quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Blog Action Day 2008 - Fome




O estômago vazio
não tem carne nem feijão nem nada
coca-light incenso alegria goiabada
o estômago vazio
é um buraco maior
que todos os buracos
qualquer dor é superior
no estômago vazio
pois nenhum sorriso vinga
naquele abismo negro
o surdo quando bate produz uma fisgada
a carne quando falta produz uma anemia
o amor quando vem forte parece uma pedrada
é uma cesta básica sem base nem sustento
um gesto generoso que se apagou no vento
a máquina que já não mais escreve ninguém usa
se não usar o estômago apodrece mofa fede
o estômago funciona movido na paixão
na música ou comida mas com ideias não.

Estômago vazio, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Prematurity, foto de Brian Smistek


Hoje é o Blog Action Day 2008. Blogueiros do mundo todo fazemos postagens com um mesmo assunto de interesse comum.
É bom também lembrar hoje o brasileiro Josué de Castro no ano do seu centenário. O pernambucano médico, antropólogo e economista consagrou sua vida ao estudo das causas endémicas da fome no Brasil e no mundo. Seus livros Geografia da fome (1946) e O livro negro da fome (1957), foram pioneiros na matéria. Infelizmente, as palavras dele estão vigentes ainda hoje.

Só através de uma estratégia global de desenvolvimento, capaz de movilizar todos os fatores da produção em favor da coletividade, poderemos eliminar o sub-desenvolvimento e a fome da face da terra.

Josué de Castro

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Dez grandes psicopatas do cinema


Harvey Keitel como Frankie Thorn em Bad Lieutenant


O iluminado Jack Nicholson


Magistral Michael Rooker em cena de Henry


Anthony Perkins, o dono do Bates Motel

1. Norman Bates (Anthony Perkins), em Psicose (Psycho), de Alfred Hitchcock (1960)
2. Alex DeLarge (Malcolm McDowell), em Laranja Mecânica (The Clockwork Orange), de Stanley Kubrick (1971)
3. Henry (Michael Rooker), em Retrato de um assassino(Henry, Portrait of a serious killer), de John McNaughton (1986)
4. Anne Marie Wilkes (Kathy Bates), em Louca obsessão (Misery), de Rob Reiner (1990)
5. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), em O silêncio dos inocentes (The Silence of the lambs), de Jonathan Demme(1991)
6. Juliet Marion Hulme e Melanie Lynskey(Kate Winslet e Paulina Yvonne Parker), em Almas Gêmeas (Heavenly creatures), de Peter Jackson (1994)
7. Leatherface (Gunnar Hansen), em O massacre da serra elêtrica (The Texas Chainsaw massacre), de Tobe Hooper (1974)
8. Tommy DeVito (Joe Pesci), em Os bons companheiros (Goodfellas), de Martin Scorsese (1990)
9. Frank Booth (Dennis Hopper), em Veludo azul (Blue velvet), de David Lynch (1996)
10. Jack Torrance (Jack Nicholson), em O iluminado (The Shinning), de Stanley Kubrick (1980)

Bonus track: Lieutenant Leuy (Harvey Keitel), em Vício frenético (Bad Lieutenant), de Abel Ferrara (1992)

Os críticos catalães Jordi Batet e Rafael Dalmau acabam de publicar o livro Psicópatas en serie, onde fazem uma coletânea dos cinqüenta maiores psicopatas do cinema.
Antes de procurar maiores informações sobre o livro, resolvi fazer o meu próprio top ten, ou listar os primeiros dez que vieram à minha cabeça.

domingo, 12 de outubro de 2008

Cartola - 100 anos


...Tem muitas músicas que eu esqueci... que naquela época não existia gravadora e a gente fazia aquilo de decorar, decorar, decorar até... e as vezes só de decorar acabava esquecendo... As vezes era um amigo meu, um conhecido mesmo que dizia:
- Você se lembra desse samba assim... assim?
- Não, de quem é?
- É seu.

Extrato de depoimento de Cartola, com Aluízio Falcão, na Rádio Eldorado de São Paulo, em 1979
Foto de Cartola -de autor não creditado- na década de cinqüenta, servindo café, na época em que trabalhava como contínuo no Ministério de Industria e Comercio

sábado, 11 de outubro de 2008

A inesperada


O corpo da inesperada
atravessa minha cama quieta
a Roma emudeceu
e no silêncio a tarde bateu as botas

leves sejam as palavras que me tocam
como me toca o pé da inesperada
os fuzileiros não precisam de espantalho
os cachorros não precisam de agasalho
está na pele o terceiro mandamento
e no andamento do samba
está o silêncio
que fez morrer a tarde
e faz tremer o nada
no abraço da inesperada.

A inesperada, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de hannamonika

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A cantora Saba traz a diáspora africana na voz


A casa de Saba, de grandes janelas, dava para o mar e tinha um morro nas costas. Era uma pequena vila em Somália. Ela lembra que atrás do morro começava o deserto de terra vermelha e que havia palmeiras na praia.
Quando a maré baixava ela saia com sua mãe e sua irmã caçula para andar na areia. Saba era nascida em Mogadíscio e a mãe que lhe contava histórias no luar, em Etiópia.
O pai de Saba era um italiano que tinha por lá uma agência de turismo. Ela tinha cinco anos quando a coisa ficou feia. Somália era uma colónia italiana e por ciclos não se dava bem com Etiópia.
Um italiano casado com uma etíope na Somália? Só podiam ser espiões, ele dos Estados Unidos e ela da Etiópia. Uma noite foram pegar ele na casa. Apesar de que só tinha cinco anos, Saba lembra muito bem da angústia dessas horas. O pai foi solto, mas o casal e as duas filhas tiveram dois dias para abandonar Somália e ir pra Itália.
As pessoas são o resultado da própria trajetória. Saba compõe e canta suas músicas na língua materna, um dialeto somali falado num setor de Mogadíscio. A obra dela está atravessada pelo choque e pelo encontro cultural entre a Africa e a Europa.
Seu álbum Jidka (The line) é definido por ela como a linha que divide seu ventre em dois partes, uma clara e outra escura. Mas é impossível não associar à palavra ao seu outro significado, que é fronteira. Porque Saba, essencialmente, pratica um retorno à terra da sua infância e mescla isso com os sons que vieram depois. Vejam que lindo.

Foto de Saba no estúdio com seu antigo parceiro, o camaronês Tatè Nsongan, que também tem um historial de trabalho musical na busca de conexão entre culturas

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Enquanto isso, Wikipédia "mata" Le Clézio

Quando a França da cultura milenária e os quatorze Prêmios Nobel de Literatura comemorava mais um, alguém resolveu matar Le Clézio na Wikipédia. Confiram a matéria que escrevi sobre o assunto no Blogueiro Reporter

Le Clézio


Durante anos eu não conheci outra coisa que não fosse o pequeno quintal da casa e a voz de Lalla Asma gritando meu nome: «Laila!». Como eu disse, não sei qual é o meu verdadeiro nome, mas tenho me acostumado com o que me pôs minha senhora, como se fosse o que minha mãe escolheu para mim. Mas também penso que algum dia alguém vai me chamar pelo meu verdadeiro nome e que então me estremecerei e o reconhecerei.
Lalla Asma também não era o verdadeiro nome da minha senhora. Ela chamava-se Azzema e era judia espanhola. Quando explodiu a guerra entre os judeus e os árabes, no outro extremo do mundo, ela foi a única que não abandonou o Mellah. Ficou trancada atrás da grande porta azul e se recusou a sair. Até que uma noite eu cheguei e tudo mudou na vida dela.
Eu a chamava as vezes de «senhora» e outras de «vó», porque ela foi quem me ensinou a ler e escrever em francês e em espanhol, me iniciou no cálculo e na geometria e me transmitiu as bases da religião -a dela, na que Deus não tem nome, e a minha, na chama-se Alá-. Ela lia para mim passagens dos seus livros sagrados e me ensinava tudo que eu não devia fazer, como assoprar sobre o que a gente vai comer, por o pão virado ou limpar as partes íntimas com a mão direita. Ela me dizia que há de se dizer sempre a verdade e lavar todos os dias dos pés à cabeça.
Em troca, eu trabalhava para ela da manhã até a noite no quintal, passando a vassoura, cortando lenha para o fogão ou lavando roupa. Eu gostava muito de subir no teto para estender a roupa: de lá eu via a rua, os tetos das casas vizinhas, as pessoas que passavam, os carros e inclusive um pedaço do grande rio azul. Desde lá os ruidos pareciam-me menos terríveis. Eu achava que estava fora do alcance de todos.
Quando ficava muito tempo no teto, Lalla Asma gritava meu nome desde o grande quarto cheio de almofadas onde ela ficava o dia inteiro. Me dava um livro para que eu lesse ou bem fazia ditados e me perguntava coisas das lições anteriores.
Como recompensa, me deixava ficar com ela na sala e colocava os discos dos seus cantores preferidos: Um Kalsum, Said Darwich, Hbiba Misika, e especialmente Fayruz, com voz grave e rouca dele, e a formosa Fayruz Al Halabiyya, que canta Ya Kudsu. Toda vez que ela ouvia o nome Jerusalém, Lalla Asma começava a chorar.

O peixe dourado (Poisson d'or, 1999) (fragmento), de Jean-Marie Gustave Le Clézio, prêmio Nobel de Literatura 2008, escritor do desarraigamento que se diz orgulhosamente metade francês e metade da Ilha Maurício; e que sustenta que o romance é "o melhor sistema para entender o mundo"
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Le Clézio da Agência AFP

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Supertramp e a mulher tatuada



Sempre tive a impressão que Supertramp foi uma banda sub-valorizada. Que teve seu sucesso reconhecido -embora sempre maior nos Estados Unidos que na própria Inglaterra- mas que os elogios para sua obra foram cautelosos.
Eles estouraram na mídia com o album Crime of the Century, que tinha o hit Dreamer. Mas eu era fissurado por School, com aquela levada de piano e a bateria segurando o ritmo.
Como na época eu já era catador, fui atrás de outros discos da banda inglesa. Não bastava com sentar no Google e procurar um link para fazer download, porque não havia Google. O lance era esperar que alguém viajasse para os Estados Unidos ou Europa, que também não era coisa de todos os dias ou procurar em alguma das pouquíssimas lojas de importados.
Um dia em uma festa reconheci a voz de Roger Hodgson cantando uma música que eu não conhecia. Cheguei perto do DJ, que confirmou que tratava-se de Supertramp e me mostrou essa capa que vocês vêem aqui.
Minha primeira reação foi olhar para os lados, pois capas com imagens de nus eram proibidas na época da ditadura militar. Depois senti estranheza e curiosidade. Não havia exuberância naquele corpo para despertar minha febre adolescente, mas era um torso completamente tatuado e isso na segunda metade dos anos setenta também era uma raridade: tatuagens eram reservados para marinheiros, presos e bandas de motoqueiros como os Hells Angels que só apareciam nos filmes. O que aconteceu no meio está difuso nas linhas do tempo, mas eu imagino que foi uma encheção de saco monumental até conseguir que os meus pais me dessem a grana para comprar os discos. Sim, porque eu acabei comprando Indelibly Stamped e o primeiro Supertramp – The Early Years, importados, imagino que por um preço absurdo de caro.
O sucesso do Indelibly stamped, album lançado em 1971 e relançado em 1977 quando o grupo se deu bem, era Rosie had everything planned (A Rosinha tinha tudo planejado, um título que cairia como uma luva para uma ex-governadora do Rio de Janeiro) mas eu gostei de cara de outra, Travelled, com seu refrão

And though I try to be a good man,
I just know that I'll be losing very soon
And there are times and there are motions,
when I do believe I'm going out of tune.

And though I try to be a good man,
I keep finding there's no where to begin
And so I think I'll go on singing,
and in time I hope that we can all join in.


Eu ficava horas sentado na poltrona da sala ouvindo aquela música. Pois é, na época também as pessoas sentavam para ouvir música e só, você não ouvia música enquanto fazia qualquer coisa.
Só para registro: depois do Indelibly Stamped todos os membros da banda se demitiram, exceto Rick Davies e Roger Hodgson, as dívidas ultrapassavam fartamente os ganhos, mas os dois decidiram ir em frente com Supertramp, procurando o destino, como se essa letra que está aqui fosse premonitória. Depois entraram os novos membros (Dougie Thompson, John Helliwell e Bob C. Benberg), a banda continou do jeito que Hodgson queria, com dois vocalistas principais. Então eles conheceram o produtor Ken Scott (esse é o cara) e chegou o sucesso. A mulher da foto da capa resultou ser Rusty Skuse, freqüentadora do Livro Guiness como a mulher mais tatuada do Reino Unido. A Rusty, uma lenda do tatoo, subiu o ano passado.

Foto reprodução de capa do disco de Supertramp Indelibly Stamped, de 1971
Foto da banda do interior da capa, na reprodução para a edição em cd