segunda-feira, 16 de junho de 2008

Nem lei nem morte conseguem deter imigrantes


A velha Europa mostra as fraturas do Estado de Bem-Estar que a Comunidade anuncia. Dois naufrágios em poucos dias, um em águas da Líbia, o outro em Malta, são a prova clara de que o desespero como motor da esperança de uma vida melhor é muito mais poderoso que qualquer lei que possa regular a entrada dos sem papéis na Europa.
Pelos menos quarenta morreram e mais de cem estão desaparecidos depois que uma frágil barca carregada de egípcios afundou tentando atingir a ilha italiana de Lampedusa. Cada um deles tinha pago entre 360 y 930 dólares para fazer a viagem.
Por estas horas a Guarda Costeira espanhola patrulha as águas de Tenerife, onde tem chegado novas barcas, favorecidas pelo bom tempo nas costas africanas.
Ontem, em Malta, outra barca com somalis a bordo, inclusive crianças, quebrou-se literalmente. Seis deles morreram.
Outras notícias de hoje colocam em pauta o grau de complexidade que possui a questão da imigração. Na Espanha, um grupo de artistas argentinos foram espancados pela polícia que irrompeu ao grito de “¡Fuera sudacas!” O mais curioso é que os atores acabavam de se apresentar na ExpoZaragoza, feira para a que foram convidados.
Enquanto isso, na França, a Academia de Letras afirmou que “as línguas regionais atentam contra a identidade nacional”, em referência ao pedido dos deputados para que línguas como o bretão, o catalão e o euzkera, faladas em algumas regiões da França, fossem incluídas na constituição desse país.
A onda de nacionalismo e as posições mais duras da Comunidade Europeia não conseguem deter o efeito do modelo económico instaurado pelos próprios países da Europa. O fenómeno mostra também uma rede de exploração laboral que tem aliciadores nas nações de origem, a procura de mão de obra barata dos próprios europeus e a necessidade de manter os padrões de alta qualidade dos serviços públicos para os naturais da Comunidade.
Porém, os dados exibem outra realidade. La Moncloa elaborou um relatório em 2006 que revelou que os imigrantes na Espanha consomem apenas o 5,4 % do gasto público. Eles utilizam o 4,6% em saúde e o 6,6% em educação. Mas a contribuição deles chega aos 6,7%. Ou seja, a presênça deles na Espanha produz um benefício de 5.000 milhões de euros anuais.A conclusão é que o imigrante põe muito mais do que leva. As fendas estão na estrutura económica da Comunidade e no sistema de exclusão que começou na década de oitenta. Enquanto isso, acumulados nas barcas, morrendo no mar, recebidos nos portos como se fossem o demónio e amontoados nos centros de internamento, estão os imigrantes.

Texto de Juan Trasmonte (Creative Commons)

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