domingo, 21 de dezembro de 2008

Natal, o que o amor anuncia



Assim como os anos passam minha paciência com o folclore do Natal vai diminuindo. Detesto pessoas estressadas nos shoppings, no trânsito, pessoas que não dão a mínima pros outros, mas nesses dias têm uma vontade irrefreável de encontrar todo mundo. Não tolero festinhas de falsa alegria e música horrorosa. Vejo ao redor muitas pessoas para quem essas datas são motivo de tristezas, de saudades, de afirmação de desencontros, de ausências.
Porém, apesar de todos os pesares, uma certa esperança que nem sei de onde vem sobrevoa esses dias. Pensei em como significar essa esperança e lembrei de um texto sobre o amor do padre, poeta e filósofo argentino Hugo Mujica. Na verdade é uma transcrição de uma coluna que ele tinha num programa de televisão e que depois ele me enviou na íntegra pelo correio quando eu morava no Brasil.
Passei horas traduzindo o texto para o português, com as dificuldades do uso do neutro em espanhol, que no português não é tão comum. Está aqui o texto, para mim a dimensão exata do que é o amor verdadeiro. Eu sei que em blogs e na internet em geral, é difícil ficar quieto lendo, mas desejo que pelo menos uma pessoa consiga sentir o que há anos essas palavras causaram em mim.
Quem quiser conhecer mais sobre Hugo, tem nesse link a entrevista que fiz com ele em 2005.

Quando hoje eu pensava com qual música começar, chamava a minha atenção quanto se fala da paixão e que pouco do amor, ou seja, quanto das borbulhas e que pouco da beberagem.
É real que a paixão é a atração pelo outro, mas acho que o amor realmente é o sentimento que nasce quando se realiza o mais humano, que é a possibilidade de reunir-se com outro, é o que surge desse encontro. Esse sentimento de plenitude é o que realmente chamamos de amor.
E a especificidade da reunião que o amor cria, diferentemente da que cria a compreensão ou a que cria a vontade através do trabalho, através do projeto; é que o amor é a possibilidade de reunir o diferente sem anular a diferênça. Está em todos nós o querer ser em outros, mas sempre também está o medo de que ser em outros nos faça deixar de ser nós mesmos. E acredito que precisamente o amor é a possibilidade de ser um, mas no outro, mutuo, mas diferente.
E pensava em termos de que coisa é o amor, mas seria infinito, então pensei‚ precisamente num ponto, o que dizia no começo. O amor, além dessa fórmula que diz que é cego, ele realmente é vidente. O amor vê o outro no outro; desde a esperança e não só desde a realidade. É aquele que nos ama quem diz de nós o que ainda não conhecemos.
Talvez a experiência seja que quando alguém nos ama e nos diz como somos, nossa experiência seja a vergonha, porque sentimos que não estamos à altura do olhar de quem nos ama. Porém não é que o outro seja cego, é que inexplicavelmente, essa é a visão do amor: a que enxerga a possibilidade de nós e não somente o que nós já somos. Dessa maneira o amor, por um lado nos dá a notícia sobre nós mesmos e pelo outro lado está realizando aquilo que anuncia em nós.
Há uma cena na peça de teatro de Neruda "Joaquín Murrieta", onde o homem, quando vai ver a mulher que acabou de morrer, parado na frente do túmulo diz: "o que você me deu eu já tinha, mas jamais o teria tido se você não tivesse me dado".
Acho que isso define a circularidade fecundante do amor. O amado nos diz o que já está em nós, mas que nós não teríamos se não fosse por esse alguém que teve o amor, a confiança, a aposta na esperança de nos anunciar quem podemos ser, porque já existe alguém que nos diz que valemos para ser, porque nos ama.



Texto de Hugo Mujica
Tradução para o português de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Reprodução da obra Annunciation (1961), de Mati Klarwein

9 comentários:

marce disse...

...en las semejanzas y en las diferencias...

Perfume de Afrodite disse...

Que texto lindo, Juan, belíssimo! Quando vi pelo título pensei se tratar de um texto que falaria apenas do Natal, mas essa argumentação toda acerca do amor deixou-me encantada. Foram os melhores parágrafos que já li sobre esse sentimento tão difuso e essesncial. Gostei tanto que vou imediatamente indicar aos meus amigos! Beijos, meu amigo! Ganhei o domingo após ler o seu post!

Juan Trasmonte disse...

Gracias, Marce...

Lu, fico feliz, a postagem então já cumpriu o seu objetivo de comover pelo menos uma pessoa.
Valeu!
bjs

Janaina Amado disse...

Lindo texto, Juan, comovente. E Annunciation não fica atrás. Tudo a ver com o verdadeiro Natal, que desejo para você também.

Jorge C. Reis disse...

Feliz Natal para você e para os que lhe são queridos. Abraço.

Mell disse...

Texto muito tocante, Juan. Que nos leva à reflexão.

E apesar de todos os pesares desta vida, desejo a você e aos seus Boas Festas! Que 2009 seja pelo menos o início de uma era de mais amor e compreensão. Beijo.

Monika Baumann disse...

Vim desejar um Feliz Natal pra ti e os seus e um 2.009 cheio de muita paz, sucesso, saúde e realizações.
Bjuuu!

Daniela Figueiredo disse...

Feliz Natal, Juan. Lindo este texto sobre o amor. O amor é amar s diferenças. Sem menosprezar a paixão, pois ela é que coloca movimento à vida, mas ninguém vive só de paixão. E esta, ao nos depararmos que a pessoa não é tudo aquilo que imaginávamos, esfria.
Que 2009 seja um ano que nos traga aprendizados, alegrias e movimento.
Beijos.

Juan Trasmonte disse...

Agradeço muito o carinho de todos e desejo para vocês um Natal abençoado.