domingo, 8 de junho de 2008

Bethânia-me Omara-me


Ontem à noite Maria Bethânia e Omara Portuondo deram um único show em Buenos Aires como parte das apresentações ao vivo do disco que fizeram juntas, partindo do encontro humano que aconteceu num almoço no Copacabana Palace.
Pouco vi do show porque estava trabalhando, mas perto do final, bem do lado esquerdo do palco, cheguei a enxergar o olhar amoroso da cantora bahiana para a cantora cubana e, pouco depois, o jeito com que Omara entregou-se ao abraço de Bethânia.
Foi suficiente. Assisti muitos shows de Bethânia que sempre são encenados com rigor no detalhe, e com as músicas inseridas num conjunto, de maneira tal que não deve ser facil pra ela dividir o palco. Que nada, como afirmei outras vezes, a arte aconteceu no encontro. Faz todo o sentido a adaptação feita na letra do bolero Havana-me, de Paulo César Pinheiro e Joyce. A cantora brasileira acrescentou os versos "Bahiana-me", "Bethânia-me" e "Omara-me". E todos nos sentimos embalados, abraçados no abraço delas.

Foto de Nelson Perez

sábado, 7 de junho de 2008

Filho de uma mãe






O filme de 1997, Some mother's son (segundo as várias traduções ruins Mães em luta e Em nome do filho) reproduz a luta das mães irlandesas que começou em 1979, quando um grupo de jovens liderados por Bobby Sands -interpretado no filme por John Lynch- decidiram fazer greve de fome para serem considerados presos políticos enquanto o governo Thatcher recusava essa condição, que seria legitimar a condição política da luta pela independência da Irlanda da Inglaterra. O roteiro foi escrito a quatro mãos por Jim Sheridan e Terry George -na última foto-, que também dirigiu o fime. A dupla também assinou o mais conhecido In the name of the father, no caso dirigido por Sheridan.
Além das questões políticas -que estão plantadas e muito bem, longe da propaganda- a questão brilhante do filme é a colocação do olhar feminino de este e todos os conflictos, representado por Helen Mirren e Fionnula Flanagan que, aliás, dão uma aula de interpretação. Uma versão irlandesa das Madres de Plaza de Mayo.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Chéri Samba





Bouche dans la rue e Lutte pour rajeunir l'Afrique, de Chéri Samba


Grande artista nascido na República do Congo que começou fazendo quadrinhos na adolescência e ainda guarda traços do comic nos seus acrílicos. Hoje morando entre Kinshasa e Paris, seu trabalho mostra para o mundo o olhar africano, as vezes nos costumes e lendas, as vezes denunciando -inclusive com textos que fazem parte das obras- as mazelas e a exploração vinda do mundo chamado desenvolvido.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Maestro Armando Manzanero


Es que, amaneció muy fría y lluviosa la mañana
es que, anoche no hubo una estrella que brillara
es que, hoy me llegó la cuenta de la luz muy alta
es que, quise hablarte y no había línea en el teléfono
es que, muy temprano vino el tío de la renta
es que, mi automóvil no hubo forma de arrancarlo
es que, hace frío, mucho frío en esta casa
es que, lo que ocurra yo le encuentro siempre un
“es que...”

Es que todo, es que nada,
es que río, cuando lloro
y es que duermo cuando sueño
es bque muero cuando vivo
y es que me haces mucha falta,
igual que ayer.

Es que, de Armando Manzanero

Só os gênios conseguem fazer simples a complexíssima arte de compor cancões. O mexicano Armando Manzanero é um deles. Conhecido no Brasil pelas versões de Yo te recuerdo, gravada por Roberto Carlos, e Me vuelves loco, gravada por Elis, ele é um dos máximos referentes da canção romántica do século vinte. Aliás, ele sustentou as bandeiras do romantismo por décadas, inclusive quando aqueles que colocavam a palavra amor numa letra eram mal vistos.
Então fica aqui uma música do Master Class, sua última obra até hoje, no que já é uma série dedicada a grandes compositores tidos por bregas.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Roger Wolfe, capitão dos desencantados


Me asomo a la terraza.
Una mujer se arregla el pelo
delante de un espejo
en el edificio de enfrente
de mi casa.
Estaba leyendo
a Dostoyevski. Cierro el libro,
lo dejo encima de la mesa,
me siento y abro
otra cerveza. Qué aburrido,
Dostoyevski, la cerveza,
las mujeres, los libros,
los espejos. Qué aburrido
sentarse y esperar la muerte
mientras la gente fornica,
come, trabaja o se solaza
bajo el sol sucio de septiembre,
y uno sabe, positivamente,
que nada va a ocurrir.

Versão em português

Assomo no terraço.
Uma mulher ajeita seu cabelo
na frente do espelho
no prédio da frente
da minha casa.
Estava lendo
Dostoievski. Fecho o livro,
o deixo em cima da mesa,
sento e abro
outra cerveja. Que tédio
sentar e esperar a morte
enquanto as pessoas trepam,
comem, trabalham ou se divertem
debaixo do sol sujo de setembro,
e a gente sabe, positivamente,
que nada vai acontecer.

El extranjero, de Roger Wolfe
O estrangeiro, de Roger Wolfe, versão para o português de Juan Trasmonte
Foto de Roger Wolfe de Thomas Canet


Británico de Kent, criado na Espanha, Roger Wolfe é a maior expressão entre os escritores da geração de oitenta na Espanha, aqueles desencantados do pós-franquismo, no sentido de terem desencantado mesmo depois do deslumbramento inicial da liberdade.
Feito um Bukovski solto na península ibérica, a poesia de Wolfe -escrita originalmente em espanhol, a sua segunda língua- as vezes está mais perto do pensamento filosófico do que do texto poético convencional. Convicto de que a poesia consiste em enxergar naquilo que já foi muito enxergado, Wolfe pode ser, em poucas palavras, belo e dilacerante.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Nos breus


Pai nosso
que estás nos breus
esse deus
não ouve as risadas
nos recantos da escada
esse deus
a cada dia mais longe
que não para de me olhar
como as pessoas machucam
outras pessoas
já são duas três e quinze
cinco horas
a baba do diabo
abala

a esperança
nublada na bala.

Nos breus, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Balazs Borocz

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Abraço Tribalista


A cena linda -qual cena poderia ser melhor do que a de um abraço?- foi registrada na gravação do cd e do dvd Arnaldo Antunes Ao Vivo no Estúdio.
Na ocasião o compositor e poeta expõe seus rostos mais conhecidos da carreira musical. O lado Titãs, na versão de Não vou me adaptar, com Nando Reis, e Eu não sou da sua rua, com Branco Mello, que Arnaldo só gravou agora mas que compôs na década de oitenta. O lado solo, com muitas músicas do Qualquer e releituras -trata-se do Arnaldo, botem releitura nisso- de Socorro, Judiaria e O silêncio, entre outras. Aparece por aí o colega Edgard Scandurra para sintetizar essa fase do artista. E o final é Tribalista, com Carlinhos Brown e Marisa Monte -e Dadi que é o quarto Tribalista- entoando Um a um e Velha infância, e que deixa esse abraço da imagem pra perpetuidade.
Ainda tem as raridades da clásica marcha Bandeira branca misturada com O buraco do espelho e Qualquer coisa, que junto com Gente são as músicas mais antúnicas do Caetano.
O dvd é um must, realizado por Tadeu Jungle em rigoroso preto e branco, cheio de contrastes nas luzes e sombras, que tem tudo a ver com o conteúdo.

Foto de Fernando Laszlo

domingo, 1 de junho de 2008

Inspirações







As capas de Hot Space, do Queen; The Best of Blur e Pop, dos U2. Obra da inspiração, a homenagem, o acaso ou a malandragem?