sábado, 29 de novembro de 2008

Vamo fazer barulho



Deixa, deixa, deixa, eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar...

Segura!

Deixa, deixa, deixa, eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar...

Eu já falei que tenho algo a dizer, e disse
Que falador passa mal e você me disse
Que cada um vai colher o que plantou
Porque raiz sem alma como o flip falou, é triste

A minha busca é na batida perfeita
Sei que nem tudo tá certo mas com calma se ajeita
Por um mundo melhor eu mantenho minha fé
Menos desigualdade, menos tiro no pé

Andam dizendo que o bem vence o mal
Por aqui vo torcendo pra chegar no final
É, quanto mais fé, mais religião
A mão que mata, reza, reza ou mata em vão
Me contam coisas como se fossem corpos,
Ou realmente são corpos, todas aquelas coisas
Deixa pra lá eu devo tá viajando
Enquanto eu falo besteira, nego vai se matando
Então

Deixa, deixa, deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar

Ok, então vamo lá, diz
Tu quer a paz, eu quero também,
Mas o estado não tem direito de matar ninguém
Aqui não tem pena de morte mas segue o pensamento
O desejo de matar de um Capitão Nascimento
Que, sem treinamento se mostra incompetente
O cidadão por outro lado se diz, impotente, mas
A impotência não é uma escolha também
De assumir a própria responsabilidade
Hein?

Que cê tem e mente, se é que tem algo em mente
Porque a bala vai acabar ricocheteando na gente
Grandes planos, paparazzo demais
O que vale é o que você tem, e não o que você faz
Celebridade é artista, artista que não faz arte
Lava a mão como Pilates achando que já fez sua parte
Deixa pra lá, eu continuo viajando
Enquanto eu falo besteira nego vai, vai
Então deixa

Deixa, deixa, deixa
Eu dizer o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar

Desabafo, de Marcelo D2, com sampler de Deixa eu dizer, de Ronaldo Monteiro de Souza e Ivan Lins, interpretada por Cláudia

Está aí A arte do barulho, o novo album de Marcelo D2, primeiro que ele faz para a EMI, que já começou fraca, nem o release colocaram ainda no site.
Mas o que interessa é que D2 se firma em uma química dificílima como é a de levar elementos do samba para o rap e fazer com isso uma criação de um som diferente.
Desde que o mentado crossover virou moda e etiqueta, todos os dias conhecemos uma salada que traz mistura, mas quase nunca singularidade. D2 é um dos pouquíssimos artistas que conseguem isso.
Na primeira leitura diriamos que a fórmula foi citar, por exemplo, Argumento, de Paulinho da Viola no meio do som dele. Mas há uma segunda leitura. Não foi por ele gritar no palco "Salve Jovelina Pérola Negra" que os sambistas lhe-abriram os braços, mas por uma busca genuína que reconheceram nele. É um caminho que o artista chama de "procura da batida perfeita", que tem raíz no rythm and poetry (tão estadounidense), mas também no samba (tão brasileiro). É um cruzamento de linguagens que está até na atitude dele.
A cada nova obra ele atinge com mais sutileza esse estilo próprio. O som tão atual desse barulho novo (nota dez para o produtor Mário Caldato Jr.) é ao mesmo tempo, carioca e cosmopolita. Marcelo D2 traz o que não abunda: novidade no classicismo e classicismo na novidade. Ou seja arte.

Foto de Marcelo D2 de Washington Possato

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Eu farei uma oferta que ele não poderá recusar




Já está disponível nas livrarias dos Estados Unidos e na Europa, The Godfather Family Album, livro que reúne fotografias das filmagens do hoje clássico O poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. São imagens amplamente divulgadas junto com outras inéditas, todas feitas pelo fotógrafo Steve Schapiro.
Mas o livro traz ainda entrevistas com Coppola, Marlon Brando, Al Pacino e textos de Mario Puzo, autor do romance em que o filme está baseado. São histórias riquíssimas que mostram que na Paramount ninguém levava fé no filme e que a maioria dos participantes estavam lá por necessidade.
O próprio Puzo mal vendeu os direitos ao estúdio porque precisava do dinheiro, nem Coppola nem Brando passavam por uma fase boa de trabalho. De fato, os executivos da companhia não gostavam de Francis, mas ele era o único diretor italiano da segunda geração. A tensão foi constante durante as filmagens.
Ao mesmo tempo, os produtores negociavam com a mafia como a história dos Corleone seria contada. O coringa das famiglias era a influência que eles tinham sobre os sindicatos. As greves ameaçaram o já acidentado trabalho, até que o acordo chegou. Em todo o roteiro não poderiam aparecer os termos mafia nem Cosa nostra. Depois disso os produtores e vários integrantes do elenco mostraram-se públicamente com pessoas que tinham processos abertos na Justiça.
Dessas e outras e das maravilhosas imagens de Schapiro é feito o livro de um filme maior que a sua lenda, e que trinta e seis anos depois não envelheceu nem um pouco.


Fotos das filmagens de O Grande Chefão, de Steve Schapiro, incluídas no livro The Godfather Family Album

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Cuba traz o canto livre de Yusa


A cubana Yusa chegou ao Brasil de mãos dadas com Lenine, em 2004. O leão do norte convidou ela e o percussionista argentino, radicado há anos na Bahia, Ramiro Musotto, para fazer em Paris o projeto In Cité. Assim, aos poucos, as pessoas foram conhecendo a arte desta cantora e compositora que se sente a vontade seja no contrabaixo, no caixão espanhol quanto no violão, no tres cubano ou no piano.
Agora, Yusa chegou à Argentina de mãos dadas com Santiago Feliú, o trovador da segunda geração da Nueva Trova Cubana. Ele por sua vez foi apresentado ao público argentino há mais de vinte anos por Silvio Rodríguez. Dessa vez é Santiago quem abre o caminho para Yusa.
Ontem à noite, a cubana apresentou suas armas no Notorious em um show que foi uma jóia rara, com direito a canja de Santiago e com o grande violonista e compositor Elmer Ferrer como convidado.
O "canto livre" do título pode parecer equívoco, toda vez que quando a palavra "Cuba" está perto da palavra "livre", ela é associada a um conceito político, de um ou outro lado. Mas aqui a liberdade está ligada a um conceito musical.
Essa geração de artistas cubanos que estão na casa dos trinta, traz na bagagem múltiplas linguagens musicais. Eles reverenciam os trovadores, mas têm um pé no rock, conhecem a rica tradição cubana, do son ao filin, mas têm uma queda pro jazz nascido do outro lado do oceano. E guardam referéncias também de ritmos de outras terras, como o flamenco.
Dessa mistura sai a arte de Yusa, que acaba de lançar Haiku, seu terceiro disco, produzido pelo brasileiro Alé Siqueira e onde está presente essa pluralidade e o canto dela, belíssimo em sentimento, timbres e registros.

Foto de Yusa de Kaloian

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O pensamento humanista de Lévi-Strauss faz um século



"No longo praço, todo pensador célebre pode estar certo de duas coisas: de morrer e de ser considerado ultrapassado. É uma sorte quando a primeira coisa acontece antes da segunda".

O antropólogo e etnólogo francês Claude Lévi-Strauss estreitamente ligado ao Brasil, vai fazer cem anos no dia 28. E continua espalhando seu pensamento humanista.


Foto de Claude Lévi-Strauss em São Paulo, em 1935, do acervo pessoal
Foto atual de Philippe Caron

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Os sessenta anos de um beijo famoso



Foi no dia 14 de agosto de 1945. O Japão assinou a rendição, a guerra acabou e nos Estados Unidos as pessoas foram pras ruas para comemorar.
O fotógrafo da revista Life, mestre do foto-jornalismo, Alfred Eisenstaedt, captou esse momento em que um soldado da marinha pegou uma enfermeira e deu um beijo nela. A imagem percorreu o mundo como símbolo da paz e de um tempo novo.
Sessenta anos depois, Edith Shain fez uma sessão com atores vestidos de marinhos para lembrar o momento, depois que uma pesquisa da própria revista determinou que foi ela mesma quem apareceu na foto original. Aconteceu que, assim que a instantánea ficara famosa e aproveitando que o rosto não é visível, uma meia dúzia de enfermeiras afirmaram serem as protagonistas da foto.
Hoje com noventa anos, Edith conta: "Naquele dia eu ia do hospital para Times Square porque a guerra havia terminado, o rapaz me pegou e nos-beijamos; ele seguiu o seu caminho e eu o meu. Não tinha como saber quem era, mas não me importou porque era alguém que tinha lutado por mim".



Foto VJ Day, The Kiss, de 1945, de Alfred Eisenstaedt
Foto de 2008 da Agência AP

sábado, 22 de novembro de 2008

Ballade du juin



Tudo que não tira pesa
tudo que não boia afunda
raisons du coeur
quebrado coração
corcunda
todo círculo de giz
louça que nunca
vai cheirar comida
Tudo que não solta fede
tudo que não negue estraga
ballade du juin
outono geração
afaga
toda prata chafariz
mofo que nunca
sabe iludir vida.

Ballade du juin, de Juan Trasmonte (Creative commons)
Foto de Marcelo Lyra

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Disko Partizani!



My baby came down from Romania
She was the queen of Transylvania
But now we live in suburbia
Without any friends buzzing you

Tsiganizatsia tsiganizatsia
Come on baby this is what you need
Tsiganizatsia tsiganizatsia
Everybody dancing to this beat
Tsiganizatsia tsiganizatsia
Come on baby this is what you need
Tsiganizatsia tsiganizatsia

Disko disko partizani
Disko disko partizani
Parti parti partizani

Zece, alege
Nu mai intelege
Opt un tort (upgrade)
Musica non stop

Cand te vad ma pierd cu firea
Nu'mi pot stapani privirea
Dansezi bine esti mortala
Si cu frumusetea ta'I bagi pe toti in boala
Orice barbat te doreste
Cand te vede innebuneste
Ti'ar da bani, ti'ar da orice ti'ar da si casa
Pentru tine si'a lasat nevasta

Tsiganizatsia tsiganizatsia
Come on baby this is what you need
Tsiganizatsia tsiganizatsia
Everybody dancing to this beat
Tsiganizatsia tsiganizatsia
Come on baby this is what you need
Tsiganizatsia tsiganizatsia

Disko disko partizani
Disko disko partizani
Parti parti partizani

Zece, alege
Nu mai intelege
Opt un tort (upgrade)
Musica non stop (too late)

Disko disko partizani
Parti parti partizani

Disko Partizani, de S. Hantel



Apócope para Stefan Hantel, Shantel ou DJ Shantel nasceu na Alemanha, mas sua origem é ucraniana. Verdadeiro homem-orquestra, ele é compositor, DJ, produtor, multi instrumentista e também cantor no seu último disco, este Disko Partizani que celebra o cruzamento de culturas.
Shantel levou a música dos Balcãs às boates. Ele mesmo abriu uma casa em Frankfurt, o Bucovina Club, que já é famoso pelas suas festas, onde as pessoas dançam em versão clubber pura música cigana e turca e grega. O resultado é irresistível.
Disko Partizani é o outro lado da moeda da discriminação que europeus do sudeste da Europa sofrem nas nações ricas. É uma festiva afirmação das raízes. E não dá pra ficar quieto.

Retrato de Shantel de Goran Potkonjak
Foto de Shantel no Bucovina Club de Michael Namberger

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dez filmes, dez escândalos


Brando e Schneider em Ultimo tango em Paris


Sexo estilo anos trinta, sob o olhar crítico de Buñuel


Ellen Burstyn fantástica em Requiem for a dream


Robert DeNiro e as mazelas de Vietnã

1. Laranja Mecânica (A clockwork orange), de Stanley Kubrick (1971)
Com um trabalho magistral de Malcolm McDowell, o filme baseado no romance de Anthony Burgess recebeu um X pelas cenas de sexo e violência extrema. Só em 2000 foi liberada a versão completa do diretor.

2. A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ), de Martin Scorsese (1988)
Um grupo de ativistas católicos chegou a oferecer mais de seis milhões de dólares para comprar e destruir o filme. Isso explica o nível de irritação que causou o filme baseado no romance de Nikos Kazantzakis nos grupos mais conservadores do catolicismo. A possibilidade de um Cristo humano, não sacrificado, que chega a sonhar com o amor físico ia em contra de todos os dogmas. Resultado: o filme foi censurado e os protestos e ameaças de bombas nos cinemas se repetiram em muitos países.

3. Ultimo tango em Paris (Le dernier tango à Paris), de Bernardo Bertolucci (1972)
Recebeu a qualificação X-Rated, reservada aos filmes pornôs pelas cenas de sexo entre Marlon Brando e Maria Schenider, especialmente aquela da manteiga. Foi proibida em muitos países. Bertolucci adorava comprar uma polêmica, de fato depois fez A lua, onde uma mãe tinha insinuantes cenas com seu filho. Mas além da lição de interpretação de Brando, Ultimo tango é um impiedoso retrato da insatisfação humana.

4. O Franco Atirador (The Deer Hunter), de Michael Cimino (1978)
Um dos filmes que retratou de maneira mais crua a realidade nos campos de Vietnã, na época em que ainda as feridas daquela guerra estavam sangrantes. Uma dívida social exibida sem pudor. Cimino vivia envolvido em polêmicas. Esse filme foi taxado de reacionário e depois ele fez o maldito O portal do paraíso, que ficou na história como o filme que mandou a United Artists à falência.

5. A paixão de Cristo (The Passion of Christ), de Mel Gibson (2004)
Pelo oposto, o mesmo resultado do filme de Scorsese. A paixão de Cristo foi taxada de anti-semita e de fazer uma dúbia leitura da Biblia. Gibson enfrentou mais problemas depois e caiu na desgraça para muitos produtores de Hollywood da origem judia.

6. Réquiem para um sonho (Requiem for a dream), de Darren Aronofsky(2000)
Um casal jovem viziado em drogas e o consumismo que o capitalismo dos anos noventa impulsou no mesmo nível de adicção. A cena em que a moça branca entrega seu corpo para um dealer negro era muito mais forte do que o público tipo dos Estados Unidos podia tolerar.

7. Instinto selvagem (Basic Instinct), de Paul Verhoeven (1992)
Um roteiro do Joe Eszterhaz nas mãos do diretor holandês deu nisso. Ativistas homossexuais fizeram protestos nas portas dos cinemas pela homofobia do protagonista. Além disso, as cenas de sexo motivaram outros protestos de setores conservadores, incluída a famosa cruzada de pernas da Sharon Stone e o filme recebeu nos Estados Unidos a classificação inicial NC-17 que reduzia potencialmente a quantidade de cinemas para o seu lançamento.

8. Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato (1985)
Quatro documentaristas viajam à Amazônia para filmar tribos de canibais. Típico filme de exploitation que de tão ruim virou objeto de culto. O filme foi proibido na Itália e Deodato foi indiciado, na presunção que os protagonistas tinham sido assassinados mesmo nas filmagens. Até eles aparecerem vivinhos. Aí o processo acabou sendo uma ótima publicidade.

9. Aladdin, de Ron Clements e John Musker (1992)
Os filmes bonzinhos para todos os públicos dos estúdios Disney nem sempre são o que parecem. Uma das letras de uma música dizia que “Arabia é um país onde cortam sua orelha se não gostam do seu rosto”. O Comité Arabe-americano antidiscriminação fez um protesto veemente e a Disney teve que mudar a letra para os seguintes lançamentos.

10. A idade de ouro (L’Age d’Or), de Luis Buñuel (1930)
Foram tantas as polêmicas que tiveram o diretor espanhol Luis Buñuel como protagonista, que ele só merece vários textos como esse. Imaginem (ou melhor vejam) um filme que em 1930 tem cenas que citam genitália, masturbação e uma grande orgia coroada por um duque que guia o rebanho de infieis a caminho de Paris e que parece bastante com Jesus Cristo. O filme permaneceu proibido na França por 50 anos. A feroz crítica social que atravessa a obra inteira de Buñuel, estava adiantada à sua época.

Religião, sexo, violência e política são assuntos sensíveis para tradicionalistas e censores. A história do cinema conta também a história dos países e das conjunturas.
Essa lista foi inspirada por uma outra que vi no site da Entertainment Weekly. Acrescentei os meus comentários, coincidi em alguns filmes e coloquei outros. Claro que tratando-se de polêmicas e cinema, haverá mais listas.
Como sempre a ordem não indica valor.