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sábado, 12 de setembro de 2009

Angelus Novus



Ontem uns poucos amigos nos encontramos para beber umas à viagem do Ramiro. Bebemos, comemos, rimos e choramos. O filósofo Guillermo David, a quem Ramiro chamava de "assessor espiritual" (eu era o "assessor de assuntos aleatórios"), acabou de me mandar essa foto, que é uma bela síntese para começar a soltar as amarras e deixar o Ramiro navegar. Disse Guillermo:
Walter Benjamin imaginou o anjo da história fugindo de costas pra gente, olhando pra nós e olhando com espanto as catástrofes que ao seu passo deixa.
Nessa última imagem, Ramiro, de costas pra nós, de face ao mar, ao céu, ao vento, não precisa nos olhar, está em paz com todos nós. Como ele gostava de dizer: sem culpas. Não há risco, não há catástrofes, mas alegria, músicas, uma amizade tão funda que cria laços religiosos entre nós que fomos tocados pelo seu dom.


Segue a íntegra da matéria que escrevi ontem nem sei como para o jornal Crítica. A manchete foi coisa deles.

Rondaban los fantasmas de Malvinas en Bahía Blanca. Ramiro Musotto estaba echado en la plaza con sus amigos, mirando las estrellas. Dijo que quería ir a Brasil a estudiar el berimbau de su admirado Naná Vasconcelos. Pero fue mucho más allá. Como dijo Zeca Baleiro, de la Bahía Blanca a la Bahía Negra.
Empezó a investigar la batería electrónica cuando nadie lo había hecho todavía en Brasil y fue uno de los diseñadores de esa percusión baiana que explotó en las voces y los sudores de Daniela Mercury y Margareth Menezes. Laburando en estudios, en Salvador primero y en Rio después, grabó con y para todo el mundo, unos 200 discos, de Caetano Veloso a Marisa Monte, de Sérgio Mendes a Titãs.
Cuando Diego Frenkel, por ejemplo, fue a Rio a grabar percusiones para La Portuaria esperaba llegar al estudio y encontrarse con una docena de negros recién bajados del morro. Se encontró a Ramiro. Él solo era la batucada.
Cuando Celso Fonseca le propuso a Mart’nália llamarlo para tocar en Pé do meu samba, la hija de Martinho da Vila, acostumbrada a salir en el ala de percusión de la escola de samba Vila Isabel, torció la nariz. “Ó, Celsinho! Um argentino na percussão?”
Después que lo escuchó no lo podía creer.
Nos conocimos en el bar Picote -que yo llamaba “mi oficina”-, en Río de Janeiro. Me miró desconfiado. Le hacía ruido que otro argento que vivía en Rio le ofreciera la posibilidad de que Sudaka, su primer cd solista que ya daba vueltas por Brasil y Estados Unidos, fuese editado en la Argentina que se le venía negando. Y al estilo argentino me dijo “¿cuánto me vas a cobrar?”. Nos convertimos en hermanos instantáneos.
Fue el empujón para regresar a Salvador y dedicarse de lleno a su propia música. Ramiro encontró completamente enchufado entre bits y cueros el cable invisible e inasible que une los sonidos ancestrales de Africa y América Latina. Tornó modernos a los indios xavantes y tradicional al octapad. Aunque el berimbau, con la piedra en la mano y la calabaza en el vientre, siguió siendo su instrumento madre. En 2005 formó en Francia la primera orquesta de berimbaus, arrancando sonidos alucinantes con los instrumentos en diferentes afinaciones. Así andaba, llevando sus cañas y su Mac de Grenoble al carnaval de Salvador y de la ceremonia de los Juegos Panamericanos a la Buenos Aires que había dejado de ser misteriosa y ya tenía una corte de fanas que bailaban atrás de su trío eléctrico.
Lo que no se ve en los discos: vivió con la filosofía Vinicius del arte del encuentro, siempre juntando gente de origen variopinto. Y él, que como buen percusionista siempre andaba con exceso de equipaje, esta vez viajó muy leve. Y muy temprano.

Texto publicado hoje no jornal Crítica

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Adeus ao irmão Ramiro



El Narigón se retiró hoy. Se fue de gira, como decían los viejos actores.
Desde ayer no puedo dejar de pensar en una noche que estábamos en el departamento de Laranjeiras, en Rio. Una sobremesa de horas. Estaban Rose y el Mintcho y Vinicius no se quería ir a dormir. Hablábamos de los Novos Baianos. Ramiro dijo "vamos a escuchar el vinilo". Se hizo un silencio de misa mientras escuchamos el disco entero. Después pusimos uno de Larralde. Una indómita síntesis de que nuestras sangres estaban mezcladas entre dos patrias.
Acabou chorare era una de sus canciones preferidas. Se la había hecho grabar a Adriana Maciel en el disco que le produjo.
Recordemos a Ramiro como él quiso que lo recordemos. Con alegría y música.
Muito axé para todos

Juan Trasmonte

Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo
Talvez pelo buraquinho, invadiu-me a casa, me acordou na cama
Tomou o meu coração e sentou na minha mão
Abelha, abelhinha...
Acabou chorare, faz zunzum pra eu ver, faz zunzum pra mim
Abelho, abelhinho escondido faz bonito, faz zunzum e mel
Faz zum zum e mel
Faz zum zum e mel
Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente
Inda de lambuja tem o carneirinho, presente na boca
Acordando toda gente, tão suave mé, que suavemente
Abelha, carneirinho...
Acabou chorare no meio do mundo
Respirei eu fundo, foi-se tudo pra escanteio
Vi o sapo na lagoa, entre nessa que é boa
Fiz zunzum e pronto
Fiz zum zum e pronto
Fiz zum zum

Perdi um irmão. Esse é o e-mail que escrevi hoje de manhã cedo para os amigos. Desculpas, gente. Não tenho nem vontade de traduzir.

Pedro Luís entrevista Ramiro no programa Destino Brasil

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Os dias nunca são iguais



Os dias nunca são iguais
hoje eu me sinto a vontade
e depois não
as vezes sinto fome
outras quero vomitar
tem dias que a parede está mais suja
e outros em que a bruma não me deixa ver
coisíssima nenhuma
Tem horas em que tenho assim
uma necessidade
de cafeína nicotina qualquer coisa
no vazio
e uma dor pungente pela dor
que dói nos outros
porém os dias nunca são iguais
e há dias em que eu quero
que se lixem
e viro um sujeito egoísta
e o meu umbigo fica feito um sol
tem dias em que amasso o lençol
e dias em que durmo como um gato
meu corpo anda sem marca pelo espaço
flutuo sem vestígio de presença
há dias para encher a geladeira
e dias de silêncio e jejum
as vezes coexistem as belezas
as vezes os fedores e o alecrim
o éxtase deslinda do horror
assim como as peles do abraço
de vez em quando o dia só oferece
a esperança de um outro dia
que sempre achamos novo de manhã
e saldo de brechó no fim do dia.

Os dias nunca são iguais, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Jorge Aguirre

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Gerardo Horovitz





Outro que foi embora na semana passada. Gerardo Horovitz, grande fotógrafo argentino, especializado em esportes e fotografia aérea. Ficam as imagens lindas.

Foto do time argentino de rugby no Mundial da França (2007)
Foto de Gerardo Horovitz, trabalhando no estádio do Boca Juniors, conhecido como La Bombonera, do arquivo do jornal La Nación

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Valeria Ueno



A maravilha da arte é a capacidade que ela tem de surpreender a gente. Isso que, de repente, acontece. Essas pérolas que, de uma hora para outra, a gente tem nas mãos, ou na frente, ou entrando pelos ouvidos para atravessar o corpo.
O Boris Reith, que é meu colega na gravadora e além de colega é broder, organizou a mostra da jovem artista Valeria Ueno, cuja reprodução em escala menor vocês têm aqui.
Ralando pra caramba, com pouco apoio, eles conseguiram montar essa mostra e apresentar o trabalho da Valeria pra gente que como eu, não a conhecia.
Está lá, na Galería de Arte del Centro Flores de la Alianza Francesa, que fica na rua Granaderos 61.
Uma boa para os que estão em Buenos Aires. Pros outros ficam as imagens e o link do blog dela. A gente sabe bem onde esses links começam, mas nunca onde vão parar. Tomara que possa dar em uma boa troca para ela também.



Reproduções de pinturas de Valeria Ueno

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Dez versões estrangeiras de músicas brasileiras


Esperanza Spalding


Pink Martini


Pizzicato Five


Arcade Fire


1. Pink Martini – Tempo perdido
Pode ser criticado o ecletismo do Pink Martini, mas o som deles é irretocável. No Hey Eugene, seu mais recente disco -que já tem dois anos- eles gravaram uma versão muito digna de Tempo perdido, do grande Ataulfo Alves, que originalmente gravara Carmen Miranda em 1933, abrindo as portas do sucesso para Ataulfo.

2. Sinéad O’Connor – How insensitive (Insensatez)
Em seu disco de 1992, Am I not your girl?, Sinnéad gravou as músicas que ouvia sendo uma criança, canções que segundo ela, fizeram que se tornasse cantora. O clássico de Jobim e Vinicius, em inglês, tem toda uma carga inédita que só a cantora irlandesa consegue reformular. Bom, a essa altura não preciso dizer que tenho uma queda por Sinnéad, certo?

3. Pepino Di Capri – Ancora con te (Outra vez)
Da grande compositora paulistana Isolda, responsável por várias gemas do Rei, esta versão italiana gravada em 1985, na mesma linha da original, por Pepino Di Capri.

4. Jim Capaldi com George Harrison – Anna Julia
O baterista da histórica banda Traffic era casado com uma carioca chamada Ana. Quando ouviu o megasucesso do Los Hermanos, fez questão de gravar. Levou a música pra Inglaterra e contou com a breve participação do seu vizinho ilustre, George Harrison, que iria morrer pouco depois. A música teve ainda o Ian Paice, lendário baterista do Deep Purple. Jim também já subiu e se ainda faltava mais fama a essa música de Marcelo Camelo, ficou lá imortalizada em inglês como a última gravação em colaboração do saudoso George.

5. Queen Latifah – Quiet nights of quiet stars (Corcovado)
Jobim é o xodó dos compositores de jazz e das cantoras dos Estados Unidos. Queen Latifah faz bonito nessa versão de Corcovado, com ginga de bossa nova.

6. Arcade Fire – Brazil (Aquarela do Brasil)
Uma das músicas mais gravadas pelo mundo fora, também caiu nas graças da banda canadense multi-instrumental Arcade Fire. Lançado em 2005 como lado B do single Cold Wind. Uma versão simpática dominada pelas cordas, que lembra a dimensão da criação de Ary Barroso.

7. Art Garfunkel – Waters of march (Águas de março)
Aqui faltou tempero. A metade do lendário Simon & Garfunkel canta com seu habitual jeito doce mas não acerta no ritmo do clássico do Jobim.

8. Pizzicato Five – The Girl from Ipanema (Garota de Ipanema)
Adoro esses japoneses malucos do Pizzicato Five. Pena que eles acabaram. No seu jeito retrô-kitsch eles seguem a tradição japonesa que pouco cria e tudo recria. E eles fizeram uma criação mesmo com Garota de Ipanema, apesar das trossentas versões que já existiam em 1997, quando foi lançada a dos Pizzicato na coletánea Lounge-A-Palooza.

9. Attaque 77 – Amigo
Assim como várias bandas do rock brasileiro fizeram versões de músicas dos hermanos -algumas com bastante sucesso e sem conhecimento da origem- também existem as versões em espanhol de músicas brasileiras, feitas por bandas do rock argentino. O Attaque 77 é um grupo de hard rock surgido na década de noventa. Eles eram bem fraquinhos no começo, mas com os anos de estrada ficaram melhores. A inocente Amigo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos virou um rock de guitarras sujas que já fez pular bastante à galera.

10. Esperanza Spalding – Ponta de areia
Uma das mais novas queridinhas do jazz estadunidense, Esperanza é boa de palco, canta bonito e encara o contrabaixo acústico. No cd que leva seu nome, Esperanza gravou a belíssima Ponta de areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Diferentemente da Jane Monheit, que assassinou o português na sua ininteligível Só tinha de ser com você, Esperanza se esforçou na fonética. Deu certo.

Pra começar, é lista, não é ranking, então como sempre escrevo, a ordem não indica valor. E como a lista de versões gringas de músicas brasileiras é imensa, escolhi essas dez que, de uma ou outra maneira acrescentam valor ou representam curiosidade.
Com autoridade de gringo posso dizer que neste quesito se bem prefiro a grande maioria das versões originais, gosto de ouvir outras aproximações à música brasileira, desde que sejam feitas com respeito intelectual. Isto é pode virar a música de ponta-cabeça, mas não pode canibalizar sem nenhuma proposta artística. Enfim, poderá haver segundas partes para esse item.


Foto de Esperanza Spalding de Johan Sauty
Foto de Pink Martini de Sherri Diteman
Foto de Pizzicato Five de Soren Hitting
Foto do Arcade Fire de Wendy Lynch

sábado, 25 de abril de 2009

Don Sixto Palavecino



Ontem partiu, aos 94 anos, Don Sixto Palavecino, grande violinista do folclore argentino, músico de tradição familiar que pegou o violino desde criança, apesar da advertência da mãe: "Se você estudar música vai virar um bêbado".
Mas o menino dos morros de Santiago del Estero ficava às noites praticando, baixinho, debaixo do cobertor, até que foi descoberto. "Vamos lá, mostre o que você sabe fazer com o instrumento". E dizem que quando o garoto mostrou, ninguém mais ousou criticar seu desejo de ser músico.
Mas ele só conseguiu viver da música na década de oitenta, quando o cantor de origem roqueiro León Gieco fez sua obra monumental De Ushuaia a La Quiaca, percorrendo a Argentina e levando pra cena nacional diferentes músicos do folclore.
Don Sixto foi também um grande defensor e divulgador da língua quíchua, falada por vários povos do eixo dos Andes e perseguida e condenada ao esquecimento, na medida em que os espanhóis conquistaram com a espada e também com a palavra.
O homem fazia questão de falar em quíchua na rádio e as vezes nas entrevistas e traduziu pra essa língua o Martín Fierro, de José Hernández, considerado o Quixote da poesia gaúcha.
O músico que se chamava a si mesmo de violinisto era dono de uma técnica pessoal até na maneira de segurar o violino.
Junto com ele, vai uma porção da memória cultural desses povos.

Don Sixto Palavecino interpretando a zamba La callejera

Foto de Sixto Palavecino do jornal La Nación, sem crédito do autor

terça-feira, 7 de abril de 2009

Cartas inéditas dos autonautas



A semana próxima será editado o livro Correspondência. Julio Cortázar, Carol Dunlop, Sylvia Monrós-Stojakovic, que reune nove cartas e cartões do autor de O jogo da amarelinha, cinco da sua esposa, a canadense Carol Dunlop e outras tantas da fotógrafa sérbia, amiga deles.
As cartas, todas dos primeiros anos da década de oitenta, contam o processo criativo de Os autonautas da cosmopista, o livro que Cortázar e Carol escreveram juntos, na estrada que une Marselha com Paris.
Como não tenho notícias sobre a publicação do livro em português, resolvi traduzir um fragmento de uma extensa carta de Carol para Sylvia, onde ela mostra a sua felicidade pela experiência, a sua aflição pela saúde do escritor que tinha diagnóstico de leucemia, embora ele não sabia. Porém, Carol morreu antes que Cortazar, pouco mais de um ano depois de escrever essa carta.
Os editores resolveram manter os erros do original, tratando-se de uma anglo falante que escreveu em espanhol. E eu tentei "traduzir" esses erros. Vocês vão ver, por exemplo, a palavra civilizado, escrita com o esse e outros detalhes mais que mantém o espírito original. Acho que vale a pena.

Aix-En-Provence 10-VIII-81

(...) Outro momento do dia -faz nove ou dez dias que estamos vivendo no caminhãozinho, à beira da Autopista do Sul, mas eu voltarei a explicar tudo, é uma linda loucura- e o grandalhão diz que já está na hora da bebida da tarde. Já bebemos, que foi bom, era vinho porque quando saimos de Paris calculamos mal a ração de uísque, mas depois de amanhã vêm amigos à la rescousse com provisões.
E tenho que te explicar porque estamos vivendo na estrada desde 23 de maio e porque não vamos sair dela antes de 26 de junho. Faz quatro anos, no ano em que eu acabei as minhas férias na sala de reanimação de um hospital de Marseille, depois da minha convalescência na mesma casa onde Julio passou a dele no ano passado, subimos para Paris muito devagar de carro, pela estrada, mas levando uns seis dias, porque ainda eu não estava muito forte e viajar nessa condição cansa.
E daquela viagem, que finalmente foi linda, nos nasceu a idéia de fazer um dia a viagem de Paris pra Marselha, parando um dia em cada parking, e escrever juntos um livro ao redor da experiência, debochando dos antigos exploradores e gozando da ironia de pegar o caminho mais rápido e mais “civilisado”, para fazer uma viagem realmente de tartarugas.
Várias vezes já tinhamos planejado a coisa -a última quando Julio ficou doente- e sempre alguma coisa nos impedia na última hora. Então, esse ano apagamos as datas entre 23 de maio e o final de junho nas agendas e resolvemos fazê-lo custe o que custar. E aqui estamos. Tivemos que mudar um pouco as regras do jogo quando depois de ter estudado o mapa da estrada percebemos que tinha uns 66 parkings e não poderiamos passar mais de dois meses. Então são dois por dia e é muito mais maravilhoso do que a gente imaginou.
O mais impressionante é que talvez desde o segundo dia, achamos tão normal viver assim, que as vezes nos perguntamos porque não viver sempre assim?
Em dez dias fizemos uns 140 kilômetros e vamos descobrindo a cada vez mais a outra estrada, essa misteriosa e secreta via paralela onde no final, é um pouco “todos os parkings o parking”.
A linha do asfalto feita para ir de um lugar para outro virou uma coisa quase abstracta e até estamos a nos perguntar, as vezes, se não teremos chegado a imovilidade total; se não será a autopista e os parkings que se mexem, e não a gente.
Estamos felizes, loucos. Finalmente entramos em um espaço que nos da tempo.

Carta de Carol Dunlop a Sylvia Monrós-Stojakovic (fragmento)
Versão para o português de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Julio Cortázar e Carol Dunlop à beira da estrada Paris-Marselha, do arquivo pessoal do escritor

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um democrata



E depois dos anos de chumbo sobre os que escrevi há uns dias apenas, chegou a primavera democrática.
Na época eu era militante do Partido Intransigente, que estava à esquerda de peronistas e radicais, as duas primeiras minorias e os únicos com possibilidades reais de vencer a eleição de 1983, que seria minha primeira oportunidade de votar.
Os radicais em espanhol não são tão radicais assim, na verdade são bastante moderados. O partido de Raúl Alfonsín era o meu adversário, embora muitos dos meus amigos faziam parte dele.
A vitória de Alfonsín ficou associada nos tempos à restauração da ordem democrática. Curioso. Naquela fase, eu achava Alfonsín morno demais para encarnar as minhas idéias reevolucionárias.
Anos depois, eu reconheci nele valores de muita coragem e defendi a sua gestão, ainda nas minhas diferênças, contra os que jamais perdonaram seus erros.
Alfonsín levou os ditadores ao banco dos réus. Um fato inédito, porque nem o processo de Nuremberg é comparável. Nunca ninguém fez isso.
Depois decretou a Lei de ponto final que foi o alvo de tantas críticas, mas há de se entender o contexto histórico. Isso foi no tempo em que o militarismo ainda não estava derrotado. Alfonsín suportou duas tentativas de golpes militares e um ataque a um batalhão de um grupo de militantes armados fora de época. Isso, além de treze greves gerais orquestradas pelos sindicatos peronistas.
E foi ele, junto com Sarney, ao assinar a Declaração do Iguaçu, o grande impulsor do que seria o Mercosul, quem desativou todas as alarmes entre Argentina e Brasil herdadas das ditaduras.
O simbólico da inauguração da Ponte da Amizade nas nossas fronteiras teve a visão do além. Minha idéia de Mercosul é a troca cultural que traz o conhecimento do outro e desfaz o preconceito idiota.
O ex presidente que morreu ontem contribuiu para abrir esses caminhos.
E viveu e morreu na austeridade, sem uma só acusação de corrupção. Um gesto que deveria ser moeda corrente, mas que nessa casa da mãe Joana que a política é desde os anos noventa, virou raridade.



Fotos de Raúl Alfonsín em 1983 e José Sarney com Raúl Alfonsín em 1985, de Victor Bugge, fantástico reporter gráfico que é o fotógrafo oficial dos presidentes argentinos há mais de trinta anos.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Quando Ney encontrou Astor




Na metade dos anos setenta a música da América Latina vivia um momento de grande efervescência, com o auge dos trovadores e da canção política. O Brasil porém, na sua dimensão continental ficava de costas e abria seus próprios caminhos. Uns poucos músicos mais atentos estavam também de olho na América. Ney Matogrosso era um desses músicos, com motivos suficientes que estavam no sangue mesmo. Neto de um argentino e uma paraguaia, nascido no Mato Grosso do Sul que lhe deu sobrenome artístico, Ney já trazia desde pequeno uma informação musical nutrida de várias culturas.
Nesses tempos, o compositor e bandoneonista argentino Astor Piazzolla já era uma referência da vanguarda musical e muito admirado por certo público do Brasil.
Ney já conhecia muito bem Astor quando foi assistir aquele show no Rio de Janeiro onde eles se encontraram pela primeira vez. O que Ney não sabia é que Astor -que era o completo oposto do conservadurismo do tango- também já conhecia quem era esse jovem magro, introvertido, que foi no camarim para lhe-expressar sua admiração depois do show.
Ney acabara de abandonar o Secos & Molhados no auge da popularidade da banda e disse a Astor que adoraria gravar com ele algum dia. Na hora, o autor da Suite Troileana, que tinha bem presente o registro agudo e afinadíssimo de Ney, o convidou para gravar.
Por esses dias, Piazzolla tinha dado três músicas ao notável poeta mineiro Geraldo Carneiro. Na verdade não eram músicas originais mas temas instrumentais compostos por Astor para o filme franco-chileno Llueve sobre Santiago, do diretor Helvio Soto, referente à queda do governo Salvador Allende e proibido no Chile.
As três músicas, com os versos de Geraldinho, foram Muralla China, Olhos de ressaca e As Ilhas.
Como na época Astor morava na Itália, até lá foi Ney. Juntos gravaram várias sessões em novembro de 1974, e de lá ele voltou com as fitas.
Sem querer, Astor acabou dando um impulso forte para o começo da carreira solo de Ney que, com esse material precioso, ficou empolgado para montar uma banda e lançar seu primeiro LP pela Continental.
Nessa super banda estavam entre outros os brasileiros Márcio Montarroyos e Chacal, o estadunidense Bruce Henry e o argentino Claudio Gabis.
Ney apresentou seu material novo no show O homem de Neanderthal que até hoje continua na memória de quem assistiu como um espetáculo mítico no seu casamento entre música e conceição visual.
O LP lançado em 1975 se chamou Água do Céu Pássaro, produzido por outro argentino no exílio que se deu muito bem como produtor no Brasil: Billy Bond, que junto com Gabis formara La Pesada del Rock’n’Roll, banda ícone do rock argentino.
O disco trazia junto um compacto com duas das colaborações entre Piazzolla e Ney, as músicas As Ilhas e 1964 II. Esta última sofreu os efeitos da censura, pelo que significava o 1964 na história brasileira. Nada mais longe da realidade, trata-se de uma das célebres parcerias entre Piazzolla e o escritor Jorge Luis Borges que não faz a menor referência à situação política do Brasil da época.
Por estes dias, caiu em minhas mãos um vinil de edição argentina chamado Sangre Latina. É uma coletánea de 1984 com a mesma capa daquele primeiro disco de Ney, mas com músicas de diferentes fases do cantor e que tem essas duas com Piazzolla, as duas últimas do lado B.
Fiquei imaginando como terá sido esse encontro na Itália de um argentino tanguero e transgressor com um brasileiro roqueiro e trangressor. “El Gato” Piazzolla era famoso pela sua pouca paciência.
Alguma coisa ele já tinha registrado na essência do cantor. Alguma coisa que o Brasil e o mundo estavam prestes a descobrir.



As ilhas

Vi mosca urdindo fios
De sombra na madrugada
Vi sangue numa gravura
E morte em caras paradas

Via vis de meia noite
E frutas elementares
Vi a riqueza do mundo
Em bocas disseminadas

Vi pássaros transparentes
Em minha casa assombrada
Vi coisas de vida e morte
E coisas de sal e nada

Vi um cachorro sem dono
À porta de um cemitério
Vi a nudez nos espelhos
Cristas na noite velada

Vi uma estrela no meio
Da noite cristalizada
Vi coisas de puro medo
Na escuridão espelhada

Vi um cruel testamento
De anjos na madrugada
Vi fogo sobre a panela
No forno de uma cozinha

Vi bodas inexistentes
De noivas assassinadas
Vi peixes no firmamento
E tigres no azul das águas

Mas não via claramente
A circulação das ilhas
Nos rios e nas vertentes
E vi que não via nada

Nada, nada...

As ilhas, poema de Geraldo Carneiro para a música de Astor Piazzolla, gravada por Ney Matogrosso em 1974

Foto de Astor Piazzolla de Alicia D'Amico (1975)
Foto de Ney Matogrosso, sem crédito do autor, do site Ney Matogrosso
Reprodução da capa do disco Água do Céu Pássaro (1975, gravadora Continental)

domingo, 8 de março de 2009

Borges txt (Quarta parte)



1. Na década de setenta, uma revista reune para uma entrevista Jorge Luis Borges -que detestava futebol- com o então diretor técnico da seleção argentina, César Luis Menotti. Depois de uma hora de conversa o escritor diz:

- Que estranho, hein? Ele é um homem tão inteligente, mas teima em falar de futebol o tempo todo.

2. A ceguera de Borges não era completa. Ele conseguia enxergar sombras e de vez em quando recuperava parcialmente a visão. Uma tarde ele descia no elevador junto com seu amigo, o poeta Roberto Alifano, quando soltou:

- Que bonita gravata.

Alifano ficou perplexo

- Mas você está vendo?
- No momento estou. Ela é amarela e tem pequenos pontos brancos. Até a textura eu posso ver. É muito bonita.

Os dois ficaram calados por uns instantes, e depois Borges disse:

- Agora não a enxergo mais.

3. Borges desconfiava dos objetos e muito mais dos aparelhos mecánicos. Um dia ele esperava o elevador junto de um desconhecido. O elevador demorava em chegar e ele ficava impaciente enquanto ouvia o barulho do motor. De repente, disse pro desconhecido:

- Vamos pela escada, que ela já foi completamente inventada.

4. Um jornalista ansioso por uma manchete espetacular para sua entrevista pergunta a Borges:

- O senhor já experimentou drogas?
- Eu tentei fumar maconha várias vezes -
respondeu Borges surpreendendo o jornalista-, mas não consegui. Finalmente optei por ficar com os drops de hortelã.

5. Depois de um jantar com amigos na casa da escritora Silvina Ocampo, Borges divide o taxi com outras pessoas, entre elas, a também autora Sylvia Molloy, a quem Borges acabara de conhecer

- Molloy... Molloy... -diz Borges e cita as vezes em que esse nome aparece na literatura irlandesa-. Eu tenho sangue inglês, escocês e acho que galês, mas não tenho um pingo de sangue irlandês -comenta, irritado o mestre-.

A viagem continua e, ao se despedir de Molloy, Borges diz:

- Para a próxima eu tentarei ser um pouquinho irlandês.

6. Borges foi um eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, porém nunca o ganhou, dizem que pelas suas idéias políticas, contrárias ao “progressismo da Academia”. Em 1984, dois anos antes de Borges morrer, quando já era famoso, otorgaram o Nobel ao escritor checo Jaroslav Seifert, desconhecido para o grande público. Os jornalistas, como todos os anos faziam, foram atrás de Borges para saber o que ele opinava.

- Não os culpo. Eu também gostaria de ser descoberto.

Foto de Jorge Luis Borges de Eduardo Grossman

As anteriores entregas dessa série:
Borges txt
Borges txt (Segunda parte)
Borges txt (Terceira parte)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Autorretrato e photoshop








O velho assunto: a questão não são as armas mas quem as usa. A artista argentina Flavia Da Rin, achou no photoshop uma ferramenta de expressão fantástica, literalmente.
Mediante esse programa, partindo da manipulação da fotografia digital, ela cria obras de arte que já ganharam exibições pelo mundo fora.
Filha da cultura audiovisual, que tem a auto-referência como signo, Flavia é protagonista de todas as suas obras.
Embora a multiplicidade de informações -outro traço posmoderno- esteja presente nas suas peças, desde as citações religiosas até o animé e as paisagens bucólicas; a surpresa, a perplexidade e a ausência são os estigmas mais evidentes no trabalho dessa notável artista.



Todas as obras reproducidas de Flavia Da Rin

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Centenário de Oscar Alemán



De tanto falar em Oscar, quase esqueci do Oscar esencial.
Ontem foi o centenário do nascimento de Oscar Alemán, o violonista argentino criado no Brasil, quem eu considero o maior violonista não brasileiro de música brasileira. Outra história que me toca porque mistura as duas terras que amo.
Em março do ano passado fiz um retrato dele, o homem que encantou Josephine Baker, Django Reinhardt e Duke Ellington. Para quem não leu ou ainda não acompanhava o blog, está aqui: Oscar Alemán
E para quem quiser ver Oscar, eis aqui uma pérola do Youtube.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Meu pai



Meu pai era ator, ao estilo de outrora. Ele entrou no palco pela primeira vez ainda na barriga da minha vó. Trabalhou em teatro, circo, rádio, cinema e televisão.
Naquele tempo, os elencos saiam pelo interior. Freqüentemente, tinham que fugir dos hoteis pelos tetos, na manhã seguinte, quando algum produtor vigarista sumia com a arrecadação da noite anterior.
As novelas eram para escutar no rádio a válvula e os técnicos de som eram mestres da invenção que faziam magia: passos andando no corredor com as mãos enfiadas em sapatos sobre a mesa; chuva amassando papel de embrulhar e por aí vai. E aqueles sons, que eu ouvi muitos anos depois em gravações, eram perfeitos para criar o clima.
Não havia duzentas escolas de teatro, os atores aprendiam no palco mesmo e vendo como atuavam os mais velhos e escutando os conselhos dos mestres.
Meu pai tinha todos os livros de Stanislavski mas reclamava da geração dos atores que se chamavam de “atores do método”.
“Eles ficam fazendo exercício de relax meia hora antes e na hora de entrar no palco, cagam de medo”. -dizia-

Meu pai, filho único de mãe solteira que perdeu todo o luxo quando ele nasceu -e conseqüentemente rejeitou o próprio filho a vida inteira-, não tinha completado a primeira série, mas era uma uma enciclopédia. Ele sabia de assuntos tão diversos como filosofia presocrática e os uniformes que usavam os policiais no século XIX. Por isso eu adorava sentar ao lado dele e ouvir as suas histórias das épocas em que televisão era ao vivo porque não existia vídeo-tape.
E como toda família de artista, meus dois irmãos e eu fomos nos trilhos, já desde pequenos começamos a sair na televisão. Puro oportunismo. Eu ia acompanhar meu pai numa gravação e sempre aparecia um produtor “Olha, Mário eu preciso um como ele para gravar amanhã”. Meu pai duvidava, falava com minha mãe e depois liberava. Pra mim era como um jogo, uma brincadeira, mas ele era taxativo se a oferta fosse para vários capítulos. “Ate vocês não completarem seus estudos, nada. Se depois quiserem ser atores, eu não vou impedir”
Os três começamos a fazer cursinhos desde crianças, mas quem pegou a espada fui eu. Isso durou uns quatro anos até que a psicanálise lacaniana me fez interrogar se esse era mesmo meu desejo o eu estava apenas seguindo a linha do sangue.
Na época eu já escrevia, mas fazia tudo que era curso complementar de um ator: dança, canto, expressão corporal, mímica. Ao mesmo tempo, rejeitava sistemáticamente todas as ajudas que o meu pai, que conhecia todos os produtores da televisão, oferecia.
Em troca, eu formava grupos de teatro experimental ou fazia trabalho militante montando peças em bairros pobres do recóncavo de Buenos Aires.

Eu voltava de uma dessas jornadas de teatro e debate na noite em que meu pai morreu. Já tinhamos passado por todas, que em outro texto um dia contarei. Estávamos reconciliados.
Afinal, mesmo que as palavras dele eram “estudem, estudem”, acho que ele no fundo gostava de ter um filho ator.
E eu contei isso das ajudas oferecidas porque quero encerrar esse texto, hoje que ele faria aniversário, com uma dedicatória que escreveu num livro que me deu de presente, sobre o teatro na Alemanha.

"Meu caro filho,
lembre que no teatro existe uma patente invisível. Ela não se vê, mas existe. Respeite isso entre os seus companheiros.
Lembre também que assim que você se respeitar como ator e como ser humano, os outros vão te respeitar.
Finalmente, não se sinta vencido embora estiver vencido.
No palco, seja grande ou pequeno o personagem, o primeiro ator é você.
E não olhe tanto para essa ajuda que vem “de cima”, por toda ajuda de cima, vem outra de mais acima”.




Foto retrato de meu pai de Annemarie Heinrich
Foto de meu pai, de autor desconhecido, na peça Tartufo, de Moliere, no Teatro Municipal General San Martin, circa 1950

sábado, 17 de janeiro de 2009

Borges txt (Terceira parte)



1. Uma jornalista chilena consulta Jorge Luis Borges sobre o conflito limítrofe que a Argentina e o Chile mantinham no final da década de setenta pelas ilhas Picton, Lennox e Nueva, no Canal de Beagle. Era um momento de grande tensão onde os dois países estavam à beira de uma guerra ridícula. Borges responde:

- A Argentina e o Chile bem que poderiam ser generosos e oferecer essas três ilhas perdidas à Bolívia, que ainda não tem saída para o mar.

2. O escritor recebe a notícia de que a mulher que ele ama vai casar com outro homem. Na hora, resolve ir ao dentista para um conserto de três dentes que ele estava adiando. Borges pede ao dentista para tirar os três dentes. Juntos. Depois segue para o seu escritório na Biblioteca Nacional. O subdiretor da biblioteca, José Edmundo Clemente vê Borges entrando na sala com um lenço manchado de sangue na boca.

- Que foi, Borges? -pergunta-
- Pedi para o dentista tirar o dente sem anestesia. Estou triste porque uma mulher me abandonou. Queria esquecer a dor, Clemente, mas não consigo... Não consigo.

3. Outubro de 67. Borges está ministrando aula na sua cátedra de literatura inglesa quando entra um aluno para anunciar a morte de Che Guevara e dizer que a aula deve ser cancelada em homenagem ao revolucionário. O professor diz que a homenagem com certeza pode esperar até a finalização da aula. O estudante responde: “Tem que ser agora e o senhor vai embora”. Borges levanta a voz. “Eu não vou, e se o senhor é tão homem venha me tirar daqui!” O estudante diz então que vai cortar a luz da sala de aula. Vem a resposta de Borges:

- Eu tomei a precaução de ser cego esperando este momento.

4. De viagem pela Espanha, o autor vai para Palma de Mallorca, um lugar querido para ele na sua juventude. O dono de uma livraria lhe mostra uma relíquia, um livro com 16 poemas escritos pelo jovem Borges. Nervoso, ele vira para sua assistente e companheira, María Kodama:

- Rasgue esse livro imediatamente!

Maria lhe explica que a edição é boa e que tem uma bonita foto dele na capa. Sem duvidar, Borges diz:

- Então guarde a foto e rasgue o resto.

5. Em 1984, para comemorar a edição das Obras Completas, Borges vai jantar com um grupo de amigos em um restaurante do bairro portenho de Congreso. O escritor pede seu puré de batata, um dos seus pratos preferidos. Enquanto esperam, os amigos bebem vinho, comem pão com manteiga e jogam conversa fora. A comida demora. De repente, se faz um silêncio e Borges diz:

- Mas que bom jejum tem nesse restaurante!


Terceira parte da série sobre histórias, frases e anedotas geniais do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Tem mais nos links:
Borges txt
Borges txt (Segunda parte)

Foto da placa da rua Jorge Luis Borges, no bairro de Palermo, em Buenos Aires (ele teria achado abominável só a ideia de ver seu nome assim)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Natal, o que o amor anuncia



Assim como os anos passam minha paciência com o folclore do Natal vai diminuindo. Detesto pessoas estressadas nos shoppings, no trânsito, pessoas que não dão a mínima pros outros, mas nesses dias têm uma vontade irrefreável de encontrar todo mundo. Não tolero festinhas de falsa alegria e música horrorosa. Vejo ao redor muitas pessoas para quem essas datas são motivo de tristezas, de saudades, de afirmação de desencontros, de ausências.
Porém, apesar de todos os pesares, uma certa esperança que nem sei de onde vem sobrevoa esses dias. Pensei em como significar essa esperança e lembrei de um texto sobre o amor do padre, poeta e filósofo argentino Hugo Mujica. Na verdade é uma transcrição de uma coluna que ele tinha num programa de televisão e que depois ele me enviou na íntegra pelo correio quando eu morava no Brasil.
Passei horas traduzindo o texto para o português, com as dificuldades do uso do neutro em espanhol, que no português não é tão comum. Está aqui o texto, para mim a dimensão exata do que é o amor verdadeiro. Eu sei que em blogs e na internet em geral, é difícil ficar quieto lendo, mas desejo que pelo menos uma pessoa consiga sentir o que há anos essas palavras causaram em mim.
Quem quiser conhecer mais sobre Hugo, tem nesse link a entrevista que fiz com ele em 2005.

Quando hoje eu pensava com qual música começar, chamava a minha atenção quanto se fala da paixão e que pouco do amor, ou seja, quanto das borbulhas e que pouco da beberagem.
É real que a paixão é a atração pelo outro, mas acho que o amor realmente é o sentimento que nasce quando se realiza o mais humano, que é a possibilidade de reunir-se com outro, é o que surge desse encontro. Esse sentimento de plenitude é o que realmente chamamos de amor.
E a especificidade da reunião que o amor cria, diferentemente da que cria a compreensão ou a que cria a vontade através do trabalho, através do projeto; é que o amor é a possibilidade de reunir o diferente sem anular a diferênça. Está em todos nós o querer ser em outros, mas sempre também está o medo de que ser em outros nos faça deixar de ser nós mesmos. E acredito que precisamente o amor é a possibilidade de ser um, mas no outro, mutuo, mas diferente.
E pensava em termos de que coisa é o amor, mas seria infinito, então pensei‚ precisamente num ponto, o que dizia no começo. O amor, além dessa fórmula que diz que é cego, ele realmente é vidente. O amor vê o outro no outro; desde a esperança e não só desde a realidade. É aquele que nos ama quem diz de nós o que ainda não conhecemos.
Talvez a experiência seja que quando alguém nos ama e nos diz como somos, nossa experiência seja a vergonha, porque sentimos que não estamos à altura do olhar de quem nos ama. Porém não é que o outro seja cego, é que inexplicavelmente, essa é a visão do amor: a que enxerga a possibilidade de nós e não somente o que nós já somos. Dessa maneira o amor, por um lado nos dá a notícia sobre nós mesmos e pelo outro lado está realizando aquilo que anuncia em nós.
Há uma cena na peça de teatro de Neruda "Joaquín Murrieta", onde o homem, quando vai ver a mulher que acabou de morrer, parado na frente do túmulo diz: "o que você me deu eu já tinha, mas jamais o teria tido se você não tivesse me dado".
Acho que isso define a circularidade fecundante do amor. O amado nos diz o que já está em nós, mas que nós não teríamos se não fosse por esse alguém que teve o amor, a confiança, a aposta na esperança de nos anunciar quem podemos ser, porque já existe alguém que nos diz que valemos para ser, porque nos ama.



Texto de Hugo Mujica
Tradução para o português de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Reprodução da obra Annunciation (1961), de Mati Klarwein

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Fotógrafos argentinos


Mulheres presas


As aventuras de Guille e Belinda


A Ausência


Intervalos intermitentes


Amanhã são apresentados no Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) mais quatro livros da Colección Fotógrafos Argentinos.
Sempre acompanhados por textos de reconhecidos escritores, os livros da coleção vêm aos poucos organizando e publicando o trabalho de grandes artistas da fotografia, as vezes escondidos em jornais ou agências de notícias.
Agora é a vez de Adriana Lestido (Mujeres presas); Res (Intervalos intermitentes); Alessandra Sanguinetti (Las aventuras de Guille y Belinda) e Santiago Porter (La ausencia).
Adriana Lestido tem uma trajetória de destaque em trabalhos com mulheres, procurando dar um olhar ao outro. Mulheres presas é uma série realizada nos cárceres de mulheres.
Em Intervalos intermitentes, Res utiliza a imagem como veículo entre o espaço e o tempo.
Alessandra Sanguinetti cria um universo onírico e colorido para As aventuras de Guille e Belinda.
Já Santiago Porter, no livro A Ausência, prefere um rigoroso preto e branco para retratar a perda, focado no atentado de 1995 do prédio da AMIA, em Buenos Aires, que deixou 85 mortes.

Foto de Adriana Lestido, do livro Mujeres presas
Foto de Alessandra Sanguinetti, do livro Las aventuras de Guille y Belinda
Foto de Santiago Porter, do livro La Ausencia
Foto de Res, do livro Intervalos intermitentes

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Borges txt (Segunda parte)



1. Um jornalista liga no desespero para María Kodama, a esposa e assistente do escritor. Por um problema no gravador dele a entrevista que acabara de fazer, sumiu. O jornalista solicita uma nova entrevista, mas Jorge Luis Borges se recusa:
- Não, Maria, deixa pra lá. Não entendo como podem confiar em um aparelho que guarda as vozes da gente.

2. Um jovem poeta vai ao encontro de Borges na rua. Põe nas mãos do escritor o seu primeiro livro. Borges agradece e pergunta:
- Qual é o título do livro?
- "Com a pátria dentro" -responde o jovem-
- Dentro? Mas que desconforto, meu amigo, que desconforto.

3. Sexta-feira à tarde. Borges está na casa dele mantendo uma conversa animada com um executivo da Editora Alianza quando toca a campainha do telefone. Fani, a mulher que trabalhou por mais de quarenta anos na casa do autor, atende o telefone e volta com um nome escrito em um papel. Borges pede pra dizer que liguem pra ele na terça-feira.
- Mas o senhor vai para Europa na segunda.
- É por isso que estou dizendo...

4. Na França, Borges é entrevistado ao vivo na televisão. O jornalista pergunta:
- O senhor é conciente de que é um dos maiores escritores do século?
- É que este tem sido um século medíocre.

Novas anedotas e frases hilárias de Jorge Luis Borges, que adorava brincar com a solenidade dos jornalistas e a genialidade que o tempo todo lhe atribuiam. O marcador do escritor é o link para a primeira parte da série e outras postagens e fotos do autor de O Aleph.

Foto de Jorge Luis Borges com María Kodama do acervo pessoal de María Kodama

domingo, 9 de novembro de 2008

Borges txt


1. Em 1923, o jovem Borges publicou seu primeiro livro, uma coleção de poemas chamada Fervor de Buenos Aires. Trescentos exemplares foram impressos. Ele acreditava que a melhor divulgação era dar de presente para escritores e jornalistas.
Borges chegou na redação da revista Nosotros, onde foi recebido pelo diretor da publicação, Alfredo Bianchi.

- Você pretende que eu venda esses livros?
- Não pretendo, embora eu escrevi este livro, não sou maluco. Mas eu queria que o senhor colocasse nos bolsos desses paletós que estão lá pendurados.


Em tempo, os donos desses paletós foram vários dos primeiros que começaram a escrever sobre Borges e a construir a reputação de poeta dele.

2. Borges era professor da Faculdade de Letras da Universidade de Buenos Aires. Uma mulher, louca por conhecê-lo, vai esperar o escritor na saída da sala de aula. Quando a aula finaliza, os estudantes vão embora e finalmente sai Borges. A mulher chega pra ele e diz:

- O senhor é Jorge Luis Borges?
- Momentaneamente.

3. Borges está no estúdio de tevê Sonotex para fazer um comercial da Biblioteca Personal Jorge Luis Borges, uma coleção de livros escolhidos pelo mestre que serão vendidos nas bancas. É verão em Buenos Aires e faz um calor horroroso. De repente, Borges está debaixo de um holofote com um dos seus habituais ternos escuros quando começa a chamar sua secretária (que depois será sua esposa) María Kodama.

- María! María!
A mulher chega perto dele.
- Que foi, Borges?
- Eu já estou no inferno?

4. O escritor recebe na casa dele um cheque por adiantado pela palestra que vai oferecer no Hotel Bauen, no centro de Buenos Aires. É a maior cifra que jamais obteve por uma palestra, no tempo em que ele já era uma celebridade.
No dia pactado, Borges chega mais cedo ao hotel, onde é recebido pelo dono. Depois de cumprimentá-lo, Borges devolve o cheque. Surpreso, o homem lhe-diz:

- Porquê me devolve o cheque? É o pagamento do senhor
- Caso ninguém vier.

Inicio hoje uma série de postagens com histórias, anedotas e frases geniais do escritor Jorge Luis Borges. Além da grande obra, o autor deixou uma coleção dessas histórias hilárias vindas da sua rapidez de respostas e o seu humor irónico. Porque além do escritor que ele foi, Borges foi um mestre da oralidade.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Carybé por Amado



Em 1938, há quase quarenta anos, Carybé (Héctor Bernabó), aportou na Bahia, vinha carregado de índios, sombreros, tangos. Na opinião de várias senhoras da zona do Maciel, era um janota elegantíssimo, trajava polainas, colete e paletó lascado atrás, moda audaciosa na época. Um inquieto em busca de sua pátria perdida, do chão de sua sensibilidade, de seu porto de abrigo, de seu lar. Onde a terra verdadeira desse cidadão brasileiro nascido em Buenos Aires, adolescente no Rio, jovem artista na Argentina, aventureiro nos caminhos da Bolívia e do Peru, na selva do Chaco, biscando e buscando-se? Eis que chega à Bahia, a seu sol, a seu mar, a seu azul mágico, à sua mistura. Deslumbrado, descobre o chamego, o dengo, a magia. Nos quarenta anos decorridos a partir do momento solene do encontro do artista com seu chão, com sua pátria, com seu lar, Carybé plantou raízes tão fundas na terra baiana como nenhum cidadão aqui nascido e amamentado. Bebeu avidamente essa verdade e esse mistério, fez da Bahia carne de sua carne, sangue de seu sangue, porque a recriou a cada dia com maior conhecimento e amor incomparável.
Em sua casa de Brotas, existe um quadro antigo pintado por Carybé logo após o desembarque na terra baiana, naqueles idos de 1938. É uma tela de grande beleza -o enterro de uma puta, na zona- onde esplende uma Bahia de súbito revelada mas não possuida em suas entranhas: ei-la misturada de espanholismos, com pedaços de Gardel e cores índias do Altiplano, uma Bahia que o artista apenas antevia na hora comovida da descoberta.
Esse mesmo tema da Bahia popular na hora cruel do enterro da moça meretriz, no instante da dor desatada na ladeira, Carybé o retomou recentemente, num grande quadro hoje de propriedade, se não me engano, do Museu da Manchete: límpida Bahia em sua mistura fundamental, completa e perfeita, despida dos acréscimos que o artista e filho pródigo trouxera em sua jovem alma vária e inquieta. Agora são uma única realidade, a terra e o criador, a inspiração e a obra realizada: nesses quarenta anos Carybé se fez não apenas o grande mestre baiano, mas o cidadão baiano por excelência.
Sua obra nos engrandeceu, deu-nos maioridade artística. A Bahia, ao mesmo tempo, fez dele, o grande mestre do desenho, da pintura, da escultura. Artista principal da Bahia, dela nasce todas as manhãs e todas as manhãs a recria em sua beleza, em seu mistério, em toda sua verdade.
Outro dia um jornalista lhe-perguntou:
- Onde o senhor nasceu, seu Carybé?
- Nas Sete Portas, minha filha -respondeu.
Nasceu ou renasceu, que importa?

Mestre Carybé, de Jorge Amado, do livro Bahia de Todos os Santos - Guia de ruas e mistérios, publicado em 1945


Reprodução do óleo Bahia, de Carybé (1971)
Foto de Pierre Verger, Jorge Amado e Carybé, de Zélia Gattai (Fundação Casa de Jorge Amado)