Mostrando postagens com marcador Poemas Juan Trasmonte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas Juan Trasmonte. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Os dias nunca são iguais



Os dias nunca são iguais
hoje eu me sinto a vontade
e depois não
as vezes sinto fome
outras quero vomitar
tem dias que a parede está mais suja
e outros em que a bruma não me deixa ver
coisíssima nenhuma
Tem horas em que tenho assim
uma necessidade
de cafeína nicotina qualquer coisa
no vazio
e uma dor pungente pela dor
que dói nos outros
porém os dias nunca são iguais
e há dias em que eu quero
que se lixem
e viro um sujeito egoísta
e o meu umbigo fica feito um sol
tem dias em que amasso o lençol
e dias em que durmo como um gato
meu corpo anda sem marca pelo espaço
flutuo sem vestígio de presença
há dias para encher a geladeira
e dias de silêncio e jejum
as vezes coexistem as belezas
as vezes os fedores e o alecrim
o éxtase deslinda do horror
assim como as peles do abraço
de vez em quando o dia só oferece
a esperança de um outro dia
que sempre achamos novo de manhã
e saldo de brechó no fim do dia.

Os dias nunca são iguais, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Jorge Aguirre

quarta-feira, 3 de junho de 2009

As migranhas, Almodóvar e o Tai Chi Chuan



Na entrevista em que apresentou seu último filme, Los abrazos rotos, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar contou que o roteiro do filme foi escrito no meio de migranhas ferozes. Eu fiquei maravilhado, de novo, com o milagre da criação. Lembrei de Frida Kahlo, prostrada na cama depois que o acidente quebrou a coluna dela, pintando essas obras maravilhosas. Isso é tirar leite das pedras mesmo.
Poucas semanas depois, comecei a acordar no meio da noite por causa de uma dor no olho, como se alguém estivesse puxando dele para atrás com uma pinça. Eu padezi essas migranhas por ciclos, de cinco em cinco anos mais ou menos, sempre por questões relacionadas com a visão. A primeira vez foi quando descobri que precisava usar óculos; a segunda, quando os óculos ficaram velhos.
Lembro da última porque foi em 2001, na época em que morava no Rio.
Enfim, o caminho natural foi consultar meu oftalmologista que eu não via por mais de uma década.
Mas oftalmologista, igual que clínico e dentista eu acho que não é médico pra escolher de uma lista. São, na minha concepção integrista, que nem o amor, se for possível, eles têm que ser pra vida inteira.
Cheguei lá e encontrei a figura. Filho e neto de oculistas, membro conspícuo do Conselho de Oftalmologia. Magro, com essa barba de filósofo dos anos setenta, Rafael é do estilo menos é mais. Quando fui pedir mais aumento nos óculos, ele quis tirar; mandou eu ficar longe de todo tipo de telas e comer pouco nas épocas de muito trabalho.
Outra vez que uma conjuntivite estava me apurrinhando (e eu que não ia com ele porque não estava no meu serviço médico) e me mandou parar com todos os colírios e fazer uma solução com água e xampu Johnson pra crianças e passar nos cílios. Sarei depois de um mês de enfiar laboratórios inteiros nos olhos.
Dessa vez ele checou os meus óculos, olho fundo no fundo dos meus olhos, tomou a pressão deles e disse:

- Sua visão está melhor do que a última vez que eu te vi. Sim, você desenvolveu um pouco de astigmatismo, mas reduziu a miopia. Acontece com os anos. Não é por aqui. Você está bem do fígado?
- Acho que estou.
- Essas migranhas são típicas de pessoas que estão muito tempo sentadas. Quando você levanta da cama, passa, certo?
- Depois de um tempo, passa.
- Então... você não é que fazia Tai Chi Chuan?
- Iiiih, Rafael, há muito tempo que parei.
- Talvez seria bom voltar. Senão faça ioga. Vou te mostrar umas asanas, que são fáceis.

Ato seguido, Rafael deitou no chão do consultório e com os braços esticados e as palmas pro chão levantou as pernas e levou as por cima da cabeça.
- Andar também é muito bom. No sábado passado, minha mulher e eu andamos cinco horas.

Eu saí de lá aliviado por não ter nenhum tubarão mordendo meu olho, mas já cansado de pensar o que seria de mim saindo pra andar cinco horas.
Resolvi voltar pro Tai Chi, que já estava dando voltas na minha cabeça. E estou fazendo o esforço intelectual para começar essa semana, enquanto reservo uma sessão com minha fisioterapeuta, que é uma garota filha de japoneses que mistura as técnicas ocidentais com as orientais.
Mesmo assim, no percurso dessas novas decisões, está custando dormir a noite toda sem uma dose de ergotamina.
E como uma das minhas reclamações na frente do espelho estava sendo a falta de tempo pra escrever, decidi dar uma de Almodóvar. Claro, longe de pretender chegar na altura da unha do pé dele. Mas quando a dor me acorda, encaro o caderninho e maltrato versos. Série que já dei em chamar “Poemas da migranha”.

Ando perambulo ambulo devaneio
nas sombras da casa
feito uma criatura
dos pesadelos de Almodóvar
bêbado dos licores do aquecedor
ando feito pagador
carregando o andor
arrancado do reino
dos sonhos sem dor
feito zumbi de George Romero
zumbi de Cannes sem palmarês
do sonho mor de ser
no útero
ao chão de papelão
amanhecer sem cobertor
no escuro menos cúmprice
puxado pelo olho
que me expõe
jogado no mistério
dessa dor.

Migranha (I), de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Pedro Almodóvar de Ruven Afanador

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O incapaz



Conheço a nova ordem
que esse calor revela
pitanga bagaço favela
Guimarães Rosa
e as pessoas continuam
regando as plantas
no final do dia

posso ser assaltado na esquina
sentir a febre nas bordas
da pele
conheço a padaria Santo Amaro
o veneno que os humanos
inoculam
posso ter esquecido o caminho
sentir que já vou tarde pra viver
delírio
posso um conjunto de
banalidade
e duas ou três coisas vitais

mas não posso te amar todos os dias
como se fosse o primeiro dia
como se fosse o primeiro homem
e a tempestade fosse mentira
mas não posso te lembrar
entre os instantes
e muito menos te alegrar
todas as horas
eu sou o incapaz que à noite abraça
e vira caçador na alvorada.

O incapaz, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto detalhe do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sem crédito do autor. Por essas ruas, nasceram os primeiros versos desse poema

segunda-feira, 30 de março de 2009

Liberar (d)os outros



Eu vim aqui para me liberar dos outros
e para liberar os outros de mim

o vento parou nas pedras
no dia da criação
predação caça e conquista
outra pele sobre a pele
em cada sangue houve um outro
as pazes inventaram ilusão
as pazes sempre fugazes
a impronta do suor ficou nos portos
a rede a peixaria que sustenta
e a mão onde a esperança se revela.

Nas terras sossegadas tirou os sapatos
o homem urbano
e assim se fez a dor e a maresia
banhou os ares destas praias
a cada dia andar armar a vida
e a cada nova terra ser um outro

eu vim aqui para me liberar dos outros
e para liberar os outros de mim.

Liberar (d)os outros, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de
Yanyel (Yanire Fernández)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Era uma vez o Brasil



Todas as casas têm
uma panela de pressão
e qualquer fita verdeamarela
todas as pessoas amarelam
pelo menos uma vez
pelo menos uma vez
todos beberam
água de coco
cachaça
cerveja
todos amaram alguém
pelo menos uma vez
Era uma vez o Brasil
a nação aos poucos
o Brasil de vez
o viés da trama
o amor sem talvez
que pelos menos uma vez
unzinha nem duas nem três
todas as casas têm.

Era uma vez o Brasil, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto "São Mateus", de
Tuca Vieira

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Buenos Aires carnaval



Houve uma vez um carnaval. Eu quase nem lembro, mas lembro. Eu tive que representar uma vez na televisão -teria lá uns seis anos- um componente de uma murga (a tradução mais parecida, vulgar e rápida seria a de um bloco). Os integrantes das murgas iam fantasiados e repetiam uma música parente da marchinha e sempre satírica, com descrição de alguma situação da política ou apelo erótico, apelo alias que hoje seria de uma inocência supina.
Na Avenida de Mayo, uma das principais do centro da cidade (sim, como se fosse a Rio Branco de outrora) passava o corso. E uma multidão assistia ao vivo. Mas sobre isso não guardo nenhuma lembrança, apenas umas poucas imagens em sépia, sem conexão, como um filme inconcluso.
Também eram muito populares os bailes de carnaval que se faziam nos clubes. Desses eu lembro especialmente os cartazes de rua coloridos e a quantidade de artistas concentrados numa noite só. E só. Magina se eu tinha idade de pensar em assistir a um baile.
A prova de que houve uma vez um carnaval é o tango Por cuatro días locos:

Por cuatro días locos
que vamos a vivir
por cuatro días locos
te tenés que divertir

Tango que ficou famoso na voz de Alberto Castillo, um ginecologista que virou cantor do povo no final da década de quarenta e na seguinte. Castillo não tinha aquela voz, mas resalvava o caráter dançante do tango. Os mauricinhos da época, que bailavam o boogie-boogie, detestavam Castillo, que estava claramente identificado com o bairro e ia pro centro pra cantar “Así se baila el tango!” na cara dos moços distinguidos. Dizem que muitas vezes, esses bailes acabavam em brigas monumentais.
Mas o fato é que a tradição do carnaval foi se perdendo. E em 1976, os militares deram o golpe de Estado e o golpe de graça à folia. Com esse senso ridículo da disciplina que eles têm, derrubaram do calendário os feriados de carnaval. O povo precisava mais era de trabalhar. E os murguistas, como tantos, passaram à clandestinidade.
Sempre digo que o melhor que fizeram os militares -e o pior para todos nós- foi a destrução dos laços de solidariedade. E o carnaval perdido em Buenos Aires é outra prova disso. Porque o carnaval por definição nasceu como uma reação à ordem estabelecida e é uma celebração em que o sujeito se iguala ao outro.
Lá se foi como se foram outras festas populares.
Minha relação com carnaval, ou então, aquelas breves lembranças da infância, foram reparadas na medida em que cresceu minha história no Brasil.
É muito estranho agora passar o carnaval em Buenos Aires como este ano aconteceu, mesmo que dessa vez tinha sido uma escolha minha tirar férias em janeiro. Não tem jeito, agora nem a Globo tem aqui para acompanhar o desfile. Ou eu boto um sambão e fico abrindo os braços numa imaginária Marquês de Sapucaí no meio da sala, ou eu “disfarço e choro”, ou faço parte desse ambiente em que nada para.
Nesse vai-e-vem, escrevi umas linhas na segunda-feira. Ficam aqui na quarta, enquanto andamos sobre as cinzas.

Do silêncio aos barulhos ordinários
a cidade amanhece sem lixeiros
mas é greve é cansaço é sindicato
a cidade amanhece
e nem sombra de feriado
rola a escada rolante do metrô
e não há fantasia que atrapalhe
a engrenagem do rolo cotidiano
vejo o bloco dos normais todo apressado
e não há samba-enredo nessa loja
nem ressaca nem te roubei um beijo
Buenos Aires é um eterno zero a zero
e eu a andar de novo estrangeiro
não preciso ligar pra seu ninguém
e lá em casa não preciso apanhar gelo
o meu velho chapéu azul e branco
anoitece atrás da porta pendurado.



Buenos Aires carnaval, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de pessoas se preparando para o carnaval em Buenos Aires em 1930, do arquivo do jornal La Nación
Foto do Corso da Avenida de Mayo em 1969, do arquivo do jornal Clarín

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Debaixo do meu cêrebro



Debaixo do meu cêrebro está
a Biblioteca Nacional
a Rio Branco com seu cheiro de óleo queimado
e seus recantos de esplendor
de antiga capital
berlindas e guirlandas
e azuis de lampadinhas
para a Portela passar.
Debaixo do meu cêrebro está
o armazém do esquecimento
não quero sal na manteiga
e pode dispensar o limão
no meu sanduíche de carne assada
o verbo não está à venda
o amor tem ponto final.
Debaixo de meu cêrebro os caídos
os sonhos que não voltam mais
os presos na garganta do diabo
e goteiras químicas no sertão do cansaço
ruelas ribanceiras de sangue no mormaço
e códigos de acesso denegados.
Debaixo do meu cêrebro a língua
onde o mundo finda e o mundo começa.

Debaixo do meu cêrebro, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto "Step by Step", de
Andreea Chiru

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Todos traços desumanos



Todos estamos perdidos no caos
todos traços desumanos
andamos roubamos matamos
amamos mal chamamos
para dizer onde estamos
falamos mais do que olhamos
todos traços desumanos
enquanto escapamos
na lama duramos
todos troços por trocados
nossos limites testamos
temos medos atrasados
e outonos adiantados
quem sabe para onde vamos
é o diabo
ele sabe onde jantamos
quantas vezes fornicamos
e onde brincam nossos filhos
nós-achamos filantrópicos
por centavos
ou morremos nos sinais
assaltados pela cria
ou largados de solidão

Todos traços desumanos, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto "The Long walk", de Bernard Fallon

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O que restou



O contorno do teu corpo
contra as pedras portuguesas
desenhado com giz
o teu corpo ainda morno
quieto fudido quebrado
bateu com um seco som
de surdo desafinado
de ti pouco restou
só lembranças
a geladeria vazia
e um papel para o juiz.

O que restou, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de autor japonês desconhecido

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

No tempo dos sem tempo



Pia pingando
aranha andando
pelas bordas da janela
e uma sede de ontem de secar o mar

Será que você vai me amar
quando acordar
vai deixar cair um cobertor
sobre meus pés
quando o frio chegar
e quando São Sebastião do Rio
de janeiro cansar

porque o tempo está acabando

será que você vai me abraçar
se eu não conseguir andar
ate a saída da Roma
e se eu não enxergar
o fogo inimigo
você ainda vai me amar?

No tempo dos sem tempo, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de
Célio Dutra

domingo, 7 de dezembro de 2008

Naufrágio de você


Água na Guanabara
arrasa água
tsunami na tua cara
o Aterro alaga
a terra treme
na tua cara
Cara de Cão
afunda
você toda
Bateau Mouche
e as hydras
soltam fogos
nas tuas barcas
tua boca cospe
água salgada
você não mais nada
toda você
naufraga
na Guanabara.

Naufrágio de você, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Renée Jacobs

sábado, 22 de novembro de 2008

Ballade du juin



Tudo que não tira pesa
tudo que não boia afunda
raisons du coeur
quebrado coração
corcunda
todo círculo de giz
louça que nunca
vai cheirar comida
Tudo que não solta fede
tudo que não negue estraga
ballade du juin
outono geração
afaga
toda prata chafariz
mofo que nunca
sabe iludir vida.

Ballade du juin, de Juan Trasmonte (Creative commons)
Foto de Marcelo Lyra

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Baby Rain


Chuva de mulher
o que se vê
não da pra crer
Baby rain
o que se toca
não é o que se vê
olho para além
teu dedo tira foto
de você
mistery train
todas as caras
que você pintou
não dizem nada
nem dão nome
à tua dor
Arpoador
no pôr do sol
love so vain
Pao como pão
amor vão
estoy bien
a noite
quando acaba
tem cheiro de você
digam a todos
o que se vê
não é o que se vê.

Baby rain, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de
Michael Dorr

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Aos pés do congar


Não é que eu não percebo as coisas
eu percebo as coisas
mas deixo acontecer
vejo os dentes derruídos
o canibal mexicano
as mãos apertadas
o demónio no olhar
Babilônia tá bombando
Mãe de Aruanda
estou aos pés do congar
porque eu percebo as coisas
vejo culpa porque vejo
vejo sangue olho cego
vejo flash férula fé
um deserto em Mauritânia
eu não mereço você.

Aos pés do congar, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto minha do congar da sala, onde meu pai Oxossi cuida do Poetinha e de Dorival

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Blog Action Day 2008 - Fome




O estômago vazio
não tem carne nem feijão nem nada
coca-light incenso alegria goiabada
o estômago vazio
é um buraco maior
que todos os buracos
qualquer dor é superior
no estômago vazio
pois nenhum sorriso vinga
naquele abismo negro
o surdo quando bate produz uma fisgada
a carne quando falta produz uma anemia
o amor quando vem forte parece uma pedrada
é uma cesta básica sem base nem sustento
um gesto generoso que se apagou no vento
a máquina que já não mais escreve ninguém usa
se não usar o estômago apodrece mofa fede
o estômago funciona movido na paixão
na música ou comida mas com ideias não.

Estômago vazio, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Prematurity, foto de Brian Smistek


Hoje é o Blog Action Day 2008. Blogueiros do mundo todo fazemos postagens com um mesmo assunto de interesse comum.
É bom também lembrar hoje o brasileiro Josué de Castro no ano do seu centenário. O pernambucano médico, antropólogo e economista consagrou sua vida ao estudo das causas endémicas da fome no Brasil e no mundo. Seus livros Geografia da fome (1946) e O livro negro da fome (1957), foram pioneiros na matéria. Infelizmente, as palavras dele estão vigentes ainda hoje.

Só através de uma estratégia global de desenvolvimento, capaz de movilizar todos os fatores da produção em favor da coletividade, poderemos eliminar o sub-desenvolvimento e a fome da face da terra.

Josué de Castro

sábado, 11 de outubro de 2008

A inesperada


O corpo da inesperada
atravessa minha cama quieta
a Roma emudeceu
e no silêncio a tarde bateu as botas

leves sejam as palavras que me tocam
como me toca o pé da inesperada
os fuzileiros não precisam de espantalho
os cachorros não precisam de agasalho
está na pele o terceiro mandamento
e no andamento do samba
está o silêncio
que fez morrer a tarde
e faz tremer o nada
no abraço da inesperada.

A inesperada, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de hannamonika

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Costumes


Se você se acostumar
não serei eu
serei morfina
e você pedirá mais
enquanto a veia
contamina
e pede mais
e mais declina
e perde o olho
na seringa
e no coringa
perde o jogo
por esquecer
jogada no futuro
a jóia de um segundo
num segundo
de surpresa.

E se eu cansar
não serei eu
serei o cego
que ficou a ver navios
o cuspe de metralha
sem sentido
o nada menos zero
aquele idiota
que bebe do seu sangue
e jorra água pela boca sem palavra
o felizardo
que esqueceu
o dom que traz o cheiro
de torradas de limão

E se eu cansar
da sua alegria
e do seu olho aberto
fechado
serei o pé de lama
o espantalho.

Costumes, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Reprodução de obra de
Ian Francis

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Por falar em verso


As palavras
por enquanto
são o único que eu tenho
nem uma webcam eu tenho
pra não ter que adivinhar
seu olhar
ah, verdade
a distância
também eu tenho
mas no fundo
da pele da carne
da vela da pouça
do pouso
as palavras
são o único que eu tenho

por tanto
que te dói
por tanto
te dou
tudo o que tenho.

Por falar em verso, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de
Jean François Bauret

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Para a vida inteira


O seu amor não era
para a vida inteira

agora vale tudo agora
tremedeira bebedeira
carnaval já era quarta-feira
fim de noite quinta-feira
fim de feira
porque

o seu amor não era
para a vida inteira.

Para a vida inteira, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Yves G. Noir

sábado, 30 de agosto de 2008

Orfandade


Mundo sem mecenas
morto socialismo
orfandade
morto
produtor executivo
Deus moreno morto de braços abertos
fieis escondidos
morno fim do dia
expatriado
soro pingado
para adiar a morte
do já morto
talento soterrado
pálido susto dos herdeiros
surto dos abençoados
bem-aventurados.

Orfandade, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de
Lise Sarfati no neuropsiquiátrico Serbsky, na Rússia post-soviética de 1995