quarta-feira, 30 de abril de 2008

A marca de Charlotte


Last night i saw a ghost
He seemed familiar to me
I welcomed him
With open arms
He said my name
And laid me down
Awoke the dreams still sleeping in my bones
You are my precious ghost
I close my eyes to see
I've touched you once again
You spent the night with me
Guilty were our pleasures
Nameless was our crime
Come back my forbidden ghost
One more time
You must leave i understand
So tell your lie to me
How in the morning everything will be alright
Yeah but to get to the morning first you have to get through the night

Morning song, de Jarvis Cocker, Charlotte Gainsbourg, Nicolas Godin e Jean-Benoit Dunckel

Filha de peixe, o que tem por herdado já foi justificado com seus trabalhos no cinema -sua Jane Eyre é ótima- e também na música. A marca da beleza -nome de outra música dela- dos pais está no estilo enigmático, sugerente e sólido de Charlotte. No album 5:55, que finalmente será lançado na Argentina daqui a uma semana, ela está acompanhada por um time de feras: o ex Pulp Jarvis Cocker, os franceses Nicolas Godin e Jean-Benoit Dunckel, do Air.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Wilde entrevista Wilde


- A que coisa atribui o senhor o fato de que tão poucos homens de letras estejam escrevendo peças para serem apresentadas ao público?

- Em primeiro lugar à existência da censura irresponsável. Que a minha Salomé não possa ser representada é prova suficiente da insensatez de semelhante instituição. (...)
Em segundo lugar ao boato persistentemente difundido fora do pais pelos jornalistas nos últimos trinta anos, no sentido de que o dever do autor teatral é agradar o público. A arte tem como objetivo tanto procurar prazer quanto dor. O objeto da arte é ser arte. Como tenho dito em alguma ocasião, a obra de arte deve dominar o espectador e não o espectador à arte.
- O senhor não admite exceção nenhuma?
- Admito sim. Os circos, onde aparentemente os desejos do público ficam razoavelmente satisfeitos.

Grande criador de frases -poderia colocar aqui uma a cada dia- Oscar Wilde é lembrado por muita gente mais por essa condição do que pelo conhecimento da sua obra.
Em 1895 ele escreveu junto com seu assistente Robert Ross uma entrevista a si mesmo, que foi publicada no Saint Jame's Gazette. No texto inteiro ele sacaneia os jornalistas ingleses com essa facilidade infinita que tinha para provocar. Inclusive Wilde elogia aos jornalistas franceses só pra chatear. Deixo aqui um fragmento dessa entrevista, onde o irlandês ensaia mais uma definição da arte.
Esse foi o ano em que Wilde caiu em desgraça: sua peça Salomé foi traduzida por ele ao francês quando a estreia foi proibida no território britânico por "indecente". Depois a história conehcida, foi processado pelo Marquês de Queensberry, pai do jovem amante dele, enviado à prisão por dois anos. O escritor viveu seus últimos tempos no exílio parisino.

Foto de Napoleon Sarony

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Tejada Gómez canta Brasil


Amazonas
río fundador
cielo largo
padre del color
venga a nos tu limo creador

Amazonas
sexo de la flor
tú que traes

desde el sur
el Sur
al pan nuestro dale tu canción

Así sea
tu simiente
amén.


Verde Brasil
desmesurado ademán
de sur a sur
del Amazonas al mar
lejos de tu luz
la distancia es otra soledad
y la soledad es un velero en el mar
boga en lo azul
pero no viene ni va
para echar a andar
hace falta un viento popular
amanecer es pisar el despertar
para soñar hay que saber madurar
Tú despertarás
con la furia viva de un volcán

Creo escuchar
allá en el viento un rumor
como de mar
o tumutuosa canción
digo que es Brasil
que otra vez
se ha puesto a caminar.

Salmo verde e Samba verde, de Armando Tejada Gómez

O poeta argentino Armando Tejada Gómez (1929-1992) talvez seja conhecido no Brasil por ser o autor da Canción con todos, aquela música que na voz de Mercedes Sosa percorreu o continente e o mundo. Mas ele foi para mim um dos maiores poetas de língua espanhola, embora seja conhecido mais só pelos poemas que foram musicados ou pelas letras que ele escreveu para tantas músicas.
No ano de 1982, transitando um dos muitos exílios aos que ele foi levado, quando seu nome e seus livros eram proibidos na Argentina, o grupo Sanampay lançou no México o Coral Terrestre, obra conceitual do poeta dedicada à América do Sul e à esperança de integridade, apesar das ditaduras que atravessavam o território.
Reproduço aqui os dois poemas-canções do Coral dedicados ao Brasil, o Salmo verde, uma declaração de amor perplexo à beleza da Amazônia e o Samba verde, com seu apelo ao despertar do gigante. Só o verso "amanhecer é pisar o despertar" justifica o disco todo.
A íntegra da obra do poeta é permeada pela crispação da injustiça, a majestuosidade da natureza -expressada em metáforas contundentes- e a esperança que, apesar dos pesares, o acompanhou até o fim, tão diferente do mero otimismo.

domingo, 27 de abril de 2008

Afinal


Afinal
eu não te esperei
onde não chegarias
nem você ardeu
onde eu brilharia
afinal os pêlos misturamos
as cadeiras e as comidas
mas nunca nos-entregamos
nos beijos de meio dia
nem escándalo na rua
maldição sair no tapa
má dicção
das nossas palavras
por graça recebidas

sem paixão
precisa
compaixão.

Afinal, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Aeric Meredith-Goujon

sábado, 26 de abril de 2008

Adriana pelos mares



A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Terá os pés na terra
ou vento no cabelo?

A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?

Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?

A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?

A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?

Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?

Seu pensamento, de Adriana Calcanhotto e Dé Palmeira
Foto de Leonardo Aversa

Longe das "necessidades" do mercado, Adriana Calcanhotto entregou seu novo trabalho, o primeiro de inéditas desde 2002, fora o projeto Partimpim.
Maré é um fruto do mar, do encontro do oceano com a artista, surfa nas ondas de Maritmo, traz de novo, andando sobre as àguas o inesquecível Waly Salomão; tem presênça de Caymmi, claro, de quem ela já havia gravado uma versão formosa de Quem vem pra beira do mar, o time amigo dos +2 e Arto Lindsay.
Esta Seu pensamento é a primeira parceria dela com Dé Palmeira. Prestem atenção para a guitarra de uma nota só de Kassin.
Ainda por cima, o show estreia em maio em Buenos Aires.
Adriana está com disco novo. Graças a Deus.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Abril 74


Companys, si sabeu
on dorm la lluna blanca,
digueu-li que la vull
però no puc anar a estimar-la,
que encara hi ha combat.

Companys, si coneixeu el cau de la sirena,
allà enmig de la mar,
jo l'aniria a veure,
però encara hi ha combat.

I si un trist atzar
m'atura i caic a terra,
porteu tots els meus cants
i un ram de flors vermelles
a qui tant he estimat,
si guanyem el combat.

Companys, si enyoreu les primaveres lliures,
amb vosaltres vull anar,
que per poder-les viure
jo me n'he fet soldat.

I si un trist atzar
m'atura i caic a terra,
porteu tots els meus cants
i un ram de flors vermelles
a qui tant he estimat,
quan guanyem el combat.

Versão em espanhol

Compañeros, si sabéis
donde duerme la luna blanca,
decidle que la quiero
pero que no puedo acercarme a amarla,
porque aún hay combate.

Compañeros, si conocéis el canto de la sirena,
allá en medio del mar,
yo me acercaria a buscarla,
pero aún hay combate.

Y si un triste azar
me detiene y doy en tierra,
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado,
si ganamos el combate.

Compañeros, si buscáis las primaveras libres,
con vosotros quiero ir
que para poder vivirlas
me hice soldado.

Y si un triste azar
me detiene y doy en tierra
llevad todos mis cantos
y un ramo de flores rojas
a quien tanto he amado.
Cuando ganemos el combate.

Abril 74, de Lluís Llach
Hoje fazem trinta e quatro anos da Revolta dos Cravos, a revolução mais romântica do século vinte, que acabou sem uma bala com décadas de ditadura em Portugal.
Ouvir essa música maravilhosa do catalão Lluís Llach é uma das homenagens mais belas que se podem fazer ao dia mais alegre da história portuguesa.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Carpani


"O artista lega uma obra tão ampla quanto é ampla a subjetividade humana"
Ricardo Carpani


Reprodução da obra "Dios es argentino", de Ricardo Carpani
Herdeiro da escola dos muralistas mexicanos, o pintor argentino Ricardo Carpani testemunhou a história social da Argentina do século vinte. O compromisso dele esteve sustentado sempre por sólidos recursos estéticos.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Contra a malvadeza desse mundo


Fica ao meu lado, São Jorge Guerreiro
Com tuas armas, teu perfil obstinado
Me guarda em ti, meu Santo Padroeiro
Me leva ao céu em tua montaria
Numa visita a lua cheia
Que é a medalha da Virgem Maria
Do outro lado, São Jorge Guerreiro
Põe tuas armas na medalha enluarada
Te guardo em mim, meu Santo Padroeiro
A quem recorro em horas de agonia
Tenho a medalha da lua cheia
Você casado com a Virgem Maria
O mar e a noite lembram a Bahia
Orgulho e força, marcas do meu guia
Conto contigo contra os perigos
Contra o quebrando de uma paixão
Deus me perdoe essa intimidade: Jorge me guarde no coração
Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão
E muita vez tem ar de anjo
E garras de dragão

Medalha de São Jorge, de Aldir Blanc e Moacyr Luz
Hoje é dia de São Jorge. Um filho de Oxossi que nem eu não pode passar em branco