quinta-feira, 26 de março de 2009

Quando Ney encontrou Astor




Na metade dos anos setenta a música da América Latina vivia um momento de grande efervescência, com o auge dos trovadores e da canção política. O Brasil porém, na sua dimensão continental ficava de costas e abria seus próprios caminhos. Uns poucos músicos mais atentos estavam também de olho na América. Ney Matogrosso era um desses músicos, com motivos suficientes que estavam no sangue mesmo. Neto de um argentino e uma paraguaia, nascido no Mato Grosso do Sul que lhe deu sobrenome artístico, Ney já trazia desde pequeno uma informação musical nutrida de várias culturas.
Nesses tempos, o compositor e bandoneonista argentino Astor Piazzolla já era uma referência da vanguarda musical e muito admirado por certo público do Brasil.
Ney já conhecia muito bem Astor quando foi assistir aquele show no Rio de Janeiro onde eles se encontraram pela primeira vez. O que Ney não sabia é que Astor -que era o completo oposto do conservadurismo do tango- também já conhecia quem era esse jovem magro, introvertido, que foi no camarim para lhe-expressar sua admiração depois do show.
Ney acabara de abandonar o Secos & Molhados no auge da popularidade da banda e disse a Astor que adoraria gravar com ele algum dia. Na hora, o autor da Suite Troileana, que tinha bem presente o registro agudo e afinadíssimo de Ney, o convidou para gravar.
Por esses dias, Piazzolla tinha dado três músicas ao notável poeta mineiro Geraldo Carneiro. Na verdade não eram músicas originais mas temas instrumentais compostos por Astor para o filme franco-chileno Llueve sobre Santiago, do diretor Helvio Soto, referente à queda do governo Salvador Allende e proibido no Chile.
As três músicas, com os versos de Geraldinho, foram Muralla China, Olhos de ressaca e As Ilhas.
Como na época Astor morava na Itália, até lá foi Ney. Juntos gravaram várias sessões em novembro de 1974, e de lá ele voltou com as fitas.
Sem querer, Astor acabou dando um impulso forte para o começo da carreira solo de Ney que, com esse material precioso, ficou empolgado para montar uma banda e lançar seu primeiro LP pela Continental.
Nessa super banda estavam entre outros os brasileiros Márcio Montarroyos e Chacal, o estadunidense Bruce Henry e o argentino Claudio Gabis.
Ney apresentou seu material novo no show O homem de Neanderthal que até hoje continua na memória de quem assistiu como um espetáculo mítico no seu casamento entre música e conceição visual.
O LP lançado em 1975 se chamou Água do Céu Pássaro, produzido por outro argentino no exílio que se deu muito bem como produtor no Brasil: Billy Bond, que junto com Gabis formara La Pesada del Rock’n’Roll, banda ícone do rock argentino.
O disco trazia junto um compacto com duas das colaborações entre Piazzolla e Ney, as músicas As Ilhas e 1964 II. Esta última sofreu os efeitos da censura, pelo que significava o 1964 na história brasileira. Nada mais longe da realidade, trata-se de uma das célebres parcerias entre Piazzolla e o escritor Jorge Luis Borges que não faz a menor referência à situação política do Brasil da época.
Por estes dias, caiu em minhas mãos um vinil de edição argentina chamado Sangre Latina. É uma coletánea de 1984 com a mesma capa daquele primeiro disco de Ney, mas com músicas de diferentes fases do cantor e que tem essas duas com Piazzolla, as duas últimas do lado B.
Fiquei imaginando como terá sido esse encontro na Itália de um argentino tanguero e transgressor com um brasileiro roqueiro e trangressor. “El Gato” Piazzolla era famoso pela sua pouca paciência.
Alguma coisa ele já tinha registrado na essência do cantor. Alguma coisa que o Brasil e o mundo estavam prestes a descobrir.



As ilhas

Vi mosca urdindo fios
De sombra na madrugada
Vi sangue numa gravura
E morte em caras paradas

Via vis de meia noite
E frutas elementares
Vi a riqueza do mundo
Em bocas disseminadas

Vi pássaros transparentes
Em minha casa assombrada
Vi coisas de vida e morte
E coisas de sal e nada

Vi um cachorro sem dono
À porta de um cemitério
Vi a nudez nos espelhos
Cristas na noite velada

Vi uma estrela no meio
Da noite cristalizada
Vi coisas de puro medo
Na escuridão espelhada

Vi um cruel testamento
De anjos na madrugada
Vi fogo sobre a panela
No forno de uma cozinha

Vi bodas inexistentes
De noivas assassinadas
Vi peixes no firmamento
E tigres no azul das águas

Mas não via claramente
A circulação das ilhas
Nos rios e nas vertentes
E vi que não via nada

Nada, nada...

As ilhas, poema de Geraldo Carneiro para a música de Astor Piazzolla, gravada por Ney Matogrosso em 1974

Foto de Astor Piazzolla de Alicia D'Amico (1975)
Foto de Ney Matogrosso, sem crédito do autor, do site Ney Matogrosso
Reprodução da capa do disco Água do Céu Pássaro (1975, gravadora Continental)

5 comentários:

Janaina Amado disse...

Este post, Juan, está o má-xi-m0, merece ser emoldurado, pra gente olhar todo dia! Pesquisa, fotos, textos, tudo da maior qualidade, tudo de que eu gosto tanto.

Bernardo Guimarães disse...

juan,vc é genial! vc, ney e piazzola.

Edu O. disse...

Grandes!!!!

Juan Trasmonte disse...

Obrigado gentes!!!!

Luciana disse...

Juan, Ney já é o máximo sozinho, imagine acompanhado. O que mais gosto nesse artista é o descomprometimento com padrões. Ele é um artista, simples assim! Fz os seus trejeitos, tem o seu estilo e não se preocupa com o convencional, com o que os outros vão pensar... Adoro as músicas dele e gostei dessa história! beijos!