sábado, 17 de maio de 2008

O anarquista apaixonado





Sentados um de frente para o outro, ela segurou as mãos dele e levantou a cabeça para se perder na imensidão azul dos olhos dele. Como quase sempre acontecia, não tinham muito tempo. Mas as urgências não murcham o amor. Por isso um olhar só pode deter o relógio.
Um homem chegou pra ele, tirou do bolso um maço de cigarros, lhe ofereceu um e perguntou:
- Vai querer alguma coisa?
- Un caffe molto dolce -respondeu ele-
A quase criança ouviu os pasos do homem se afastarem para as trevas e uns instantes depois viu o homem voltar das trevas com uma xícara na mão.
Fina tentou arrumar a gola da sua camisa. Por um momento lembrou do dia em que se conheceram, no jardim das begônias. “As begônias estão tristes”, havia dito ela.
Se passaram seis minutos antes de que viessem buscá-la. Ninguém sabe o valor que têm seis minutos.
Se abraçaram. Ninguém chorou.

- Adeus, serei sempre sua… -disse Fina-. E Severino pediu para ela continuar estudando. Nem sequer o guardião ousou cometer a obscenidade de interromper esse instante. Esperou até eles se afastarem para algemar novamente Severino e conduzi-lo diante do pelotão.

Esse texto conta os últimos minutos da vida de Severino Di Giovanni, anarquista italiano que atuou na Argentina na segunda metade da década de vinte e foi fusilado em 1931 pelo governo ilegítimo de Uriburu.
Escrevi o texto para o programa de rádio Doble Equis. Ele reconstrói com citas mais ou menos reais a despedida do anarquista da sua namorada de quinze anos, Fina (América Scarfó).
Para mim sempre foi fascinante que o homem tido na época como o inimigo público número um, "o maior malvado que pisou terra argentina", aos dizeres das autoridades, fosse apaixonado dessa maneira por uma adolescente.
Em 1999 o governo devolveu a Fina, já com 86 anos, as cartas de amor escritas por Severino na prisão, que ficaram guardadas nos arquivos policiais. A mulher lembrou com poucas palavras os tempos em que as pessoas eram capazes de entregar a vida pelas suas idéias.

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