quinta-feira, 3 de julho de 2008

Mornos cuspidos por Deus


Primeiro recorte que corta
o curto ínfimo
o lado menos belo do meu ser
você arranca
e joga meu verso
em cima do papel
feito um pedaço de carne meu
na mesa fria do açougue
entre perna e coração.
Tinha tantos outros cortes
no meu texto esquartejado
mas você recortou por primeiro
o sadismo que eu despi
feche as obras completas de Freud
e escreva de novo pra mim
esse corte que corta é um véu
que me faz mais humano talvez

agora que posso ser
um sádico também
você vai me querer?

mornos cuspidos por deus
mornos cuspidos por deus
distância morna foi aqui
mornos você e eu.

Mornos cuspidos por Deus, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto "Weeki wachee spring", de Toni Frissell

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Segura a marimba!


A minha alegria atravessou o mar
E ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante
No maior show da Terra
Será
Que eu serei o dono dessa festa?
Um rei
no meio de uma gente tão modesta
Eu vim descendo a serra
Cheio de euforia para desfilar
O mundo inteiro espera
Hoje é dia do riso chorar
Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar
Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá (eu levei)
Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar
Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá
Acredito
Acredito ser o mais valente
Nessa luta do rochedo com o mar
E com o mar...
É hoje o dia
Da alegria
E a tristeza
Nem pode pensar em chegar
(Diga espelho meu!)
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu

É hoje, samba enredo de Didi e Mestrinho de 1981

Hoje foi embora Aroldo Melodia, eterno intérprete da Escola de Samba União da Ilha do Governador, que estreou esse samba na avenida. É um ano terrível em que já perdemos dois baluartes enormes entre os intérpretes do carnaval carioca de todos os tempos.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Deixemos o vento falar


Quando considero cuidadosamente os curiosos hábitos
dos cachorros
estou obrigado a concluir
que o homem é um animal superior.

Quando considero os curiosos hábitos do homem,
eu confesso, meu amigo, que me surpreendo.

Meditatio, de Ezra Pound
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Ezra Pound no túmulo de James Joyce, de Horst Trappe


Escolhido em 1999 pelos seus colegas como o maior poeta do século vinte, Ezra Pound foi o farol da vida literária na Europa por muitos anos.
Seu provinciano Idaho de nascença ficou pequeno e lá foi ele com seu amigo TS Eliot para NovaYork primeiro e para o Velho Mundo depois.
Pioneiro do verso livre, ultrapassou os limites estabelecidos sustentado nos seus imensos conhecimentos literários. Teimoso até o messianismo e generoso como ninguém nessa fogueira de vaidades, influenciou e ajudou a Joyce, Hemingway, Stein e Yeats, entre muitos.
Seu desprezo pelo poder financeiro foi tão radical como exóticas suas teorias económicas. Assim acabou envolvido no fascismo em longas arengas na Radio Roma.
Tarde demais para ser chamado de traidor por suas -como eles gostam de dizer- "atividades anti norteamericanas", o poeta foi declarado maluco e enviado pro louqueiro mesmo, onde passou muitos anos. Mas nem tantos como os quarenta que levou para escrever seus Cantos, esse doce fracasso.
E no final ficou quieto, em silêncio. Foi quando disse a célebre frase "Deixemos o vento falar".
Mas não há nem haverá nenhuma correção política que possa apagar a chama criativa do velho Ezra.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Saudades da Casseta Popular


Na mira do Mark


Coluna musical de Mark Chapman

Sai, sai baião:
O conhecido compositor baiano Voraz Bobeira, erradicado do Rio há varios anos, regravaráo grande sucesso do Dorival Cahymen "Eu já vou tarde para Maracangalha eu vou". Trata-se de uma singela homenagem ao velho mestre, autor do grande sucesso "O velho e o mar".

De canudinho:
Bola branca para Narina e Seca Pacotinho, cada vez mais eufóricos com suas brilhantes carreiras. É isso, galera.

No Estaleiro:
Internados esta semana, juntos e ao vivo, o tecladista Wagner Tísico e a cantora Mama Cayndo. Tossindo muito, Wagner me confessou que não tem tido tempo pra cuspir. Enquanto Mama se submetera a uma cirurgia plástica que poderá mudar seu nome.

Muita areia no caminhãozinho:
Nilton Maiscimento e Roberto Menoscal estão acertando as bases para a regravação do hit "Construção". Vai ser de abalar as estruturas da MPB.

Saudosa maloca:
Preso em flagrante na boca da Rocinha, compositor e cantor alagoano Déjàvu. Na caçapa do camburão ele declarou, revoltado: podes crê, amamê, jererê, matinê.

"Ringo não morreu, mas Lennon eu não tenho dúvidas"
Mark Chapman

Publicado em junho de 1988, no número 11 da Almanaque Casseta Popular

Os anos oitenta foram brilhantes para o humor gráfico brasileiro. Hoje encontrei uns exemplares com cheiro de papel velho do Casseta Popular, do Planeta Diário, do Chiclete com Banana e outros mais. Ri muito revisitando aquelas páginas que sobreviveram a muitas mudanças minhas e outras do mundo. Já se passaram mais de vinte anos desde que os Cassetas e os outros daquela geração trouxeram para o Brasil uma nova maneira de fazer humor.
Conheci primeiro o Planeta. Ele foi me apresentado por amigos nas minhas viagens de férias. As coisas boas permanecem. Ainda conservo alguns desses exemplares e quase todos daqueles amigos.

domingo, 29 de junho de 2008

A integridade de Miguel Cantilo


Figura lendária do rock argentino, Miguel Cantilo tem uma virtude que poucos podem exibir nesses tempos de troca-troca: a coerência.
Criador de muitas músicas que fazem parte do imaginário coletivo de várias gerações, algumas delas compostas há mais de trinta anos, são de uma vigência assustadora. Localizado na etiqueta limitativa de "cantores de protesto", primeiro com o duo Pedro y Pablo e depois na sua carreira solo, construiu um exemplo de integridade.
Nos tempos do peace and love falava disso, da volta à vida natural e das mazelas do poder. E hoje que o mundo está mais volúvel ou, para usar um termo na moda, mais líqüido, ele fala de que? Dos mesmos assuntos.
Ontem Miguel depois de mais de um ano sem tocar na cidade, deu um show em Buenos Aires com sua banda povoada de jovens -entre eles dois dos seus filhos- e uma seleção de roqueiros convidados da pesada daqueles tempos: Alejandro Medina, Kubero Díaz -que por sinal tem uma filha carioca da sua fase em Búzios-, Juan Rodríguez e o genial flautista Mono Izarrualde.

Confesso que eu estava lá porque fiz a produção do show, porque as vezes, as coisas queridas que estão nas lembranças, prefiro que fiquem por ali mesmo. Já vi muitos admirados da minha adolescência desabar na decadência. Mas agradeço a oportunidade que o trabalho me deu de poder ter assistido a essa comprovação de uma trajetória sustentada na obra e nos fatos.

Miguel, que ja foi chamado de Enrique Santos Discépolo -poeta mor do tango- do rock, também pode ser chamado de ingénuo pela sentença da história. Mas entre os ingénuos e os que trocaram a ingenuidade pelo cinismo, eu ainda fico com os ingénuos.

A volta dos guerreiros do MIDI


Depois de três anos sem publicar uma obra, o Asian Dub Foundation está de volta. O lançamento de Punkara, gravado em 2007 mas que havia sido lançado só no Japão, tem sua edição europeia anunciada para outubro.
Mestres do dub e do ragga e criadores de um trabalho social sério, longe dos holofotes, eles abriram caminhos para a integração dos imigrantes asiáticos e seus descendentes na Inglaterra. Chamados de "Guerreiros do MIDI", eles não fazem brincadeirinha. Pandit G, um dos fundadores do sound system, rejeitou a Ordem do Império Britânico porque, melhor do que premiar é fazer.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O sonho de Ibrahim


O projeto do Buena Vista Social Club, criado por Ry Cooder e depois filmado por Wim Wenders, deu projeção internacional para vários artistas cubanos excelentes. O caso emblemático foi o de Ibrahim Ferrer porque ele tinha caído no esquecimento até na ilha.
Cantor de orquestras em casinos e teatros, Ibrahim teve antes de subir a oportunidade de ser conhecido e reconhecido pelo público. Conseguiu gravar seu primeiro disco solo e depois cumprir o velho sonho de gravar um disco só de boleros, ritmo cubano por excelência, com as músicas que ele mais gostava de cantar na noite.
Publicado agora, Mi sueño acabou sendo sua obra póstuma. Ibrahim não assistiu ao resultado, mas o sonho já estava cumprido.

Foto de Youri Lenquette

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Lembrança de Michel Simon


Fim do dia
pra onde é que vai a vida
minha vida
no fim do dia
será que vem o boi da cara preta
será que não vou mais estar aqui
quando outro dia amanheça
ora se ela for embora agora
fim do dia
o céu está ficando mais escuro
escuto os aviões estão partindo
as árvores mais quietas
do que antes
a pele está mais seca
do que hoje
um cheiro de suor passou na esquina
fim do dia
e as luzes não acendem
fim do dia
pra onde vai a vida
minha vida.

Lembrança de Michel Simon, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto do filme La fin du jour, de Julien Duvivier. Na cena, Michel Simon e Louis Jouvet