quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Buenos Aires carnaval



Houve uma vez um carnaval. Eu quase nem lembro, mas lembro. Eu tive que representar uma vez na televisão -teria lá uns seis anos- um componente de uma murga (a tradução mais parecida, vulgar e rápida seria a de um bloco). Os integrantes das murgas iam fantasiados e repetiam uma música parente da marchinha e sempre satírica, com descrição de alguma situação da política ou apelo erótico, apelo alias que hoje seria de uma inocência supina.
Na Avenida de Mayo, uma das principais do centro da cidade (sim, como se fosse a Rio Branco de outrora) passava o corso. E uma multidão assistia ao vivo. Mas sobre isso não guardo nenhuma lembrança, apenas umas poucas imagens em sépia, sem conexão, como um filme inconcluso.
Também eram muito populares os bailes de carnaval que se faziam nos clubes. Desses eu lembro especialmente os cartazes de rua coloridos e a quantidade de artistas concentrados numa noite só. E só. Magina se eu tinha idade de pensar em assistir a um baile.
A prova de que houve uma vez um carnaval é o tango Por cuatro días locos:

Por cuatro días locos
que vamos a vivir
por cuatro días locos
te tenés que divertir

Tango que ficou famoso na voz de Alberto Castillo, um ginecologista que virou cantor do povo no final da década de quarenta e na seguinte. Castillo não tinha aquela voz, mas resalvava o caráter dançante do tango. Os mauricinhos da época, que bailavam o boogie-boogie, detestavam Castillo, que estava claramente identificado com o bairro e ia pro centro pra cantar “Así se baila el tango!” na cara dos moços distinguidos. Dizem que muitas vezes, esses bailes acabavam em brigas monumentais.
Mas o fato é que a tradição do carnaval foi se perdendo. E em 1976, os militares deram o golpe de Estado e o golpe de graça à folia. Com esse senso ridículo da disciplina que eles têm, derrubaram do calendário os feriados de carnaval. O povo precisava mais era de trabalhar. E os murguistas, como tantos, passaram à clandestinidade.
Sempre digo que o melhor que fizeram os militares -e o pior para todos nós- foi a destrução dos laços de solidariedade. E o carnaval perdido em Buenos Aires é outra prova disso. Porque o carnaval por definição nasceu como uma reação à ordem estabelecida e é uma celebração em que o sujeito se iguala ao outro.
Lá se foi como se foram outras festas populares.
Minha relação com carnaval, ou então, aquelas breves lembranças da infância, foram reparadas na medida em que cresceu minha história no Brasil.
É muito estranho agora passar o carnaval em Buenos Aires como este ano aconteceu, mesmo que dessa vez tinha sido uma escolha minha tirar férias em janeiro. Não tem jeito, agora nem a Globo tem aqui para acompanhar o desfile. Ou eu boto um sambão e fico abrindo os braços numa imaginária Marquês de Sapucaí no meio da sala, ou eu “disfarço e choro”, ou faço parte desse ambiente em que nada para.
Nesse vai-e-vem, escrevi umas linhas na segunda-feira. Ficam aqui na quarta, enquanto andamos sobre as cinzas.

Do silêncio aos barulhos ordinários
a cidade amanhece sem lixeiros
mas é greve é cansaço é sindicato
a cidade amanhece
e nem sombra de feriado
rola a escada rolante do metrô
e não há fantasia que atrapalhe
a engrenagem do rolo cotidiano
vejo o bloco dos normais todo apressado
e não há samba-enredo nessa loja
nem ressaca nem te roubei um beijo
Buenos Aires é um eterno zero a zero
e eu a andar de novo estrangeiro
não preciso ligar pra seu ninguém
e lá em casa não preciso apanhar gelo
o meu velho chapéu azul e branco
anoitece atrás da porta pendurado.



Buenos Aires carnaval, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de pessoas se preparando para o carnaval em Buenos Aires em 1930, do arquivo do jornal La Nación
Foto do Corso da Avenida de Mayo em 1969, do arquivo do jornal Clarín

5 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

grande juan, adorei seu post.
e as fotos.
e o poema final.

palavras.blog.br disse...

Excelente história, não tinha ideia de que já houve carnaval em Buenos Aires.
Vim agradecer por sua visita ao Palavras e pelo comentário deixado.

maria guimarães sampaio disse...

Juan, meu professor! grata por mais esta linda aula. Com belas fotografias e lindo poema

Ana Lúcia disse...

Não posso dizer que eu seja uma típica carnavalesca. Mas se não houvesse carnaval na minha terra, a minha vida seria a coisa mais cinzenta! Por isso me pus no lugar da gente de Buenos Aires e, solidária, até fiquei meio triste.
Mas será que isso não se pode recuperar? Talvez sim...?

Juan Trasmonte disse...

Ana, de fato voltaram as "murgas" com a democracia, mas talvez sejam precisos muitos anos para a tradição voltar.
Nem o feriado devolveram ainda!