quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Xangô da Mangueira nos deixa mais sozinhos


Há exatos dois anos, escrevi aqui pela primeira vez sobre Mestre Xangô da Mangueira. Quando em 2005 fizemos o documentário Samba no pé, na hora de escolher os entrevistados que pudessem representar o pensamento e o sentir das Velhas Guardas, não tive dúvidas, seriam Surica, pastora da Portela, e Olivério Ferreira, nosso Xangô da Mangueira.
O encontro com o baluarte foi marcado no Terreirão do Samba. Até ali chegamos com a equipe. O céu estava cinza, ótimo para o diretor de fotografia. E o Terreirão vazio ao lado da silenciosa Marquês de Sapucaí inspirava pelo oposto a majestosidade do carnaval.
Xangô desceu do taxi com a mesma elegância com que andava pela avenida, impecável, de calça e sapatos brancos e com a camisa cor de rosa, uma das cores da nossa escola de coração.Quem fora compositor de mais 150 sambas, intérprete e diretor de harmonia da Estação Primeira, falou de tudo, das velhas épocas da Mangueira quando “Cartola era génio, mas quem cantava era eu” até a sensação quase inexplicável na hora de entrar na passarela.
Quando a entrevista acabou, pedimos para Xangô andar um pouco pelo Terreirão, o que é de praxe, ter umas cenas que sempre ajudam na hora de editar e para dar um ar nas longas tomadas dos depoimentos.
Jamais vou esquecer esse momento dele andando, com as mãos atrás do corpo, que mesmo ocupando um espaço breve no filme, foi um dos momentos mais emocionantes de toda a filmagem.
Há umas horas recebi a notícia da partida do mestre Xangô, um dos maiores partideiros que o samba nos deu. Vai ser muito dificil esse ano ver a velha Manga sem Jamelão e sem Xangô. É uma tristeza que só a voz dele que vem da caixa de som, disfarça.
Só disfarça.

Outros textos do Nemvem Quenaotem que citam mestre Xangô
Fragmento do documentário
Samba no pé com Tia Surica e Xangô da Mangueira

A inquietante arte de Mark Ryden







O artista estadounidense Mark Ryden saiu do underground para as grandes galerias de arte. Suas obras carregadas de simbologias diversas, mostram elementos do surrealismo, o Renascimento e o universo infantil que vai de Lewis Carroll até Sailor Moon.
Carne, sangue, santos, crianças de olhar adulto, árvores animados e Abraham Lincoln são algumas das presênças habituais nas suas pinturas, esculturas e desenhos.
Mark Ryden também é conhecido pelos seus designs para discos. Embora muita gente não conhece o rosto do artista, lá estão suas peças para Michael Jackson, Ringo Starr, Reo Speedwagon, Jeff Beck, 4 Non Blondes e Red Hot Chili Peppers, entre outros.
O talento para sintetizar a multiplicidade de referéncias -traço típico da posmodernidade- e o estilo fizeram de Mark Ryden um dos artistas mais destacados da arte pop da década de noventa.

Reprodução das obras The Ecstacy of Cecelia e Jimi Hendrix
Reprodução da arte de capa do CD Dangerous, de Michael Jackson
Todas as obras de
Mark Ryden
Foto de Mark Ryden de Ann Elliott Cutting

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O velho e bom café


Iggy Pop e Tom Waits tomando cafezão


Mestre Tom Jobim tomando cafezinho


Che Guevara tomando cafezinho


Chico Buarque tomando cafezinho em Paris


Meu amor meu amor
Me faz um cafezinho
Com aroma e com carinho
Meu amor meu amor
Me dá um cafezinho
Com açúcar e com beijinhos
Café!
O preto que virou ouro
Nas terras do Salgueiro
Em 1727 um nobre
Chamado Palheta
Trouxe a cultura do café
Para o Brasil
Depois vieram os barões
do café
Um cartel que mandava
Queimava, jogava fora
Mas não dava

Meu amor meu amor
Me faz um cafezinho
Com aroma e com carinho
Meu amor meu amor
Me dá um cafezinho
Com açúcar e com beijinhos
Café!
O preto que virou ouro
Nas terras do Salgueiro
Uma infusão feita com a semente
Torrada e moída
Contém cafeína e proteína
Planta maravilhosa e
Originária da Etiópia
E abissínia Abissínia
Etiópia Etiópia
Quem vai querer
Quem vai querer
Quem vai querer
Café

Café, de Jorge Ben Jor

Não sei se foi de novo a ilusão de ver os Reis Magos ou minha tendência natural notívaga, mas dormi mais tarde que sempre, que já é tarde, e hoje de manhã foi um suplício.
Sai disparado e só comecei a entender o mundo, ou o pouco que dá pra entender dele, depois de tomar um café na gravadora.
As vezes vilão, as vezes legal, dependendo do "segundo cientistas" ou o "estudos mostram" da hora. E as pessoas que têm preguiça de ler entrelinhas costumam não se interrogar: quais cientistas? quais estudos? Aí depois saem afirmando com ar doutoral que o café é bom pra isso e ruim pra aquilo.
O caso é que eu não consigo separar o verbo acordar da palavra café.
O bom amigo Boris voltou ontem do Rio, onde foi passar o reveillon com a família que mora lá. Ele trouxe uma contribuição para meu contrabando de café brasileiro. Ele sabe, tem que ser Pilão mesmo, nada de café chique, não, é aquele mesmo que eu tomava todos os dias quando morava no Brasil.
Olha por onde eu venho descobrir que café também pode ser uma tradução da palavra saudade.

Foto de Iggy Pop e Tom Waits do filme Coffee and Cigarettes, de Jim Jarmusch
Foto de Chico Buarque, reprodução do DVD À flor da pele, de Roberto Oliveira
Não achei os autores das outras duas fotos. Se alguém souber, agradeço.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A noite em que vimos os Reis Magos


A noite do 5 de janeiro era sempre única. A véspera da chegada dos Reis Magos despertava em mim uma ilusão incomparável, porque o mistério de Melchior, Gaspar e Baltazar era mais atraente que o do próprio Papai Noel.
Segundo a tradição, deviamos escrever as cartas com os nossos pedidos depois do Natal, e na noite esperada, colocar os sapatinhos na sala e deixar as janelas abertas.
Também era aconselhável colocar água fresca em uma vasilha ou balde e um pouco de capim que os garotos como eu, que morávamos em apartamento, precisávamos colher em alguma praça. Pois os camelos certamente estariam com sede e fome apôs a longa viagem.
Depois seguia a parte mais difícil, a de tentar conciliar o sono. Crianças que são usinas de energia, naturalmente cansadas, ficam nesse dia excitadas como se tivessem bebido dois litros de café. Porque o desejo oculto de todos nós era ver os Reis.
Uma noite, com meu irmão Jorge, resolvemos ficar acordados até eles aparecerem. Quando mamãe mandou todo mundo dormir, fizemos aquela comédia, disfarçamos a situação e quando ela foi embora, ficamos os dois de joelhos sobre a cama dele, debruçados na janela.
Se bem que não havia tanto céu para enxergar -cidade grande é assim- ficamos por horas olhando e jogando conversa fora, tecendo palpites.
“Será que eles entram por essa janela?”
“Qual é o mais alto deles?”
“Para onde é que eles vão primeiro?”
Nem sei o tempo que ficamos formulando essas perguntas retóricas, inventando histórias.
Deve ter sido uma estrela fugaz ou a força do desejo, mas até hoje meu irmão e eu juramos que essa noite vimos os Reis Magos atravessar o céu.
Não lembramos do que aconteceu depois, mas com certeza o sono nos venceu e na manhã seguinte achamos os presentes que meu pai tinha colocado junto aos nossos sapatos.
Depois a gente cresce e a verdade vem implacável: os Reis Magos não existem, são os pais que dão os presentes.
A gente cresce mais e vem o revisionismo histórico: os tais Reis nem eram três, ninguém sabe a certo quantos eles eram. Parece mesmo que eram astrólogos que vinham do Oriente para conhecer o rei dos judeus nascido; que uma estrela guia os conduziu até Belem e que traziam presentes à altura de um deus: ouro, incenso e mirra. São diferentes versões narradas sobre o nascimento de Jesus, na verdade o único que contou a tal visita no evangélio foi Mateus.
O outro mistério pra gente também foi develado: um dos reis era negro porque eles vinham de muito longe, de países diferentes.
E os camelos? Só criança para acreditar que esses camelos podiam voar. Mas também se eles eram Magos mesmo bem podiam fazer os camelos voarem.
Mas como a gente continuou crescendo, depois descobrimos que aqui era bem dificil achar um negro para ficar fantasiado de Baltazar na porta de alguma loja de brinquedos. Depois da febre amarela e a Guerra do Paraguai, os negros viraram uma raridade.
Nos meus anos no Brasil, senti falta desse ritual do 5 de janeiro, de ver as crianças com os rostos acessos pela emoção. Em troca, conheci no interior do Rio as folias dos Reis.
Mas a tradição cultural não é brincadeira. Nos países hispano-falantes os Reis Magos têm mais ibope que Papai Noel, que é de raiz anglo-saxona.
E na medida do que fomos crescendo, fomos perdendo a inocência. Quando uma pessoa é ingênua por aqui costuma se dizer que “acredita nos Reis Magos”.
Meu irmão e eu já sabemos que os Reis Magos não existem, mas que naquela noite nós os vimos, disso temos certeza.

Reprodução do óleo La adoración de Los Reyes Magos, de El Greco (1568)

6/1: Deixo aqui meu agradecimento a Letícia Castro, do Babel.com, que reproduziu esse texto no seu popularíssimo blog.

E as surpresas dos Reis continuam. A querida Maria Guimarães Sampaio, como só ela sabe, escreveu no seu Continhos para cão dormir um texto lindo sobre o Ciclo Natalino no interior da Bahia.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Helen Suzman, in memoriam



E no mesmo dia em que J.D. Salinger fez noventa anos, na Africa do Sul emprendeu a viagem Helen Suzman, que fora por mais de uma década a única lutadora contra o apartheid no parlamento daquele país.
Helen era filha de imigrantes judeus lituanos. Deputada desde 1953 pelo Partido Unido e depois pelo Partido Progressista (hoje Aliança Democrática), em 1961 começou a chamar a atenção, levantando a voz contra o regime racista. Passou a visitar com freqüência Nelson Mandela e outros prisioneiros na prisão de Robben Island.
A carreira política de esta professora universitária de História da Economia, foi encerrada em 1989, pouco antes de Mandela ser liberado e com as negociações sobre o fim do apartheid avançadas. Mas seu trabalho teve outros objetivos também: Mrs. Suzman foi ativista pela independência de Zimbábue e na luta pelos efeitos da AIDS na Africa do Sul.
Lá foi-se uma mulher corajosa, que arriscou a própria vida combatendo um dos regimes mais sanguinários do século vinte, quando seus pares nem chegavam perto dos negros.
Na casa dos noventa, Helen continuava na ativa na sua Fundação e nas horas de lazer, juntava-se com as amigas para jogar bridge.



Foto de Helen Suzman com Nelson Mandela, poucos dias depois da libertação do lider do CNA, em 1989 (Associated Press)
Foto recente de Helen Suzman de Wendy M. Greenfield

sábado, 3 de janeiro de 2009

J.D. Salinger faz noventa no mistério


Um capricorniano célebre que ficou fora do album e da lista publicados aqui uns dias atrás, o escritor estadounidense Jerome D. Salinger, completou no dia primeiro 90 anos.
Como Greta Garbo e outros artistas reconhecidos que no zênite da fama resolveram sair dos holofotes, o autor do romance O apanhador no campo de centeio está recluído na sua casa rural de New Hampshire há quase cinqüenta anos. O silêncio do escritor, que não concede uma entrevista desde 1980, não fez mais do que alimentar o mistério em volta da figura dele.
Tratando-se de um nome tão emblemático da literatura dos Estados Unidos, inúmeras histórias até hoje são tecidas ao redor dele. Sua filha Margaret publicou um livro de confissões onde arrasa com a imagem do pai, e Joyce Maynard, antiga amante dele, trinta anos mais nova, não fez por menos no seu livro Minha verdade.
O que se sabe ao certo é que Salinger, se escrever, não publica; consagrou-se ao budismo e continua detestando críticos literários e editores.
No entanto, O apanhador no campo de centeio, que através das aventuras de um adolescente em Nova York desenha um retrato único da perda da inocência, ainda vende a cada ano 250.000 exemplares.

Foto de J.D. Salinger em 1951, de Lotte Jacobi

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Barenboim contra os ignorantes



Os fatos dos últimos dias no Oriente Médio trouxeram à minha memória o documentário Knowledge is the beginning (2005), um filme de Paul Smaczny sobre a West-Eastern Divan Orchestra, criada pelo maestro argentino-israelense Daniel Barenboim (judeu) e o já falecido intelectual palestino Edward Said (muçulmano).
A orquestra formada por jovens judeus e muçulmanos mostra que a principal barreira entre esses povos é a ignorância, a falta de conhecimento do outro. Como o próprio Barenboim afirma, não é possível o diálogo se nem sequer sabemos de que falar.
O filme, coroado pelo concerto histórico em Ramallah é comovente até as lágrimas. E também é uma prova de que o convívio não é uma utopia. Mais uma vez, são os artistas os que chamam a atenção. Não que eles sejam os únicos seres com clareza mas eles expressam tantos outros.
A ignorância não se combate com mísseis.



Foto do filme Knowledge os the beginning (nesse link o trailer)
Foto de Daniel Barenboim com Edward Said da
Fundação Barenboim-Said

Novas velhas notícias ruins



O ano não começa com boas notícias. São as mesmas velhas notícias ruins. Na Faixa de Gaza a situação piora. Em meados de dezembro, Hamas interrompeu uma trégua que já era fraca desde o bloqueio económico imposto por Israel em 2006, quando Hamas ganhou as eleições.
A cumplicidade, por convicção ou por omissão, da Comunidade Europeia e dos Estados Unidos ajudou a regar a semente de uma nova tragédia.
Israel teima em não reconhecer o status do Hamas como grupo político-religioso. Assim, desde janeiro de 2006, a Gaza sitiada sofreu um bloqueio económico que levou sua população a uma situação de miséria.
Uma grande parte da mídia internacional reflete na linguagem a desigualdade de critérios. Hoje mesmo, O Globo fala por um lado de israelenses e pelo outro de extremistas.
No entanto, uns 400 estrangeiros com passaporte palestino começaram a abandonar a Faixa pela passagem de Erez. É o prelúdio da invasão terrestre.

Foto da Agência AP. Uma criança palestina abandona a cidade custodiada por um soldado israelense