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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Festa em Cannes


Começou ontem uma nova edição do Festival de Cannes.
Na cena, uma lembrança da competição de 1968, com visitantes ilustres: Jane Birkin, George Harrison e Ringo Starr.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Natasha




"Os melhores momentos são quando você está no palco, ou filmando uma cena num filme e, de repente, você se sente totalmente livre."
(1963-2009)

Foto de Natasha Richardson no filme A Condesa Branca (The White Countess, 2005), de James Ivory

terça-feira, 17 de março de 2009

Tracey Amin, a arte do privado






Ela já foi uma criança violentada, uma menina má, uma mulher à beira de um ataque de nervos e hoje é a artista inglesa mais renomada.
O objeto da arte dela é a própria vida, em sintonia com o século 21, que veio arrasando a fronteira entre o público e o particular. Tracey Emin, que já se auto-definiu como "alcoólatra, neurótica, psicótica e degenerada", abraça um amplo leque de disciplinas para traduzir esse seu mundo em arte. Seu trabalho inclui instalações, fotografias, desenhos, livros, filmes, pinturas, neon, polaroids e tudo que valha pra ela expressar angústias e paixões.
Suas obras mais conhecidas são a instalação My bed (Minha cama), que reproduz sua cama no cotidiano, sem poupar detalhes, mais como um terreno de batalha que como o abrigo do seu sono; e Everyone I Have Ever Slept With 1963-1995 (Todos com quem já dormi), que é a instalação de uma barraca com os nomes bordados de todos os homens e mulheres com que ela durmiu desde que nasceu até 1995.
Venerada pelos artistas jovens e ressistida e vilipendiada pelos conservadores, representou a Inglaterra na Bienal de Veneza de 2007. E há dois anos que é, para espanto dos inimigos, membro da seleta Royal Achademy of Arts.

Reprodução de Exorcism of the Last Painting I Ever Made (detalhe, 1996)
Reprodução da instalação Everyone I Have Ever Slept With 1963-1995
Foto de Tracey Amin de Hugo Glendinning

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Voltou The Prodigy: Me levem pro hospital!



Está marcado para segunda-feira o lançamento mundial de Invaders Must Die, novo trabalho da banda británica The Prodigy. Depois de cinco anos sem entrar oficialmente nos estúdios, o já balzaquiano trio formado por Liam Howlett, Kent Flint e Maxim mostrou que está em ótimo estado.
Reis da cena rave no início da década de noventa com um misto de eletrônica, hardcore e punk, os três estavam mais voltados para projetos pessoais e no conforto das suas mansões de Essex.
Em Londres, a divulgação da novidade foi com uma ambulância delirante alugada para o propósito: Além do título de uma faixa, Take Me To The Hospital também é o nome do selo próprio que a banda inaugura.
O espírito punk deles permanece inalterado, com essa rara virtude de ser ao mesmo tempo dançante.
Destaque para Run With The Wolves, com a participação na bateria do Dave Grohl, do Nirvana e Foo Fighters; Warrior Dance e a faixa-título, Invaders Must Die, que junto com Omen, a outra música de trabalho do album, já receberam mais de um milhão de visitas no Youtube.

Foto de The Prodigy de Paul Dugdale

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Todos traços desumanos



Todos estamos perdidos no caos
todos traços desumanos
andamos roubamos matamos
amamos mal chamamos
para dizer onde estamos
falamos mais do que olhamos
todos traços desumanos
enquanto escapamos
na lama duramos
todos troços por trocados
nossos limites testamos
temos medos atrasados
e outonos adiantados
quem sabe para onde vamos
é o diabo
ele sabe onde jantamos
quantas vezes fornicamos
e onde brincam nossos filhos
nós-achamos filantrópicos
por centavos
ou morremos nos sinais
assaltados pela cria
ou largados de solidão

Todos traços desumanos, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto "The Long walk", de Bernard Fallon

domingo, 25 de janeiro de 2009

El Cher vive!



E só como para tirar um sorriso nessa tarde tristonha, deixo aqui a criação de 2002 do designer inglês Scott King. Involuntária ou não, uma metáfora da antropofagia pop que deglutiu ao Che Guevara.

Reprodução de Pink Cher, de Scott King

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Cinco olhares para Keith Richards












Embora não coloquei no título, essa postagem poderia fazer parte da série Sexta-feira non sancta aqui no blog.
O británico Keith Richards, heroi da guitarra e de tantos clássicos dos Rolling Stones, com seu rosto de tantas batalhas, é um prato feito para qualquer fotógrafo. Aqui estão algumas das minhas preferidas, incluída uma que fez Bill Wyman, seu ex companheiro na banda.
Dez olhos, cinco olhares para Keith.

Foto 1 de Gottfried Helnwein, de 1991
Foto 2 de
Robert Altman, de 1972
Foto 3 de
Annie Leibovitz , de 2008
Foto 4 de
Bill Wyman, de 1966
Foto 5 de
Michael Lavine, de 1997

domingo, 16 de novembro de 2008

Porque não vou no show do Queen



Quando produzi o show do Bossacucanova mandei um daqueles e-mails de divulgação para todos os meus contatos.
Na noite do show, para minha surpresa -pois eu simplesmente não reconheci ela-, apareceu lá Fernanda, amiga da adolescência que tinha em comum comigo a paixão por Queen.
Como na época não existia internet com todas as suas expansivas possibilidades, as revistas tinham seções de correio que serviam para tudo: conhecer garotas, vender guitarras, oferecer aulas de inglês e organizar clubes de fãs.
Embora morávamos a oito quarterões de distância, mantive durante um ano correspondência com Fernanda até a gente se conhecer. Em longas cartas escreviamos sobre as nossas músicas preferidas e sonhávamos com ver Freddie e Cia ao vivo, sonho que parecia distante, pois naquele momento as bandas grandes não desciam até América do Sul. Aqui só vinha artista decadente e grupos da segunda ou terceira linha.
Conheci Fernanda do jeito que era costume na adolescência, junto com minha gangue de amigos e ela com mais quatro amigas.
O tempo foi apagando minha vocação de fã e nunca mais encontrei Fernanda, embora nos reencontramos já na época do e-mail, ameaçando uma reunião de lembranças que jamais aconteceu, até o impensado momento, no camarim do Bossacucanova.
Mas Queen veio pra Argentina em 1981, em pleno apogéu, na época do álbum The Game. E eu que estava cumprindo com o serviço militar não fui uma mas duas vezes ver aquele show inesquecível deles.
Fora qualquer tietagem, jamais um concerto desse nivel técnico, com tamanha qualidade de som e luzes, havia sido visto por essas praias.
Não sou muito amigo de farejar no baú da nostalgia. Nem sempre lembrar é reviver. É saudável voltar àqueles lugares onde fomos felizes, mas considero que também é melhor deixar algumas vivências no seu marco de espaço e tempo.
Por isso quando Fernanda me perguntou se eu ia no show do Queen, eu disse não. Por isso quando vi os cartazes que anunciavam “Queen + Paul Rodgers” não consegui evitar pensar “Queen – Freddie Mercury”.
Será uma ótima oportunidade, para quem não foi testemunha da história, de ter uma ideia do que aquela banda significou.
Pessoalmente, prefiro manter o cofrinho fechado e jogar a chave no fundo do mar.


Foto de Queen no backstage em Buenos Aires em 1981, com Diego Maradona, uma imagem impensada um ano depois com o advento da guerra das Malvinas
Foto da banda na varanda do Hotel Sheraton, em Buenos Aires

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Marianne Faithfull, depois do veneno



Hoje finalmente está nas lojas da Europa Easy come Easy Go, o novo album de inéditas de Marianne Faithfull.
Grande musa das décadas de 60 e 70, que foi do céu ao inferno sem perder a elegância jamais, a artista britânica estava sem disco novo desde 2004, quando editou Before the poison, também pelo selo francês Naïve. Reverenciada por artistas de todas as gerações, ela não ficou quieta nesse hiato. Entre muitas atividades, ajudou Carla Bruni a escolher poetas ingleses para seu Those dancing days are gone; recitou sonetos de Shakespeare na Itália e assistiu aos desfiles dos maiores designers do mundo. E também foi obrigada a cancelar concertos este ano por indicação médica: ela estava exausta, mental e fisicamente.
Entre os convidados -todo mundo quer gravar com ela- de Easy come Easy Go estão Keith Richards, Nick Cave, Rufus Wainwright, Jarvis Cocker, Sean Lennon e Marc Ribot. O repertório vai de Billie Holliday, Dolly Parton e Bessie Smith a Morrissey e Black Rebel Motorcycle Club.

Reprodução da capa de Easy come Easy go
Foto de Marianne Faithfull da década de sessenta, sem crédito do autor

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Os medos de Hitchcock


- As pessoas não fazem mais do que perguntar porque me interessa tanto o crime. A verdade é que não me interessa, só me importa na medida em que afeta à minha profissão. Tenho terror da polícia. Eu tenho tanto medo que, em 1939, quando cheguei pela primeira vez nos Estados Unidos, me recusei a dirigir por medo de ser detido e multado. Ficava horrorizado só com a idéia de que me arriscar a dirigir um carro me deixaria exposto a situação semelhante dia após dia. Sou incapaz de suportar o suspense.

Ele deve ter percebido a surpresa no meu rosto, porque se apressou para explicar.

- O que eu quero dizer é que me resulta insuportável quando me toca. As pessoas diziam que talvez poderia transcender o medo da polícia abrindo a porta do meu subconsciente, onde ocultava-se uma psicose adqüirida durante a infância. Futuquei as minhas recordações e abri a porta em questão.
Eu era um pirralho e o meu pai mandou eu ver o delegado com um bilhete. Ele leu, começou a rir, e me trancou na cela por dois minutos. “Isso é para você ver o que acontece com as crianças más”. Essa era a idéia que o meu pai tinha de como me dar uma lição. Depois de ouvir minha história, todo mundo disse “Claro! Por isso você tem medo da polícia”. Infelizmente, o fato de jogar luz no incidente não serviu para me trazer alívio. Continuo me arrepiando de policiais.

O mestre do suspense, Alfred Hitchcock, em entrevista com Pete Martin, publicada no The Saturday Evening Post em 1957
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Alfred Hitchcock de Luc Fournol
(1955)

domingo, 2 de novembro de 2008

Frampton chega vivo



Ter um irmão mais velho é fundamental na formação musical da gente. Quando eu era criança, ao mesmo tempo que ouvia aquelas musiquinhas bobas que as crianças ouvem, também começava a conhecer a música que, não fosse por ele, só iria descobrir muito tempo depois.
Irmão mais velho é tudo, menos na hora da briga, onde a desigualdade de forças fica evidente.
Em casa a disputa pelo aparelho de som durou até que eu comecei e perceber que os discos que o meu irmão colocava eram bem mais legais que os meus. O paso seguinte foi passar a pedir emprestados aqueles discos que era o mesmo que testar a paciência dele. Mas ele, como qualquer melómano, era fiel e obsessivo. Eu só podia deixar que ele colocasse e pedir pra ele virar de lado quando chegava ao fim. Porque, claro, com vinil era assim, lado A e lado B e nada de controle remoto.
Meu irmão também usava parte da sua mesada para comprar a revista Pelo (em espanhol, cabelo), que era a leitura obrigatória de todos os amantes do rock. Aliás, por muito tempo foi a única revista especializada. Um dia eu escrevo um texto só para falar daquela revista, mas o caso é que eu devorava a Pelo, também emprestada. Nem pensar em ter direito aos posters que com ela vinham.
E assim foi como, ainda criança, conheci esses artistas maravilhosos da década de setenta. Mas essa longa introdução o que tem a ver com o sujeito da foto acima? Tudo. Porque quando Peter Frampton estourou com Baby, I love your way e Show me the way, eu já conhecia a figura, ele era o ótimo guitarista do Humble Pie de Steve Marriott.
E a questão não é ressalvar que eu seja um visionário ou coisa parecida mas fazer uma diferênça, porque esse sucesso do Frampton estava mais associado a uma estrela pop do que a um roqueiro. O disco Frampton Comes Alive chegou aqui em 1977, um ano depois do estrondo que começou nos Estados Unidos. Sim, porque na época, quase todas as novidades musicais demoravam pelo menos um ano para chegar a esse quintal da civilização que é a América Latina, como se elas viessem de navio. E isso se a gente tinha sorte, porque muita coisa boa ficava perdida no oceano.
Quando eu, já menos criança, comprei o compacto do Baby, I love your way, o artista com sua baby face, aparecia nas revistas femininas para adolescentes. Era a estrelinha da hora. A questão então foi ir atrás do disco duplo. E lá estava o ótimo guitarrista do Humble Pie que a revista Pelo anunciara.
Nesse disco fundamental, Peter Frampton estava acompanhado pelo baterista John Siomos, o guitarrista e tecladista Bob Mayo (os dois já subiram) e Stanley Sheldon no baixo. O trabalho está atravessado por músicas amigáveis ao ouvido e a guitarra fantástica do inglês, que ainda trazia a novidade do talk-box. Na época, com os colegas, diziamos que Frampton “faz a guitarra falar”.
Com quinze milhões de cópias faturadas, Frampton Comes Alive continua entre os discos ao vivo mais vendidos da história. O título acabou sendo premonitório, pois Peter virou um sobrevivente nos anos seguintes: Perdeu quase tudo nas mãos do seu manager. Depois descobriu que a namorada dele gastava uma porção de grana em festas onde ele não era convidado. Na dor do (des)amor saiu pelas ruas da ilha de Nassau onde morava e bateu seu carro contra um muro. Foi salvo por um milagre e por um trabalho de engenharia para colocar de novo os ossos no lugar. Depois investiu na bolsa e em uma dessas jogatinas perdeu tudo de novo. David Bowie o resgatou, levando-o com ele na primeira guitarra para um tour mundial.
Peter Frampton não desistiu nunca, seu sucesso foi feito na base da unha na guitarra e do pé na estrada. Virou cidadão dos Estados Unidos onde sempre foi melhor recebido (bom, ninguém é perfeito) e foi até personagem de um capítulo genial dos Simpsons. Por acaso, ou não, seu mais novo disco, só instrumental, chama-se Premonition.
Ah, sim, na terça-feira vai votar em Obama.


Foto de Peter Frampton nos tempos do maior sucesso. Se alguém conhecer o autor, faça o favor de avisar.
Reprodução da capa do Frampton Comes Alive (1976)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Serge Gainsbourg 80



O ano está quase jogando a toalha e na França continuam as homenagens a Serge Gainsbourg. É porque o eterno Gainsbarre teria feito 80 anos em abril desse 2008.
Considerado o artista francês do século vinte por excelência, e por rebeldia, e por atitude e por ser francês até o osso.
No finalzinho de 2007 foi lançado o Dictionnaire Gainsbourg, onde Jean-William Thoury coleta o universo do escritor, cantor, cineasta, ator, poeta e bebum. Já em 2008, o desenhista Joann Sfar anunciou o início das filmagens do biopic Vie heroïque. E na Cité de la Musique, em Paris, com a presênça da amada Jane Birkin e a filha Charlotte, começou a mostra Gainsbourg 2008, o panorama definitivo sobre a vida e a obra do artista que inclui instalações, manuscritos, sons e muitas das melhores fotografias da figura.

Foto de Serge Gainsbourg na banheira de Xavier Martin
Foto de Serge Gainsbourg com câmera de Pierre Terrasson
E finalmente, Serge Gainsbourg convida Whitney Houston pra fazer a porcaria

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Nick Walker, mestre do stencil








Surgiu na revulsiva cena artística de Bristol, na Inglaterra de Margaret Thatcher do começo dos anos oitenta. Os graffitis provocadores do britânico Nick Walker foram da rua para os museus. Especializou-se na técnica do stencil e embora suas obras já são vendidas por fortunas, ele continua realizando intervenções -as vezes modificando as próprias obras na linha da arte evolutiva- e deixando sua marca na arte de rua, como ele gosta, à beira do vandalismo.

Moona Lisa, intervenção em rua de Los Angeles (2007) e The morning after, obras de Nick Walker

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Supertramp e a mulher tatuada



Sempre tive a impressão que Supertramp foi uma banda sub-valorizada. Que teve seu sucesso reconhecido -embora sempre maior nos Estados Unidos que na própria Inglaterra- mas que os elogios para sua obra foram cautelosos.
Eles estouraram na mídia com o album Crime of the Century, que tinha o hit Dreamer. Mas eu era fissurado por School, com aquela levada de piano e a bateria segurando o ritmo.
Como na época eu já era catador, fui atrás de outros discos da banda inglesa. Não bastava com sentar no Google e procurar um link para fazer download, porque não havia Google. O lance era esperar que alguém viajasse para os Estados Unidos ou Europa, que também não era coisa de todos os dias ou procurar em alguma das pouquíssimas lojas de importados.
Um dia em uma festa reconheci a voz de Roger Hodgson cantando uma música que eu não conhecia. Cheguei perto do DJ, que confirmou que tratava-se de Supertramp e me mostrou essa capa que vocês vêem aqui.
Minha primeira reação foi olhar para os lados, pois capas com imagens de nus eram proibidas na época da ditadura militar. Depois senti estranheza e curiosidade. Não havia exuberância naquele corpo para despertar minha febre adolescente, mas era um torso completamente tatuado e isso na segunda metade dos anos setenta também era uma raridade: tatuagens eram reservados para marinheiros, presos e bandas de motoqueiros como os Hells Angels que só apareciam nos filmes. O que aconteceu no meio está difuso nas linhas do tempo, mas eu imagino que foi uma encheção de saco monumental até conseguir que os meus pais me dessem a grana para comprar os discos. Sim, porque eu acabei comprando Indelibly Stamped e o primeiro Supertramp – The Early Years, importados, imagino que por um preço absurdo de caro.
O sucesso do Indelibly stamped, album lançado em 1971 e relançado em 1977 quando o grupo se deu bem, era Rosie had everything planned (A Rosinha tinha tudo planejado, um título que cairia como uma luva para uma ex-governadora do Rio de Janeiro) mas eu gostei de cara de outra, Travelled, com seu refrão

And though I try to be a good man,
I just know that I'll be losing very soon
And there are times and there are motions,
when I do believe I'm going out of tune.

And though I try to be a good man,
I keep finding there's no where to begin
And so I think I'll go on singing,
and in time I hope that we can all join in.


Eu ficava horas sentado na poltrona da sala ouvindo aquela música. Pois é, na época também as pessoas sentavam para ouvir música e só, você não ouvia música enquanto fazia qualquer coisa.
Só para registro: depois do Indelibly Stamped todos os membros da banda se demitiram, exceto Rick Davies e Roger Hodgson, as dívidas ultrapassavam fartamente os ganhos, mas os dois decidiram ir em frente com Supertramp, procurando o destino, como se essa letra que está aqui fosse premonitória. Depois entraram os novos membros (Dougie Thompson, John Helliwell e Bob C. Benberg), a banda continou do jeito que Hodgson queria, com dois vocalistas principais. Então eles conheceram o produtor Ken Scott (esse é o cara) e chegou o sucesso. A mulher da foto da capa resultou ser Rusty Skuse, freqüentadora do Livro Guiness como a mulher mais tatuada do Reino Unido. A Rusty, uma lenda do tatoo, subiu o ano passado.

Foto reprodução de capa do disco de Supertramp Indelibly Stamped, de 1971
Foto da banda do interior da capa, na reprodução para a edição em cd

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Costumes


Se você se acostumar
não serei eu
serei morfina
e você pedirá mais
enquanto a veia
contamina
e pede mais
e mais declina
e perde o olho
na seringa
e no coringa
perde o jogo
por esquecer
jogada no futuro
a jóia de um segundo
num segundo
de surpresa.

E se eu cansar
não serei eu
serei o cego
que ficou a ver navios
o cuspe de metralha
sem sentido
o nada menos zero
aquele idiota
que bebe do seu sangue
e jorra água pela boca sem palavra
o felizardo
que esqueceu
o dom que traz o cheiro
de torradas de limão

E se eu cansar
da sua alegria
e do seu olho aberto
fechado
serei o pé de lama
o espantalho.

Costumes, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Reprodução de obra de
Ian Francis

terça-feira, 16 de setembro de 2008

The Great Gig in the Sky


Richard Wright (1943-2008)

domingo, 24 de agosto de 2008

A lágrima de Sinéad que rodou o mundo


Para complementar a postagem anterior, umas linhas sobre Nothing compares 2U, a música de Prince e o vídeo do británico John Maybury que levaram Sinéad O’Connor para o número um das paradas em 17 países.
A cantora irlandesa, sem dúvidas a melhor de todas as surgidas na década de noventa, não queria ser uma pop star e enxergando para onde ia o marketing, decidiu raspar a cabeça. Considerada até esse momento uma artista alternativa, ela já tinha lançado o excelente The Lion & the Cobra, onde mostrava sua singularidade.
O diretor do vídeo filmou numerosas cenas em Paris, mas acabou escolhendo longos primeiros planos de Sinéad cantando e olhando fixamente para o objetivo, enquanto a música in crescendo e a expressão da cantora tomam o espectador. Essa estética da intérprete que, longe de deixar ela menos atrativa lhe deu mais força à sua personalidade, lembra a Joan d’Arc de Maria Falconetti.
Possuída pela emoção, Sinéad deixa rolar uma lágrima em seu rosto, uma emoção que não estava ensaiada e que reflete substantivamente a dor do abandono amoroso.
Essas longas tomadas, inesperadamente, impuseram-se no reino da vertigem que a MTV anunciava.
Como em Losing my religion, há uma certa atmosfera religiosa, não expressada aqui no simbólico mas no transcendente.
Em junho de 1990, na onda de Nothing compares 2U, Sinéad foi parar na capa da Rolling Stone. Ela detestou o sucesso e se recusou a receber o Grammy que ganhou por I do not want what I haven’t got.
John Maybury, que já tinha trabalhado no cinema como diretor de arte de Derek Jarman, continuou fazendo clipes ótimos para artistas como Neneh Cherry, Morrissey, Cindy Lauper e quase todos os outros que a irlandesa fez depois. E mais tarde partiu para o cinema, mas já como diretor, e fez, entre outras, a ótima The Jacket.
Encerrando o conceito desses últimos dois textos, havia na alvorada da década de noventa, nesses artistas associados com diretores como os citados e outros como Spike Jonze, Russel Mulcahy e Nigel Dick, um certo desejo de transcendência, desde a arte concebida como busca da beleza. Mas hoje esse desejo se perdeu ou foi por outros rumos, mais difusos, como se a produção de imagens num videoclipe fosse também um significante dos tempos.


Captura do vídeo de 1990, Nothing compares 2U, dirigido por John Maybury, na última foto.

domingo, 29 de junho de 2008

A volta dos guerreiros do MIDI


Depois de três anos sem publicar uma obra, o Asian Dub Foundation está de volta. O lançamento de Punkara, gravado em 2007 mas que havia sido lançado só no Japão, tem sua edição europeia anunciada para outubro.
Mestres do dub e do ragga e criadores de um trabalho social sério, longe dos holofotes, eles abriram caminhos para a integração dos imigrantes asiáticos e seus descendentes na Inglaterra. Chamados de "Guerreiros do MIDI", eles não fazem brincadeirinha. Pandit G, um dos fundadores do sound system, rejeitou a Ordem do Império Britânico porque, melhor do que premiar é fazer.

sábado, 7 de junho de 2008

Filho de uma mãe






O filme de 1997, Some mother's son (segundo as várias traduções ruins Mães em luta e Em nome do filho) reproduz a luta das mães irlandesas que começou em 1979, quando um grupo de jovens liderados por Bobby Sands -interpretado no filme por John Lynch- decidiram fazer greve de fome para serem considerados presos políticos enquanto o governo Thatcher recusava essa condição, que seria legitimar a condição política da luta pela independência da Irlanda da Inglaterra. O roteiro foi escrito a quatro mãos por Jim Sheridan e Terry George -na última foto-, que também dirigiu o fime. A dupla também assinou o mais conhecido In the name of the father, no caso dirigido por Sheridan.
Além das questões políticas -que estão plantadas e muito bem, longe da propaganda- a questão brilhante do filme é a colocação do olhar feminino de este e todos os conflictos, representado por Helen Mirren e Fionnula Flanagan que, aliás, dão uma aula de interpretação. Uma versão irlandesa das Madres de Plaza de Mayo.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Roger Wolfe, capitão dos desencantados


Me asomo a la terraza.
Una mujer se arregla el pelo
delante de un espejo
en el edificio de enfrente
de mi casa.
Estaba leyendo
a Dostoyevski. Cierro el libro,
lo dejo encima de la mesa,
me siento y abro
otra cerveza. Qué aburrido,
Dostoyevski, la cerveza,
las mujeres, los libros,
los espejos. Qué aburrido
sentarse y esperar la muerte
mientras la gente fornica,
come, trabaja o se solaza
bajo el sol sucio de septiembre,
y uno sabe, positivamente,
que nada va a ocurrir.

Versão em português

Assomo no terraço.
Uma mulher ajeita seu cabelo
na frente do espelho
no prédio da frente
da minha casa.
Estava lendo
Dostoievski. Fecho o livro,
o deixo em cima da mesa,
sento e abro
outra cerveja. Que tédio
sentar e esperar a morte
enquanto as pessoas trepam,
comem, trabalham ou se divertem
debaixo do sol sujo de setembro,
e a gente sabe, positivamente,
que nada vai acontecer.

El extranjero, de Roger Wolfe
O estrangeiro, de Roger Wolfe, versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Roger Wolfe de Thomas Canet


Británico de Kent, criado na Espanha, Roger Wolfe é a maior expressão entre os escritores da geração de oitenta na Espanha, aqueles desencantados do pós-franquismo, no sentido de terem desencantado mesmo depois do deslumbramento inicial da liberdade.
Feito um Bukovski solto na península ibérica, a poesia de Wolfe -escrita originalmente em espanhol, a sua segunda língua- as vezes está mais perto do pensamento filosófico do que do texto poético convencional. Convicto de que a poesia consiste em enxergar naquilo que já foi muito enxergado, Wolfe pode ser, em poucas palavras, belo e dilacerante.