quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Meu pai



Meu pai era ator, ao estilo de outrora. Ele entrou no palco pela primeira vez ainda na barriga da minha vó. Trabalhou em teatro, circo, rádio, cinema e televisão.
Naquele tempo, os elencos saiam pelo interior. Freqüentemente, tinham que fugir dos hoteis pelos tetos, na manhã seguinte, quando algum produtor vigarista sumia com a arrecadação da noite anterior.
As novelas eram para escutar no rádio a válvula e os técnicos de som eram mestres da invenção que faziam magia: passos andando no corredor com as mãos enfiadas em sapatos sobre a mesa; chuva amassando papel de embrulhar e por aí vai. E aqueles sons, que eu ouvi muitos anos depois em gravações, eram perfeitos para criar o clima.
Não havia duzentas escolas de teatro, os atores aprendiam no palco mesmo e vendo como atuavam os mais velhos e escutando os conselhos dos mestres.
Meu pai tinha todos os livros de Stanislavski mas reclamava da geração dos atores que se chamavam de “atores do método”.
“Eles ficam fazendo exercício de relax meia hora antes e na hora de entrar no palco, cagam de medo”. -dizia-

Meu pai, filho único de mãe solteira que perdeu todo o luxo quando ele nasceu -e conseqüentemente rejeitou o próprio filho a vida inteira-, não tinha completado a primeira série, mas era uma uma enciclopédia. Ele sabia de assuntos tão diversos como filosofia presocrática e os uniformes que usavam os policiais no século XIX. Por isso eu adorava sentar ao lado dele e ouvir as suas histórias das épocas em que televisão era ao vivo porque não existia vídeo-tape.
E como toda família de artista, meus dois irmãos e eu fomos nos trilhos, já desde pequenos começamos a sair na televisão. Puro oportunismo. Eu ia acompanhar meu pai numa gravação e sempre aparecia um produtor “Olha, Mário eu preciso um como ele para gravar amanhã”. Meu pai duvidava, falava com minha mãe e depois liberava. Pra mim era como um jogo, uma brincadeira, mas ele era taxativo se a oferta fosse para vários capítulos. “Ate vocês não completarem seus estudos, nada. Se depois quiserem ser atores, eu não vou impedir”
Os três começamos a fazer cursinhos desde crianças, mas quem pegou a espada fui eu. Isso durou uns quatro anos até que a psicanálise lacaniana me fez interrogar se esse era mesmo meu desejo o eu estava apenas seguindo a linha do sangue.
Na época eu já escrevia, mas fazia tudo que era curso complementar de um ator: dança, canto, expressão corporal, mímica. Ao mesmo tempo, rejeitava sistemáticamente todas as ajudas que o meu pai, que conhecia todos os produtores da televisão, oferecia.
Em troca, eu formava grupos de teatro experimental ou fazia trabalho militante montando peças em bairros pobres do recóncavo de Buenos Aires.

Eu voltava de uma dessas jornadas de teatro e debate na noite em que meu pai morreu. Já tinhamos passado por todas, que em outro texto um dia contarei. Estávamos reconciliados.
Afinal, mesmo que as palavras dele eram “estudem, estudem”, acho que ele no fundo gostava de ter um filho ator.
E eu contei isso das ajudas oferecidas porque quero encerrar esse texto, hoje que ele faria aniversário, com uma dedicatória que escreveu num livro que me deu de presente, sobre o teatro na Alemanha.

"Meu caro filho,
lembre que no teatro existe uma patente invisível. Ela não se vê, mas existe. Respeite isso entre os seus companheiros.
Lembre também que assim que você se respeitar como ator e como ser humano, os outros vão te respeitar.
Finalmente, não se sinta vencido embora estiver vencido.
No palco, seja grande ou pequeno o personagem, o primeiro ator é você.
E não olhe tanto para essa ajuda que vem “de cima”, por toda ajuda de cima, vem outra de mais acima”.




Foto retrato de meu pai de Annemarie Heinrich
Foto de meu pai, de autor desconhecido, na peça Tartufo, de Moliere, no Teatro Municipal General San Martin, circa 1950

3 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Você e as emoções. Lindo, seu pai. Todo. De feição e de ser.
Beijo de Maria

marcela. disse...

Sim palavras....pura emoção.
Abraço do alma.

Anônimo disse...

Por essas e outras que sempre dou alta aos terapeutas na terceira sessão. E tb por isso nunca tive coragem de enfrentar platéias. Vida que segue...

Obs.: Pai lindão, hein?

Bia Alves