quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Supertramp e a mulher tatuada



Sempre tive a impressão que Supertramp foi uma banda sub-valorizada. Que teve seu sucesso reconhecido -embora sempre maior nos Estados Unidos que na própria Inglaterra- mas que os elogios para sua obra foram cautelosos.
Eles estouraram na mídia com o album Crime of the Century, que tinha o hit Dreamer. Mas eu era fissurado por School, com aquela levada de piano e a bateria segurando o ritmo.
Como na época eu já era catador, fui atrás de outros discos da banda inglesa. Não bastava com sentar no Google e procurar um link para fazer download, porque não havia Google. O lance era esperar que alguém viajasse para os Estados Unidos ou Europa, que também não era coisa de todos os dias ou procurar em alguma das pouquíssimas lojas de importados.
Um dia em uma festa reconheci a voz de Roger Hodgson cantando uma música que eu não conhecia. Cheguei perto do DJ, que confirmou que tratava-se de Supertramp e me mostrou essa capa que vocês vêem aqui.
Minha primeira reação foi olhar para os lados, pois capas com imagens de nus eram proibidas na época da ditadura militar. Depois senti estranheza e curiosidade. Não havia exuberância naquele corpo para despertar minha febre adolescente, mas era um torso completamente tatuado e isso na segunda metade dos anos setenta também era uma raridade: tatuagens eram reservados para marinheiros, presos e bandas de motoqueiros como os Hells Angels que só apareciam nos filmes. O que aconteceu no meio está difuso nas linhas do tempo, mas eu imagino que foi uma encheção de saco monumental até conseguir que os meus pais me dessem a grana para comprar os discos. Sim, porque eu acabei comprando Indelibly Stamped e o primeiro Supertramp – The Early Years, importados, imagino que por um preço absurdo de caro.
O sucesso do Indelibly stamped, album lançado em 1971 e relançado em 1977 quando o grupo se deu bem, era Rosie had everything planned (A Rosinha tinha tudo planejado, um título que cairia como uma luva para uma ex-governadora do Rio de Janeiro) mas eu gostei de cara de outra, Travelled, com seu refrão

And though I try to be a good man,
I just know that I'll be losing very soon
And there are times and there are motions,
when I do believe I'm going out of tune.

And though I try to be a good man,
I keep finding there's no where to begin
And so I think I'll go on singing,
and in time I hope that we can all join in.


Eu ficava horas sentado na poltrona da sala ouvindo aquela música. Pois é, na época também as pessoas sentavam para ouvir música e só, você não ouvia música enquanto fazia qualquer coisa.
Só para registro: depois do Indelibly Stamped todos os membros da banda se demitiram, exceto Rick Davies e Roger Hodgson, as dívidas ultrapassavam fartamente os ganhos, mas os dois decidiram ir em frente com Supertramp, procurando o destino, como se essa letra que está aqui fosse premonitória. Depois entraram os novos membros (Dougie Thompson, John Helliwell e Bob C. Benberg), a banda continou do jeito que Hodgson queria, com dois vocalistas principais. Então eles conheceram o produtor Ken Scott (esse é o cara) e chegou o sucesso. A mulher da foto da capa resultou ser Rusty Skuse, freqüentadora do Livro Guiness como a mulher mais tatuada do Reino Unido. A Rusty, uma lenda do tatoo, subiu o ano passado.

Foto reprodução de capa do disco de Supertramp Indelibly Stamped, de 1971
Foto da banda do interior da capa, na reprodução para a edição em cd

8 comentários:

LETÍCIA CASTRO disse...

Amigo, que máximo isso, não? E olha que coisa legal, eu adolescente, nos anos 80, ficava gritando Dreamer como uma louca na sala da minha casa. Breakfast in America tb (era esse o nome?). The Logical Song então era o must. hehehe
Supertramp colando mundos e épocas.
Besotes carinhosos procê!
Vou responder teu email, papucho!

Philipe disse...

Olá..

Boa noite.
Gostaria de informar que mudei o endereço do Blog, o atual que mantenho parceria é o Philipecardoso.com

Gostaria que mudasse o nome para zoomdigital.org se possível.

Muito obrigado antes de tudo
E sucesso para todos nós

Chiz disse...

Cara, depois dessa leitura, só posso dizer que o nome do blog não faz jus ao conteúdo, pois aqui tem - e muito! É muito bom pra quem vem, portanto.
Valeu.

Juan Trasmonte disse...

Lelê, Breakfast in America já foi na época do mega sucesso rsss
Besos, compañera!

Juan Trasmonte disse...

Muito obrigado por você vir até aqui, Chiz.
Agradeço também os elogios.
Abraços

requeri disse...

aeeee gringo de mi bida ... mas tem isso da gente sentar e escutar. eu ainda faço isso, apesar de escutar muito fazendo outra coisa. mas tb, tinha muito mais música que se prestava a se escutada, apenas. acredita que eu fui num show do jethro tull, verdade que tava todo mundo em pé, mas fora isso, tinha uns mamelucos que queriam dançar?!!???!!?!!!
alguém pode imaginar, em sã consciência, jethro tull dançante????
quanto à super vagabunda, confesso, ela fica me bulinando e eu não posso ficar parada. até fico sentada, mas o pé fica balançando ... eu adoro. eles nunca gostaram de aparecer. fazer sucesso e ter sua vida pessoal misturada com a profissional, não era do agrado deles.
ela tem uma carreira cheia de meandros, é sedutora sua carreira, nada simplinha, e isso, além do som, sempre me fascinou.
a formação de 73/74 rick e roger dougie thomson, bob siebenberg john a. helliwell é a boazuda.

adorei. valeu. bj.
vou ouvir enquanto tomo banho pra namorar hehe

requeri disse...

a capa do blind faith, lembra??? aquela menina com os peitos de fora segurando o avião??? nos eua foi proibida. lá a capa foi uma foto dos músicos.

http://rebloggando-requeri.blogspot.com/2008/04/blind-faith.html

bye. vou tomar banho. amanhã to de volta. bj.

to ouvindo a soapbox opera da super vadia.

Wilson disse...

Amigo,
O título me chamou a atenção, pois surgiu uma discussão no meu trabalho a respeito da capa, estou com o Vinil para remasterizá-lo: Homem ou mulher? Eu achei que fosse um homem, as mãos são de homem, esquecendo-me que européias não tem o hábito de fazer as mãos, mas mesmo assim são mãos de homem. Mostrei a uma amiga, viu o mesmo que eu. Mostrei em casa, minha filha até viu peito de homem depilado...rsrs. Lendo o seu Blog, foi-se a ignorância ... então no me da moça é Rusty Skuse. O problema é que neste período (71) as coisas eram ainda amadoras, a gravadora e o fotógrafo (Keith Morris) não lhes deram os créditos. Era tudo na fé! Mas hoje... Abraço e sucesso a você. Ótimo texto.