segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A traidora gringuice foragida


Aos poucos dias de chegar ao Rio de Janeiro pela octogéssima vez, quando já foi pra ficar mesmo, fui convidado para uma festa, aquelas do estilo “amiga da amiga da amiga” que estava voltando pro Rio depois de morar em Londres por uma década.
Em certa hora, coincidimos na varanda o expatriado e a repatriada. Estava eu com uisquinho na mão quando ela soltou assim, como de passagem, a seguinte pérola:

- É horrível ser estrangeiro, porque você vai ser estrangeiro sempre.

Ela disse isso com toda naturalidade, mas eu odiei aquela mulher nessa hora, achei tão pouco gentil. A esperança de todo estrangeiro novo, exceto uns poucos que só querem ficar no gueto, é integrar-se à nova sociedade, ser um entre os outros.
Ainda minha arrogância achava que meus conhecimentos da língua portuguesa e da cultura brasileira iam fazer toda a diferênça. E o carinho dos amigos ajudava nessa construção. Eles me diziam frases do tipo: “você sabe mais de música brasileira que a maioria dos brasileiros”.
Passou um tempo até eu entender que, na verdade, o que era mais valorizado em mim, pelo menos no mundo do trabalho, era o que havia de diferente em mim e não o que havia em comum.

Tempos depois estava eu num churrasco com amigos, esses outros, das minhas primeiras viagens, amizades que já beiravam as duas décadas. De repente, a conversa nos levou para a infância e aí o pessoal começou a lembrar dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, aquela obra fundamental de Monteiro Lobato que a meninada curtiu através do programa de televisão. Era Emília pra lá e Pedrinho pra cá.
Nesse instante de luz compreendi a frase sem maldade daquela mulher que tanto tinha me agoniado. Não houve na minha infância Sítio do Picapau, eu cresci assistindo o programa de Gaby, Fofó y Miliki, três palhaços espanhois que tinham um show de muito sucesso na televisão argentina.
A condição de estrangeiro é isso, a ausência de história comum. O que eu sei de 1968 é o que eu li, o que me contaram, as músicas que ouvi, as fotos que vi, mas o meu 68 foi outro, sem passeata dos Cem Mil, sem festivais, sem AI-5. Tudo bem, eu era um moleque na época, mas o exemplo serve para significar a diferênça.

Assumir minha condição de gringo só me trouxe alívio. Tanto que resolvi ser um estrangeiro permanente, um estrangeiro de profissão. A obsessão do sotaque, como outras, ficou pra trás, certamente substituída por outras novas. De volta para a Argentina, passou a fase esquizofrénica de ficar dividido entre duas terras, de sentir a eterna saudade por uma quando estou na outra, e cheguei ao presente jubiloso de saber que há pelo menos dois cantos no mundo onde eu serei bem recebido, onde eu posso me fazer entender para pedir um copo d’água e um prato de arroz. Isso é um privilégio.

Depois dessa introdução que mais parece um oceano, vou explicar a razão desta postagem. Uma pessoa que eu não conheço, divulgou no Orkut um texto meu do blog sobre declarações de Maria Kodama, a viúva do escritor Jorge Luis Borges, que revelou que o mestre não gostava nem um pouco de Carlos Gardel, mas em troca ouvia o rock progressivo de Pink Floyd.
Por causa disso as visitas vindas do Orkut cresceram notávelmente, então resolvi pesquisar qual era a fonte desse aumento.
Achei o link em uma comunidade do Pink Floyd e várias respostas, e entre elas uma que dizia -achando que quem postou era o dono do blog-

- Meu amigo, “Nem vem que não tem” pq teu blog já caiu no meu conceito só em vc escrever no teu título foraGida com J...

Que vergonha eu senti! Foi um erro grosso que estava lá no comecinho do blog. Isso foi da época em que o Google, sem mais, me mandou pra berlinda e, entre vários conselhos para tentar solucionar o mistério, um deles dizia para eu acrescentar no cabeçalho algumas palavras sobre o assunto do blog. Então eu coloquei essa definição que já existia desde que eu tive que cadastrar o blog e algum lugar e mandei isso.
A explicação lingüística define esse tipo de erro como interferência, quando alguém falando ou escrevendo uma segunda língua enfia uma palavra da língua em que foi alfabetizado, pois em espanhol foragida é forajida, e eu que não vivo sem o meu Aurelião, jamais cheguei perto de duvidar sobre a grafia dessa palavra.
E vocês, amigos que vem aqui com freqüencia, imagino que por gentileza ou piedade, nunca me disseram nada.
Mas a gringuice é assim, por muito que eu possa disfarçar, ela aparece. E ela aparece para me lembrar a minha condição. E isso é muito legal porque também me faz manter esse olhar carinhoso e ao mesmo tempo distante.
Então, caros amigos, se vocês acharem um outro desses erros grosseiros, sejam crueis comigo. Aceito frases do tipo “seu gringo burro etc”.
Mas juro que daqui pra frente jamais vou esquecer como se escreve foragida em português.

Foto da minha pessoa tentando (e no conseguindo) disfarçar a sua gringuice no cafofo da Surica, com Paulão Sete Cordas e Teresa Cristina

6 comentários:

Poiética disse...

Que bela crônica!!! Eu já fui gringa uma vez quando estive na Alemanha... povinho lá é chato com gringo, ainda mais sendo Latino!!!

Bernardo Guimarães disse...

brasileiríssimo joão atrás do morro:
quem é gringo? só soube que vc andou por outras bandas do território sulamericano muito tempo depois de devorar diariamente seu blogue. queria ter a oportunidade de conhecer a cultura argentina, paraguaia, chilena ou guiana, como vc conhece a nossa. pra mim a unica diferença entre nossos países é que, de avião, o brasil é verde e a argentina é cor-de-rosa. como nos mapas da minha infância
abraço, hermano.

Juan Trasmonte disse...

Valeu Poiética! Seja bem-vinda.

Doutor Bernardo, você é uma figura mesmo.
Obrigado e abraços hermanos

Adicta al helado de Freddo disse...

Ja ja ja.....somos seres humanos...jajaja...Besotes.

maria guimarães sampaio disse...

Por falar em Teresa Cristina já viste o DVD "as meninas do Brasil"? Ela, Rita e Jussara. Tenho lido nos jornais mas ainda não comprei, imagino que esteja belíssimo.
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Queria eu saber escrever em espanhol como você o faz em português. Você arrasa. Eu não faço um "O" com copo em nenhuma língua. Sou monoglota, mal e porcamente falo e escrevo em baiano.

Juan Trasmonte disse...

Fora a artista da fotografia que ela é, essa "monoglota que escreve em baiano" tem uma prossa linda!