quinta-feira, 4 de junho de 2009

David Carradine e a inocência perdida



O protagónico do seriado Kung Fu era para Bruce Lee, mas parece que alguém na ABC não quis que o personagem fosse confiado a alguém que não era auténticamente estadunidense. Algo assim como quando chamaram Brando para fazer Emiliano Zapata. Aquilo só foi salvo porque Brando é Brando, mas o physique du rol não dava mesmo. Já no mesmo filme, estava o verdadeiro mexicano Anthony Quinn, que acabou faturando um Oscar.
Um dia eu escrevo sobre o racismo em Hollywood, mas o caso é que quando rejeitaram Bruce Lee, os executivos do estúdio colocaram no lugar dele "o filho do John Carradine", que tinha os olhos puxados mas era bem dos USA.
Deu certo porque o seriado teve um sucesso além do esperado. Durou cinco temporadas. O rosto pouco expressivo de David caia como uma luva no monge Shaolin, que havia sido ensinado para não exibir emoções.
Em casa, Kung Fu era ponto obrigatório. Uma vez por semana, depois da janta, a gente distribuia as cadeiras na frente da televisão em preto e branco. A luz era desligada, só ficava uma pequena lámpada da escrivaninha "porque não faz bem assistir tevê no escuro".
A mistura de filosofia oriental com cenas de porrada produzia um fascínio na criança que eu era.
Depois David foi sumindo, como tantos atores devorados pelos personagens de sucesso.
Com o tempo, ele apareceu como protagonista do filme A flauta silenciosa, que também herdara do Bruce, que mais uma vez tinha sido rejeitado por Hollywood. Era mais ou menos o mesmo personagem com nome diferente.
Quando comecei a viver de assistir filmes e escrever sobre eles, li que David foi uma figura tingida pela cultura hippie e comecei a achar mais simpatia na pessoa que nos personagens, tirando o Kwai Chang Caine, que como todas as coisas associadas à infância podem ser ruins, mas são intocáveis.
Foi Tarantino, o antropófago mor do entertainment dos setentas, quem resgatou para Kill Bill um David Carradine, caricato de si mesmo, que brincou com sua lenda.
Já estava além do bem e do mal, tanto como para aparecer morto sentado no teto de um armário e meu lado criança sentir tristeza, mas meu lado adulto não achar surpresa.
Quando perdemos uma figura dessas, também sentimos tristeza pela nossa inocência perdida.



Foto de David Carradine no seriado Kung Fu da Agência Reuters
Foto atual de David Carradine da Agência AP

11 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

gostei imensamente ( como tudo de Tarantino) do resgate de Carradine para o papel de Bill.Assisto Kill Bill toda vez que passa.

Nílson disse...

Foi exatamente isso que senti, de forma difusa, e que agora consegui definir melhor ao ler o seu texto: inocência perdida. O "gafanhoto" marcou a minha infância, lá pelo final dos 70. Sua morte é como um travo. Mas o tranquilo e infalível kung fu continuará vagando para sempre pelos caminhos da América. Povoado pelas memórias do mestre chinês de olhos cegos esbranquiçados, rodeado por velas acesas e implacavelmente sábio!

maria guimarães sampaio disse...

Os meninos são tão diferentes das meninas. Só lembro o nome do seriado e o nome de David Carradine. Tudo varrido do meu pensamento até ver a foto de abertura do post e pronunciar: ó David Carradine, sumiu... E ao terminar de ler: ó David Carradine, morreu...

Anônimo disse...

Um andarilho que finalmente descansou...
Sua história Juan é a de todos da mesma geração. "Depois da janta" quem não assistiu o seriado Kung Fu?
Lindo texto.

Juan Trasmonte disse...

Valeu gente, muito obrigado. Como poderiam dizer Maria e Bernardo: "esse era um porreta".
Abraços a todos

Simplesmente Ariana disse...

Sem dúvida, esas lembranças de infância ficam marcadas nas nossas vidas para sempre.
Acabamos nos apegando a esses ídolos e acompanhamos a sua trajetória atéo fim. Quando eles se vão, vai com eles um pouquinho de nós.
Adorei o post!
Beijos,Juan!

Mario disse...

Realmente, Kung Fu foi um seriado que marcou época. Assisti todos os capítulos, ou penso ter assistido todos eles. Agora quanto ao fato de não ter aceitado Bruce Lee para o papel não diz respeito a nacionalidade, pois Lee era nascido em São Francisco, portanto, um cidadão estadunidense. O que deve ter ocorrido, e o mais provável, é que tenha sido por motivo contratual, mesmo por que o seriado era de baixo orçamento, e na época Bruce Lee já era muito conhecido. Mas valeu pela lembrança e, de certa forma, homenagem ao Carradine, que desempenhou seu papel com dignidade.

Juan Trasmonte disse...

Caro Mario, Bruce nasceu em São Francisco, mas viveu desde pequeno em Hong Kong e foi conhecido nos Estados Unidos através dos filmes feitos no Oriente.
Foi ele mesmo que contou que os produtores não quiseram ele para o personagem. E depois a viuva dele confirmou, dizendo que aquilo o deixou muito abalado.
Mas isso não diz nada contra o David que, como você disse, fez o papel com dignidade e ficou para sempre na memória do público.
Muito obrigado por estar aqui.
abs.

Janaina Amado disse...

Juan, eu era menina, mas era fascinada também pela série do Carradine: não pelas lutas (achava chatas), mas pelo lado zen dele e pela "filosofia oriental" ou coisa que o valha que transmitia, era meu primeiro contato com essas coisas... Fiquei chocada com o aparente suicidio. Abração pra você!

Daniela Figueiredo disse...

Oi, Juan. Nunca fui muito ligada a filmes de Kung Fu, mas gostei de Kill Bill. Estranha a forma como ele morreu, de se pensar. Beijos pra ti.

Roberta Mattoso disse...

Olá, amigo, qto tempo!!! Eu ando numa loucura de trabalho, mas sempre que dá dou uma passada aqui pra ler suas palavras tão bem escritas...
Ótima semana pra vc com muita luz!!!