quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um democrata



E depois dos anos de chumbo sobre os que escrevi há uns dias apenas, chegou a primavera democrática.
Na época eu era militante do Partido Intransigente, que estava à esquerda de peronistas e radicais, as duas primeiras minorias e os únicos com possibilidades reais de vencer a eleição de 1983, que seria minha primeira oportunidade de votar.
Os radicais em espanhol não são tão radicais assim, na verdade são bastante moderados. O partido de Raúl Alfonsín era o meu adversário, embora muitos dos meus amigos faziam parte dele.
A vitória de Alfonsín ficou associada nos tempos à restauração da ordem democrática. Curioso. Naquela fase, eu achava Alfonsín morno demais para encarnar as minhas idéias reevolucionárias.
Anos depois, eu reconheci nele valores de muita coragem e defendi a sua gestão, ainda nas minhas diferênças, contra os que jamais perdonaram seus erros.
Alfonsín levou os ditadores ao banco dos réus. Um fato inédito, porque nem o processo de Nuremberg é comparável. Nunca ninguém fez isso.
Depois decretou a Lei de ponto final que foi o alvo de tantas críticas, mas há de se entender o contexto histórico. Isso foi no tempo em que o militarismo ainda não estava derrotado. Alfonsín suportou duas tentativas de golpes militares e um ataque a um batalhão de um grupo de militantes armados fora de época. Isso, além de treze greves gerais orquestradas pelos sindicatos peronistas.
E foi ele, junto com Sarney, ao assinar a Declaração do Iguaçu, o grande impulsor do que seria o Mercosul, quem desativou todas as alarmes entre Argentina e Brasil herdadas das ditaduras.
O simbólico da inauguração da Ponte da Amizade nas nossas fronteiras teve a visão do além. Minha idéia de Mercosul é a troca cultural que traz o conhecimento do outro e desfaz o preconceito idiota.
O ex presidente que morreu ontem contribuiu para abrir esses caminhos.
E viveu e morreu na austeridade, sem uma só acusação de corrupção. Um gesto que deveria ser moeda corrente, mas que nessa casa da mãe Joana que a política é desde os anos noventa, virou raridade.



Fotos de Raúl Alfonsín em 1983 e José Sarney com Raúl Alfonsín em 1985, de Victor Bugge, fantástico reporter gráfico que é o fotógrafo oficial dos presidentes argentinos há mais de trinta anos.

3 comentários:

mara* disse...

Teve a coragem e honradez, o que faltou aos daqui, de colocar nos bancos dos réus, os sádicos assassinos e passar assim a Argentina a limpo.

requeri disse...

toda vez que vc vai lá eu venho, ainda bem!!!
ando tão atolada em serviço e estudo que nem tenho tido tempo de fazer as coisas mais banais que me alegram, pintar as unhas da mão de vermelho e preto, assistir caminho das índias e rever os bloggs do meu povo além de escrever no meu ... hj vim e li tudo de uma vez só .... não tem ninguém melhor ou igual a vc ... te adoro. beijo.

M disse...

Ainda estou muito movilizada pela partida de esse grande homem que foi Raul Alfonsin, ao que hoje chamarom " O pai da democracia".
Gracias Raul!!!!