sábado, 31 de maio de 2008

Alberti no Paraná




Foram vinte e quatro anos de exílio na Argentina os vividos pelo poeta espanhol Rafael Alberti, depois da revolução franquista. Dessa fase ficam muitas lembranças e uma abundante obra. O poema "Canción 8" pertence ao "Poemas y canciones del Paraná". Essa é a reprodução da versão caligrafada pelo autor.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A extremista Janeane


"A única coisa que lhe-interessa a Hollywood é saber se você ficou velha ou gorda".


Definição da atriz Janeane Garofalo que, pelas suas idéias e a sua posição contrária à atuação dos Estados Unidos no Iraque, é chamada por lá de liberal, ou seja, para o pequeno arco político deles é quase uma extremista.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Chesterton, a imprensa e a lei


Eu não negaria uma entrevista nem sequer a um jornal de propriedade de um desses milhonários capitalistas que detesto. Hoje em dia a imprensa só se faz eco dos poderosos. Seu verdadeiro objetivo deveria ser oferecer ao público a oportunidade de expor os seus pontos de vista.
Bem, de que quer que eu fale agora? Tenho disposição para lhe-oferecer minha opinião sobre qualquer assunto, mesmo se eu não souber nada a respeito.
Eu não sou um imperialista no sentido moderno do termo; a única teoria do imperialismo que acho sólida é a de Dante. Ele defendia o Império romano como o melhor governo humano, sobre a base incontestável de que o melhor governo humano provavelmente crucificaria Deus. César tinha que respeitar as leis porque Cristo tinha que morrer nas mãos da lei.

Esse monólogo é a introdução que o escritor, poeta e teólogo Gilbert Keith Chesterton fez quando foi entrevistado pelo jornalista e biógrafo Hugh Lunn, em 1912.
Conhecido pelas histórias de detetives em série protagonizados pelo personagem do padre Brown, G.K. foi um ensaísta polêmico, estudoso de São Francisco de Assis e também tomista. E retratado por Lunn nessa entrevista como um homem desencantado por baixo da aparência afável.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Lembrar Newton Mendonça é justo e necessário



Briga nunca resolveu
Não adianta chorar
O nosso amor não morreu
Podes voltar, deves voltar
O meu amor foi sincero
Talvez sincero demais
Se eu fingisse ninguém saberia
O que a verdade me faz
E quando o dia amanhece
Fico a lastimar
Na noite em que não dormia
Passei a chorar, a chorar
Se é verdade que o amor ilumina
Nossas vidas sem luz sem calor
Eu repito baixinho, baixinho
Podes voltar, deves voltar.

Brigas (Deves voltar), de Newton Mendonça e Tom Jobim

"Era tudo misturado", respondia Tom Jobim quando teimavam em lhe-perguntar como funcionava a parceria entre ele e Newton Mendonça. Mas o Tom nunca deu maiores detalhes sobre o assunto.
O seu biografo Marcelo Câmara, descreve Newton como um garoto quase autodidata que aprendeu as primeiras lições de violino e piano com a mãe. Sozinho, ele sentou ao piano por mais de oito anos. Oduvaldo Lacerda dizia uma frase bela: "arrancava a música dele".
Só João Gilberto e Baden parece que conseguiam decifrar qual parte era "jobiniana" e qual "mendonçana" nas maravilhosas Meditação, Desafinado e Samba de uma nota só, por citar as mais populares do encontro artístico deles. Deixo aqui a letra de uma das esquecidas, a belíssima Brigas (Deves voltar).
No ano em que a velha nova bossa nova faz cinqüentinha, é justo e necessário lembrar Newton Mendonça que nem sequer, chegou a viver a consagração da batida diferente.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Estigma


Pessoas deixam marcas
água na terra lama
almas alagadas
marcas pessoas maré
pessoas marcha a-ré
pessoas são como agulhas
comem pelas bordas
zumbam na orelha
foto flash na pele
lume quieta cicatriz
pessoas não são leves
não quebram como cristal
nem andam de lá pra cá
com passos de bailarina
pessoas locomotivas
pessoas loucos motivos
pedras dedo na chaga
entram pela porta
ficam na sala de espera
salgam sua salada
depois bebem sua água
pessoas deixam marcas
migalhas nas entranhas
deixam marcas.

Estigma, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Cézayän

Pollack, o ator que dirigia atores






"Na verdade eu gosto dos fracassos tanto quanto dos sucessos. Acontece que o mundo não gosta de fracassos"
Sydney Pollack (1934-2008)

Lá vai um dos últimos grandes diretores de atores do cinema dos Estados Unidos. E como bom ator que era, não gostava de ensaiar, mas ficava horas e horas falando com os seus intérpretes sobre os personagens. Produziu ele mesmo seus filmes, era dos que acreditavam que um cineasta é um narrador de histórias e que no cinema estão envolvidas todas as formas da arte.
Na foto do meio, Pollack dirige Jane Fonda no The Electric Horseman, e na última, ele contracena com George Clooney no longa Michael Clayton

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Ali Farka Touré


Ele costumava dizer que Mali é a livraria da história musical africana. Artistas como Amadou et Mariam e o próprio Toumani Diabaté, metade músico, metade griot, parecem confirmar essa teoria.
Touré achou, sem sustento acadêmico, a linha invisível que une os riffs hipnôticos das músicas ancestrais de Mali com o blues americano. Ficou conhecido nessa parte do planeta depois de gravar com o guitarrista, produtor e buscador de tesouros Ry Cooder.
As músicas de Touré, que afirmava ter conexão com os espíritos, falavam de honrar o passado e viver na virtude.
Em 2000, seis anos antes de morrer, só fez shows esporádicos em Bamako e criou uma fundação para passar seus conhecimentos para músicos novos. Mas, basicamente, ele voltou para o seu sítio porque, dizia: "antes de tudo, eu sou um granjeiro".

Foto de Ali Farka Touré de Jonas Karlsson

domingo, 25 de maio de 2008

O que significam as Ítacas?



Cuando partas hacia Itaca
pide que tu camino sea largo
y rico en aventuras y conocimiento.
A Lestrigones, Cíclopes
y furioso Poseidón no temas,
en tu camino no los encontrarás
mientras en alto mantengas tu pensamiento,
mientras una extraña sensación
invada tu espíritu y tu cuerpo.
A Lestrigones, Cíclopes
y fiero Poseidón no encontrarás
si no los llevas en tu alma,
si no es tu alma que ante ti los pone.

Pide que tu camino sea largo.
Que muchas mañanas de verano hayan en tu ruta
cuando con placer, con alegría
arribes a puertos nunca vistos.
Detente en los mercados fenicios
para comprar finos objetos:
madreperla y coral, ámbar y ébano,
sensuales perfumes, -tantos como puedas-
y visita numerosas ciudades egipcias
para aprender de sus sabios.

Lleva a Itaca siempre en tu pensamiento,
llegar a ella es tu destino.
No apresures el viaje,
mejor que dure muchos años
y viejo seas cuando a ella llegues,
rico con lo que has ganado en el camino
sin esperar que Itaca te recompense.

A Itaca debes el maravilloso viaje.
Sin ella no habrías emprendido el camino
y ahora nada tiene para ofrecerte.
Si pobre la encuentras, Itaca no te engañó.
Hoy que eres sabio, y en experiencias rico,
comprendes qué significan las Itacas.

Versão em português

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Versão em catalão

Quan surts per fer el viatge cap a Ítaca,
has de pregar que el camí sigui llarg,
ple d'aventures, ple de coneixences.
Has de pregar que el camí sigui llarg,
que siguin moltes les matinades
que entraràs en un port que els teus ulls ignoraven,
i vagis a ciutats per aprendre dels que saben.
Tingues sempre al cor la idea d'Ítaca.
Has d'arribar-hi, és el teu destí,
però no forcis gens la travessia.
És preferible que duri molts anys,
que siguis vell quan fondegis l'illa,
ric de tot el que hauràs guanyat fent el camí,
sense esperar que et doni més riqueses.
Ítaca t'ha donat el bell viatge,
sense ella no hauries sortit.
I si la trobes pobra, no és que Ítaca
t'hagi enganyat. Savi, com bé t'has fet,
sabràs el que volen dir les Ítaques.

Itaca, de Konstantinos Kavafis
Versão em português de José Paulo Paes
Versão em catalão de Carles Riba, adaptada por Lluís Llach

Conheci esse maravilhoso poema do poeta grego Konstantinos Kavafis há uns quantos anos, pela adaptação da tradução ao catalão de Carles Riba, que Lluís Llach fez para Viatge a Ítaca, seu album mais emblemático.
Na sua circularidade, esse poema descreve para mim a trajetória de vida do meu pai, o que le confere, além de todos os valores literários, um valor emotivo imenso. O tempo, que foi curto para tantas outras experiências, me permitiu compatilhar esse sentimento e essas letras com ele.