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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Leoninos - bonus track



A querida amiga Maria Sampaio me mandou essa e não da pra deixar fora. Caetano e Jorjão Amado, dois leões pra valer, na festa do Rio Vermelho, em dois de fevereiro de noventa e seis. Sob o olhar de Maria.
E eu que não queria colocar foto de Caetano na postagem dos leoninos pra ninguém achar que no blog há excesso de caetanismo. Mas dava pra guardar essa beleza?

Foto de Maria Sampaio

domingo, 19 de julho de 2009

Onde estava você quando o homem pisou a lua?



Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez, as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria


Os versos de Caetano Veloso, do clássico Terra, fazem referéncia as fotografias da Terra feitas desde a lua, na missão Apollo 11, que acontecia enquanto ele era preso pela ditadura brasileira, há exatos quarenta anos.
Eu tenho umas lembranças muito difusas de ter assistido ao momento em que os astronautas desceram na lua. Não lembro tanto das imagens quanto da sensação de que alguma coisa importante estava acontecendo. Lembro que o mundo parou. Lembro da minha família reunida na frente da tevê. Eu estava sendo testemunha da história, mas minha cabeça infantil não percebia nem de perto o que aquilo significava.
Para mim sempre foi mais surpreendente -e talvez continue sendo- nem tanto o fato do homem pisar a lua quanto o fato do planeta inteiro assistir à cena na televisão. Eu sei agora mais ou menos o valor que aquela viagem representou em termos científicos. Mas aquilo para mim não foi a chegada do homem na lua mas a invenção da televisão.
Na medida em que meu encantamento infantil pela imensidão espacial crescia, também aumentava em mim a sensação de profanação. A lua era negócio de poetas, era para se contemplar e não para enfiar uma bandeira nela. Essa sensação até hoje me acompanha.
O escritor francês Júlio Verne já em 1865 publicou Da terra à lua (De la Terre à la Lune), onde uma corporação estadunidense lançava um projétil (com três astronautas e desde Tampa!) para atingir a lua.
Por aqui e em outros paises o 20 de julho ficou no calendário comercial como o Dia do Amigo. Essa noite, apesar da crise, o frio e a Influenza, os restaurantes vão ficar lotados.
Meu sentimento inconsciente de profanação daqueles dias se traduz na ausência dessa celebração. Se é para encontrar amigos, qualquer dia menos esse.
O homem quis conquistar a lua desde tempos imemoriais. Continuo preferindo o olhar contemplativo dos poetas.



Fotos do The Project Apollo Image Gallery

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Moreno da Maria



Domingo que vem aqui é o Día del padre, seguindo a tradição dos Estados Unidos. Lá instituiram aquela data por causa do viuvo de uma tal Sonora Smart (bonito nome, certo?), que morreu no parto do sexto filho. Aí o Henry Jackson Smart criou sozinho os seis filhos e parece que virou heroi nacional.
Sei lá, em outros países católicos, estão regidos por São José (19 de março), no Brasil (e na Samoa!) e lá pra agosto e por aí vai.
O caso é que eu resolvi dedicar o programa Club Brasil do próximo sábado só à música de pais e filhos.
Então há dois dias que estou programando a brincadeira. E como o programa é completamente roteirizado, hoje entrei no site do mano Caetano para checar a data do lançamento do Cores, Nomes, onde está a primeira parceria dele com o filho Moreno. Aí me deparei com esta belíssima foto da amiga Maria Sampaio, de Caetano junto com Moreno num show de apresesentação daquele disco.
A querida Maria deve ter um contexto e talvez uma história por tras dessa imagem. Talvez ela venha aqui contar. Por enquanto fica a foto bela de Maria olhando pro Moreno e Moreno olhando pra Maria.
E eu vou continuar descascando o abacaxi do programa do próximo sábado.

Foto de Caetano Veloso e Moreno Veloso, de Maria Sampaio

domingo, 11 de janeiro de 2009

Quem vem lá sou eu



Quem vem lá sou eu
quem vem lá sou eu
a cancela bateu
cavaleiro, sou eu...


E para completar uma semana de despedidas, Edith Oliveira, Dona Edith do Prato, subiu no mesmo dia em que foi Casemiro da Cuíca.
Guardiã do samba de roda baiano, mãe de leite de Caetano Veloso, que a levou pro estúdio em 1973, quando gravou o belo Araçá azul, que a crítica chamou de "experimental" porque não conseguia classificar. A voz de Edith abre o disco, acompanhando-se com prato de louça e faca: "Vamo embora pro sertão, oh viola meu bem, viola..."
Dona Edith só foi gravar seu primeiro disco com 86 anos. Já era uma jóia, agora é um documento invalorável, nascido também por gestão da família Velloso.
A foto maravilhosa foi feita pela querida Maria Guimarães Sampaio em 1975, e mostra Dona Edith, com a matriarca dos Veloso, Dona Canô e Mabel Velloso, em uma cena do cotidiano, improvisando um samba na cozinha.
Outras fotos lindas criadas por Maria da grande artista de Santo Amaro da Purificação -que não se dizia artista- estão no Continhos para cão dormir.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O sal é um dom




Minha mãe me deu ao mundo
de maneira singular
me dizendo uma sentença
pra eu sempre pedir licença
mas nunca deixar de entrar

Amanhã, entre as 18 e as 22, acontece a apresentação do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, com textos e receitas colhidas pela filha-poeta Mabel Velloso e fotografias de Maria Sampaio, que aqui já é amiga da casa, para minha honra.
Será em Salvador, no Restaurante Amado, que fica na Avenida de Contorno.
Se pensarmos nas receitas, é de dar água na boca. Se pensarmos nos textos, nas fotos e na carga histórica e emotiva, é de dar água (e sal, que é um dom) nos olhos.

Foto reprodução da capa do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, de Mabel Velloso, com fotografias de Maria Sampaio, editado em parceria pela Corrupio e a Nova Fronteira.

Tudo de novo (fragmento), de Caetano Veloso

domingo, 21 de setembro de 2008

Quero ver Irene rir


Família Veloso. Irene ri.


Caetano Veloso no exílio em Londres


Já tenho escrito que a música Maria Bethânia foi uma das primeiras que despertou minha atração por música brasileira, fora as músicas de Roberto Carlos que eu ouvia em espanhol sendo criança.
Com curiosidade adolescente fui atrás do autor daquela música e assim descobri Caetano Veloso. Na minha primeira viagem ao Brasil, com dezessete anos, trouxe vários vinis, entre eles, aquele que foi o segundo da carreira solo dele, que chamou minha atenção pela capa branca com a assinatura no meio. Pouco sabia então da biografia do artista. Nas primeiras matérias que eu li, alguma falava sobre a viagem dele com Gil para São Paulo com o objetivo de desenvolver a carreira e dos momentos dificis que todo natural de uma cidade pequena tem que atravessar quando vira um migrante.
Quando ouvi Irene pela primeira vez achei natural que fosse, entre guitarras distorcidas que já nos oitenta soavam pitorescas, uma música de saudade do jovem baiano que sentia falta dos seus afetos. Eu não fazia a menor idéia de quem era a Irene da música. No progressivo aumento do meu interesse pela obra de Caetano, soube que Irene era uma das irmãs dele. Pouco tempo depois, num especial da televisão brasileira -daqueles que os meus amigos gravavam com generosidade pra mim quando o acesso à informação era menos democrático e simples- eu soube que a música tinha sido criada pelo artista na cadeia, porque o sorriso de Irene, aberto e sonoro, era o completo oposto daquela realidade.
Fiquei comovido com a história e a beleza da metáfora. Lembrei imediatamente do grande poeta espanhol Miguel Hernández, que escreveu vários dos seus mais estarrecedoramente belos poemas nas prisões da Guerra Civil Espanhola. Mas mesmo ignorando os motivos que levaram Caetano a compor a música, eu já gostava muito dela, da musicalidade rítmica do verso “quero ver Irene rir” e do contraste das guitarras elétricas e o andamento com o que as palavras significavam. Para um adolescente de Buenos Aires, criado na ditadura e na cultura do tango, resultava muito curioso como na música brasileira, letras tristes eram freqüentemente expressadas com músicas que sugeriam o contrário. Com o tempo cheguei a fazer programas de rádio inteiros acentuando essa particularidade, em comparação com a música argentina.
No seu livro Verdade Tropical, Caetano refere assim o acontecimento:
Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita que eu por vezes mencionava Ava Gardner para comentar sua beleza. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra: Eu quero ir minha gente/ Eu não sou daqui/ Eu não tenho nada/ Quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada/ Irene ri, Irene ri, Irene... Foi a única canção que compus na cadeia. (...)
Quando comecei a arranhar as cordas do violão, já com vinte e cinco anos, um dia me surpreendi cantando Irene num ritmo bem mais lento e o círculo fechou, pois senti na própria carne a profundidade da tristeza daquela música.
Eu já tinha conversado com Caetano, em entrevista em Buenos Aires no começo da década de noventa, sobre a tristeza desses anos. Agora, através do encontro humanamente virtual com a arte e a pessoa de Maria Sampaio, achei entre os seus links o Blog de Irene Velloso, precisamente chamado Irene ri, com o palíndromo que descobriu o grande Augusto de Campos. E lá está ela, com seu sorriso, que jamais testemunhei ao vivo, mas que imagino do jeito que o artista o descreveu, no antagonismo da opressão, como uma vitória da liberdade.

Foto da família Veloso de Maria Sampaio
Fragmento do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 1997)
Reprodução da capa do disco Caetano Veloso, de 1969
Foto de 1969 de Caetano Veloso no exílio em Londres, de autor não indicado

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Dez músicas brasileiras para cantar nos bares





1. O bêbado e a equilibrista (João Bosco - Aldir Blanc)
Popularizada por Elis Regina, infaltável depois nos shows do João. Uma belíssima metáfora sobre a esperança na época da ditadura.
Melhor verso: A esperança dança na corda bamba de sombrinha

2. Sampa (Caetano Veloso)
Uma música a prova de bairristas. Celebra o estupor do poeta perante a cidade imensa, para quem “vem de outro sonho feliz de cidade”, com referências aos paulistas Rita Lee e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos.
Melhor verso: Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas

3. Maluco beleza (Raul Seixas – Cláudio R. Azevedo)
Toca Raul! Então tá. A música que mais identifica o roqueiro baiano, aliás o maior emblema do rock brasileiro, possui uma melodia imbatível que faz sair cantarolando na primeira audição. Na época em que normalidade era o pior fantasma dos jovens.
Melhor verso: Vou ficar, ficar com certeza maluco beleza

4. As rosas não falam (Cartola)
O maior sucesso de Cartola, popularizado por Beth Carvalho em 1975, quando emplacou a música na novela das oito, no caso Duas Vidas, na Globo. Nascida quando Dona Zica perguntou olhando pras roseiras da casa “Como é possível, tantas rosas assim?” e Cartola respondeu “Não sei, as rosas não falam”. O grande compositor foi gravar no ano seguinte ao sucesso de Beth, num dos fundamentais discos que ele fez pra gravadora Marcus Pereira.
Melhor verso: Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti

5. Carinhoso (Pixinguinha – João de Barro)
Lançada em 1928 com a Orquestra Típica Donga-Pixinguinha, é inimaginável quantas vezes já foi cantada em rodas de violão, inclusive porque com uns poucos acordes simples, os iniciantes no instrumento podem se aventurar pelo universo de Pixinguinha. O grande Braguinha só foi colocar letra nesse samba-choro vinte anos depois.
Melhor verso: Vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos teus

6. Nos bailes da vida (Milton Nascimento – Fernando Brant)
Cantores de churrascaria, jóias escondidas nas boates, artistas perdidos em buracos cheios de fumaça, eis sua canção. Música autobiográfica cuja letra Fernando Brant escreveu partindo das inúmeras histórias da noite que Milton contou pra ele.
Melhor verso: Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol

7. (Caminhando) Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré)
Outra música simples, de apenas dois acordes que acabou virando um dos principais exemplos de canção política no Brasil. Apresentada em 1968, foi censurada e empurrou Vandré pro exílio no Chile, começando a alimentar a lenda sobre o artista que até hoje continua.
Melhor verso: Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

8. Epitáfio (Sérgio Britto)
Uma da última fornada de clássicos de roda de violão. Trouxe um novo sucesso aos Titãs quando já pareciam viver das glórias passadas. Para alavancar a sua popularidade foi incluída na novela Desejos de mulher, mas é lembrada por ter sido lançada no mesmo ano em que o grupo perdeu absurdamente o guitarrista Marcelo Frommer
Melhor verso: O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído

9. Ronda (Paulo Vanzolini)
O grande Vanzolini, um dos créditos paulistas do melhor samba, embora com uma obra pequena fez essa música na década de cinqüenta, embora o sucesso demorou até que Márcia a gravou muitos anos mais tarde e depois ganhou outras versões ótimas como as de Ângela Maria e Maria Bethânia. Traição, bar, bebida, tem tudo a ver com a noite.
Melhor verso: No meio de olhares espio em todos os bares, você não está

10. Asa branca (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)
Música que identificou a tantos imigrantes nordestinos nas grandes cidades brasileiras. Versos comoventes do doutor Teixeira acrescentados na toada adaptada do folclore. Se foram lá mais de sessenta anos, as secas continuam e Asa branca continua preciosa.
Melhor verso: Quando o verde dos teus óios se espaiá na prantação

Está faltando alguma música? Claro! Dezenas! Mas eu já disse, essas seleções minhas são arbitrárias, sem ordem de valor e sem final, ou seja, poderão ser retomadas a qualquer momento. A casa aceita sugerências. Já, se ao ler, o respeitado leitor não saiu cantando pelo menos uma dessas músicas, o respeitado leitor tem um problema sério.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O olhar de Maria Sampaio


O blog traz essas alegrias. Quando Dona Canô, a mãe de todos os Veloso, fez cem anos eu dediquei uma postagem simples, onde tudo o que eu tinha a dizer estava expressado em uma fotografia que achei de Maria Guimarães Sampaio. Nela aparece Dona Canô, sentada sozinha na sala da casa de Santo Amaro, num belíssimo preto e branco. É uma imagem comovente, atravessada pelo silêncio e as recordações. Então só resolvi acrescentar uns versos de Caetano que definem poeticamente à mãe dele, da música Genipapo absoluto.
Ontem, quase um ano depois da postagem, a autora da foto, deixou uma mensagem agradecendo o fato de eu ter colocado o crédito e com um convite para visitar o blog dela.
No Continhos para cão dormir há outras fotografias lindas feitas por Maria, como essa incluída aqui e também seus textos permeados de brasilidade.
Quem anda por aqui sabe que sustento e defendo autoria nos blogs. Esse detalhe de incluir um crédito que pode parecer menor, também pode desaguar no mar do encontro entre pessoas que estão aqui, nesse mundo as vezes chato, jogando luz com a sua arte.

Foto de Maria Sampaio de 1994, da fazenda Mutumpiranga, Nilo Peçanha, Bahia

sexta-feira, 4 de julho de 2008

(Outras) Dez músicas brasileiras que fazem minha vida mais feliz




01. Trem das cores (Caetano Veloso)
Trens têm para mim uma magia única. Estão ligados a momentos felizes e também a um momento trágico da minha infância. Essa música, definida pelo próprio Caetano no Verdade Tropical como pertencente a “fase musical mais feliz” da vida dele, é da época da Outra Banda da Terra, que tinha Tomaz Improta, Vinícius Cantuária, Bolão, Zé Luís e Arnaldo Brandão. Sem nenhuma obviedade de colocar um som de buzinha, a música é uma viagem recheada de imagens sensoriais.

02. Vida de artista (Itamar Assumpção)
Incluída no excelente Preto Brás, é um retrato perfeito do saudoso Itamar, feito só com vozes (dele) e violão (dele). A letra, quase como um canto de cisne é indicadora da posição que o Negro Dito ocupou e sustentou.

03. Politicar (Tom Zé)
A volta por cima de Tom Zé via Luaka Bop/David Byrne deu num disco irretocável como é Com Defeito de Fabricação. Lá o espírito inquieto de Tom se apresenta com a teoria da Estética do plágio. Politicar é definida pelo autor como “um arrastão de Rimsky Korsacov com os músicos da noite de São Paulo”. O desprezo pelo poder em estado puro.

04. Cultura (Arnaldo Antunes)
Do projeto multimídia Nome, que tem um vídeo, poesia, pintura, música e que hoje duvido que a BMG publicasse como publicou em 94. Máquinas de ritmo, teclados programados e a obsessão estética de Arnaldo de redefinir as coisas com poesia. Jóia.

05. Olhos coloridos (Sarará Crioulo) (Macau)
Morando no Rio tive a imensa sorte de conhecer Macau e ouvir ele contando, lá do alto da Rocinha, as histórias da época da Black Rio e a Tropa Maldita. Soul y funk made in Brasil.

06. Estácio, Holy Estácio (Luiz Melodia)
E por falar em Macau, vem um amigão dele, mestre do blues e do funk mas com o DNA do samba no sangue. Conheci por Maria Bethânia e fui catar a versão original. Se Melodia tivesse nascido nos Estados Unidos seria cultuado como o Isaac Hayes. Mas acho que ele ainda prefere ter nascido no Estácio.

07. Que maravilha (Jorge Benjor – Toquinho)
Jorge Ben (jor) disse certa vez numa entrevista num jornal do Rio de Janeiro que ele se orgulha de nunca ter feito uma música triste. Que maravilha é o exemplo. “Toda molhada linda e despenteada, que maravilha, que coisa linda que é o meu amor” Pois é, nem o maior toró atrapalha o encontro amoroso (imagino que com Teresa). Parceria com Toquinho, o que é estranho também porque a maioria das músicas do Benjor não têm parceiros.

08. Sentimental eu fico (Renato Teixeira)
Ja dei minha opinião sobre Renato Teixeira. Isso aqui e existencialismo no bar. Na voz de Elis então é de arrasar. Ideal para “lobos cansados carentes”.

09. Pra você gostar de mim (Vital Farias)
Entre as muitas virtudes de Zeca Baleiro e a turma dos maranhenses, deve-se apontar a valorização do cantador paraibano Vital Farias. “Vou jogar toda esperança numa conta de poupança pra você gostar de mim”. Há uma ótima versão de Rita Ribeiro.

10. Pólvora (Herbert Vianna)
Esse Big Bang dos Paralamas é um disco fodástico. Ganhei da minha amiga Gisele Theodoro numa fita casete que tinha esse de um lado e o Blesq-Blom do outro. Só que era uma daquelas que tinham 30 minutos de cada lado então os discos não entravam por inteiro. Mas essa Pólvora estava lá, com um Herbert afiadíssimo em música e letra numa base ska, o Barone indomável, o Bi segurando a bola e uma seção de ventos nota dez num crescendo maravilhoso. Me deixem fazer justiça citando eles: Mattos Nascimento, Demetrio Bezerra, Monteiro Jr.

Continua a série, gente. De novo, não há ordem de valor. Curtam, procurem as que não conheçam, ouçam. É melhor que Rivotril.

sábado, 19 de abril de 2008

Porque chamamos o rei de rei



Meu primeiro contato com música brasileira foram as canções de Roberto Carlos que ele começou a gravar em espanhol, quando a gravadora descobriu o filão para impor os discos dele na América hispano-falante. Un gato en la oscuridad, Amada amante e tantas outras estão ligadas a momentos insequecíveis da minha pátria, que eu entendo como o território -não físico- da infância. Eu conheci essas músicas porque elas tocavam em tudo o que é lado: nos quartos das empregadas, nos rádios dos motoristas de ônibus, que colocavam os adesivos do rei nos portenhíssimos colectivos, junto com os de Gardel. Mas também no tocadiscos Winco do meu irmão mais velho e nas poucas festas dos amigos dele em que eu consegui entrar de penetra.
Depois comprei o vinil Yo te recuerdo, que começava com aquela música arrasadora que, de quebra, me apresentou o mais puro Armando Manzanero. Nele estavam incluídas músicas tremendas -fica aqui também a homenagem ao parceiro do rei em tantas canções, Erasmo Carlos- em espanhol como Palavras e Atitudes e em português, como O show já terminou. Esse disco iluminou em mim o conceito de canto amigo que Roberto Carlos criou. Porque as músicas dele representam como poucas a tensão da espera amorosa, o gozo da conquista e a dor da perda.
Depois veio o resto. O conhecimento da quase totalidade da obra dele em português, a reivindicação de Maria Bethânia quando ele era considerado o sumo do brega -que até hoje me acompanha quando alguém desde a inteligentsia entorta o nariz se eu dizer que gosto de Roberto Carlos e tudo mais.
Por esses dias, por acaso, quase coincidem em Buenos Aires os shows de Manzanero e Roberto Carlos para despertar em mim aquelas origens. Se bem que é difícil e nem pretendo manter a objetividade quando no imaginário mistura-se a informação das recordações infantis com a arte, é bom de vez em quando lembrar, parafraseando Caetano agora, porque chamamos rei quem chamamos de rei.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Vaia de bêbado não vale


Primeira edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu
o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
Criando a bossa nova em 58
O Brasil foi protagonista
De coisa que jamais aconteceu
Pra toda a humanidade
Seja na moderna história
Seja na história da antiguidade
Por isso, meu nego,
Vaia de bebo não vale
De bebo vaia não vale

Segunda edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu
o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
Quando aquele ano começou, nas
Águas de Março de 58,
O Brasil só exportava matéria-prima
Essa tisana
Isto é o mais baixo grau da
capacidade humana
E o mundo dizia:
Que povinho retardado
Que povo mais atrasado

Terceira edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova
pariu o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
A surpresa foi que no fim daquele
mesmo ano
Para toda a parte O Brasil d'O Pato
Com a bossa nova, exportava arte
O grau mais alto da capacidade
humana
E a Europa, assombrada
Que povinho audacioso
Que povo civilizado

Pato ziguepato ziguepato Pato
Pato ziguepato ziguepato Pato

Tratou com desacato o nosso amado Pato
Viva a vaia, seu Augusto
Viva a vaia, seu João
Viva a vaia, viva a vaia
Viva a vaia com Dios, amor
Porque me soy argentino
Gentino, gentino, gentino

Vaia de bêbado não vale, "música reportagem" de Tom Zé e Vicente Barreto

Em 1999, João Gilberto dividiu um show com Caetano Veloso pela primeira vez. Aconteceu em Buenos Aires. Na verdade, foram duas noites inesquecíveis que eu testemunhei e mestre João ficou encantado com o carinho do público.
Pouco tempo depois a dupla foi chamada para a noite inaugural do Credicard Hall, auto-denominada "a maior casa de shows da América Latina". Mas aquela noite ficou na história não pela espetacularidade da casa mas pelo incidente de João com o público.
A acústica do local estava ruim. Tinha um eco somado ao zumbido do ar condicionado que motivou a reclamação de um dos fundadores da bossa nova. Caetano tentou levar na esportiva, mas quando João voltou a reclamar ouviram-se as vozes de reprovação e as vaias dos convidados ricos e famosos. Caetano discursou pra platéia mas João arrasou com frases como: "Sou argentino desde pequenininho"; "tem que fazer direito, tem que fazer o Brasil" e depois de botar a língua pra fora disse "vaia de bêbado não vale".
E o Tom Zé, que estava no auditório, resolveu fazer essa música-manifesto de desagravo ao ídolo. Na letra ele cita o título do poema concreto de Augusto de Campos, "Viva vaia", e os próprios "Seu Augusto" e "Seu João", além de ressalvar a argentinidade do João, que estava maravilhado com o tratamento que tinha recebido em Buenos Aires, em contraponto com o episódio de São Paulo.
Mas além disso, a letra coloca a questão de que com a bossa nova, o Brasil começou a exportar arte, "o grau mais alto da capacidade humana". Além da anedota, acho que é um belo conceito para fazer uma homenagem aos cinqüentinha da bossa.

domingo, 7 de outubro de 2007

sábado, 15 de setembro de 2007

Dona Canô - 100 anos


Tudo são trechos que escuto, vêm dela
pois minha mãe é minha voz.

Genipapo absoluto (fragmento), de Caetano Veloso
Dona Canô, a mãe dos Veloso, faz cem anos
Foto de Maria Sampaio

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Uma mulher, duas canções


1

Eu sou apenas um velho baiano
um fulano, um caetano, um mano qualquer.
Vou contra a via, canto contra a melodia,
nado contra a maré.
Que é que tu vê, que é que tu quer,
tu que é tão rainha?
Branquinha,
carioca de luz própria, luz.
Só minha
quando todos os seus rosas nus,
todinha
Carnação da canção que compus
quem conduz
vem, seduz.
Este mulato franzino, menino,
destino de nunca ser homem, não.
Este macaco complexo,
este sexo equívoco
este mico-leão.
Namorando a lua e repetindo:
A lua é minha.
Branquinha,
Pororoquinha, guerreiro é.
Rainha
de janeiro, do Rio, do onde é
sozinha,
mão no leme, pé no furacão,
meu irmão
neste mundo vão.
Branquinha,
Pororoquinha, guerreiro é.
Rainha
de janeiro, do Rio, do onde é
sozinha,
mão no leme, pé no carnaval,
meu igual
neste mundo mau.


2

Eu não me arrependo de você
cê não me devia maldizer assim
vi você crescer
fiz você crescer
vi cê me fazer crescer também
pra além de mim.

Não, nada irá nesse mundo
apagar o desenho que temos aqui
nem o maior dos seus erros,
meus erros, remorsos, o farão sumir
vejo essas novas pessoas
que nós engendramos em nós
e de nós.
Nada, nem que a gente morra,
desmente o que agora
chega à minha voz.

Branquinha (1989) e Não me arrependo (2006), de Caetano Veloso
Foto de Daigo Oliva
Uma mulher, duas canções e nada a (mal)dizer. Pois é, bicho. O amor é foda.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

London London



Woke up this morning
singing an old, old Beatles song
We're not that strong, my lord
you know we ain't that strong
I hear my voice among others
in the break of day
Hey, brothers
Say, brothers
It's a long long long long way

Os olhos da cobra verde, hoje foi que arreparei
se arreparasse a mais tempo não amava quem amei

Arrenego de quem diz que o nosso amor se acabou
ele agora está mais firme do que quando começou

A água com areia brinca na beira do mar
A água passa e a areia fica no lugar

E se não tivesse o amor, e se não tivesse essa dor
e se não tivesse sofrer, e se não tivesse chorar
e se não tivesse o amor

No Abaeté tem uma lagoa escura
arrodeada de areia branca

It's a Long Way, de Caetano Veloso
Beatles, melancolia e samba de roda no exílio londrino

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Bïa



Mon cœur a tant d’espérance
mon cœur en enfance
désire et attend l’inconnu

Mon cœur en adolescence
n’est pas que l’absence
d’une ombre incertaine entrevue

qui traversant mes rêves
sans un mot d’adieu
a laissé dans mes yeux
l’interminable pluie

Mon cœur est un vagabond
Il veut garder le monde
en lui

Mon cœur est un vagabond
Il garderait le monde
en lui

Coeur vagabond, versão para o francês de Bïa da música Coração vagabundo, de Caetano Veloso.
Nasceu no Brasil, os pais dela tiveram que ir embora na época da ditadura. Morou no Chile, passou um tempo na Argentina e Portugal. Voltou pro Brasil com a anistia. Depois foi morar na França e ate hoje está por lá. Canta muito.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Dona Edith do Prato



Vou me embora pro sertão
ô viola meu bem, ô viola
eu aqui não me dou bem
ô viola meu bem, ô viola
sou empregado da Leste
sou maquinista do trem
vou me embora pro sertão
que eu aqui não me dou bem
ô viola meu bem, viola
ô viola meu bem, viola

Viola meu bem, tradicional, adaptação de Caetano Veloso.
Cadeira de vime. Prato de louça e faca. Chiado. Mãe de leite do quinto filho de Dona Canô. Filha de Oxum-Maré e as Vozes da Purificação que vem da igreja.
Jota Velloso, filho da moça que morria de amor chamada Clara, e Bethânia nem sabem o bem que fizeram à humanidade ao produzir o disco de Dona Edith.
A arte de Dona Edith do Prato talvez diga mais sobre o sentido da vida que dezenas de tratados filosóficos.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Negro amor




vá, se mande, junte tudo que você puder pegar
ande, tudo que parece seu, é bom que agarre já
seu filho feio e louco, ficou só
chorando feito fogo à luz do sol

os alquimistas já estão no corredor
e não tem mais nada negro amor

a estrada é pra você, e o jogo? e a indecência?
junte tudo que você conseguiu por coincidência
e o pintor de rua que anda só
desenha maluquice em seu lençol

sob seus pés, o céu também rachou
e não tem mais nada negro amor

seus marinheiros mareados abandonam o mar
seus soldados desarmados não vão mais lutar
seu namorado já vai dando o fora
levando os cobertores, e agora?

até o tapete sem você voou
e não tem mais nada negro amor

as pedras do caminho, deixe para traz
esqueça os mortos que eles não levantam mais
um vagabundo esmola pela rua
vestindo a mesma roupa que foi sua

risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
e não tem mais nada negro amor.


Negro amor, de Bob Dylan, versão para o português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, da música It's all over now (Baby Blue). Com licença do mestre Bob, essa versão ficou ótima.
As vezes -só as vezes- tradução funciona.
A foto de Péricles é de Rui Mendes.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Reconvexo


Eu sou a chuva que lança a areia no Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não, e nem disse que não
Eu sou o preto norte-americano forte com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música,
A mais velha e mais nova espada e seu corte
Eu sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá gogoya
Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo.


Caetano Veloso

Foto de Bob Portugal

Caligrafia carioca


Luis de Góngora



Esqueci espanhol
de tanto falar sozinho
de tanto cantar Caetano
de muito escrever assim
caligrafia carioca
nas tuas costas
escureci Quevedo
desvaneci Dom Luis
por força de ler teus lábios
ainda filho do latim
eu já fui uma língua
que não sou.


Juan Trasmonte (Todos os direitos reservados)