quinta-feira, 30 de outubro de 2008

E um dia a democracia voltou


Quem já atravessou ditaduras sabe que a pior democracia é mil vezes melhor que a melhor ditadura.
Hoje fazem 25 anos da reinstauração da democracia na Argentina.

Foto da Avenida 9 de julio em 30 de outubro de 1983 do jornal La Nación

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Serge Gainsbourg 80



O ano está quase jogando a toalha e na França continuam as homenagens a Serge Gainsbourg. É porque o eterno Gainsbarre teria feito 80 anos em abril desse 2008.
Considerado o artista francês do século vinte por excelência, e por rebeldia, e por atitude e por ser francês até o osso.
No finalzinho de 2007 foi lançado o Dictionnaire Gainsbourg, onde Jean-William Thoury coleta o universo do escritor, cantor, cineasta, ator, poeta e bebum. Já em 2008, o desenhista Joann Sfar anunciou o início das filmagens do biopic Vie heroïque. E na Cité de la Musique, em Paris, com a presênça da amada Jane Birkin e a filha Charlotte, começou a mostra Gainsbourg 2008, o panorama definitivo sobre a vida e a obra do artista que inclui instalações, manuscritos, sons e muitas das melhores fotografias da figura.

Foto de Serge Gainsbourg na banheira de Xavier Martin
Foto de Serge Gainsbourg com câmera de Pierre Terrasson
E finalmente, Serge Gainsbourg convida Whitney Houston pra fazer a porcaria

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Carybé por Amado



Em 1938, há quase quarenta anos, Carybé (Héctor Bernabó), aportou na Bahia, vinha carregado de índios, sombreros, tangos. Na opinião de várias senhoras da zona do Maciel, era um janota elegantíssimo, trajava polainas, colete e paletó lascado atrás, moda audaciosa na época. Um inquieto em busca de sua pátria perdida, do chão de sua sensibilidade, de seu porto de abrigo, de seu lar. Onde a terra verdadeira desse cidadão brasileiro nascido em Buenos Aires, adolescente no Rio, jovem artista na Argentina, aventureiro nos caminhos da Bolívia e do Peru, na selva do Chaco, biscando e buscando-se? Eis que chega à Bahia, a seu sol, a seu mar, a seu azul mágico, à sua mistura. Deslumbrado, descobre o chamego, o dengo, a magia. Nos quarenta anos decorridos a partir do momento solene do encontro do artista com seu chão, com sua pátria, com seu lar, Carybé plantou raízes tão fundas na terra baiana como nenhum cidadão aqui nascido e amamentado. Bebeu avidamente essa verdade e esse mistério, fez da Bahia carne de sua carne, sangue de seu sangue, porque a recriou a cada dia com maior conhecimento e amor incomparável.
Em sua casa de Brotas, existe um quadro antigo pintado por Carybé logo após o desembarque na terra baiana, naqueles idos de 1938. É uma tela de grande beleza -o enterro de uma puta, na zona- onde esplende uma Bahia de súbito revelada mas não possuida em suas entranhas: ei-la misturada de espanholismos, com pedaços de Gardel e cores índias do Altiplano, uma Bahia que o artista apenas antevia na hora comovida da descoberta.
Esse mesmo tema da Bahia popular na hora cruel do enterro da moça meretriz, no instante da dor desatada na ladeira, Carybé o retomou recentemente, num grande quadro hoje de propriedade, se não me engano, do Museu da Manchete: límpida Bahia em sua mistura fundamental, completa e perfeita, despida dos acréscimos que o artista e filho pródigo trouxera em sua jovem alma vária e inquieta. Agora são uma única realidade, a terra e o criador, a inspiração e a obra realizada: nesses quarenta anos Carybé se fez não apenas o grande mestre baiano, mas o cidadão baiano por excelência.
Sua obra nos engrandeceu, deu-nos maioridade artística. A Bahia, ao mesmo tempo, fez dele, o grande mestre do desenho, da pintura, da escultura. Artista principal da Bahia, dela nasce todas as manhãs e todas as manhãs a recria em sua beleza, em seu mistério, em toda sua verdade.
Outro dia um jornalista lhe-perguntou:
- Onde o senhor nasceu, seu Carybé?
- Nas Sete Portas, minha filha -respondeu.
Nasceu ou renasceu, que importa?

Mestre Carybé, de Jorge Amado, do livro Bahia de Todos os Santos - Guia de ruas e mistérios, publicado em 1945


Reprodução do óleo Bahia, de Carybé (1971)
Foto de Pierre Verger, Jorge Amado e Carybé, de Zélia Gattai (Fundação Casa de Jorge Amado)

domingo, 26 de outubro de 2008

O outro lado do lado


A cidade de Bernardo de Irigoyen, na província de Misiones é o extremo oriental da Argentina. Com seus sete mil habitantes é como toda cidade de fronteira, um misto de línguas, culturas e moedas.
Do outro lado, na chamada Fronteira seca, as cidades brasileiras de Barracão, Paraná, e Dionísio Cerqueira, Santa Catarina.
A prosperidade desses últimos anos dos cidadãos de Irigoyen, sustentada pelo câmbio favorável está ameaçada agora pela loteria dos Estados Unidos.
Todos os dias, centenares de brasileiros atravessavam a fronteira para encher os carros de comida e os tanques de gasolina. Com a desvalorização do real a viagem não compensa mais.
Uns e outros estão lascados. De um lado perderam poder de compra e do outro os comerciantes demitem funcionários e olham para a fronteira parados nas portas das lojas, entre o tédio e a angústia, esperando algum milagre acontecer.

Foto de Carlos VP da fronteira entre Argentina e Brasil na cidade de Bernardo de Irigoyen, Misiones. Do lado esquerdo é Brasil, do lado direito, Argentina

sábado, 25 de outubro de 2008

Dez músicas sobre exílio


Cat Stevens


Jaime Roos


Horacio Guarany


Manu Chao


1. Iracema (Chico Buarque)
Uma moça do Ceará que, como tantas, vai atrás do american dream. Exílios modernos que freqüentemente já não são por motivos políticos mas por ilusões, as vezes vãs, de prosperidade financeira. Iracema “lava chão numa casa de chá” enquanto ambiciona estudar canto lírico. Destaque: “Uns dias, afoita,me liga a cobrar: ‘É Iracema da América’ ”.

2.Clandestino (Manu Chao)
Essa música virou hino dos “sem papeis”, a enorme masa de exilados que tem que sobreviver em terra estrangeira fugindo das autoridades. Para quem já esteve em algum lugar pelo menos um dia com o visto vencido faz um significado especial. Destaque: “Soy una raya en el mar, fantasma en la ciudad. Mi vida va prohibida, dice la autoridad”

3.Corrandes d'exili (Quadras do exílio) (Pere Quart-Lluís Llach)
Um catalão da resistência deve atravessar a fronteira com a França nos tempos da ditadura franquista. De uma beleza comovente, como só o Lluís Llach consegue cantar nessa língua. Deixo a versão de Ovidi Montllor (que não é o compositor como diz na tela), num clipe pavoroso Destaque: “Para que nos-perdõe a guerra que a quebra eu me deito e beijo a terra, antes de cruzar a fronteira”

4. Maria Bethânia (Caetano Veloso)
História que o próprio Caetano contou inúmeras vezes. Da época do exílio londrino, quando pediu em forma de canção para a irmã Bethânia que lhe-escrevesse uma carta. Destaque: “Maria Bethânia, please send me a letter I wish to know things are getting better”

5. Foreigner Suite (Cat Stevens)
Uma música de amor e liberdade composta por alguém que sabe bem do que está falando. Lembrei dessa música por causa do belíssimo retrato que Regina escreveu sobre Cat Stevens há poucos dias. O atual Yusuf foi na época pra Jamaica para fazer esse disco que não foi bem recebido pela crítica, com essa suite que durava o lado A inteiro, na época em que o que se esperava dele era belas melodias de três minutos. Destaque: “Why wait until it's your time to die before you learn what you were born to do?”

6. Un español habla de su tierra (Luis Cernuda – Paco Ibáñez)
Maravilhoso poema do grande Luis Cernuda, musicado pelo também grande Paco Ibáñez. A ditadura de Franco, que desterrou a tantos e que pareceu eterna em seus quarenta anos. Destaque: “Amargos son los días de la vida, viviendo sólo una larga espera a fuerza de recuerdos”.

7. Caballo que no galopa (Horacio Guarany)
E assim como muitos espanhóis vieram pra Argentina nos anos de Franco, ná década de setenta foi a vez de muitos argentinos procurarem abrigo na Espanha. O cantor de folclore Horacio Guarany, perseguido e ameaçado de morte, fez várias músicas dolorosamente belas na Espanha, algumas com letra do poeta também perseguido Armando Tejada Gómez. Uma declaração explícita de política de quem opta por estar longe antes do que “vender” seu violão. Destaque: “Soy jinete de la noche, voy galopando hacia el alba, ando lejos de mi tierra por no vender mi guitarra”.

8. Exile (Geoffrey Oryema)
A obra toda do cantor e compositor ugandês Geoffrey Oryema está atravessada pela dor do exílio. A Uganda do Idi Amin cobrou, entre muitas, a vida do próprio pai de Geoffrey. Foi o início de um longo desarraigamento. Destaque: Bom, se tiver algum ugandês na área que ajude a traduzir a letra, eu agradeço.

9. Los olímpicos (Jaime Roos)
Como todo pais pequeno, o Uruguai tem destino de criar seus filhos e vê-los irem embora. Essa belíssima música de murga carnavalesca, que identifica a tantos uruguaios que moram no estrangeiro, está focada perto das festas do final do ano, datas especialmente difícis para exilados. Já com a perspectiva dos ensaios do carnaval o autor se interroga sobre onde foram parar tantos uruguaios. A música destaca também essa zona cinza onde já nem voltar nem ficar fazem sentido. Destaque: “Volver no tiene sentido, Tampoco vivir allí, El que se fue no es tan vivo, El que se fue no es tan gil”

10. Cuando me acuerdo de mi país (Patricio Manns)
Depois da queda de Salvador Allende, o Chile suportou a mais cruenta ditadura da sua história. Patricio Manns foi um dos artistas populares que melhor expressou essa mistura de dor e raiva que está no dia-a-dia dos exilados por motivos políticos. Versão belíssima de Mercedes Sosa, que mudou na gravação do disco o verso “desperto fuzil” por “desperto cravo”. Destaque: “Cuando me acuerdo de mi país me muero de pan, me nublo y me doy”.

Bonus track: Volver (Carlos Gardel-Alfredo Lepera)
No final do filme El día que me quieras, Gardel canta Volver. O filme foi lançado em 1935, pouco depois da trágica morte do cantor. Os lindos versos de Lepera -responsável pelas letras de muitos sucessos de Gardel- refletem a dor de quem volta para constatar que nada será como antes. O verso “veinte años no es nada” ficou no imaginário popular argentino a até hoje é dito como metáfora da rapidez do passar do tempo.

Vocês sabem que o que eu chamo de vida estrangeira é um dos assuntos centrais desse blog. Então aqui uma lista com algumas músicas que expressam os sentimentos de tantas pessoas que cada dia abandonam a terrinha. Se alguém precisar de tradução para as frases em espanhol, é só gritar. Como eu sempre digo, a ordem das músicas listadas não indica valor.

Foto de Cat Stevens do arquivo da revista Rolling Stone
Foto de Jaime Roos do jornal El País
Foto de Horacio Guarany do jornal Clarín (maldito costume que têm esses jornais de não colocar o autor da foto)
Foto de Manu Chao de Alexa Brunet

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O lado Afro da Argentina


Entre 26 e 28 de outubro serão realizadas pela segunda vez em Buenos Aires as jornadas culturais Argentina también es Afro.
O encontro começa com uma clínica de tambores ministrada pelo Ilê-Aiyê e um toque pelo bairro de San Telmo, que concentrou no passado a maioria de habitantes de raça negra da cidade. Haverá palestras sobre a influência afro na cultura argentina, racismo, história e religiosidade. Além do tradicional bloco baiano estarão presentes também o professor Nilo Rosa dos Santos e a licenciada Lindinalva Amaro Barbosa, omorixá oyá do Terreiro do Cobre da Nação Ketu.
Acontece no Centro Cultural Caras y Caretas, na rua Venezuela 370 e no Museo Juan Domingo Perón, na rua Austria 2593.

Foto de baiana do Ilê-Aiyê de Adenor Gondim

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Aos pés do congar


Não é que eu não percebo as coisas
eu percebo as coisas
mas deixo acontecer
vejo os dentes derruídos
o canibal mexicano
as mãos apertadas
o demónio no olhar
Babilônia tá bombando
Mãe de Aruanda
estou aos pés do congar
porque eu percebo as coisas
vejo culpa porque vejo
vejo sangue olho cego
vejo flash férula fé
um deserto em Mauritânia
eu não mereço você.

Aos pés do congar, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto minha do congar da sala, onde meu pai Oxossi cuida do Poetinha e de Dorival

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Nick Walker, mestre do stencil








Surgiu na revulsiva cena artística de Bristol, na Inglaterra de Margaret Thatcher do começo dos anos oitenta. Os graffitis provocadores do britânico Nick Walker foram da rua para os museus. Especializou-se na técnica do stencil e embora suas obras já são vendidas por fortunas, ele continua realizando intervenções -as vezes modificando as próprias obras na linha da arte evolutiva- e deixando sua marca na arte de rua, como ele gosta, à beira do vandalismo.

Moona Lisa, intervenção em rua de Los Angeles (2007) e The morning after, obras de Nick Walker