terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O mundo que foi (IV)


O Arpoador e no fundo o Morro Dois Irmãos, em 1952, na lente maravilhosa de José Medeiros.
Depois passou o tempo e todos aprendemos com Chico a respeitar o silêncio do Dois Irmãos, "assim como se a rocha dilatada fosse uma concentração de tempos". E essa foto mostra que é.

Referências à música Morro Dois Irmãos, de Chico Buarque
Foto de José Medeiros

Camunguelo


Na véspera do Natal foi embora Cláudio Lopes dos Santos, o Camunguelo, grande flautista, grande bamba.
Mas como diz o ditado, sambista não morre, só dá um breque.

Foto de Paulo Eduardo Neves

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Some girls








Quando a música disco era rainha da cena, os Rolling Stones lançaram Some Girls, uma das suas últimas obras primas. Com Miss you espalhada pelos rádios do planeta eles flirtaram com o ritmo que estava na onda, mas o disco inteiro tem uma solidez admirável, com Richards e Ronnie Wood duelando nas guitarras, Jagger cantando como sempre e Wyman e Watts com suas caras de nada, mas segurando toda a estrutura.
A música Some Girls foi taxada de misógina, o que no caso lógicamente não era uma opinião mas uma outra mostra daquele humor azedo que atravessa inteira a obra deles.
Porém, há uma história muito mais curiosa que envolve o design do disco. Criado pelo artista estadounidense Peter Corriston, adianta-se no tempo no conceito retrô, que reproduz velhos anúncios de sutiã e vários rostos em troquel, com perucas e detalhes coloridos. As caras dos próprios integrantes da banda misturam-se com ícones sexys de diferentes épocas como Lucille Ball, Raquel Welch, Marilyn e Farrah Fawcett, que na época era a bomba dos anjos de Charlie.
Mas a meninas -ou seus herdeiros- ficaram ofendidíssimas com essa imagem caricata delas e ressolveram abrir um processo. Resumo da ópera, a capa teve que ser mudada e a brincadeira ficou só com os rostos deles que já tinham zoado com a imagem deles mesmos muitas vezes, como mostra a foto de 66, da capa de Have you seen your mother baby, standing in the shadows, onde davam uma de drag-queens.
A obra de Peter Corriston entrou na galeria das maiores capas, assim como outras dele, por caso a de Physical Graffiti, dos Zeppelin, que merece uma postagem pra ela sozinha.

Some girls give me money
Some girls buy me clothes
Some girls give me jewelry
That I never thought I'd own

Some girls give me diamonds
Some girls, heart attacks
Some girls I give all my bread to
I don't ever want it back

Some girls give me jewelry
Others buy me clothes
Some girls give me children
I never asked them for

So give me all your money
Give me all your gold
I'll buy you a house back in Zuma beach
And give you half of what I own

Some girls take my money
Some girls take my clothes
Some girls get the shirt off my back
And leave me with a lethal dose

French girls they want Cartier
Italian girls want cars
American girls want everything in the world
You can possibly imagine

English girls they're so prissy
I can't stand them on the telephone
Sometimes I take the receiver off the hook
I don't want them to ever call at all

White girls they're pretty funny
Sometimes they drive me mad
Black girls just wanna get fucked all night
I just don't have that much jam

Chinese girls are so gentle
They're really such a tease
You never know quite what they're cookin'
Inside those silky sleeves

Give me all you money
Give me all your gold
I'll buy you a house back in Zuma beach
And give you half of what I own

Yeah baby why don't you please come home
Some girls they're so pure
Some girls so corrupt
Some girls give me children
I only made love to her once

Give me half your money
Give me half your car
Give me half of everything
I'll make you world's biggest star

So gimme all your money
Give me all your gold
Let's go back to Zuma beach
I'll give you half of everything I own



Some girls, de Mick Jagger e Keith Richards
Reproduções da arte do LP Some Girls, de Peter Corriston
As reproduções foram achadas no site Sleevage

domingo, 6 de janeiro de 2008

Confraternização de bambas


Tia Surica canta enquanto Negão da Abolição bate palmas. Foi na Confraternização do Ano Novo, no Cafofo, em primeiro de janeiro.
A foto é gentileza da querida Tia Bia Alves, eterna rainha do Bloco dos Suburbanistas

sábado, 5 de janeiro de 2008

O velho Chinaski


- Eu vou matar esse carro! -gritava ela- Eu mato!
Seus punhos batiam no capô, na porta, no parabrisa. Comecei a mexer o carro devagar para não feri-la. Meu Mercury Comet de 62 tinha ficado fora do combate e eu acabava de comprar um Volkswagen de 67. Estava reluzente e encerado. Inclusive tinha uma camurça especial no porta-luvas. Enquanto andava pra frente, Lydia continuava batendo o carro com os seus punhos. Quando passei por ela coloquei a segunda marcha. Olhei pelo retrovisor e vi ela, em pé, sozinha no luar, imóvil com sua camisola azul e sua calcinha. Me deu um nó no estômago. Me senti doente, inútil, triste. Estava apaixonado por ela.

Mulheres, (fragmento) de Charles Bukowski
Tradução para o português de Juan Trasmonte
Foto de Michael Monfort

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Pátria


Pátria potestade
grande úbere grande orbe
metrópole desvairada
desculpa foi pelo cano
cachorra de oito tetas
outro triz não tem engano
em noites de lua cheia
nem quando amanhece claro
assinante do Estadão
defensoria dos pobres
longa fila dos ausentes
filo-pátria dos sem filhos
sem mais mãe e sem sentido
pátria filtro filicida
fura pária inseticida
pátria fúria desigual
água cinza celestial.

Pátria, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Ana Carolina Fernandes

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Heitor dos Prazeres


Como se não bastasse com sua contribuição à música, Heitor dos Prazeres também fazia esses quadros maravilhosos.

Roda de samba, reprodução do óleo de Heitor dos Prazeres

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Songhai




Em 1988 os irmãos Carmona, do grupo espanhol Ketama conheceram em Londres o músico de Mali, Toumani Diabaté. Foi no apartamento da produtora Lucy Durán, que comemorava o aniversário dela.
Foi amor à primeira vista. Mal podiam falar entre eles, os flamencos do lendário clã dos Habichuela falavam espanhol e Toumani francês e inglês. Não foi empecilho. Poucos meses depois foi editado Songhai, um álbum imprescindível de encontro de culturas, mal chamado de "música do mundo", onde também participa o contra-baixista inglês Danny Thompson.
O trabalho de Ketama na divulgação internacional do flamenco foi fundamental. Eles foram muitos curiosos com outras expressões musicais, se bem no final ressolveram se abrir a um ámbito mais pop, o que não é um demérito mas uma escolha que, no caso, não produziu obras comparáveis aos primeiros discos.
Já Toumani leva seu sobrenome ligado a sua tradição de griot, que em Mali vai muito além do puramente artístico. Eles podem ser conselheiros matrimoniais e assessorar políticos. Então, Toumani é um dos maiores intérpretes do kora, aquele instrumento de cordas com uma grande barriga, e também um narrador de tradições da etnia dos mandinga do nordeste de Mali.