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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O samba de João Gilberto faz cinqüenta anos


Em 1989, em uma dessas raras entrevistas que João Gilberto concede, ele disse a um reporter do jornal francês Liberation que um dia ele chegou para Newton Mendonça e disse assim:
- Que negócio é esse de bossa nova? Eu faço samba.
Parece que o Newton pediu pro João não falar isso publicamente para não criar desavenças entre os membros do incipiente movimento.
O certo é que antes do famoso compacto com Chega de saudade e Bim-bom; antes da famosa saída da Columbia -onde tinha todo acertado pra lançar o disco até o executivo da gravadora chamado Corte Real sugerir trocar a palavra "baião" por "canção" no lado B; antes dele bater um dia na porta do apartamento do Menescal ("você tem um violão aí pra gente tocar alguma coisa?"); antes do jornalista do Ultima Hora, Moyses Fuks colocar um cartaz no Grupo Universitário Hebraico com a inscrição "Hoje Sylvinha Telles e um grupo bossa nova", usando o termo pela primeira vez... Antes disso tudo, com sua batida diferente, João Gilberto já fazia o samba dele.

Foto de Oldemar Victor, grande fotógrafo e professor baiano, que infelizmente morreu no mês passado e que fez essa imagem quando tinha só 14 anos

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Lembrar Newton Mendonça é justo e necessário



Briga nunca resolveu
Não adianta chorar
O nosso amor não morreu
Podes voltar, deves voltar
O meu amor foi sincero
Talvez sincero demais
Se eu fingisse ninguém saberia
O que a verdade me faz
E quando o dia amanhece
Fico a lastimar
Na noite em que não dormia
Passei a chorar, a chorar
Se é verdade que o amor ilumina
Nossas vidas sem luz sem calor
Eu repito baixinho, baixinho
Podes voltar, deves voltar.

Brigas (Deves voltar), de Newton Mendonça e Tom Jobim

"Era tudo misturado", respondia Tom Jobim quando teimavam em lhe-perguntar como funcionava a parceria entre ele e Newton Mendonça. Mas o Tom nunca deu maiores detalhes sobre o assunto.
O seu biografo Marcelo Câmara, descreve Newton como um garoto quase autodidata que aprendeu as primeiras lições de violino e piano com a mãe. Sozinho, ele sentou ao piano por mais de oito anos. Oduvaldo Lacerda dizia uma frase bela: "arrancava a música dele".
Só João Gilberto e Baden parece que conseguiam decifrar qual parte era "jobiniana" e qual "mendonçana" nas maravilhosas Meditação, Desafinado e Samba de uma nota só, por citar as mais populares do encontro artístico deles. Deixo aqui a letra de uma das esquecidas, a belíssima Brigas (Deves voltar).
No ano em que a velha nova bossa nova faz cinqüentinha, é justo e necessário lembrar Newton Mendonça que nem sequer, chegou a viver a consagração da batida diferente.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Vaia de bêbado não vale


Primeira edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu
o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
Criando a bossa nova em 58
O Brasil foi protagonista
De coisa que jamais aconteceu
Pra toda a humanidade
Seja na moderna história
Seja na história da antiguidade
Por isso, meu nego,
Vaia de bebo não vale
De bebo vaia não vale

Segunda edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova pariu
o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
Quando aquele ano começou, nas
Águas de Março de 58,
O Brasil só exportava matéria-prima
Essa tisana
Isto é o mais baixo grau da
capacidade humana
E o mundo dizia:
Que povinho retardado
Que povo mais atrasado

Terceira edição

No dia em que a bossa nova
inventou o Brasil
No dia em que a bossa nova
pariu o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil
A surpresa foi que no fim daquele
mesmo ano
Para toda a parte O Brasil d'O Pato
Com a bossa nova, exportava arte
O grau mais alto da capacidade
humana
E a Europa, assombrada
Que povinho audacioso
Que povo civilizado

Pato ziguepato ziguepato Pato
Pato ziguepato ziguepato Pato

Tratou com desacato o nosso amado Pato
Viva a vaia, seu Augusto
Viva a vaia, seu João
Viva a vaia, viva a vaia
Viva a vaia com Dios, amor
Porque me soy argentino
Gentino, gentino, gentino

Vaia de bêbado não vale, "música reportagem" de Tom Zé e Vicente Barreto

Em 1999, João Gilberto dividiu um show com Caetano Veloso pela primeira vez. Aconteceu em Buenos Aires. Na verdade, foram duas noites inesquecíveis que eu testemunhei e mestre João ficou encantado com o carinho do público.
Pouco tempo depois a dupla foi chamada para a noite inaugural do Credicard Hall, auto-denominada "a maior casa de shows da América Latina". Mas aquela noite ficou na história não pela espetacularidade da casa mas pelo incidente de João com o público.
A acústica do local estava ruim. Tinha um eco somado ao zumbido do ar condicionado que motivou a reclamação de um dos fundadores da bossa nova. Caetano tentou levar na esportiva, mas quando João voltou a reclamar ouviram-se as vozes de reprovação e as vaias dos convidados ricos e famosos. Caetano discursou pra platéia mas João arrasou com frases como: "Sou argentino desde pequenininho"; "tem que fazer direito, tem que fazer o Brasil" e depois de botar a língua pra fora disse "vaia de bêbado não vale".
E o Tom Zé, que estava no auditório, resolveu fazer essa música-manifesto de desagravo ao ídolo. Na letra ele cita o título do poema concreto de Augusto de Campos, "Viva vaia", e os próprios "Seu Augusto" e "Seu João", além de ressalvar a argentinidade do João, que estava maravilhado com o tratamento que tinha recebido em Buenos Aires, em contraponto com o episódio de São Paulo.
Mas além disso, a letra coloca a questão de que com a bossa nova, o Brasil começou a exportar arte, "o grau mais alto da capacidade humana". Além da anedota, acho que é um belo conceito para fazer uma homenagem aos cinqüentinha da bossa.