copacabana Palace.
Pouco vi do show porque estava trabalhando, mas perto do final, bem do lado esquerdo do palco, cheguei a enxergar o olhar amoroso da cantora bahiana para a cantora cubana e, pouco depois, o jeito com que Omara entregou-se ao abraço de Bethânia.
Foi suficiente. Assisti muitos shows de Bethânia que sempre são encenados com rigor no detalhe, e com as músicas inseridas num conjunto, de maneira tal que não deve ser facil pra ela dividir o palco. Que nada, como afirmei outras vezes, a arte aconteceu no encontro. Faz todo o sentido a adaptação feita na letra do bolero Havana-me, de Paulo César Pinheiro e Joyce. A cantora brasileira acrescentou os versos "Bahiana-me", "Bethânia-me" e "Omara-me". E todos nos sentimos embalados, abraçados no abraço delas.

Foto de Nelson Perez

sábado, 19 de abril de 2008

Porque chamamos o rei de rei



Meu primeiro contato com música brasileira foram as canções de Roberto Carlos que ele começou a gravar em espanhol, quando a gravadora descobriu o filão para impor os discos dele na América hispano-falante. Un gato en la oscuridad, Amada amante e tantas outras estão ligadas a momentos insequecíveis da minha pátria, que eu entendo como o território -não físico- da infância. Eu conheci essas músicas porque elas tocavam em tudo o que é lado: nos quartos das empregadas, nos rádios dos motoristas de ônibus, que colocavam os adesivos do rei nos portenhíssimos colectivos, junto com os de Gardel. Mas também no tocadiscos Winco do meu irmão mais velho e nas poucas festas dos amigos dele em que eu consegui entrar de penetra.
Depois comprei o vinil Yo te recuerdo, que começava com aquela música arrasadora que, de quebra, me apresentou o mais puro Armando Manzanero. Nele estavam incluídas músicas tremendas -fica aqui também a homenagem ao parceiro do rei em tantas canções, Erasmo Carlos- em espanhol como Palavras e Atitudes e em português, como O show já terminou. Esse disco iluminou em mim o conceito de canto amigo que Roberto Carlos criou. Porque as músicas dele representam como poucas a tensão da espera amorosa, o gozo da conquista e a dor da perda.
Depois veio o resto. O conhecimento da quase totalidade da obra dele em português, a reivindicação de Maria Bethânia quando ele era considerado o sumo do brega -que até hoje me acompanha quando alguém desde a inteligentsia entorta o nariz se eu dizer que gosto de Roberto Carlos e tudo mais.
Por esses dias, por acaso, quase coincidem em Buenos Aires os shows de Manzanero e Roberto Carlos para despertar em mim aquelas origens. Se bem que é difícil e nem pretendo manter a objetividade quando no imaginário mistura-se a informação das recordações infantis com a arte, é bom de vez em quando lembrar, parafraseando Caetano agora, porque chamamos rei quem chamamos de rei.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Mestras de música



Tive três mestras de música. Nas dúvidas de língua estrangeira que me assaltam o tempo todo penso que talvez deveria começar assim: “Eu tive três mestras...”, mas detesto começar um texto com a palavra “eu”, então saiba o leitor iludir essa ausência de pronome.
Enfim, tive três mestras de música. A primeira foi Sara Bonino, que dirigia o coro da escola onde eu fiz o ensino fundamental. Sempre séria e com um batom vermelho furioso ela me mostrou muito cedo que músicas boas podem vir de qualquer canto do planeta.
Com minha emissão já grave aos onze anos, eu fazia parte da terceira voz do coro que cantava nos atos músicas do Guastavino, do folclore armenio, da tradição francesa e muitas outras.
A professora Sara me ensinou essa cara de bobo que a gente precisa fazer para relaxar o queixo, esse sorriso falso para sustentar as notas em i. Ela detestava que eu e outros fizéssemos parte do time de futebol da escola. Ela detestava futebol que, na época, todos nós achávamos muito mais interessante que ensaio de coro. Porém, no dia da decisão do tornéio inter escolar, a professora Sara nos-levou para a sala de música, nos fez deitar no chão e começou a tocar melodias suaves no piano pra gente relaxar. Foi um dos gestos de generosidade mais bonitos que eu recebi na minha vida.
A segunda dessas três mestras foi Virgínia Lee, que foi minha professora de violão na Fundação do Centro de Estudos Brasileiros em Buenos Aires, quando eu, já com vinte e cinco anos, ressolvi que tava na hora de deixar de adiar esse aprendizado.
A professora Virgínia me levou pela extensão rítmica brasileira com precisão e alegria. Descobri com ela que alegria é fundamental pra encarar qualquer aprendizado. Sempre lembro a bronca que ela deu em mim quando soube que eu era canhoto: “Você está fazendo um duplo esforço, um para aprender e outro para aprender feito destro”.
E a Virgínia -que ainda tenho o enorme prazer de encontrar de vez em quando- também me ajudou para achar os caminhos que me levaram alguns anos depois a virar um modesto “brasilianista” e a derrubar preconceitos sobre músicas que eu tinha como bregas. Mas a especialista nesse quesito foi a minha terceira mestra: Maria Bethânia.
Na verdade, o trabalho de Bethânia começou a obrar em mim bem antes, no ano 1980, quando eu voltei da minha primeira viagem ao Rio de Janeiro com, entre outros, o vinil do disco Mel. Por esse disco conheci Waly Salomão -embora eu já conhecia pelo Transa do Caetano e não sabia- e também Lupicínio Rodrigues . A Maricotinha me apresentou Rosinha de Valença e Sueli Costa; me fez interessar pelas raízes, procurar compositores que -na época em que não havia internet ainda- nem sempre foi fácil achar desde Buenos Aires.
Foi através dela que compreendi porque chamamos de Rei quem chamamos de Rei, que me aventurei pelas espessuras do mato, que soube que todo mar tem um rio. É por ela que ainda hoje descubro músicos talentosíssimos como Roque Ferreira. É por ela que aprendi que o palco é um espaço sagrado.
Sem essas três professoras eu não poderia ter feito um documentário sobre samba do qual respeitosamente me orgulho; talvez não teria ido nunca morar no Brasil; talvez não poderia trabalhar como produtor cultural com música brasileira nem ser chamado para escrever ou organizar coleções de música. Sem elas com certeza não teria virado uma “palavra autorizada” na matéria e minha conceição da música seria bem menos ampla.Por tudo isso, meu agradecimento por elas será eterno.

Texto de Juan Trasmonte (Creative Commons)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Agradecer e abraçar



Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar
Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar

Escolhi melhor os pensamentos, pensei
Abracei o mar
É festa no céu, é lua cheia, sonhei
Abracei o mar

E na hora marcada Dona Alvorada chegou para se banhar
E nada pediu, cantou pro mar
(E nada pediu)
Conversou com o mar
(E nada pediu)
E o dia sorriu...

Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema, presentes eu fui levar
(E nada pedi)
Entreguei ao mar
(E nada pedi)
Me molhei no mar
(E nada pedi)
Só agradeci...

Agradecer e abraçar, de Vevé Calasans e Gerônimo

"Um dia, ela (Maria Bethânia) estava indo viajar e saiu com o taxista que sempre a leva para o aeroporto. Na Rádio Educadora começou a tocar uma música e ela disse: "que música bonita! muito bonita! De quem é essa música? ". Respondeu o taxista que a música era minha e ela disse "eu queria tanto essa fita..." Eu não sei se é folclore ou não, mas que fique registrada a história: Bethânia saltou no aeroporto, o taxista foi para a Rádio Educadora, conseguiu a fita, voltou novamente ao aeroporto e entregou a ela. Foi aí então que 3 ou 4 meses depois eu vejo ela passando no barco que ela tem, e eu no meu barquinho pequeno, ela dizendo "Gerônimo, sua música é linda, é maravilhosa!" E foi passando assim, como se fosse um aceno pra mim, que coisa legal! Eu achei ótimo! E, de repente, está aí Agradecer e Abraçar."
(Depoimento de Gerônimo sobre a gravação dessa música por Maria Bethânia, publicado na revista Sambahia)

No grupo de músicas que fazem minha vida melhor, sem dúvidas está essa criação de Vevé Calasans e Gerônimo, artistas maravilhosos da Bahia que -como aconteceu com outros- eu tinha conhecido anos antes -no disco Memória da pele- graças à Bethânia. Resolvi postar agora que são dias de agradecer, abraçar e fazer ofrendas também.

Foto da capa do cd A força que nunca seca de Murillo Meirelles
Foto de Gerônimo de Antonio Reis

sábado, 15 de setembro de 2007

Dona Canô - 100 anos


Tudo são trechos que escuto, vêm dela
pois minha mãe é minha voz.

Genipapo absoluto (fragmento), de Caetano Veloso
Dona Canô, a mãe dos Veloso, faz cem anos
Foto de Maria Sampaio

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Reconvexo


Eu sou a chuva que lança a areia no Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não, e nem disse que não
Eu sou o preto norte-americano forte com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música,
A mais velha e mais nova espada e seu corte
Eu sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá gogoya
Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo.


Caetano Veloso

Foto de Bob Portugal