segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O sal é um dom




Minha mãe me deu ao mundo
de maneira singular
me dizendo uma sentença
pra eu sempre pedir licença
mas nunca deixar de entrar

Amanhã, entre as 18 e as 22, acontece a apresentação do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, com textos e receitas colhidas pela filha-poeta Mabel Velloso e fotografias de Maria Sampaio, que aqui já é amiga da casa, para minha honra.
Será em Salvador, no Restaurante Amado, que fica na Avenida de Contorno.
Se pensarmos nas receitas, é de dar água na boca. Se pensarmos nos textos, nas fotos e na carga histórica e emotiva, é de dar água (e sal, que é um dom) nos olhos.

Foto reprodução da capa do livro O Sal é um Dom, receitas de Mãe Canô, de Mabel Velloso, com fotografias de Maria Sampaio, editado em parceria pela Corrupio e a Nova Fronteira.

Tudo de novo (fragmento), de Caetano Veloso

Pálidos economistas pedem calma


Qual esquina dobrei às cegas
E caí no Cairo, ou Lima, ou Calcutá
Que língua é essa em que despejo pragas
E a muralha ecoa

Em Lisboa
Faz algazarra a malta em meu castelo
Pálidos economistas pedem calma
Conduzo tua lisa mão
Por uma escada espiral
E no alto da torre exibo-te o varal
Onde balança ao léu minh’alma

Sonhos sonhos são (fragmento), de Chico Buarque
Foto da Agência AP. Hoje, a Bolsa de São Paulo

domingo, 28 de setembro de 2008

Mais dez grandes artistas brasileiros menos divulgados


Mário Sève



Cris Delanno


Roque Ferreira


Suely Mesquita


1. Agrião

Formado na fonte inesgotável da Vila Isabel, Jorge Agrião é um compositor e percussionista inquieto e um grande ritmista. Seus sambas são daqueles pra levar na palma da mão. Seu disco de referência é Samba vadio, com arranjos de Cláudio Jorge. Ele tem ainda grandes parcerias com Mart’nália, Roque Ferreira e Evandro Lima

2. Suely Mesquita

As músicas de Suely já foram gravadas por Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Pedro Luís e Fernanda Abreu, entre outros, mas o trabalho pessoal dela ainda não tem a repercussão que merece, sendo que Suely é uma ótima cantora, além da compositora que os colegas destacam. O selo Duncan Discos, da Zélia, relançou seu Sexo puro, que é uma ótima oportunidade para quem ainda não descobriu Suely.

3. Sayowa

Os jovens cariocas do Sayowa estão dando os passos certos para se inscrever entre os grandes nomes do hard rock brasileiro, que é o lado do rock em que Brasil conseguiu mais destaque. A banda liderada por Theo Van der Loo tem seu segundo album, produzido pelo Andreas Kisser do Sepultura, lançado na Argentina, Chile e Uruguai, mas que é vendido por eles de maneira independente no Brasil. Já fizeram varios tours na Europa e dividiram o palco com bandas dos quilates de Sepultura, Biohazard e Fear Factory. O Sayowa inclui os tambores treme-terra, que dão uma certa cor brasileira ao som pesado da origem anglo.

4. Angelo Primon

Este finíssimo violonista gaúcho é também um ótimo compositor e arranjador. Seu disco Mosaico mostra as suas influências, que vão da música do Sul da América até o flamenco para desaguar num estilo próprio onde a virtude foge dos cantos de sereia do virtuosismo.

5. Bïa Krieger

Outro caso -o Brasil tem vários- de artista brasileira com carreira de sucesso na Europa e pouca divulgação no Brasil. A cosmopolita Bïa mora em Paris, mas mantém seu refúgio em Floripa, já morou no Chile e é freqüente visitante de Canadá. Esta multiplicidade fez dela uma cantora multi-língüe. Bïa tem discos belíssimos como Sources e La mémoire du vent, este com várias versões em francês de clássicos de Chico Buarque. Em Nocturno, seu trabalho mais recente, Bïa arrisca com uma obra mais introspectiva.

6. Roque Ferreira

Esse é um luxo de compositor que o Brasil tem. Baiano de Nazaré, chamou a atenção quando Clara Nunes gravou Apenas um adeus e depois Coração valente, no começo da década de oitenta. Responsável por um dos maiores sucessos da carreira de Zeca Pagodinho (Samba pras moças), Roque é além de um dos principais compositores de samba de raiz, de samba de roda de todos os tempos, um ótimo intérprete da sua própria obra. Por isso é quase inadmissível que ela tenha disponível no mercado só um disco, o excelente Tem samba no mar, trazido pela Biscoito fino. Agora parece que Roberta Sá planeja gravar um disco dedicado à obra dele. Tomara que ajude para colocar Roque no lugar que merece.

7. Mário Sève

Um dos membros fundadores do Nó em pingo d’água, que possui o dom da grande admiração de colegas das origens diversas e o merecido prestígio no mundo do choro. Mas eu posso até imaginar aquela pergunta que surge com a obra dos instrumentistas: “mas não tem uma pra tocar no rádio?” Claro que tem, é só mudar aquela fórmulinha fácil da programação pre-digerida. Mário é saxofonista, flautista, compositor e arranjador. No ótimo Casa de todo mundo reuniu os amigos do Baticun, o Nó, Epoca de Ouro, Pedro Luís, Suely Mesquita, Suzano e Clara Sandroni, entre outros.

8. Cris Delanno

Conhecida como a voz do Bossacucanova, Cris Delanno vem construindo uma sólida carreira solo, que tem um disco dedicado a fazer jus à obra de Newton Mendonça e outro que leva seu nome, onde passeia entre as suas duas línguas de nascença (inglês e português) por um repertório eclético que vai de João Bosco e Aldir Blanc a Paul Williams. Atualmente Cris prepara um novo disco, autoral e com arranjos e produção de Alex Moreira.

9. Marco André

Já tenho me referido a este notável cantor e compositor nascido em Belém, que em seus discos Amazônia Groove e Beat iu conseguiu o impensado link entre os ritmos da sua terra e a eletrônica. Radicado há anos no Rio de Janeiro, ele já foi compositor de escola de samba, cantor de música de novela e produtor de grandes nomes da MPB. Mas sua obra merece no Brasil uma força que seja semelhante aos reconhecimentos que tem pelo mundo fora.

10. Dorina

A musa do Irajá prestigia as rodas de samba cariocas por onde passa. Dona de uma garra particular no palco, Dorina é reconhecida pelos grandes sambistas vivos, desde Dona Ivone Lara até Zeca, como uma das maiores representantes do gênero.

Foto de Cris Delanno de Lívio Campos
Foto de Suely Mesquita de Guto Costa


Segunda entrega dessa minha reunião de artistas que merecem mais e melhores oportunidades na mídia. Como sempre digo, se ajudar para que pelo menos mais uma pessoa os conheça, já cumpri meu objetivo. E como sempre digo, haverá mais, a safra é enorme e a mídia tem miopia crônica. Vocês encontram aqui a primeira entrega da série.

sábado, 27 de setembro de 2008

Um poster de Paul Newman


Sempre tão discreta, minha mãe jamais exteriorizava sentimentos por outros homens que não fossem meu pai. Mas como toda regra tem a sua exceção, ela perdia o juízo por Paul Newman, Jean Paul Belmondo e Alain Delon. Quando ela via uma foto de algum deles fazia como se desmaiasse. Esse lado fã da minha bem comportada mãe me deixava intrigado e um pouco ciumento por causa do meu pai que, logicamente, levava na brincadeira.
Um coleguinha do bairro, de futebol de rua, de brincar de esconde-esconde e roubar frutas da àrvore, era filho de um operário da industria gráfica. Um dia, estando na casa dele, me disse como por acaso:
- Pega uns posters daí.

Para mim, poster era tudo. A parede do meu quarto me identificava. Eu dividia a minha parede com o meu irmão Jorge, pois meu irmão mais velho, Aníbal, tinha uma parede para ele só. Eu fui separando posters pra levar pra casa: um dos Beatles, vestidos de cavaleiros ingleses, um do Hugo Gatti, goleiro do Boca, cabeludo, que usava faixa na época em que nenhum jogador era tão moderno assim nem existia o marketing da imagem. De repente, enfiado nos posters que cheiravam tinta como se estivesse numa loja de doces, me deparei com um do rosto de Paul Newman e com a cor dos seus olhos que hoje eu definiria como da cor de Chico Buarque.
- Vou levar esse pra minha mãe -eu disse pro meu amigo-

Cheguei em casa, larguei os posters no meu quarto e dei pra mãe o de Paul Newman. Ela fez aquela brincadeira de desmaiar, me deu um beijo e me olhou com aquele olhar amoroso. Depois enrolou o poster, que ficou guardado para sempre num canto do armário.

Paul Newman (1925-2008)
Foto de 1958 de Paul Newman e Joanne Woodward de Sid Avery

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sexta-feira non sancta (IX)


O lado menos pensado da pensadora Simone de Beauvoir, em foto roubada por Art Shay em Chicago em 1952, quando o grande Art era apenas um fotógrafo iniciante da Life Magazine. A foto, cobiçada por colecionistas, foi publicada com um escandaloso photoshop no Le Nouvel Observateur em janeiro desse ano. Isso motivou uma crónica de Art para contar a sua verdade da história. Segundo ele, a escritora ouviu os cliques da Leica, mas não se preocupou em cobrir seu corpo. Só disse: "você é um rapaz malvado".

Foto de Simone de Beauvoir (sem photoshop) de Art Shay

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Borges detestava Gardel e amava Pink Floyd


O motivo da entrevista era mais uma das tantas exposições, mostras e palestras que têm como objeto a obra e a vida do escritor Jorge Luis Borges. A viúva dele, María Kodama, para uns foi literalmente os olhos do mestre nos últimos tempos e para outros foi o capeta, especialmente aqueles que gostam de sublinhar as lendas com juízos fatais, do tipo Yoko Ono acabou com os Beatles.
O certo é que María cuida da obra e do legado dele e é a voz da sua memória. Tanto que ainda a gente descobre coisas insólitas, brincadeiras e provocações daquelas que o escritor adorava.
Em entrevista à BBC de Londres, Kodama confirma que ele detestava Carlos Gardel, que achava que o cantor tinha estragado o belo tango da velha guarda. Mas como tango e malandragem eram assuntos comuns nas conversas dele a declaração foi só uma constatação. Mas a notícia é que Borges adorava Pink Floyd e que freqüentemente pedia que ela colocasse The Wall.
O universo onírico do grupo inglês cativou também ao criador do Aleph.
Na mesma entrevista, María Kodama diz que Borges, além de Brahms, Bach e a música da Idade Média, também gostava de um som dos Beatles e dos Rolling Stones.

Foto de Jorge Luis Borges de Sara Facio

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Os dez mais da Geração Paissandu


Jeanne Moreau, belle em Jules e Jim


Inesquecível Gian Maria Volonté


Plus belle Jean Seberg em Acossado


Jean-Luc Godard, o cara


Cinzas e diamantes, obra capital de Wajda

1. Cinzas e diamantes (Popiól i diament), de Andrzej Wajda (1958)
2. Acossado (À bout de souffle), de Jean-Luc Godard (1959)
3. O ano passado em Marienbad (L'Année derniere à Marienbad), de Alain Resnais (1961)
4. Jules e Jim, uma mulher para dois (Jules et Jim), de François Truffaut (1961)
5. Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha (1964)
6. Alphaville, de Jean-Luc Godard (1965)
7. O demônio das onze horas (Pierrot le fou), de Jean-Luc Godard (1965)
8. A chinesa (Le chinoise), de Jean-Luc Godard (1967)
9. Weekend à francesa (Weekend), de Jean-Luc Godard (1968)
10. A classe operária vai ao paraíso (La classe operaia va in paradiso), de Elio Petri (1971)

Segundo consta no livro Geração Paissandu (Editora Relume Dumará, 1996), do jornalista Rogério Durst, esses são os dez títulos preferidos pelo público do agora desaparecido cinema do bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O autor define aquele local como um "ninho de moços ávidos por informação e socialização", cujo apogeu se deu no espaço entre ditaduras, que foi de 1964 a 1968, nas épocas em que bastava com uma idéia e a câmera na mão. A única exceção da lista é o filme italiano de Petri.
Vocês encontram aqui meu texto sobre o fechamento do Cine Paissandu.

domingo, 21 de setembro de 2008

Quero ver Irene rir


Família Veloso. Irene ri.


Caetano Veloso no exílio em Londres


Já tenho escrito que a música Maria Bethânia foi uma das primeiras que despertou minha atração por música brasileira, fora as músicas de Roberto Carlos que eu ouvia em espanhol sendo criança.
Com curiosidade adolescente fui atrás do autor daquela música e assim descobri Caetano Veloso. Na minha primeira viagem ao Brasil, com dezessete anos, trouxe vários vinis, entre eles, aquele que foi o segundo da carreira solo dele, que chamou minha atenção pela capa branca com a assinatura no meio. Pouco sabia então da biografia do artista. Nas primeiras matérias que eu li, alguma falava sobre a viagem dele com Gil para São Paulo com o objetivo de desenvolver a carreira e dos momentos dificis que todo natural de uma cidade pequena tem que atravessar quando vira um migrante.
Quando ouvi Irene pela primeira vez achei natural que fosse, entre guitarras distorcidas que já nos oitenta soavam pitorescas, uma música de saudade do jovem baiano que sentia falta dos seus afetos. Eu não fazia a menor idéia de quem era a Irene da música. No progressivo aumento do meu interesse pela obra de Caetano, soube que Irene era uma das irmãs dele. Pouco tempo depois, num especial da televisão brasileira -daqueles que os meus amigos gravavam com generosidade pra mim quando o acesso à informação era menos democrático e simples- eu soube que a música tinha sido criada pelo artista na cadeia, porque o sorriso de Irene, aberto e sonoro, era o completo oposto daquela realidade.
Fiquei comovido com a história e a beleza da metáfora. Lembrei imediatamente do grande poeta espanhol Miguel Hernández, que escreveu vários dos seus mais estarrecedoramente belos poemas nas prisões da Guerra Civil Espanhola. Mas mesmo ignorando os motivos que levaram Caetano a compor a música, eu já gostava muito dela, da musicalidade rítmica do verso “quero ver Irene rir” e do contraste das guitarras elétricas e o andamento com o que as palavras significavam. Para um adolescente de Buenos Aires, criado na ditadura e na cultura do tango, resultava muito curioso como na música brasileira, letras tristes eram freqüentemente expressadas com músicas que sugeriam o contrário. Com o tempo cheguei a fazer programas de rádio inteiros acentuando essa particularidade, em comparação com a música argentina.
No seu livro Verdade Tropical, Caetano refere assim o acontecimento:
Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita que eu por vezes mencionava Ava Gardner para comentar sua beleza. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra: Eu quero ir minha gente/ Eu não sou daqui/ Eu não tenho nada/ Quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada/ Irene ri, Irene ri, Irene... Foi a única canção que compus na cadeia. (...)
Quando comecei a arranhar as cordas do violão, já com vinte e cinco anos, um dia me surpreendi cantando Irene num ritmo bem mais lento e o círculo fechou, pois senti na própria carne a profundidade da tristeza daquela música.
Eu já tinha conversado com Caetano, em entrevista em Buenos Aires no começo da década de noventa, sobre a tristeza desses anos. Agora, através do encontro humanamente virtual com a arte e a pessoa de Maria Sampaio, achei entre os seus links o Blog de Irene Velloso, precisamente chamado Irene ri, com o palíndromo que descobriu o grande Augusto de Campos. E lá está ela, com seu sorriso, que jamais testemunhei ao vivo, mas que imagino do jeito que o artista o descreveu, no antagonismo da opressão, como uma vitória da liberdade.

Foto da família Veloso de Maria Sampaio
Fragmento do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 1997)
Reprodução da capa do disco Caetano Veloso, de 1969
Foto de 1969 de Caetano Veloso no exílio em Londres, de autor não indicado