terça-feira, 9 de setembro de 2008

Cotidiano na Geórgia



Na Ossétia do Sul, uma mãe e sua filha passam por um soldado russo na volta às aulas. A brancura das roupas da menina contrasta com o pano de fundo do prédio destruído pelos bombardeios. O soldado olha pra elas com o cano do seu fuzil apontando para o chão enquanto elas olham para o chão.
O que põe fim às guerras não é a política nem a diplomacia, mas a força do cotidiano. São as pequenas ações do dia-a-dia que acabam vencendo à morte.

Foto de Viktor Drachev, que esta deixando uma excelente testemunha do conflito com as suas tocantes imagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Savater e as fortalezas


Os países mais afortunados acham que podem fazer fortalezas e ficar lá dentro com o que precisam, com pobres suficientes para que trabalhem para eles, mas não incomodem. Mas este é um conceito errado, porque o mundo tem atingido tal nível de interconexão que, ou nos salvamos todos ou perdemos todos. Hoje ser cosmopolita e ser solidário é ser realista. Acreditar que é possível que alguns pequenos grupos salvem-se enquanto os outros perecem devorados por um mar de necessidades é um erro enorme. Ninguém salva-se nem afunda sozinho.

Fragmento da entrevista da jornalista Socorro Estrada a Fernando Savater, publicada ontem no jornal Clarín
Versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Santi Burgos

O espanhol Fernando Savater é o filósofo mais popular da terra dele. Polêmico e polemista, agora mesmo está envolvido em uma briga de intelectuais por ter redatado e defender o Manifesto pela Língua Comum (Manifiesto por la Lengua Común), que reclama pelos direitos lingüísticos dos hispano-falantes nas comunidades bilíngües da Espanha. Nascido no País Vasco, também é um ativo militante contra os nacionalistas etarras.
Mas, coincidindo ou não com as suas idéias políticas, é um prazer ler seus livros de filosofia, freqüentemente embutidos nas listas dos mais vendidos, entre os romances e as biografias que estão na moda. A nova obra de Savater, que motivou essa entrevista, chama-se A aventura do pensamento e traduz com simplicidade a obra de filósofos fundamentais para entender o desenvolvimento da civilização ocidental.

domingo, 7 de setembro de 2008

Ode ao fracasso tem o rosto de Mickey Rourke


O filme The Wrestler (O lutador, na tradução literal, só Deus sabe qual será o título em português), de Darren Aronofsky, acaba de ganhar o cobiçado Leão de Ouro no Festival de Veneza. Protagonizada por Mickey Rourke, conta a história de um lutador de luta livre que resiste o passo do tempo e o esquecimento.
Os críticos assistentes coincidem em salvar o filme estadounidense do tédio geral que invadiu à mostra, caraterizada sempre pela qualidade do cinema ali apresentado. Este ano, quase não houve filmes da América Latina.
O diretor de Requiem for a dream e Pi, as duas identificadas pelas suas audácias narrativas, abraçou o classicismo para contar uma história de perdedores que bem pode trazer paralelismos entre o personagem de Rourke e a sua própria vida. Sem um sucesso de bilheteria desde Orquídea selvagem (1990), o outrora moço que fazia suspirar as mocinhas, já foi um fracassado lutador de boxe, sofreu excessos químicos vários e virou uma sombra de si mesmo.
Como o cinema adora histórias de losers, esse Rourke caricato daquele, agora lhe oferece a possibilidade de dar a volta por cima. E pelo que parece, todos vamos nos-sentir um pouco redimidos com ele.

Foto de Mickey Rourke da agência AP

sábado, 6 de setembro de 2008

Cucas abertas pelas Novas Bossas



Ontem à noite no Niceto Club, em Buenos Aires. Bossacucanova, equipe e staff da produção celebrando o primeiro show da banda na Argentina. Todas as nossas câmeras em automático para eternizar o instante. Foi muito legal mesmo.
Com guitarras, teclados, baixos e loops, estão abertos os caminhos para garantir a herança do banquinho e o violão. Além do mais, os BSN são gente finíssima. Show sem stress é tudo o que um produtor deseja. Valeu.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sem Fernando Torres


O teatro brasileiro perdeu Fernando Torres...


... e Fernandona perdeu seu companheiro de quase cinqüenta anos

Foto de Fernando Torres de Rogério Assis

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Bossacucanova na Argentina


Como eu estou com pouco trabalho esses dias, resolvi produzir um show do Bossacucanova em Buenos Aires. Nós sofre mas nós gosta...
E como todo mundo -inclusive eu- está nessa comemoração dos cinqüenta anos, melhor trazer pra Argentina um pouco da bossa nova dos próximos cinqüenta anos.
A banda vai fazer músicas dos seus discos Brasilidade, Uma batida diferente e algumas inéditas. Som bacana pra portenho não botar defeito.
É isso aí, quem tiver amigos por estas bandas e quiser ajudar na divulgação é so encaminhar essa imagem. Vai ser na sexta-feira no Niceto Club. A produção agradece.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Zweig, o homem que inventou o Brasil do futuro


A concentração do artista tem sido danificada -disse Stefan Zweig e bateu no peito com a mão esquerda-. Como é que vão captar a nossa atenção os velhos assuntos? Um homem e uma mulher se conhecem, se apaixonam, eles têm uma aventura. Em uma outra época isso foi uma história. Voltará a ser daqui a um tempo, mas como viver com entusiasmo num mundo tão trivial como o de hoje?
Os últimos meses têm sido fatais para a produção literária europeia. A norma básica para todo trabalho criativo continua sendo a concentração e jamais tem sido tão difícil de atingir para os artistas na Europa. Como se concentrar no meio de um terremoto moral? Na Europa a maioria dos escritores está fazendo um tipo ou outro de trabalho bélico. Outros tiveram que fugir dos países deles e moram no exílio desvairando daqui pra lá. Inclusive os contados autores que podem continuar trabalhando nas suas próprias mesas são incapazes de fugir da turbulência dos nossos tempos.
A reclusão já não é possível enquanto o nosso mundo está em chamas. A “torre de marfim” da estética não é à prova de bombas, como já disse Irwin Edman. De uma hora para a outra a gente espera as notícias. A gente não pode evitar ler os jornais, ouvir o rádio e, ao mesmo tempo, se sentir oprimido pela preocupação por parentes e amigos. Um foge do seu lar na área ocupada, outros foram presos e pedem pela sua liberdade. Tem quem vai de um consulado para outro procurando um país que o possa acolher. Todos os que tivemos a sorte de achar abrigo somos assaltados dia apôs dia desde todos os lados por cartas e telegramas que solicitam a nossa ajuda. Cada um de nós vive a vida de outros cem, além da nossa própria vida.


Stefan Zweig, em fragmento da entrevista concedida a Robert Van Gelder, publicada em 1940 no The New York Times.
Versão para o português de Juan Trasmonte

Esse depoimento doloroso e amargurado do escritor austríaco Stefan Zweig antecipa sua viagem ao Brasil, onde se refugiou e onde decidiu suicidar-se junto com sua esposa Lotte.
Um ano depois dessa entrevista, já radicado em Petrópolis, o autor escreveu Brasil, o país do futuro. Na época, o livro não foi bem recebido pela classe intelectual brasileira, na convicção de que desde o título já era um panfleto de propaganda do governo Vargas. Na verdade, Zweig descobriu no Brasil, apesar de certo olhar etnocéntrico, uma esperança que na Europa estava sendo derrubada pelas bombas e o ódio. Como afirma seu biógrafo Alberto Dines, o escritor ficou isolado e mais deprimido ainda. Morava na serra humildemente embora era uma pessoa rica. O clima não ajudava à sua mulher asmática e o cotidiano ficou mais duro ainda. Nesse momento, ninguém comprendeu que o futuro que Zweig referia já não era o futuro dele mas o de todos nós.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O olhar de Maria Sampaio


O blog traz essas alegrias. Quando Dona Canô, a mãe de todos os Veloso, fez cem anos eu dediquei uma postagem simples, onde tudo o que eu tinha a dizer estava expressado em uma fotografia que achei de Maria Guimarães Sampaio. Nela aparece Dona Canô, sentada sozinha na sala da casa de Santo Amaro, num belíssimo preto e branco. É uma imagem comovente, atravessada pelo silêncio e as recordações. Então só resolvi acrescentar uns versos de Caetano que definem poeticamente à mãe dele, da música Genipapo absoluto.
Ontem, quase um ano depois da postagem, a autora da foto, deixou uma mensagem agradecendo o fato de eu ter colocado o crédito e com um convite para visitar o blog dela.
No Continhos para cão dormir há outras fotografias lindas feitas por Maria, como essa incluída aqui e também seus textos permeados de brasilidade.
Quem anda por aqui sabe que sustento e defendo autoria nos blogs. Esse detalhe de incluir um crédito que pode parecer menor, também pode desaguar no mar do encontro entre pessoas que estão aqui, nesse mundo as vezes chato, jogando luz com a sua arte.

Foto de Maria Sampaio de 1994, da fazenda Mutumpiranga, Nilo Peçanha, Bahia