terça-feira, 3 de março de 2009

Espanhóis são os outros



Segundo um estudo publicado hoje na Espanha, a maioria dos adolescentes da chamada Segunda Geração (filhos de imigrantes nascidos na Espanha ou morando lá desde pequenos) não querem ficar naquele país. Para o trabalho, que foi realizado pela Universidad Pontificia de Comillas, junto com a Universidade de Princeton e a Universidade de Clemson, foram consultados 3.375 estudantes do ensino público e particular.
O relatório diz ainda que nas escolas são freqüentes as brigas entre jovens de diferentes nacionalidades e que 53% dos entrevistados manifestaram a intenção de assistir à universidade, mas menos da metade desses acredita que vai conseguir.

Uma boa parte deles -mesmo nascidos no território europeu- não se consideram espanhóis. 60 nacionalidades foram representadas na mostra. Os países de origem predominante são Equador, Colômbia, Romênia e Marrocos.
Ao mesmo tempo, hoje o governo espanhol anunciou um programa de retorno para mais de cem mil imigrantes, dos chamados sem papéis.

Foto, Reunión, de Risabhadeva Maldonado, ganhadora do concurso Infancia Inmigrante: La Generación del Futuro

segunda-feira, 2 de março de 2009

Autorretrato e photoshop








O velho assunto: a questão não são as armas mas quem as usa. A artista argentina Flavia Da Rin, achou no photoshop uma ferramenta de expressão fantástica, literalmente.
Mediante esse programa, partindo da manipulação da fotografia digital, ela cria obras de arte que já ganharam exibições pelo mundo fora.
Filha da cultura audiovisual, que tem a auto-referência como signo, Flavia é protagonista de todas as suas obras.
Embora a multiplicidade de informações -outro traço posmoderno- esteja presente nas suas peças, desde as citações religiosas até o animé e as paisagens bucólicas; a surpresa, a perplexidade e a ausência são os estigmas mais evidentes no trabalho dessa notável artista.



Todas as obras reproducidas de Flavia Da Rin

domingo, 1 de março de 2009

Esta crise não é aquela



Para fechar essa trilogia sobre a crise e para os que adoram predições apocalípticas: ainda estamos longe de 1929. Vejam.
Depois do famoso Black thursday, quando Wall Street despencou, em dois meses fecharam 23.000 empresas. Entre 1929 e 1932 foram à falência 5.096 bancos. O signo também foi a especulação. Aquela vez, com ações que viraram papeis sem valor. Foi a primeira grande rasgadura do capitalismo.
Os fotógrafos-repórteres da época registraram as conseqüências do Crack.



Foto de comedor popular na Inglaterra em 1930, da Agência Bettmann/Corbis
Foto de Wall Street na quinta-feira 24 de outubro de 1929, da Agência Bettmann/Corbis

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dekasseguis



Os sonhos são o direito humano fundamental, maior que a própria liberdade. As loterias dos especuladores atingem os sonhos individuais e coletivos. E nesses tempos, os migrantes econômicos são os primeiros danificados.
Ninguém pode ser julgado por escolher outra terra para materializar seus sonhos. Porque por tras desse desejo de prosperidade, há sonhos.
No Japão existe uma comunidade de 322.000 brasileiros, os chamados dekasseguis (trabalhadores temporários). Apesar de serem pessoas maiormente qualificadas, a impossibilidade de validar os títulos e a pouca fluência na língua empurra os dekasseguis a fazerem trabalhos duros, geralmente em fábricas de componentes eletrônicos e montadoras de autopeças. E com a tal crise, eles são os primeiros demitidos, os excluídos.
Os que voltam para o Brasil, carregam as conseqüências emocionais de não ter escolhido voltar. Os que ficam, agüentam, do jeito que podem. As vezes sem trabalho e moradia viram fantasmas na rua.
A crise é isso. A destruição por uns poucos dos sonhos de muitos.

Foto de Ricardo Yamamoto , um fotógrafo dekassegui

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O velho Marx tinha razão



"Quanto menos você comer, beber, comprar livros, ir ao teatro, aos bailes ou ao bar e quanto menos você pensar, amar, teorizar, cantar, pintar, praticar a esgrima, etc; mais você poderá economizar e maior será o teu tesouro, que nem cupim, nem a ferrugem poderão estragar: o teu capital".

Karl Marx

Os Estados Unidos passaram a controlar o Citigroup. Mais uma medida do resgate que o Estado faz do sistema bancário privado.
Nas minhas épocas de militáncia quem falava em nacionalizar a banca era aquele barba marxista vermelho que andava com O Capital enfiado no suvaco.
Hoje, o próprio Alan Greenspan (ou "o camarada Greenspan" como sacaneia Paul Krugman) defende a intervenção do Estado no sistema bancário.

É impressão minha? Eu não vejo perplexidade ao meu redor.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Pattie Boyd, musa de Harrison e Clapton





Primeiro é preciso colocar a moldura: meados da década de sessenta em Londres, o tal do Swinging London, o amor livre, o rock. Então, vamos lá.
George Harrison era ninguém menos que um dos Beatles quando conheceu Pattie Boyd, a modelo que foi fazer uma pontinha na cena do trem do filme Os reis do iê iê iê (A Hard Day’s Night). George tinha 22 anos e Pattie, 21.
Quase na brincadeira George perguntou:

- Você quer casar comigo?

Eles se apaixonaram e pediram licença a Brian Epstein para casar mesmo, o que aconteceu em 1966, pois já tinham juntado os trapinhos.
Em 1969, no meio de uma conversa cotidiana, George disse a Pattie que tinha composto uma canção pra ela. Na verdade, ele tomou emprestados os primeiros versos de uma música do então ignoto James Taylor. Os versos diziam assim:

Something in the way she moves...

E George acrescentou:

Attracts me like no other lover...

Assim nasceu Something, a primeira música que teve Pattie como musa inspiradora.
Na época, Eric Clapton já era um dos guitarristas mais respeitados do rock, protagonista de bandas essenciais como The Yarbirds, Cream e Blind Faith. No subúrbio de Londres era comum achar o grafite: Clapton é Deus.
Em Harrison e Clapton se juntaram várias afinidades: os dois eram tímidos, introvertidos, e amavam guitarras. Quando Eric presenteou George com uma Gibson Les Paul Gold Top ficaram amigos e depois Harrison convidou Slowhand para gravar o solo de While my Guitar Gentle Weeps.
Na casa de George ou onde pintar compartilhavam longas festas ao estilo da época, cheias de excessos. Eric primeiro começou a namorar Paula, uma das irmãs de Pattie, até que se reconheceu completamente apaixonado por Pattie.
Ele bem poderia ter cantado “estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu”, mas aconteceu que Clapton não conhecia Roberto Carlos e que Pattie não era apenas “a namoradinha” de um dos seus melhores amigos, mas a esposa dele.

Outra prática comum na época, na procura de novos caminhos, era o orientalismo. Em 1968, John Lennon, Yoko Ono e George se aproximaram ao Hare Krishna e conheceram o guru Maharishi na famosa viagem à India.
Na volta, George ficou mais voltado para si mesmo, passava as horas meditando ou então trancado no estúdio. E Clapton dava a Pattie toda a atenção que em casa não tinha. Escrevia para ela longas cartas de amor. Foi nesse tempo que lhe-dedicou Layla, baseada numa história persa de um homem apaixonado por uma mulher casada.
Mas essa paixão que podia brotar na arte, também desbotava num sofrimento horroroso para Clapton. Um dia ele deu uma de psicopata e apareceu na casa de Pattie com um saco de heroína:

- Se você não ficar comigo, eu vou usar isso.

E ele cumpriu com a sua palavra. No entanto, apesar de ver como seu casamento afundava, Pattie sustentou o lar.
Enquanto isso, Eric sumiu e atravessou uma das suas piores fases. Anos depois ele contou em entrevista:

- Eu botava pontas de cigarros na pele, para esquecer da dor da alma.

E nesse turbilhão, George não se privava de outras aventuras. Nessas, foi pra Espanha com Krissie, a mulher do Ronnie Wood, que também eram amigos do casal. Mas a gota d’água foi a descoberta de um caso que George teve com Maureen, a mulher de Ringo Starr.
Depois disso, Pattie fez as malas e foi embora. Quem passou a sofrer foi George. Contam que um dos motivos que levou o casal ao declínio foi o fato de não conseguirem ter um filho, impossibilidade assumida públicamente por George, mas que de fato era um problema dela, o que no contexto da época também era pesado.
E no meio todas as lendas.
Existiu sim a confissão de Eric pro George:

- Eu tenho que te contar, amigo. Estou apaixonado por sua esposa.

Mas não é verdade que eles, bébados, se disputassem Pattie num duelo de guitarras, como ela mesma acha lembrar e assim o escreveu no seu livro Wonderful Tonight: George Harrison, Eric Clapton and Me. Isso foi desmentido pelo próprio Eric, que também assinou a história da sua vida: Clapton, The Autobiography.
Clapton casou com Pattie em 1979, dois anos depois de escrever Wonderful Tonight, a música que completa a trilogia de canções dedicadas a ela. Em 1988 se divorciaram.
George casou em 1978 com Olivia Arias e tiveram o desejado filho, Dhani.
Talvez seja Pattie Boyd quem melhor possa definir essa história e encerrar esta crônica:

- O que havia sentido por George foi um grande e profundo amor. Com Eric tinhamos uma paixão poderosa e intoxicante. Com Eric éramos companheiros, mas com George, éramos almas gêmeas.

Foto de George Harrison e Pattie Boyd de Getty Images
Foto de Eric Clapton e Pattie Boyd de AP

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Buenos Aires carnaval



Houve uma vez um carnaval. Eu quase nem lembro, mas lembro. Eu tive que representar uma vez na televisão -teria lá uns seis anos- um componente de uma murga (a tradução mais parecida, vulgar e rápida seria a de um bloco). Os integrantes das murgas iam fantasiados e repetiam uma música parente da marchinha e sempre satírica, com descrição de alguma situação da política ou apelo erótico, apelo alias que hoje seria de uma inocência supina.
Na Avenida de Mayo, uma das principais do centro da cidade (sim, como se fosse a Rio Branco de outrora) passava o corso. E uma multidão assistia ao vivo. Mas sobre isso não guardo nenhuma lembrança, apenas umas poucas imagens em sépia, sem conexão, como um filme inconcluso.
Também eram muito populares os bailes de carnaval que se faziam nos clubes. Desses eu lembro especialmente os cartazes de rua coloridos e a quantidade de artistas concentrados numa noite só. E só. Magina se eu tinha idade de pensar em assistir a um baile.
A prova de que houve uma vez um carnaval é o tango Por cuatro días locos:

Por cuatro días locos
que vamos a vivir
por cuatro días locos
te tenés que divertir

Tango que ficou famoso na voz de Alberto Castillo, um ginecologista que virou cantor do povo no final da década de quarenta e na seguinte. Castillo não tinha aquela voz, mas resalvava o caráter dançante do tango. Os mauricinhos da época, que bailavam o boogie-boogie, detestavam Castillo, que estava claramente identificado com o bairro e ia pro centro pra cantar “Así se baila el tango!” na cara dos moços distinguidos. Dizem que muitas vezes, esses bailes acabavam em brigas monumentais.
Mas o fato é que a tradição do carnaval foi se perdendo. E em 1976, os militares deram o golpe de Estado e o golpe de graça à folia. Com esse senso ridículo da disciplina que eles têm, derrubaram do calendário os feriados de carnaval. O povo precisava mais era de trabalhar. E os murguistas, como tantos, passaram à clandestinidade.
Sempre digo que o melhor que fizeram os militares -e o pior para todos nós- foi a destrução dos laços de solidariedade. E o carnaval perdido em Buenos Aires é outra prova disso. Porque o carnaval por definição nasceu como uma reação à ordem estabelecida e é uma celebração em que o sujeito se iguala ao outro.
Lá se foi como se foram outras festas populares.
Minha relação com carnaval, ou então, aquelas breves lembranças da infância, foram reparadas na medida em que cresceu minha história no Brasil.
É muito estranho agora passar o carnaval em Buenos Aires como este ano aconteceu, mesmo que dessa vez tinha sido uma escolha minha tirar férias em janeiro. Não tem jeito, agora nem a Globo tem aqui para acompanhar o desfile. Ou eu boto um sambão e fico abrindo os braços numa imaginária Marquês de Sapucaí no meio da sala, ou eu “disfarço e choro”, ou faço parte desse ambiente em que nada para.
Nesse vai-e-vem, escrevi umas linhas na segunda-feira. Ficam aqui na quarta, enquanto andamos sobre as cinzas.

Do silêncio aos barulhos ordinários
a cidade amanhece sem lixeiros
mas é greve é cansaço é sindicato
a cidade amanhece
e nem sombra de feriado
rola a escada rolante do metrô
e não há fantasia que atrapalhe
a engrenagem do rolo cotidiano
vejo o bloco dos normais todo apressado
e não há samba-enredo nessa loja
nem ressaca nem te roubei um beijo
Buenos Aires é um eterno zero a zero
e eu a andar de novo estrangeiro
não preciso ligar pra seu ninguém
e lá em casa não preciso apanhar gelo
o meu velho chapéu azul e branco
anoitece atrás da porta pendurado.



Buenos Aires carnaval, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto de pessoas se preparando para o carnaval em Buenos Aires em 1930, do arquivo do jornal La Nación
Foto do Corso da Avenida de Mayo em 1969, do arquivo do jornal Clarín

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Debaixo do meu cêrebro



Debaixo do meu cêrebro está
a Biblioteca Nacional
a Rio Branco com seu cheiro de óleo queimado
e seus recantos de esplendor
de antiga capital
berlindas e guirlandas
e azuis de lampadinhas
para a Portela passar.
Debaixo do meu cêrebro está
o armazém do esquecimento
não quero sal na manteiga
e pode dispensar o limão
no meu sanduíche de carne assada
o verbo não está à venda
o amor tem ponto final.
Debaixo de meu cêrebro os caídos
os sonhos que não voltam mais
os presos na garganta do diabo
e goteiras químicas no sertão do cansaço
ruelas ribanceiras de sangue no mormaço
e códigos de acesso denegados.
Debaixo do meu cêrebro a língua
onde o mundo finda e o mundo começa.

Debaixo do meu cêrebro, de Juan Trasmonte (Creative Commons)
Foto "Step by Step", de
Andreea Chiru