sábado, 16 de fevereiro de 2008

Profanos


Vamos comprar queijo.
Pegamos trem.
Damos voltas ao quarteirão
pra passeiar o cachorro.
Lemos jornal.
Bebemos água com cloro.
Cantamos o hino nacional
nas cerimônias da escola.
Escolhemos um lençol
da pilha perfumada.
Andamos em círculos.
Levamos tombos.
Não sabemos para qué,
não sabemos para quem
vivemos.

Profanos, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Na belíssima foto de Jaro Muñoz, uma mulher passeia seu cachorro com o fundo dos pinheiros incendiados em Conil de la Frontera, Cádiz, Espanha. A cena é de julho de 2006

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Sexta-feira non sancta (VI)


Volta às aulas, por fim

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Anna Kahn



Andava a toa por Botafogo e resolvi entrar no complexo de cinemas que fica na praia para ver a programação e dar uma olhada na livraria.
Numa das paredes me deparei com uma série de fotos noturnas, urbanas, de paisagens unívocamente cariocas. Os textos descritivos eram como este: "André, 23 anos, estudante, na Avenida Brasil, dentro de um ônibus."
Minha primeira impressão foi que tratava-se de algum projeto social em que tinham dado câmeras para pessoas que não são fotógrafos e tinham convidado eles pra escolher pontos da cidade sob os próprios olhares.
Mas logo descartei essa idéia, as fotos eram boas demais para terem sido feitas por amadores. Ao mesmo tempo, uma ponta de angústia provocou-me um certo desconforto corporal. E logo na terceira ou quarta fotografia descobri a ausência total de rasgos humanos nas fotos. Fora os traços implícitos nas cenas que revelam a existência do homem (orelhão, propaganda, poste de luz) não havia outro vestígio humano.
Com a angústia indo do peito pra garganta cheguei na última foto e no texto em que a fotógrafa Anna Kahn explica seu trabalho.
A mostra “Retratos da Ausência” documenta episódios de violência da longa lista de mortos por balas perdidas, desde o ponto de vista das vítimas.
No meio do barulho das vozes daquele entra-sai dos corredores do cinema, do cheiro de pipoca e da fútil algazarra, meus olhos encheram d’água.
Voltei a percorrer as fotografias, em sentido contrário e nessa nova dimensão do sentido, tão abrumado pela dor de estar assistindo ao ultimo instante de luz e à dessolação dos mortos quanto pela beleza das imagens de Anna que, parafraseando Lacan, descorre o último véu, aquele que separa à beleza do horror.Foi um dos momentos mais marcantes dessa minha última viagem ao Rio.
Aliás, Anna Kahn nasceu no Rio de Janeiro e já experimentou a violência na própia pele. E é através do olhar artístico dela que isso transparece.

Foto de Anna Kahn, da série Retratos da Ausência
Ainda em exposição no Unibanco Arteplex e no Instituto Moreira Salles

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Andalucía na alma


Reprodução de Alegrías, de Julio Romero de Torres
Entre muitos, esse quadro, que tem como modelo a bailaora Julia Borrull, mostra que este pintor espanhol captou como ninguém a alma da Andalucía, que atravessa a sua obra inteira.

Henri Salvador


"Para mim cada dia é uma festa. Só gosto do amanhã. O passado não me interessa".
Henri Salvador (1917-2008)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Vó Rita


"O que talvez transpareça em mim, aos olhos de quem me vê é o prazer que tenho em trabalhar com música."
Rita Lee, em entrevista à revista Rolling Stone

A Rita sempre foi uma grande declarante. Outra mostra está aqui.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Tata Güines


E lá foi se Tata Güines, "el rey de los tambores"...
Fez seus primeiros bongoes com duas latas, uma de lingüiça e outra de leite condensado. Criou um estilo único de tocar as tumbadoras, onde até unha valia, sempre com as mãos perto do couro, com uma batida firme e a mão esquerda levemente mais rápida, o que fez crer a muitos que ele era canhoto. Isso lhe rendeu seu apelido.
Foi sapateiro, tocou por trocados, levou pra Nova Iorque seu talento, ganhou a admiração do Dizzie Gillespie e Josephine Baker, entre muitos. Voltou para sua Cuba, onde percussionistas do mundo todo foram procura-lo para aprender com ele.
Partiu no dia 4 de fevereiro e foi despedido como corresponde, com rumba, por Omara Portuondo, Pancho Terry, o génio do chekeré, e outros mestres da ilha, nos rituais da santeria.



"Soy cubano nacido en Güines y moriré aquí"
Tata Güines

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Dicionário da saudade


Longe Penha e Madureira
longe vivo a céu aberto
longe está o Flamengo
e os olhos cintilantes
das mulheres da Marquês
um chão de mar desperta
com seus peixes
que traçam diagonais
nas brincadeiras
longe daqui as desencantadas
vaidades de Ipanema
e as cantadas rodoviárias
dos caminhonheiros
os trocados perdidos
os temperos ganhos
aquí é uma imensidão azul
que nunca viu o Rio de Janeiro
só as nuvens talvez
sejam levadas
para virar pancadas
no Canal do Mangue
passaram os instantes
poucos mansos
e o que era chão e palco
voltou pro dicionário da saudade
cheiros e santos fortes
carros e adereços
silenciosos
estacionados na concentração
placas de rua
suspensas nos mistérios das esquinas
longe pierrô e colombina
e todos os pudores
que as máscaras minimizam
assim com cada véu
sumiu o espanto
aqui outro tempo azul
uma cadeira no espaço
e a ensolarada pista de dança
para encarar de novo
as folhas de papel de arroz
do velho dicionário da saudade.

Dicionário da saudade, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto do meu pé e a calçada do Bar Picote, no Flamengo