segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Música brasileira para festas




1.Chocalho Mix (Clara Nunes – DJ Zé Pedro)
Loops de percussão e beats em cima de Clara Nunes cantando Morena de Angola, do Chico Buarque. Não dá pra ficar quieto. Do Música para dançar de DJ Zé Pedro

2. Water my girl (Carlinhos Brown)
Um coro irresistível com fraseio em português misturado com inglês, do notável disco de Brown, sub-valorizado pela crítica, Omelete Man. Faixa produzida por Brown e o saudoso Tom Capone, com arranjos de cordas de Greg Cohen

3. Mamãe Oxum (Zeca Baleiro)
Pra dançar amarradinho ao som das programações e os atabaques do Ramiro Musotto. Adaptada do folclore nordestino por Zeca. Provada e certificada. Coloquei numa festa de aniversário e minha querida amiga Leila veio me dizer: “você conseguiu tirar pra dançar meus pais depois de muitos anos”

4. Maracatu Atômico (Chico Science e Nação Zumbi)
Nem preciso apresentar, certo? Versão para a música de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, popularizada por Gil e resignificada por Chico Science e Nação Zumbi. Gravada no Estúdio Mosh, em Sampa, onde tanta coisa boa se registrou

5. Antropófagos (Suba)
A música que juntou Suba e Siba, que não é dupla cómica mas um encontro do barulhinho bom, com a base eletrônica, a rabeca contornando e o resto da galera do Mestre Ambrosio batendo um bolão. Do São Paulo Confessions, o legado do Suba, que perdemos muito cedo.

6. Pena de vida (Pedro Luís e A Parede)
Do excelente Astronauta Tupy, co-produzido por PLAP e -de novo- o Tom Capone. Uma parede de batucada.

7. Malandragem, dá um tempo (Bezerra da Silva)
Outra que não tem erro. De Popular P., Adelzonilton -responsável de muitos sucessos do Bezerrão- e Moacyr Bombeiro. Com o crédito pra autoria não resta muito a dizer, aliás porque eu já disse: mané é mané e malandro e malandro. “Aí meu irmão, cuidado pra não dar mole...”

8. Camarão que dorme a onda leva (medley São José de Madureira e Dor de amor) (Zeca Pagodinho)
Com canja de Beth Carvalho, parceria de Zeca com, na ordem, Beto sem Braço, Arlindo Cruz; Beto, de novo; e Arlindo e Acyr Marques. Bota pra dançar até os mortos

9. Falsas Juras (Velha Guarda da Portela)
Parceria de Casquinha e Candeia de 1954, com o próprio Casquinha com sua voz grave segurando o samba, Paulão 7 Cordas, que sempre é um luxo, e o coro das pastoras pra todo mundo cantar

10. A carne (Elza Soares)
Para sintetizar essa festa onde o samba convive com os scratches, fechamos essa entrega com a Elza no rap de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Wilson Cappellette. Ainda tem Suzano na percussão. Sociedade artística de Alê Siqueira com Zé Miguel Wiznik que deu nesse ótimo Do coccix até o pescoço

Então, vocês não pensaram que no quesito “música para festas” eu ia colocar Levantou poeira, certo? Com todo o respeito para a maioria das músicas classificadas como músicas para festa, fiz uma seleção de canções que é difícil de ouvir nas reuniões e aniversários. Já passei todas essas músicas em festas quando eu morava no Rio e deu certíssimo. Experimentem.

Foto de Elza Soares de Jorge Bispo

sábado, 2 de agosto de 2008

O sangue de Pérez Celis









- O que um quadro tem que ter?
- Sangue.

Hoje morreu o grande artista plástico argentino Pérez Celis. Embora ele detestava quem usa cartão de visita com a palavra artista, ele foi um. Dos maiores que a arte latinoamericana deu na segunda metade do século vinte.

Primeira foto: reprodução da serigrafia La música
Segunda foto: O artista em 1966
Terceira foto: O prédio de escritórios Central Park, em Buenos Aires, concebido por ele e onde tinha o seu estúdio
Quarta foto: Pérez Celis dedicou em 2005 uma mostra ao centenário do Boca Juniors, seu time de coração. No Museo de la Pasión Boquense ficam os murais que ele pintou.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Felipiana



Das flagrantes sombras
qual unha encardida
farrapos de sangue
pássaro ferido
que oh, vento tombares
cazuza de vespa
surges da crueldade
vê-se aparecer
o nariz ardido
de Luiz Scolari.

Felipiana, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Carmona

Uma brincadeira que escrevi há uns dois anos, uma ode culta ao nariz do Felipão. A foto de Carmona para o jornal O Jogo caiu justa, parece que os versos tivessem sido escritos em cima dela.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Oito milhões de suspeitos


Soldado, aprende a tirar:
tú no me vayas a herir,
que hay mucho que caminar.
¡Desde abajo has de tirar,
si no me quieres herir!

Abajo estoy yo contigo,
soldado amigo.
Abajo, codo con codo,
sobre el lodo.

Para abajo, no,
que allí estoy yo.
Soldado, aprende a tirar
:tú no me vayas a herir,
que hay mucho que caminar.

Soldado aprende a tirar, de Nicolás Guillén
Foto de Carles Ribas de um acampamento cigano nos arredores de Roma

A palavra comunidade que nomeia o status político europeu está esvaziando de conteúdo. O governo Berlusconi, que cada dia parece mais com um patético Mussolini do novo século, anunciou que vai colocar três mil soldados nas ruas das principais cidades italianas.
Mais uma vez, em nome da segurança o estado italiano aperta o cerco contra os imigrantes chamados ilegais. Segundo anunciado pelas próprias autoridades, serão especialmente vigiados os "centros de retenção", construções precárias onde, de acordo com a nova lei, os sem papeis podem ficar detidos até 18 meses sem processo.
Curioso é que a velha Europa, agora orgulhosa e medrosa, é um continente de emigrantes. Milhões de europeus partiram nos séculos dezenove e vinte fugindo da fome e das guerras.
Uma comunidade para merecer tal nome, precisa respeitar valores fundamentais.
Oito milhões de pessoas na Europa são hoje suspeitos a priori pelo fato de serem estrangeiros, desconhecendo garantias e leis básicas, como a Convenção dos Direitos dos Imigrantes da ONU.
Essa luta continua.

Assine contra os centros de detenção de imigrantes na Europa
Assine contra a perseguição de ciganos na Itália

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Os sessentinha de Jean Reno


"Eu não faço publicidade nem filme pornô"
Essa foi a frase pronunciada pelo ator francês da origem espanhola Jean Reno quando foi chamado para o seu primeiro papel no cinema, em 1979. Só que quem estava do outro lado era o diretor Costa Gavras!
Nascido em Casablanca, Marrocos, onde seus pais espanhóis tinham se exilado por causa da ditadura franquista, seu nome de batismo é Juan Moreno Herrera Jiménez.
Depois daquelas pontinhas, ele conheceu Luc Besson e virou seu ator fetiche. Com mais de cinqüenta filmes realizados, hoje é provavelmente junto com Depardieu o ator francês mais popular no mundo.
Se bem ele fez há pouco tempo uma publicidade de cigarros pro Japão, ele continua firme nas suas convicções: diz que o ator é uma ferramenta dos diretores, que não quer virar um produto e que o lugar onde os atores vivem é nos olhos do público.
O grande Jean hoje faz sessentinha.

Foto de Jean Reno no filme de 2004 L'empire des loups

terça-feira, 29 de julho de 2008

Miguel Hernández, a Espanha que não foi


Menos tu vientre,
todo es confuso.

Menos tu vientre
todo es futuro
fugaz, pasado,
baldío, turbio.

Menos tu vientre
todo es oculto.

Menos tu vientre
todo inseguro,
todo postrero,
polvo sin mundo.

Menos tu vientre
todo es oscuro.
Menos tu vientre
claro y profundo.

Versão em português

Menos seu ventre
tudo é confuso.

Menos seu ventre
tudo é futuro
fugaz, passado,
baldio, turvo.

Menos seu ventre
tudo é oculto.

Menos seu ventre
tudo inseguro,
tudo postreiro,
poeira sem mundo.

Menos seu ventre
tudo é escuro.
Menos seu ventre
claro e profundo.

Miguel Hernández foi um dos maiores poetas da língua espanhola. Lutou junto aos republicanos na Guerra Civil espanhola e morreu no cárcere. Em apenas 31 anos deixou uma obra belíssima. A morte do poeta pelo regime franquista privou ao mundo de um artista que estava na melhor fase da sua criação e foi definida como o símbolo da Espanha que poderia ter sido e que não foi.
Desde o ponto de vista literário, o poeta se vale aqui da figura de repetição (anáfora) no início de cada verso. Mais um poema dedicado à sua esposa
Josefina Manresa, Menos seu ventre destaca o valor da mulher como o único espaço seguro num mundo caótico e também como emblema da fertilidade. Nesse sentido, a obra do poeta está atravessada pela idéia de uma mulher forte e ao mesmo tempo profundamente feminina.

Menos tu vientre, de Miguel Hernández
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto do arquivo de Miguel Hernández na prisão

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O declínio moral segundo Al Capone




Devemos manter à América íntegra, salva, livre da corrupção. Se as máquinas tirarem as vagas dos operários, teremos que achar outra coisa que eles possam fazer. Devemos manté-los afastados da literatura e as armadilhas dos vermelhos para nós certificar que as mentes deles permaneçam sadias.
(...) Hoje em dia as pessoas não respeitam mais nada. Antes colocávamos num pedestal à virtude, a honra, a verdade e a lei. Tivemos quase doze anos para aprumar-nos e olha em que caos virou a vida! Hoje tem mais gente bebendo álcool nos bares clandestinos que todas as pessoas que bebiam antes de 1917. É isso que opinam sobre o respeito à lei. Ainda assim não podemos chamar à maioria das pessoas de criminosos, embora tecnicamente o sejam. Entre o povo aumenta a sensação de que a proibição é responsável pela maioria dos nossos males, mas também cresce o número de pessoas que atua contra a lei.
Faz dezesseis anos que eu cheguei a Chicago com quarenta dólares no bolso. Três anos depois já era casado. Meu filho já está com doze anos, continuo casado e amo minha mulher. Nós tinhamos que viver, eu era mais novo e achava que precisava mais coisas. Não achava justo proibir ninguém que tentasse obter o que desejava. Achava, e continuo achando, a Lei Seca uma lei injusta. De alguma maneira fui encostando naturalmente na ilegalidade. E suponho que vou continuar até que a lei seja abolida.

Se eu não tivesse colocado essa manchete, caros leitores, vocês jamais teriam imaginado que o autor dessas declarações foi Al Capone, o mais famoso gangster de todos os tempos.
Esse texto é um fragmento da entrevista que concedeu a Cornelius Vanderbilt Jr. -da dinastia dos descendentes do magnata das ferrovias-; um mestre do jornalismo que chegou a quebrar uma vitrine para ser preso e poder entrevistar ao Hitler, que estava na cadeia, nos primórdios da sua atuação política.
Essa entrevista foi publicada na revista Liberty, apenas dias antes de Capone ser preso no processo por sonegação de impostos. Como é sabido, as autoridades não conseguiam provar suas atividades criminosas. Capone permaneceu preso nove anos e depois, ainda rico mas doente e sem poder foi morar numa mansão em Miami. Morreu aos 48 anos.
Em 1990 a reconstrução do seu processo mostrou que as provas com que ele foi condenado não ressistiriam um juízo na atualidade.

Fragmento da entrevista de Al Capone a Cornelius Vanderbilt Jr.
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Al Capone pescando em Palm Beach
Na segunda foto, de 1930, o local em Chicago onde Capone dava sopa e café de graça para os desempregados

domingo, 27 de julho de 2008

O samba de Clementina que virou música dos Parchis



Eram altas horas da madrugada quando, naquele zapping narcótico antes de dormir, me deparei com o filme argentino La gran aventura de los Parchis (1982), dirigido por Adrián Quiroga, pseudônimo do cineasta Mario Sábato, filho do reconhecido escritor Ernesto Sábato.
Parchis foi um grupo de crianças espanholas inventado como negócio de um verão só pela gravadora Belter, mas cujo sucesso estourou de tal maneira que foram três anos de Parchis até na sopa. Eu fui salvo de cair naquela febre porque na época já estava saindo do serviço militar e pronto pra ir pra guerra das Malvinas, o que felizmente depois não aconteceu.
Espremendo o sucesso, os garotos protagonizaram vários filmes. Esse um que peguei ontem foi filmado em Buenos Aires, Rio de Janeiro e as Cataratas do Iguaçu.
Quando a minha chupeta eletrônica foi dar com ele, os Parchis estavam prestes pra voar pro Rio. Aí larguei o controle remoto, com o perigo que a minha namorada acordasse, me flagrasse assistindo isso e fosse embora pra sempre.
É uma antiga afição minha descubrir esses links impensados entre Argentina e Brasil, mas o que aconteceu a seguir foi o mais bizarro dos achados. Como é típico desses filmes, as canções estão embutidas e de uma hora pra outra, no meio da trama sai todo mundo cantando e dançando. Assim foi como pareceu me reconhecer uma música no meio do sotaque espanhol das crianças que brincavam nas areias de Copacabana numa coreografia insofrível. Pois não era outra que o samba de morro Pergunte ao João, de Helena Silva e Milton Costa, popularizado pela nossa saudosa rainha Quelé, a Clementina de Jesus. O assassino da versão em espanhol -vejam a incoerência da letra- é um tal de M. Salina. E o resultado só vendo para acreditar.
Então, aqui está um fragmento da
música original interpretada por Clementina. Debaixo seguem as duas letras e a pérola é o clipe do filme onde os Parchis cantam Pregúntale a Juan.
Agora só me resta achar esse dvd que merece fazer parte da minha coleção.

Pergunte ao João

Quem quiser ver é só subir o morro
O samba mora no meu barracão
Pergunte ao João, ele sabe a picada
Ele sabe a morada
lá do meu barracão

Pregúntale a Juan

Si un día vas a Río de Janeiro
Subir al morro es todo tu afán.
Tú pedirás ambiente verdadero,
Y con Juancita te contestarán
Pregúntale a Juan, que está en el ambiente,
Conoce a la gente
y sabe hacer plan.
Pregúntale a Juan,
por bossa y por samba
Porque él, de la banda
es el capitán.