quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Hermano Niemeyer



Dias depois de completar 101 anos, o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer apresentou através de um vídeo o Puerto de la Música, a primeira obra que ele cria para a Argentina.
O projeto, concebido pelo mestre em uma semana -génio é assim- é um complexo cultural que inclui um auditório para 2.500 pessoas, salas para exposições e uma escola de arte. Mas o auditório tem ainda uma área descoberta para mais vinte mil pessoas. O arquiteto faz questão de ressalvar que a sua intenção é que os espetáculos não estejam limitados só àqueles que podem pagar uma platéia, mas a quem quiser assistir. E ainda se espanta de não ter pensado nisso antes.
O desenho, que semelha uma pérola saindo da ostra, com as curvas caraterísticas do mestre, na verdade tem uma funcionalidade arquitetónica, que é a de resolver o problema acústico que apresentam auditórios ao ar livre.
A obra projetada para ser inaugurada em 2012 ficará na cidade de Rosário, à beira do rio Paraná. E porque lá? Porque Niemeyer gostou da idéia de fazer uma obra na cidade onde nasceu Che Guevara.
Enquanto os músicos argentinos reverenciam o novo complexo cultural e seu criador, ele pensa em outro sonho, a Universidade da América do Sul, na Tríplice Fronteira.
É muito provável que Niemeyer não esteja por aqui quando o Puerto de la Música seja inaugurado. Isso só mostra mais uma vez a generosidade do arquiteto que afirma que toda obra de arquitetura, assim como a obra de arte, deve causar emoção e surpresa.

Oscar Niemeyer fala sobre o Puerto de la Música (e ainda da uma lição de integração)



Foto de Oscar Niemeyer de David Harry Stewart
Reprodução do desenho do Puerto de la Música, em Rosario, Argentina

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O sorriso e o piercing







Considerado um dos mais belos versos da música popular brasileira, o início do samba A flor e o espinho identificou por sempre a Nelson Cavaquinho. Na verdade, o autor dessas linhas maravilhosas foi o saudoso Guilherme de Brito, poeta e parceiro do grande Nelson, autor também da letra de outros sucessos da dupla, como Pranto de poeta e Folhas secas.
O samba de 1957 e que quase dez anos depois ficou famoso na gravação de Elizeth Cardoso começa assim:

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor...


Mais de quarenta anos depois, o Zeca Baleiro, que tem essas sacadas geniais, na música Piercing, citou o samba de Nelson e Guilherme (e Alcides Caminha), trocando a palavra sorriso pela palavra que da nome à música:

Tire o seu piercing do caminho
Que eu quero passar com a minha dor...


Ou seja, a angústia do autor pela imagem da mulher que o abandonou, e ainda exibe esse sorriso, foi substituída pela angústia finissecular que utiliza o piercing em troca do sorriso, como imagem da mesma perda amorosa e como símbolo de beleza arrasadora.
O Zeca, com seu olhar social sempre afiado, num rap que gravou com o grupo Faces do Subúrbio, conseguiu ao mesmo tempo fazer uma homenagem e dar novo significado a esses versos.

Vejam Nelson com Elizeth cantando A flor e o espinho
Vejam Zeca Baleiro com Záfrica Brasil cantando
Piercing

Foto de Zeca Baleiro de Nana Moraes
Foto de Guilherme de Brito de Tonico's Boteco
Foto de Nelson Cavaquinho de Roberto Garcia

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A revolta dos sapatos



O ato simbólico do jornalista Muntazer al-Zaidi vai ficar gravado na história.
No meio dessa maré do absurdo pra gente pareceu mais uma notícia, uma outra brincadeira pra subir ao Youtube. Mas para uma nação ocupada que convive com o invasor no dia-a-dia, tem um valor que só a história poderá mensurar.

Foto de protesto em Sadr, Iraque, da Agência AP

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Nabokov foi um eterno estrangeiro



Nasceu no seio de uma família aristocrata de São Petersburgo. Em 1919, depois da revolução, abandonou a Rússia. Foi estudar literatura em Cambridge e depois morou em Berlim e Paris até se estabelecer nos Estados Unidos, onde adquiriu a cidadania. A publicação do romance Lolita deu a Vladimir Nabokov um escândalo suficiente como para ficar conhecido no mundo inteiro e passar a viver com folga da literatura, o que de fato fez instalando-se em Montreux, na Suíça.
Embora grande parte da sua vida escreveu em inglês, idioma que dominava nas bases e nas sutilezas, levava dentro uma grande dor pela perda da língua original. A verdadeira condição do estrangeiro é essa, a ausência da língua. Nabokov foi um eterno intérprete do olhar estranho, expressado na perplexidade e na paixão dos seus personagens. A jornalista francesa Penelope Gilliatt dizia que a paisagem dele não era a Rússia mas a literatura russa.
Nabokov escrevia seus livros sem continuidade, em fichas, de maneira que podia inserir passagens em momentos diferentes. Usava um lápis 3B, daqueles que tem uma bolacha na ponta, para poder apagar o que considerava errado ou sobrando nos rascunhos.
Detestava Dr. Zhivago por “mal escrita, piegas e mentirosa”. Esteve a ponto de queimar os manuscritos de Lolita, mas foi detido por Vera, a esposa dele. Em Hollywood, pediram a Nabokov que Lolita casasse com Humbert no final do roteiro, para que o final fosse mais palatável. O autor não aceitou, claro.
Para criar o personagem andou em ônibus escolares e foi a colégios mentindo que procurava uma vaga para sua filha. De fato, só tinha um filho, Dmitri. Mas não foi muito além disso. Pedófilo mesmo, segundo ele, era Lewis Carroll, o autor de Alice no país das maravilhas. “Voce já viu as fotografias dele com garotas? Ele chegava a um acordo com as tias e as mães delas para levar a passear as crianças. Nunca foi descoberto, exceto por uma delas que escreveu sobre ele, já sendo adulta”.
Vladimir Nabokov morreu em 1977. Até o fim, para escrever em paz, se trancava no carro. No porta malas levava o dicionário Webster completo.



Foto de Vladimir Nabokov de Carl Mydans
Foto de Sue Lyon, a primeira Lolita do cinema, no filme de Stanley Kubrick, de 1962

sábado, 13 de dezembro de 2008

Dez grandes filmes sobre show business


Kris Kristofferson e Barbara Streisand em Nasce uma estrela


Luise Rainer entre as garotas de Ziegfeld


Roy Scheider, alter ego de Bob Fosse em All That Jazz


William Holden, Gloria Swanson e Erich von Stroheim,
protagonistas de Sunset Boulevard

1. O jogador (The player, 1991), de Robert Altman
Um Tim Robbins imenso na pele de um produtor de Hollywood apertado pelos fracassos e envolvido em um crime. Ao estilo de Altman, de longo fôlego e elenco de celebridades fazendo pontinhas que inclui Julia Roberts, Bruce Willis, Susan Sarandon e Cher, entre muitos outros.

2. Testa de ferro por acaso (The front, 1976), de Martin Ritt
As listas negras do maccarthismo na década de cinqüenta que proibiram tantos homens da cultura de trabalhar, sob alegação de atividades anti patrióticas. Woody Allen, no protagónico faz um caixa de restaurante que empresta seu nome ao amigo escritor censurado. O própio diretor e o roteirista Walter Bernstein foram vítimas da caça de bruxas do senador Mc Carthy, assim como Zero Mostel -que está brilhante no filme- e Arthur Miller, que ganhou aqui um personagem chamado de Alfred Miller.

3. Barton Fink (1991), de Ethan Coen
O roteirista do título no Hollywood dos anos quarenta é convidado para escrever um roteiro, depois que uma peça dele consegue sucesso em Broadway. Jóia dos irmãos Coen, com John Turturro e John Goodman, maravilhosos nos protagónicos.

4. All that jazz (1979), de Bob Fosse
Quase uma auto-biografia filmada, com Roy Scheider fazendo de alter ego de Bob Fosse, um coreógrafo de sucesso cuja vida pessoal é um desastre. Destaque para a grande trilha sonora.

5. A rosa (The Rose, 1979), de Mark Rydell
Outro biopic, com muitas semelhanças da vida e da morte trágica da cantora de rock Janis Joplin. Comoventes Bette Midler no papel central, Frederic Forrest no motorista apaixonado que quer redimi-la e Alan Bates fazendo o empresário impiadoso.

6. Nasce uma estrela (A star is born, 1976), de Frank Pierson
Remake do filme de 1954, de George Cukor, com Judy Garland e James Mason. Mais uma crónica sobre a crueldade do chamado star system. Uma ótima Barbara Streisand interpreta a figura em ascenso engolida pela maquinaria. A música Evergreen, que ganhou o Oscar e iria se tornar um dos seus maiores sucessos, parceria dela com Paul Williams (um dia eu escrevo sobre Paul!), foi cantada ao vivo nas filmagens. Hoje isso seria impensado.

7. O fantasma do paraíso (Phantom of the paradise, 1974), de Brian De Palma
O Fausto de Goethe mais O fantasma da Opera em versão ópera-rock e com o pulso de Brian De Palma. a história do produtor com sonhos de estrela que rouba as músicas e a garota do compositor mas nunca conseguirá roubar o talento dele. Paul Williams ótimo no protagónico (estou dizendo que um dia escrevo sobre Paul, certo?) e na trilha sonora. Indicado para quem quer fazer uma viagem louca aos anos setenta.

8. O grande Ziegfeld (The Great Ziegfeld, 1936), de Robert Z. Leonard
Multi premiado filme que revisita a vida do destacado produtor teatral Florenz Ziegfeld, que foi rei do teatro de variedades, misturando comédia, música e mulheres bonitas. Ganhou e perdeu fortunas e brilhou por vinte anos até o advento do cinema falado. Com William Powell e Mirna Loy.

9. Os sapatinhos vermelhos (The red shoes, 1948), de Michael Powell e Emeric Pressburger
A dançarina que cresce sob a proteção do empresário até ele se sentir traído quando ela se apaixona pelo compositor do balé Os sapatinhos vermelhos. Baseada no conto de Hans Christian Andersen e com Moira Shearer no personagem que a colocou na história do cinema.

10. Sunset Boulevard (1950), de Billy Wilder
Na minha opinião, Billy Wilder é um dos maiores diretores de todos os tempos. Quase todo que ele fez parece-me genial. Uma estrela do cinema mudo que caiu em desgraça, envolvida com um roteirista com pretensão de sucesso e um crime que entrega ao filme um ar de suspenso de principio a final. Com Gloria Swanson e William Holden.

Como sempre, não são todos os que estão nem estão todos os que são. Apenas uma lista de dez grandes que vieram a minha mente. Como Hollywood adora olhar para o própio umbigo, existem centenares de filmes onde a industria do espetáculo é protagonista. Esses aqui, para quem não conhece, são muito legais de se ver.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

São anos de samba




Hoje é o aniversário de Wilson Moreira (1936) e Noca da Portela (1932). São muitos anos de samba na veia. Que sejam muitos mais.

Foto de Wilson Moreira de Bruno Villas-Boas
Foto de Noca da Portela de Joatan

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Alberto Korda e o acaso



O fotógrafo Alberto Díaz Gutiérrez achou que a fotografia de modas era uma boa desculpa para estar perto de mulheres belas. Mas Gutiérrez é feito um Da Silva, então ele escolheu o sobrenome artístico Korda, que viu em um filme húngaro dos irmãos Alexander e Zoltan Korda e pela proximidade sonora com a marca Kodak.
Lá estava ele perto das modelos, dos músicos dos clubes noturnos e da publicidade quando a Revolução chegou e a Cuba mudou para sempre.
Foi seu admirado Richard Avedon quem lhe disse "retrate a Revolução". Quando Korda foi enviado a Venezuela para uma reportagem sobre a primera viagem de Fidel Castro ao exterior, seu olhar sobre o mundo mudou.
Ficou amigo de Fidel, e embora nunca foi o fotógrafo oficial, foi identificado como o fotógrafo da Revolução.
A foto famosa do Che Guevara, considerada a mais reproduzida no mundo, saiu quase por acaso em duas tomadas e o artista jamais se interessou em obter lucro com ela.
As fotografias dos líderes cubanos mais divulgadas de Korda não chegam nem ao dez por cento da obra dele.
Como mostram as imagens aqui reproduzidas, Korda -que esse ano teria feito 80 anos- utilizou a sua experiência no mundo frívolo para criar símbolos políticos sem trair nunca sua bagagem estética.


Fotos de Alberto Korda

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Quais Direitos Humanos?


No mesmo dia em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é comemorada no mundo inteiro, os mesmos jornais que informam sobre o aniversário, publicam notícias que deixam aquela declaração como uma brincadeira de mau gosto. É certo que aquela determinação de 1948 surgiu em um mundo que saia das atrocidades do regime nazista e as mazelas da Segunda Guerra Mundial. E que o tratado estabelece uma ordem para as questões básicas de organização da igualdade das nações.
Mas hoje mesmo, uma manchete do jornal argentino Clarín diz que a fome no mundo aumentou em 2008. Por causa do preço dos alimentos o planeta tem hoje mais quarenta milhões de famintos que o ano passado. A cifra é assustadora: 963 milhões de pessoas não possuem o sustento básico para viver. São informações da FAO, organismo da ONU.
Ao mesmo tempo, a própria ONU reconhece que não será possível atingir o objetivo traçado em 2000 de acabar com a pobreza extrema até 2015, por causa da mudança climática que está gerando mais pobreza.
Em contraposição com esses dados, deixo aqui o Artigo XXV da Declaração que hoje faz sessenta anos.

1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social.

Enquanto isso, continua sendo mais importante salvar bancos do que salvar pessoas.
E mole ou quer mais?

Foto da Agência EFE de um pescador andando na reserva seca de Lam Takhong Dam, na Tailándia