terça-feira, 8 de abril de 2008

Beckett no Hotel Liberia


Desse modo apesar
pelo bom tempo e pelo mau
trancado na casa dele e na de outros
como se fosse ontem lembrarmos do mamute
o dinoterio os primeiros beijos
os períodos glaciares não trazem nada novo
o grande calor do ano treze da sua era
fumaça sobre Lisboa Kant friamente pendurado
sonhar em gerações de carvalhos e esquecer o pai
seus olhos se tinha bigode
se era bom de que morreu
não por isto nós-come sem menos apetite
o mau tempo e o pior
trancado na sua casa e na de outros

Espanhol

De ese modo a pesar
por el buen tiempo y por el malo
encerrado en su casa y en la de otros
como si fuera ayer acordarnos del mamut
el dinoterio los primeros besos
los períodos glaciares no traen nada nuevo
el gran calor del año trece de su era
humo sobre Lisboa Kant fríamente colgado
soñar en generaciones de robles y olvidar al padre
sus ojos si tenía bigote
si era bueno de qué murió
no por esto nos come sin menos apetito
el mal tiempo y el peor
encerrado en su casa y en la de otros

Escrito por Samuel Beckett no ano de 1937, no Hotel Liberia, em Paris
Foto de Henri Cartier-Bresson

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Vaia de bêbado não vale


Primeira edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu
o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
Criando a bossa nova em 58
O Brasil foi protagonista
De coisa que jamais aconteceu
Pra toda a humanidade
Seja na moderna história
Seja na história da antiguidade
Por isso, meu nego,
Vaia de bebo não vale
De bebo vaia não vale

Segunda edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu
o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
Quando aquele ano começou, nas
Águas de Março de 58,
O Brasil só exportava matéria-prima
Essa tisana
Isto é o mais baixo grau da
capacidade humana
E o mundo dizia:
Que povinho retardado
Que povo mais atrasado

Terceira edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova
pariu o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
A surpresa foi que no fim daquele
mesmo ano
Para toda a parte O Brasil d'O Pato
Com a bossa nova, exportava arte
O grau mais alto da capacidade
humana
E a Europa, assombrada
Que povinho audacioso
Que povo civilizado

Pato ziguepato ziguepato Pato
Pato ziguepato ziguepato Pato

Tratou com desacato o nosso amado Pato
Viva a vaia, seu Augusto
Viva a vaia, seu João
Viva a vaia, viva a vaia
Viva a vaia com Dios, amor
Porque me soy argentino
Gentino, gentino, gentino

Vaia de bêbado não vale, "música reportagem" de Tom Zé e Vicente Barreto

Em 1999, João Gilberto dividiu um show com Caetano Veloso pela primeira vez. Aconteceu em Buenos Aires. Na verdade, foram duas noites inesquecíveis que eu testemunhei e mestre João ficou encantado com o carinho do público.
Pouco tempo depois a dupla foi chamada para a noite inaugural do Credicard Hall, auto-denominada "a maior casa de shows da América Latina". Mas aquela noite ficou na história não pela espetacularidade da casa mas pelo incidente de João com o público.
A acústica do local estava ruim. Tinha um eco somado ao zumbido do ar condicionado que motivou a reclamação de um dos fundadores da bossa nova. Caetano tentou levar na esportiva, mas quando João voltou a reclamar ouviram-se as vozes de reprovação e as vaias dos convidados ricos e famosos. Caetano discursou pra platéia mas João arrasou com frases como: "Sou argentino desde pequenininho"; "tem que fazer direito, tem que fazer o Brasil" e depois de botar a língua pra fora disse "vaia de bêbado não vale".
E o Tom Zé, que estava no auditório, resolveu fazer essa música-manifesto de desagravo ao ídolo. Na letra ele cita o título do poema concreto de Augusto de Campos, "Viva vaia", e os próprios "Seu Augusto" e "Seu João", além de ressalvar a argentinidade do João, que estava maravilhado com o tratamento que tinha recebido em Buenos Aires, em contraponto com o episódio de São Paulo.
Mas além disso, a letra coloca a questão de que com a bossa nova, o Brasil começou a exportar arte, "o grau mais alto da capacidade humana". Além da anedota, acho que é um belo conceito para fazer uma homenagem aos cinqüentinha da bossa.

domingo, 6 de abril de 2008

Kipling e as entrevistas


- Bem o que é que o senhor quer? Porque o senhor invade a intimidade da minha casa? Por acaso não tenho dito que não quero ser entrevistado? -disse Kipling com voz rápida e tensa-
- Eu fiz o que o senhor me disse. Submeti à sua atenção e por escrito o motivo da minha visita. E desejo uma resposta.

E eu a tive.

- Porque eu me recuso a ser entrevistado? Porque é uma imoralidade! É um crime, na mesma medida que uma ofensa à minha pessoa, uma agressão, e merece igual castigo. É ruim e covarde. Nenhum homem respeitável pediria uma coisa dessa, e menos ainda a concederia.
- Bom, senhor Kipling, outros homens tão respeitáveis quanto o senhor, senão mais, posto que são auténticos cavaleiros, parecem não compartilhar seu ponto de vista. O senhor é a primeira pessoa que eu tenho ouvido manifestar semelhante opinião. Nunca antes na minha vida tinha escutado que uma entrevista seja imoral e criminosa.
- No caso, os homens dos que o senhor fala são uns imbecis. Eu que estou certo. O que tenho dito é a verdade e não penso dar nenhuma satisfação. O senhor e os seus colegas com a falta de discernimento e compreensão do que é o jornalismo que é caraterística dos americanos, seriam incapazes de entedé-la. Os ingleses detestamos as entrevistas e, em qualquer caso, o que têm de bom os repórteres? O que pretende o senhor conseguir? A imprensa norte americana é uma coisa suja e podre. Eu sei tudo sobre ela. Uma certa vez eu viajei com um gtupo de jornalistas de Filadelfia até uma pequena cidade onde tinha acontecido um crime. Eles fizeram daquilo um inferno. Me dê licença para eu lhe dizer uma coisa. Os senhores não procuram mais do que sensacionalismo. E isso é algo que jamais vão obter de mim.

Ao chegar nesse ponto percebi que ele estava fazendo isso, mas ele continuou falando.

- Nesse pais não há um só jornal respeitável. O New York Tribune é até tolerável, mas de vez em quando eles publicam auténticas barbaridades que os condenam igual ao resto. Suponho que o senhor vai querer redatar uma matéria sobre a minha pessoa para publicar em algum recôndito espaço do seu jornal, do qual nem sei o nome.
- Não senhor -interrompi-. O senhor é merecedor de uma cabeça de coluna, de uma capa junto à seção de livros. Esse tratado sobre a imprensa estadounidense é tão inovador que seria impossível rebaixá-lo a um lugar oculto. O senhor é um cidadão do mundo, senhor Kipling -continuei- . Lhe deve algo ao mundo, assim como o mundo lhe deve ao senhor.
- Sim, e essa pequena dívida terá que ser satisfeita pelo mundo. Lógicamente, eu não penso pagar a minha.

Esse é só um fragmento da imperdível tentativa de entrevista de um jornalista do The Sunday Herald com o escritor inglês Rudyard Kipling, em 1892.
O fato curioso é que o próprio Kipling trabalhou como jornalista em várias oportunidades, mas assim como de outras coisas ele não gostava, é evidente que Kipling detestava entrevistas com jornalistas dos Estados Unidos.

sábado, 5 de abril de 2008

Je vous appelle!



Duas vezes obra prima do diretor Abel Gance, primeiro em 1917, no cinema mudo, e depois em 1937, com um trabalho inesquecível do ator belga Victor Francen, J'Accuse -infelizmente- continua vigente na sua mensagem anti belicista.
Gance não foi a combater na Primeira Guerra Mundial porque tinha padecido tuberculose. Em troca fez esse filme maravilhoso onde un poeta chama um exército de mortos da guerra para despertar a consciência e evitar uma nova guerra.
O filme e seu asunto voltaram à tona vinte anos depois, com o perigo iminente da Segunda Guerra. E a fatalidade aconteceu. Ainda hoje é de arrepiar a cena em que o personagem de Francen (que nesse ano só fez cinco filmes!) chama aos mortos pra otorgar um sentido ao sacrifício. Je vous appelle! Je vous appelle! grita ele, e os mortos vivos que devem ter inspirado George Romero, emergem da terra.
Frequentador da vanguarda parisina do início do século vinte, Abel Gance ficou mais famoso pelo seu Napoleão. Ele foi um inovador na técnica do cinema, criando recursos que depois seriam revolucionários, como os antecedentes do cinemascope e do steady-cam

Cena do filme J'Accuse, de 1917 e foto do diretor Abel Gance

sexta-feira, 4 de abril de 2008

The Smiths e o desencanto


Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope, no harm
Just another false alarm

Last night I felt
Warm arms around me
No hope, no harm
Just another false alarm

So, tell me how long
Before the last one?
And tell me how long
Before the right one?

The story is old - I know
But it goes on
The story is old - I know
But it goes on


Que em português quer dizer mais ou menos isso

Ontem à noite eu sonhei
Que alguém me amava
Nenhuma esperança, nenhum dano
Apenas mais um alarme falso

Ontem à noite eu senti
Braços de verdade me envolvendo
Nenhuma esperança, nenhum dano
Apenas mais um alarme falso

Então me diga
Quanto tempo passou
Antes da última pessoa?
E me diga quanto tempo passou
Antes da pessoa certa?

A história é antiga - eu sei
Mas ela continua
A história é antiga - eu sei
Mas ela continua
Continua...

Last night I dreamt that somebody loved me, de Johnny Marr e Morrissey
Incluída no Strangeways, here we come, último disco de estúdio do The Smiths, essa música retrata com esmagadora beleza o desencanto. Acredito que The Smiths, mais do que The Cure ainda, foi a imagem viva da desesperança da juventude na Inglaterra socialmente desmembrada da Thatcher.
A longa introdução, o arranjo de cordas e a voz do Morrissey quase apagando no andamento da música, só fortalecem o dramatismo explícito da letra. Essa música também exibe o último grande encontro artístico de uma dupla (Marr-Morrissey) que estava despencando pelo lado mais fraco: o humano.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Vera ragazza


Bela ragazza
nossa raça
Barbarella
nossas velas
vela de velejar
vela de rezar
vela de velar
vela de revelar
roça a letra
sua unha
lettera rossa
Suassuna
minha ariana
touro peixe
que não libra
não equilibra
nem equidista
mas libera
vera ragazza.

Vera ragazza, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de Akif Hakan Celebi

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Ungaretti


Tutto ho perduto dell'infanzia
E non potrò mai più
Smemorarmi in un grido.

L'infanzia ho sotterrato
Nel fondo delle notti
E ora, spada invisibile,
Mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
Ed eccomi perduto
In infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
La vita non mi è più,
Arrestata in fondo alla gola,
Che una roccia di gridi.

Versão em português

Tudo perdi da infância
e já não posso mais
desmemoriar-me num grito.

A infância soterrei
no fundo das noites
e agora, espada invisível
me separa de tudo.

De mim recordo que exultava amando-te,
e eis-me perdido
no infinito das noites.

Um desespero que incessante aumenta
a vida não me é mais,
presa no fundo da garganta,
que uma rocha de gritos.

Tudo perdi, de Giuseppe Ungaretti, tradução de Jorge de Sena

Nasceu no Egito, estudou na França e só conheceu a Itália aos vinte e quatro anos. Atravessou a guerra e espantou as trevas do fascismo no Brasil, onde permaneceu seis anos. Ministrou aulas de literatura italiana na USP. Foi em versos módicos um dos maiores poetas italianos.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Presênça de Clara


Amanhã farão vinte e cinco anos que partiu Clara Nunes, mineira, filha de Ogum e Iansã. A primera mulher do Brasil que ultrapassou a marca dos cem mil discos vendidos, aquela que dizia: "Todo mundo tem uma missão, eu tenho a missão de cantar".