domingo, 16 de março de 2008

Notoriously Adriana Deffenti


Adriana é uma dessas cantoras que quebram a cabeça dos atendentes das lojas de cd's, que não sabem onde classificar sua arte. Aqui é mais fácil porque ela vai pro setor de "Música Brasileira". Mas na sua cestinha ela também traz peças do folclore argentino, do candombe uruguaio, do novo canto português, do rock. É uma dessas que fecham as cabeças dos lojistas e abrem os corações dos que ouvem, dos que param para ouvir.
Ela vem de Porto Alegre, essa cidade brasileiríssima que teima em fugir do cliché brasileiro.
Canta amanhã e na terça-feira no Notorious, em Buenos Aires. Produção minha. Modestamente.

Eu matei Saint-Exupéry


Depois de 64 anos, o ex piloto alemão Horst Rippert confessou que foi ele quem derrubou o avião do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, na Segunda Guerra Mundial.
Até hoje o corpo do autor do livro O Pequeno Príncipe não foi achado, mas um pescador achou em 98 uma pulseira com a inscrição "Saint-Ex Consuelo" gravada e o buscador de aviões perdidos Luc Vambrell descobriu em 2000 os restos do Lightning P-38 no fundo do mar. Foi em julho de 1944, duas semanas antes do desembarco aliado na Provence francesa.
Na época Rippert tinha 24 anos. Ele recebeu a ordem de ir atrás de um avião inimigo que estava voando a muita altura. O fogo da metralha partiu uma asa do avião do francês, que foi pro mar em queda vertical. Uns dias depois, Rippert soube que o avião derrubado era do Saint-Exupéry.
Depois de anos de pesquisas Vambrell recebeu a ligação de Rippert: "Pode deixar de procurar, eu derrubei Saint-Exupéry".
A história simboliza mais uma vez o paradoxo da guerra, onde pessoas matam pessoas que não conhecem, que as vezes são seus pares ou como no caso figuras admiradas.
"Durante a nossa juventude -disse Rippert- todos tinhamos lido e adorávamos seus livros. Ele sabia admirávelmente descrever o céu, os pensamentos e os sentimentos dos pilotos. A sua obra produz em muitos de nós a vocação de voar."
Rippert viveu esses anos todos com seu silêncio. "Esperei e ainda espero que não seja ele".

Foto de Antoine de Saint-Exupéry com sua mulher Consuelo

sábado, 15 de março de 2008

Oscar Alemán


"Nasci no Chaco, em Resistencia. Sou filho de uma índia e de Jorge Alemán, um homem que ganhava a vida do jeito que podia. (...) Era o ano de 1920. O fato só de comer custava muitíssimo, e olha que nós éramos quatro irmãos e todos contribuíamos. (...) Apesar do esforço nem sempre havia carne para botar no cozido, por isso a gente foi para o Brasil.
(...) Também no Brasil a vida era muito dura. Muitas vezes dormiamos numa praça e eu ganhava uns trocados abrindo portas de carros. Na época já gostava muito da música e especialmente do violão. Sempre que tivesse alguém tocando eu ficava por perto, olhava como botava os dedos, como mexia as mãos. Poderia dizer que aprendi a tocar olhando.
(...) Um dia recebemos a notícia da morte da minha mãe. Depois disso meu pai desabou e acabou suicidando."


Oscar Alemán foi o maior violonista não brasileiro de música brasileira. Com Gaston Bueno Lobo, que foi seu guia no instrumento e seu pai adotivo, formou Les Loups. Foi pra Europa e virou showman: dançava, cantava, tocava o pandeiro e fazia malabarismos com o violão e a guitarra. Na época começou a ser reconhecido como um grande guitarrista de jazz. Foi contratado por Josephine Baker e Duke Ellington quis leva-lo para os Estados Unidos.
Seu virtuosismo as vezes distraiu a atenção da sua obra maravilhosa no jazz, na música brasileira e no tango. Esquecido e revalorizado por fases na Argentina, foi um grande divulgador da música brasileira. Muitos por ele conheceram melodias inesquecíveis sem saber quem eram seus compositores, obras de Herivelto Martins, Hervé Cordovil e Caymmi, que Oscar gravou junto com as próprias.
"Grandes mestres me disseram que não conseguem explicar como alguém que não sabe música pode fazer harmonias do jeito que eu faço. Eu também não sei. Eu não sei nada, só sei que sai assim".

sexta-feira, 14 de março de 2008

Dylan e a tecnologia


A tecnologia serve para os outros músicos, os roqueiros contemporáneos. Para mim, é um obstáculo.
Bob Dylan, em entrevista à revista francesa Les Inrockuptibles.

Pois é, está aí o cartaz do primeiro concerto do Bob em Nova Iorque, em 1961. São muitos anos de estrada. O cara continua mostrando que pra ele só faz falta o violão, a gaita, essa voz que parece que sai do nariz e -claro- a palavra. O resto é enfeite.
Amanhã Bob volta a fazer show em Buenos Aires. Espero que ninguém se ofenda se ele não fazer gracinha pro público, porque ele não vai fazer. Se alguém se ofender é porque foi pro show errado.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Gertrude e a arte de escrever



Você vai conseguir escrever -me disse- se o faz sem pensar no resultado em termos de resultado, mas pensando na escrita em termos de descoberta, que é o mesmo que dizer que a criação deve produzir-se entre o lápis e o papel, nem antes, no pensamento, nem depois, ao lhe-dar uma forma nova.

Gertrude Stein, em entrevista a John Hyde Preston em 1935, para The Atlantic Monthly
Tradução para o português de Juan Trasmonte
Foto de 1934 de Carl Van Vechten

quarta-feira, 12 de março de 2008

Guilherme Godoy



Samba, melodia que me toca
me protege e acaricia
feito os braços de mulher
desde que a Ciata minha tia
deu início a fidalguia
o samba sabe o que quer
me desculpem tanta nostalgia
mas meu peito não vicia
com este samba que é tocado por aí
me martela o rádio o dia inteiro
só que o samba verdadeiro
foi aquele que aprendi
apreciador de jóia rara
Délcio e Dona Ivone Lara
embalando o sonho meu (eu embalei)
trago fino de Carlos Cachaça
Herivelto e aquela praça
que o Rio jamais esqueceu
tempos idos mas sempre lembrados
gênios homenageados
pelo povo, no fundo do coração
este é que é o bom samba, meu parceiro
velho e novo, brasileiro
que mantém a tradição
samba de Noel, Cartola e Noca
Silas, Geraldo Pereira
de Monarco e Ismael
Wilson, o que Batista e o que é Moreira
Paulinho e João Nogueira
o Martinho lá na aba do meu chapéu
quero ouvir no rádio da vizinha
Chico, Elton, Gonzaguinha
e o Nei Lopes recordando o Andaraí
Beth, Zeca, Roberto Ribeiro
Nelson Sargento guerreiro
e um samba tijucano do Aldir
um delírio meu no bar da esquina
Elizete e Clementina
Clara é a luz de Candeia
Dilermando e Ciro na caixinha
uísque, gelo e o poetinha
Tom Jobim com seu piano na velha Mangueira
vem mais gente que carrega a chama
Dorival, Zé Keti inflama
o peito que não se encerra
Ginga Guinga, Joyce, Clara e Ana
e a Rosa Passos baiana
no samba da minha terra.

O samba sabe o que quer, de Guilherme Godoy e Sérgio Botto


Conheci Guilherme em 1999 em Buenos Aires quando ele veio dar uma palestra sobre samba e fazer um show. Voltamos a nos-encontrar no ano seguinte quando eu já estava com um pá aqui e o outro no Rio.
Em 2001 falamos longamente no telefone, eu precisava voltar para Buenos Aires por questões do visto e essas papeladas interminaveis da estrangeria. Nesse momento ele me disse: "Vamos marcar um encontro em casa pra eu te apresentar um pessoal da área". Um pessoal da área significava do mundo do samba e do jornalismo, mundos que compartilhávamos na época, em diferentes paises.
Aquilo foi coisa de carioca mesmo, ele não fazia isso por querer me agradar nem por querer retribuir a pequena ajuda que eu tinha dado na divulgação do disco dele na Argentina. Foi uma ideia que surgiu da generosidade mesmo.
Um mês depois e depois dessa burocracia toda, voltei pro Rio. Tarde para o nosso encontro, cedo para ele ter partido.
Hoje pensava nos muitos compositores e poetas do samba e da música em geral que são pouco divulgados porque eles são uma das razões desse blog existir. Se alguém descobre aqui algum desses artistas por causa de um google da vida eu já estou satisfeito de dedicar esse tempo a este espaço.
E como a vida é muito louca mesmo, eu lembrei hoje do Guilherme. Fui procurar fotos e descobri que hoje é o dia do aniversário dele.
O único disco que reune as suas letras, também reune Paulão 7 Cordas, Rildo Hora, Nelson Sargento, Delcio Carvalho, Walter Alfaiate, Celia Vaz e Nadinho da Ilha.
No encarte do disco que ele me deu quando a gente se conheceu, Guilherme escreveu: "Juan, que o samba esteja com você". O samba está comigo, companheiro. Sempre.

terça-feira, 11 de março de 2008

Zitarrosa e o fim do amor


Para tanta soledad me sobra el tiempo,
dile a la vida que viva,
tu recuerdo no se muere ni yo siento
más que penas conocidas.
Para tanta soledad me sobra el tiempo,
dile a la vida que viva.

En mi alma muchas veces, un momento,
se abre una puerta dormida,
yo no sé si sacudida por el viento,
sé que se cierra enseguida.
Y en la senda donde vivo siempre encuentro
tus flores desvanecidas.

Cuando volvamos a vernos
no sangrarán tus heridas,
yo he pagado tu dolor con el infierno
tu amor con toda mi vida.
Para tanta soledad me sobra el tiempo
dile a la vida que viva.

No me traigas esas flores ni preguntes
si te arranqué de mi vida,
en la negra oscuridad donde te hundes
mi corazón te vigila.
No me traigas esas flores ni preguntes
si te arranqué de mi vida.

Tus amores, nuestro amor y el pensamiento,
son canciones enemigas;
yo sé bien cuáles son mis sentimientos
no quiero más despedidas.
Para tanta soledad me sobra el tiempo
y el tiempo sí que te olvida.

Cuando volvamos a vernos
no sangrarán tus heridas,
yo he pagado tu dolor con el infierno
tu amor con toda mi vida.
Para tanta soledad me sobra el tiempo
dile a la vida que viva.

Dile a la vida, de Alfredo Zitarrosa
Hoje é zamba com zê e em feminino, "uma zamba" maravilhosa do saudoso cantor e compositor uruguaio Alfredo Zitarrosa.
Diz a lenda que ele fez essa música para uma mulher que estava na antípoda do seu pensamento político, e que isso -comprometido como ele era com as suas convicções- acabou corroendo o amor. Esta versão parece ser confirmada pelos versos "teus amores, nosso amor e o pensamento são canções inimigas".
Poucas músicas são tão dilacerantes para descrever o fim do amor: "eu tenho pago a tua dor com o inferno, o teu amor com toda a minha vida"

segunda-feira, 10 de março de 2008

Trem do desejo


Nesse trem
vem ilusão
madeira coração
vem nesse trem
balança na canção
traço de prata
trecho de vida
plataforma fica
enquanto o trem vai
vai vai vem
nesse trem
abre-alas do mistério
touro na frente
farol atrás
sangue animal
é um vagão
uma batida
em quatro tempos
é o meu tambor
cavalaria cantaria
lança na mão
balança coração
vai lança sai
vai vai vem
na estrada de ferro
roda de trem
rola seu quem
vem vai além
origem do desejo
de onde tudo vem
Hispanya meet Gardel
Polonia Portugal
violão febre amarela
vem Neuma vó Maria
vem Noca da Portela
Jerusalém
Jerusalém de lá
de lágrima Israel
de vento de Retiro
de Plaza San Martín
casa das máquinas
carvão
locomotiva
locomoção
louca emoção.

Trem do desejo, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de John West do trem que vai do El Maitén para Esquel, no sul da Argentina