segunda-feira, 4 de maio de 2009

Uma foto e o dom de perdoar



Passou por Buenos Aires, Kim Phuc, protagonista de uma das cenas mais comoventes do século vinte, registrada pelo fotógrafo da Associated Press, Nick Ut.
A vida de Kim pendia de um fio quando Nick captou esse instante após um bombardeio de napalm, em Vietnã, em 8 de junho de 1972. Enquanto os colegas rebobinavam os rolos depois de tirar as primeiras visões do horror, Nick aproveitou que estava com quatro câmeras aquele dia e não parou de clicar.
Na redação da AP houve uma polêmica: publicação de nus eram proibidas expressamente. Mas o editor de fotografia Horst Faas fez questão de abrir uma exceção, enviou um telex para Nova York, onde o editor-chefe Hall Buell autorizou a publicação argumentando que o valor da notícia ultrapassava a reserva moral.
Conhecida inicialmente como "A menina do napalm", Kim foi salva pelo fotógrafo, que a levou para o hospital. Sobreviveu a 17 cirurgias em 14 meses de internação.
A história dela é cheia de reviravoltas. Foi morar na Cuba para estudar medicina, casou com um cubano e na volta da lua de mel na Rússia, eles desertaram e foram para Canadá.
Hoje é embaixadora da UNESCO, virou cristã e lidera uma fundação que leva seu nome e cuida das crianças vítimas das guerras.
Em 1996 foi para um ato em Washington e conheceu e perdoou John Plumier, o comandante do ataque à aldeia onde morava a família de Kim. No encontro religioso do sábado passado em Buenos Aires, ela disse:

- As vezes ainda sinto dores e carrego muitas cicatrizes, mas o coração está limpo. A fé e o perdão são mais poderosos que o napalm.

A trajetória do fotógrafo Nick Ut também está atravessada de significantes. Ele se tornou um fotógrafo por admiração: seu irmão mais velho era fotógrafo e morreu em Vietnã em 1965. O própio Nick esteve perto de morrer em três oportunidades durante aquela guerra.
Tinha vinte anos quando fez a famosa foto que ganhou o World Photo desse ano e o Pulitzer no ano seguinte.
Mas a dimensão testemunhal daquela imagem está para além dos prêmios. O próprio Nixon, diante da força da cena, tentou espalhar que tratava-se de uma montagem. É uma foto que exibe o valor do foto-jornalismo. Tanto que é considerada a chave que abriu a consciência dos cidadãos dos Estados Unidos para o desastre daquela guerra.
Nick vive hoje em Los Angeles e continua sendo um dos fotógrafos mais destacados da AP. Ainda conserva a Nikon e a Leica que usava na época.
Em certo sentido, a foto dele foi o começo do fim de Vietnã.





Foto de Vietnã de Nick Ut (1972)
Foto de Nick Ut em Vietnã da Agência AP (1972)
Foto atual de Kim Phuc e Nick Ut de David Burnett

9 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

quanto tipo de choro a gente tem dentro da gente? Choro toda vez que vejo aquela foto e hoje choro mais e diferente com a foto do fotógrafo e da fotografada.
Beijo de maria, cada dia mais chorona

Marcus Gusmão disse...

Sempre me surpreendo com a pouca idade do que vão à guerra. Está foto é a síntese do fotojornalismo. O rosto de horror do garoto à frente também diz tudo sobre aquele momento.

Érico disse...

muito lindo! e ja conhecia a foto, é marcante! parabens

Lafayette Hohagen disse...

Beleza de post!

Juan Trasmonte disse...

Marcus, na guerra de Vietnã é assustadora a média de idade dos soldados mortos.
Maria, é ainda comovente a imagem, a relação que eles mantiveram e a capacidade da mulher de perdoar depois de tanto sofrimento.
Agradeço a todos
abraços

Dori disse...

Não tem como não chorar ao ver esta foto e ler sobre o assunto mesmo depois de tanto tempo.

Érico disse...

olá Juan, vim agradecer por ter ido em meu blog, e fico feliz que gostou de lá. Também gostei daqui, e vou visita-lo sempre, e espero vê-lo mais vezes por la tambem! Tudo de bom, abraços

Don Oleari disse...

Juan, não tem como não concordar com o que disse Dori aí em cima. Continua uma cena imorredoura, comovente, muito sofrida.

Um grito contra qualquer guerra.
Saúdo-o e abraço o irmão pela extrema sensibilidade.

Abraço do Oleari.

mara* disse...

Comovente a generosidade de Kim, mas eu não perdôo o que fizeram com ela, como nunca perdoarei os crimes de Hiroshima e Nagasaki, cometidos pela maior nação terrorista de todo o planeta, os EUA, primeira e única nação do mundo a jogar bombas atômicas sobre civis.