quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Costumes


Se você se acostumar
não serei eu
serei morfina
e você pedirá mais
enquanto a veia
contamina
e pede mais
e mais declina
e perde o olho
na seringa
e no coringa
perde o jogo
por esquecer
jogada no futuro
a jóia de um segundo
num segundo
de surpresa.

E se eu cansar
não serei eu
serei o cego
que ficou a ver navios
o cuspe de metralha
sem sentido
o nada menos zero
aquele idiota
que bebe do seu sangue
e jorra água pela boca sem palavra
o felizardo
que esqueceu
o dom que traz o cheiro
de torradas de limão

E se eu cansar
da sua alegria
e do seu olho aberto
fechado
serei o pé de lama
o espantalho.

Costumes, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Reprodução de obra de
Ian Francis

2 comentários:

LETÍCIA CASTRO disse...

Papá, vc sabe que o costume é uma cilada complicada, né? Ao mesmo tempo em que te dá o aconchego, te joga no comodismo e aí, f... tudo.
Cada vez mais gosto dos teus poemas, vou te apresentar os meus algum dia.
Besotes muchos!

maria guimarães sampaio disse...

Vim dizer que sua poesia é linda e encontro outra poesia, sua linda filha. Beijos e parabéns pelas duas.